“A DENTES DE CACHORRO”: VIOLÊNCIA COLONIAL E CONTROLE TERRITORIAL SOBRE MULHERES INDÍGEMAS NO SEMIÁRIDO BRASILEIRO

Publicado em 13/07/2025 - ISBN: 978-65-272-1588-2

Título do Trabalho
“A DENTES DE CACHORRO”: VIOLÊNCIA COLONIAL E CONTROLE TERRITORIAL SOBRE MULHERES INDÍGEMAS NO SEMIÁRIDO BRASILEIRO
Autores
  • Maria Rosiane Da Silva
Modalidade
Resumo Expandido para Publicação em Anais
Área temática
GT 04 - Expulsões, contenções e controles territoriais no Semiárido brasileiro
Data de Publicação
13/07/2025
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
Português
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/sinjuve-semanaciso-univasf-554279/1168733-a-dentes-de-cachorro--violencia-colonial-e-controle-territorial-sobre-mulheres-indigemas-no-semiarido-brasilei
ISBN
978-65-272-1588-2
Palavras-Chave
1. Violência colonial, 2. Mulheres indígenas, 3. Memória e resistência, 4. Controle territorial
Resumo
Autor (a) SILVA1 Graduação em História, área de estudos interdisciplinar, rosianesilva270@gmail.com RESUMO Este artigo analisa como a violência colonial contra mulheres indígenas foi uma estratégia central de dominação territorial no Semiárido brasileiro. A partir da prática da captura de mulheres "A dentes de cachorro”, discute-se como o controle dos corpos femininos esteve diretamente vinculado à expropriação das terras indígenas. Com base na perspectiva de uma descendente indígena Atikum, a pesquisa articula memória oral, relatos comunitários e reflexão decolonial. Argumenta-se que a violência de gênero no colonialismo não foi circunstancial, mas estrutural: ao subjugar as mulheres, o sistema colonial também enfraquecia as redes de autonomia e resistência dos povos indígenas. A desumanização feminina atuou como ferramenta de silenciamento dos saberes ancestrais e de contenção cultural. Ao resgatar essas narrativas invisibilizadas pela historiografia oficial, este artigo propõe uma releitura crítica do processo de colonização no Semiárido, destacando a memória como território simbólico de resistência. Assim, reforça-se a urgência de ações de reparação e justiça histórica para os povos indígenas afetados por essas violências. 1. INTRODUÇÃO A violência colonial no Brasil operou não apenas como um processo de expropriação territorial, mas também como uma estratégia de controle dos corpos e da memória coletiva dos povos indígenas. No Semiárido brasileiro, essa dominação se materializou de forma brutal e sistemática, tendo as mulheres indígenas como alvo principal de práticas de subjugação física, simbólica e espiritual. A captura de mulheres a dentes de cachorro , foi uma prática real usada por colonizadores como estratégia de guerra e controle territorial. A partir da perspectiva de uma indígena Atikum descendente direta dessas vítimas, Povo indígena originarios de Carnaubeira da Penha Sertão de Pernambuco. Este artigo analisa a articulação entre gênero, território e colonialidade. Conforme María Lugones (2014), trata-se da "colonialidade de gênero", que desumaniza e subalterniza corpos indígenas. Essa violência também atuou no campo epistêmico, negando às mulheres o direito de narrar suas histórias. Ainda assim, resistiram por meio do cuidado, da oralidade e da preservação dos saberes (Gonzales, 1988). A prática da captura de mulheres indígenas com cães, pouco abordada pela historiografia oficial, permanece viva na memória oral de comunidades do Semiárido. Mulheres eram perseguidas, mordidas e sequestradas por cães treinados como instrumento de dominação e controle territorial (Ribeiro, 1996). Embora apagada ou minimizada pelos registros oficiais, essa violência foi parte de uma estratégia sistemática de colonização. As narrativas contadas por avós, mães e anciãs preservam essa memória silenciada, revelando a força da oralidade como forma de resistência. Elas mostram que as mulheres indígenas não foram passivas: resistiram, protegeram seus filhos e preservaram suas culturas. Recuperar essas histórias é reafirmar a reexistência indígena frente ao apagamento histórico, resgatando identidades, territórios simbólicos e modos de vida ameaçados pela violência colonial. Este trabalho, ao dar voz a essas memórias, contribui para romper o silêncio e promover uma reparação simbólica às mulheres indígenas e seus povos. 