Título do Trabalho
JUAZEIRO-BA: DAS MIGRAÇÕES FORÇADAS ÀS PERIFERIAS CRIMINALIZADAS
Autores
  • Erick Maddson Rodrigues Bonfim
Modalidade
Resumo Expandido para Publicação em Anais
Área temática
GT 04 - Expulsões, contenções e controles territoriais no Semiárido brasileiro
Data de Publicação
13/07/2025
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
Português
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/sinjuve-semanaciso-univasf-554279/1161738-juazeiro-ba--das-migracoes-forcadas-as-periferias-criminalizadas
ISBN
978-65-272-1588-2
Palavras-Chave
Formação urbana, migrações forçadas, necropolítica, Juazeiro-BA.
Resumo
RESUMO Este estudo, em andamento, tem como objetivos: analisar criticamente os dados do 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2024) acerca de Juazeiro-BA, averiguar vínculos entre a violência urbana e processos históricos de marginalização e examinar o papel que a Polícia Militar da Bahia (PMBA) exerce nesses contextos. A metodologia em desenvolvimento compreende: análise documental de dados oficiais, revisão bibliográfica crítica e estudo comparativo de pesquisas sobre Segurança Pública. Os avanços parciais apontam que os índices de violência presentes no Anuário aparentam desconsiderar fatores estruturais na formação de bairros periféricos, como as migrações forçadas, expulsão de trabalhadores rurais – pelos projetos de irrigação do Vale do São Francisco - e ocupações desordenadas, o que mostra que a narrativa do “combate ao tráfico” necessita de problematizações. A pesquisa se desenvolve, com perspectivas de aprofundar a relação entre fluxos migratórios históricos, segregação urbana contemporânea, e a análise de relatórios institucionais sobre operações policiais. 1. INTRODUÇÃO Nesta pesquisa, em passos iniciais de desenvolvimento, busco formulações a respeito da criação de territórios de exclusão, a partir da noção de Wacquant (2008) sobre a produção institucional de guetos como espaços de confinamentos e controle. Esses territórios são marcados não apenas pela precariedade material, mas pela criminalização de seus sujeitos fundadores, - os “expulsos” realocados à margem em nome do “progresso” (HARVEY, 2008). O pontapé de partida para o desdobramento dessa pesquisa se deu pelo fato de o 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2024) situar Juazeiro-BA entre as 10 cidades mais violentas do Brasil, atribuindo essa condição ao tráfico de drogas, ignorando, como alerta Zaluar (2004), o processo histórico de formação dessas periferias, onde elites econômicas e Estado são coautores da marginalização (CALDEIRA, 2000). Processos como a criação da Barragem de Sobradinho, no alto-médio São Francisco deslocaram milhares de pessoas, predominantemente camponesas, que foram “empurradas para as periferias das cidades após perderem seus modos de vida e de produção” (MARQUES, 2022, p. 96). Nesse contexto, bairros periféricos a exemplo do João Paulo II emergiram como espaços receptores desses fluxos migratórios, embora sua formação também reflita dinâmicas urbanas mais amplas (SOUZA e DUCCINI, 2017) - tema que poderá ser investigado com mais cautela durante o trajeto da pesquisa. Essas ocupações territoriais desordenadas são marcadas por processos de segregação socioespacial (BRITO; MENDONÇA; ROLNIK, 2023) e criminalização institucional. Tal dinâmica se intensifica quando esses territórios são estigmatizados como “Eixos do Mal”, categoria que transforma moradores em sujeitos presumivelmente criminosos (BATISTA, 2011). Dessa maneira, esta pesquisa examina como processos de marginalização urbana e políticas de segurança pública perpetuam ciclos de violência estrutural. Através da análise de dados oficiais e revisão crítica da necropolítica (Mbembe), o estudo demonstra como a segregação socioespacial e a ausência de políticas básicas criam condições para a criminalização da pobreza. A atuação das forças policiais revela-se, nesse contexto, como mecanismo de um Estado necropolítico. A articulação entre evidências empíricas e o referencial teórico expõe como a "guerra às drogas" serve de narrativa para legitimar a violência institucional contra populações periféricas racializadas, sistematicamente confinadas às margens urbanas. 