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As ruas brasileiras são marcadas por uma radical expressão dos desejos de uma colônia, portanto os ritmos, corpos, danças e cenários moralmente aceitos são ancorados em um projeto de nação que cria dispositivos territoriais para negar a presença de corpos racializados. Esses dispositivos se ancoram em uma política de branqueamento que não só incentivou a imigração de corpos e padronizou uma cultura branca, como também demonizou culturas africanas e indígenas, viabilizando o apagamento de toda contribuição não branca para a cultura do país onde o racismo é mascarado pela falsa abolição. Dessa forma, a arte chega como uma maneira de ocupar a rua com diferentes sons, festas, ritmos e corpos, podendo ocupar o avesso do mesmo lugar e contar a história que insistem em não nos contar. A musicalidade encarnada na origem do povo preto é gingada pelo tamborim, surdo e chocalho. Tal povo tem o sangue de Angola correndo na veia e nesse ritmo canta pra não esquecer da saga dos seus ancestrais até hoje perpetuada na luta pela libertação. De acordo com Luiz Antônio Simas, o samba, como um dispositivo cultural, é a trilha sonora que embala a resistência e a “arte popular no nosso chão”. Através de enredos onde a manutenção, construção e invenção de uma identidade comunitária são pautados, os Grêmios Recreativos Escolas de Samba são instituições associativas que, pelo trabalho de inúmeras mãos, compõem desfiles de carnavais cada vez mais políticos. Pensar como o samba, enquanto manifestação cultural, afetou e ainda afeta vivências negras que tiveram no jongo e nos barracões a sua escola e formação é pensar para além dos desfiles vaidosos e com cunho comercial, e ainda entender que a rua é do povo por direito e que vadiar por opção é um resgate do respeito que por tantas vezes lhe é negado.
Ao nos perguntarmos sobre a rua e convidar a comunidade alcançada por nós sobre como seria se ela fosse nossa, queremos mais do que evocar imaginações e suposições que vão além do limite da dura realidade na qual estamos submersos. Queremos convidar todes a pensar a rua como o ponto de encontro para as travessias e peregrinações que ainda temos que enfrentar. O convite para a rua é um convite de organização de nossas lutas, é uma tímida, mas importante faísca para organizar essa revolta que há muito temos guardado dentro de nós. Dessa forma, enquanto estudantes enxergamos este momento e espaço que foi construído através de muita luta como uma resposta ética e política da nossa geração para o presente momento. Por isso, para o 2º Encontro Online de Saúde, Educação e Direitos Humanos, construímos eixos direcionadores para tentar pensar em conjunto: "E se essa rua fosse nossa?”.