2. ANÁLISE E COMENTÁRIO DO CONTEÚDO A análise do conteúdo apresentado neste artigo revela que a violência colonial no Semiárido brasileiro, especialmente sobre os corpos das mulheres indígenas, operou como uma estratégia sistemática de dominação territorial e epistemológica. A prática da captura a dentes de cachorro, relatada por memórias orais e silenciada pela historiografia oficial, evidencia a brutalidade empregada contra essas mulheres não apenas como indivíduos, mas como portadoras de saberes, cultura e resistência. Ao integrar os conceitos de colonialidade de gênero (Lugones, 2014) e estruturas de violência (Segato, 2007), é possível compreender que a dominação colonial utilizou o corpo feminino indígena como campo de disputa simbólica e política. A presença dos cães como instrumentos de ataque reforça o processo de animalização e desumanização, sustentado por uma lógica patriarcal e racista. Essa análise articula-se com a proposta de Lélia Gonzalez (1988), que denuncia o apagamento e a subalternização das mulheres amefricanas como parte do projeto colonial moderno. A oralidade surge, nesse contexto, como fonte legítima de conhecimento e resistência. Os relatos de anciãs e líderes comunitárias permitem acessar uma história que se recusa ao esquecimento. A persistência dessas narrativas indica que, mesmo diante de séculos de silenciamento, a memória coletiva se mantém viva, sustentando os processos de reexistência e retomada identitária (Souza Lima, 2012). 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS A violência colonial contra mulheres indígenas, especialmente no Semiárido brasileiro, não pode ser tratada como passado encerrado. Seus efeitos permanecem vivos na terra, nos corpos e nas memórias. Ao revisitar práticas como a captura a dentes de cachorro, este artigo buscou demonstrar como o projeto colonial operou para controlar territórios através do controle dos corpos femininos indígenas. Dar visibilidade a essas violências é também uma forma de resistir. As mulheres indígenas não são apenas sobreviventes: são guardiãs de saberes, defensoras do território e protagonistas da resistência. Reconhecer sua história é parte fundamental do processo de reparação e de reconstrução de uma narrativa decolonial, enraizada na memória, no corpo e na luta. Contar essa história é também disputar o presente e afirmar o direito de existir com dignidade, memória e futuro. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. Tempo Brasileiro, n. 92/93, 1988. LUGONES, María. Colonialidade e Gênero. In: OYĔWÙMÍ, Oyèrónkẹ́ (org.). O Invenção das Mulheres: uma perspectiva africana sobre os discursos ocidentais de gênero. Belo Horizonte: Autêntica, 2014. RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. SEGATO, Rita Laura. As estruturas elementares da violência: ensaios sobre gênero entre o crime e o castigo. Belo Horizonte: UFMG, 2007. SOUZA LIMA, Antonio Carlos de. A tutela e o silenciamento histórico: indígenas no Brasil e a produção do não dito. Revista Brasileira de História, v. 32, n. 64, 2012.
Título do Evento
II SIMPÓSIO INTERNACIONAL JUVENTUDES E EDUCAÇÃO - SINJUVE & XI SEMANA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - UNIVASF
Cidade do Evento
Juazeiro
Título dos Anais do Evento
Dossiê Conjunto de Produções Acadêmicas da 2ª Edição do Simpósio Internacional sobre Juventudes e Educação e 11ª Edição da sSemana de Ciências Sociais/UNIVASF
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

SILVA, Maria Rosiane Da. “A DENTES DE CACHORRO”: VIOLÊNCIA COLONIAL E CONTROLE TERRITORIAL SOBRE MULHERES INDÍGEMAS NO SEMIÁRIDO BRASILEIRO.. In: Dossiê Conjunto de Produções Acadêmicas da 2ª Edição do Simpósio Internacional sobre Juventudes e Educação e 11ª Edição da sSemana de Ciências Sociais/UNIVASF. Anais...Juazeiro(BA) Complexo Multieventos/UNIVASF, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/sinjuve-semanaciso-univasf-554279/1168733-A-DENTES-DE-CACHORRO--VIOLENCIA-COLONIAL-E-CONTROLE-TERRITORIAL-SOBRE-MULHERES-INDIGEMAS-NO-SEMIARIDO-BRASILEI. Acesso em: 31/08/2025

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