PERCEPÇÕES DOS TRABALHADORES DE SAÚDE ACERCA DO RACISMO: UMA EXPERIÊNCIA NO MUNICÍPIO DE LAGOA GRANDE/PE

Publicado em 13/07/2025 - ISBN: 978-65-272-1588-2

Título do Trabalho
PERCEPÇÕES DOS TRABALHADORES DE SAÚDE ACERCA DO RACISMO: UMA EXPERIÊNCIA NO MUNICÍPIO DE LAGOA GRANDE/PE
Autores
  • FERNANDA EMANUELA GOMES GONÇALVES
  • FRANCKLIN CLAUDIO RIBEIRO DA SILVA
  • Gessyca Cynara Lima Clementino
  • SILVIA RAQUEL SANTOS DE MORAIS
  • Karina Shayene Duarte de Moraes
  • Shákia Thâmara Guedes da Rocha Santos
Modalidade
Resumo Expandido para Publicação em Anais
Área temática
GT 06 - Relações Raciais, Gênero e Educação na Sociedade Brasileira
Data de Publicação
13/07/2025
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
Português
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/sinjuve-semanaciso-univasf-554279/1181092-percepcoes-dos-trabalhadores-de-saude-acerca-do-racismo--uma-experiencia-no-municipio-de-lagoa-grandepe
ISBN
978-65-272-1588-2
Palavras-Chave
Racismo estrutural; Saúde pública; Desigualdade social; Trabalhadores da Saúde.
Resumo
O racismo antinegro é um dispositivo que deslegitima a existência do negro enquanto produtor e agente de conhecimento. No contexto brasileiro, o projeto político de construção da identidade nacional promoveu apagamento da categoria raça, diluindo-a no “ser brasileiro”. O que concebeu um ideal de democracia racial que se apresenta contraproducente aos movimentos étnicos (Gonzalez, 2009). Dessa forma, considera-se o conceito de interseccionalidade ferramenta analítica para explicar e compreender a complexidade das relações humanas, partindo das categorias de raça, classe e gênero, atuantes como dispositivos inter-relacionados que moldam-se concomitantemente (Collins; Bilge, 2020). Tratando-se do domínio estrutural de poder, sobretudo em um sistema capitalista, que organiza as instituições sociais basilares segundo as intersecções de classes, observa-se como marcadores sociais influenciarão o modo como diferentes grupos terão acesso às estruturas fundamentais, como saúde. Análogo, ao domínio interpessoal de poder na visão das autoras. Nesse sentido, homogeneizar um “ser brasileiro” ignora marcadores sociais da desigualdade, uma vez que em 2022, no Brasil, cerca de 46.009 pessoas foram assassinadas, sendo cerca de 76,5% das vítimas pretas ou pardas e destes, 12% eram mulheres. (Atlas da Violência, 2024). Logo, ser negro é ser violentado constante, contínua e cruelmente, por uma dupla injúria: encarnar o corpo e os ideais de Ego do sujeito branco, e recusar, negar e anular a presença do corpo negro (Souza, 1990). Desse modo, raça refere-se a um grupo social com traços distintos do padrão colonial branco, por isso, considerado inferior. Ainda, o racismo porta a tendência higienista, considerando que as características intelectuais e morais de um dado grupo, são consequências diretas de características físicas, biológicas ou genéticas. Portanto, este trabalho se justifica por debater o racismo como fenômeno social amplo, sistemático, que estrutura todas as esferas da sociabilidade e se apresenta nos âmbitos macro e microssocial. Além disso, abordar tais discussões em municípios como Lagoa Grande/PE, é fundamental para construção e ampliação de um letramento racial que se mostre eficaz enquanto dispositivo antirracista. Corroborando, assim, a teoria de Lélia Gonzalez (2009), em que nosso empenho se dá no sentido de refletir sobre a situação do seu seguimento negro, na sociedade brasileira, para que essa possa voltar-se sobre si e reconhecer nas suas contradições internas as profundas desigualdades raciais que a caracterizam. O Programa de Educação pelo Trabalho em Saúde (PET-Saúde), em parceria com a Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), foi implementado no município de Lagoa Grande - PE, com o objetivo de expandir os cuidados em saúde mental direcionados aos trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse contexto, o Grupo de Trabalho 03 (GT-03), composto por docentes e discentes dos cursos de Ciências Sociais, Enfermagem, Medicina e Psicologia, juntamente com dois preceptores do município, foi designado para promover ações sistemáticas voltadas à promoção de discussões sobre a prática de cada sujeito e seus atravessamentos anteriores, considerando historicidade e temporalidade. Ao realizar um mapeamento temático das discussões mais latentes no município, emergiu a importância de promover um espaço para refletir sobre o racismo. Assim, em março de 2025, foi realizado um encontro que visava aprofundar teoricamente a percepção sobre o racismo, compreendendo como o sujeito está intrinsecamente relacionado ao comportamento racista, criticamente envolvido em uma postura profissional que influencia o processo de atendimento dos usuários. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira é composta por 55,5% de pessoas negras, distribuída entre 45,3% de pessoas pardas e 10,2% de pessoas pretas. Essa configuração se alinha com os dados apresentados pelo IBGE em 2020, que ilustram que mulheres, especialmente as pardas e pretas, são as que mais utilizam o Serviço de Atenção Básica à Saúde do SUS. Nessa configuração, o racismo institucional se manifesta de forma encarnada, na medida em que os profissionais tratam de modo iníquo os pacientes pardos e pretos. Sob a temática de “Racismo e Acesso à Saúde”, foi realizada uma oficina que suscita indagações sobre as compreensões individuais sobre o significado de racismo estrutural e institucional, a percepção sobre a interferência do racismo no acesso ao SUS, as especificidades da população negra no sistema e, por fim, os impactos da invisibilização das questões de saúde da população negra para os pacientes e profissionais do SUS. Diante destas indagações, o público presente apontou que a população negra é tratada de modo diferenciado, o que influencia na continuidade do tratamento. Ou seja, ao se perceberem enquanto sujeitos negativados no espaço, muitos podem optar por não retornar ao serviço. Além disso, foi identificada a crença de que mulheres pretas suportam mais a dor, o que caracteriza um processo de desumanização do sujeito, remetendo à análise promovida por Neuza Santos Souza (1990), sobre o corpo negro como alvo de violência simbólica e concreta. Os profissionais relataram, ainda, que quando pessoas negras são tratadas de modo equânime, gera espanto e receio, devido à exacerbação de experiências anteriores marcadas por tratamentos inferiorizados. Essas percepções demonstram que o racismo institucional permeia e sustenta o modo de acesso da população negra aos serviços de saúde, incluindo a autopercepção dos usuários como sujeitos dignos de cuidado, o que acentua a necessidade de investir em formação contínua de profissionais, promovendo o letramento racial. Assim, a experiência da oficina formativa com trabalhadores de saúde em Lagoa Grande/PE permitiu revelar suas percepções acerca do racismo e sua interferência no acesso à saúde pela população negra. Evidenciou-se que o racismo estrutural e institucional se manifesta em práticas de tratamento diferenciado e crenças desumanizadoras, como a suposta maior tolerância à dor em mulheres negras, impactando negativamente a continuidade do cuidado e a autopercepção dos usuários como sujeitos de direito. Recomenda-se, portanto, a implementação de processos formativos contínuos e de letramento racial para os profissionais de saúde, como estratégia crucial para o enfrentamento da desvalorização dos saberes e vivências da população negra e o fortalecimento de práticas antirracistas. Sugere-se, para trabalhos futuros, a investigação do impacto a longo prazo dessas ações formativas na transformação das práticas e na promoção de serviços de saúde efetivamente mais justos em territórios historicamente silenciados.
Título do Evento
II SIMPÓSIO INTERNACIONAL JUVENTUDES E EDUCAÇÃO - SINJUVE & XI SEMANA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - UNIVASF
Cidade do Evento
Juazeiro
Título dos Anais do Evento
Dossiê Conjunto de Produções Acadêmicas da 2ª Edição do Simpósio Internacional sobre Juventudes e Educação e 11ª Edição da sSemana de Ciências Sociais/UNIVASF
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

GONÇALVES, FERNANDA EMANUELA GOMES et al.. PERCEPÇÕES DOS TRABALHADORES DE SAÚDE ACERCA DO RACISMO: UMA EXPERIÊNCIA NO MUNICÍPIO DE LAGOA GRANDE/PE.. In: Dossiê Conjunto de Produções Acadêmicas da 2ª Edição do Simpósio Internacional sobre Juventudes e Educação e 11ª Edição da sSemana de Ciências Sociais/UNIVASF. Anais...Juazeiro(BA) Complexo Multieventos/UNIVASF, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/sinjuve-semanaciso-univasf-554279/1181092-PERCEPCOES-DOS-TRABALHADORES-DE-SAUDE-ACERCA-DO-RACISMO--UMA-EXPERIENCIA-NO-MUNICIPIO-DE-LAGOA-GRANDEPE. Acesso em: 30/08/2025

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