2. ANÁLISE E COMENTÁRIO DO CONTEÚDO Os dados da minha pesquisa, ainda parciais, revelam um padrão estrutural de exclusão que atinge populações periféricas: a combinação entre marginalização socioespacial e criminalização institucional. Conforme Brito, Mendonça e Rolnik (2023), territórios precarizados são sistematicamente negligenciados pelo poder público, enquanto simultaneamente estigmatizados como "zonas de risco". Esse duplo movimento - de abandono e vigilância repressiva - transforma moradores em alvos preferenciais das políticas de segurança. A pesquisa demonstra como a precariedade urbana (falta de saneamento, mobilidade e serviços básicos) não é mero acaso, mas condição que permite e justifica a violência estatal. Batista (2011) alerta para o processo de "produção social da periculosidade", no qual a pobreza é reinterpretada como ameaça. Os dados do Anuário de Segurança Pública corroboram essa tese: as ações policiais concentram-se justamente nessas áreas, onde a ausência do Estado como provedor contrasta com sua presença como agente repressor. Mbembe (2018) oferece a chave analítica: a necropolítica opera precisamente nesses territórios, decidindo quais vidas merecem proteção e quais podem ser descartadas. A "guerra às drogas", nesse contexto, revela-se um mecanismo de gestão diferencial da população - não por acaso dirigido a corpos racializados e periféricos. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise evidencia como a exclusão socioespacial e a criminalização da pobreza se reforçam mutuamente, criando ciclos de vulnerabilidade e violência. A estigmatização territorial legitima intervenções repressivas, enquanto a negligência estatal perpetua condições desiguais. Urge superar essa lógica perversa, garantindo direitos básicos e desconstruindo narrativas que naturalizam a violência contra populações marginalizadas. A transformação exige não apenas políticas públicas, mas uma mudança estrutural no olhar sobre as periferias. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BATISTA, Vera Malaguti. Introdução Crítica à Criminologia Brasileira. Rio de Janeiro: Revan, 2011. BRITO, Gisele; MENDONÇA, Pedro Rezende; ROLNIK, Raquel. Territórios de exclusividade branca: Segregação, negação e enfrentamento do racismo no Planejamento Urbano da cidade de São Paulo. R. Bras. de Dir. Urbanístico – RBDU | Belo Horizonte, ano 9, n. 17, p. 35-59, jul./dez. 2023. CALDEIRA, Teresa P. do Rio. 2000. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34/Edusp. 399 pp. FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 2024. 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública,. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/handle/123456789/253. Acesso em: 14 de maio de 2024. HARVEY, David. O direito à cidade. 2008. MARQUES, Adalton. Se você está procurando a prisão, você encontrou a terra: pensando periferia e encarceramento a partir da CPT Juazeiro. Debates do NER, 2022. MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política de morte. São Paulo: N-1 edições, 2018. SOUZA, Cícero Harisson; DUCCINI, Luciana. Aspectos de precariedade urbana nos bairros Itaberaba e João Paulo II em Juazeiro (BA). Revista Cerrados (Unimontes), v. 15, n. 2, p. 246-262, 2017. WACQUANT, Laïc. As duas faces do gueto. São Paulo: Boitempo, 2008. ZALUAR, Alba. Integração perversa: pobreza e tráfico de drogas. FGV Editora, 2004.
Título do Evento
II SIMPÓSIO INTERNACIONAL JUVENTUDES E EDUCAÇÃO - SINJUVE & XI SEMANA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - UNIVASF
Cidade do Evento
Juazeiro
Título dos Anais do Evento
Dossiê Conjunto de Produções Acadêmicas da 2ª Edição do Simpósio Internacional sobre Juventudes e Educação e 11ª Edição da sSemana de Ciências Sociais/UNIVASF
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

BONFIM, Erick Maddson Rodrigues. JUAZEIRO-BA: DAS MIGRAÇÕES FORÇADAS ÀS PERIFERIAS CRIMINALIZADAS.. In: Dossiê Conjunto de Produções Acadêmicas da 2ª Edição do Simpósio Internacional sobre Juventudes e Educação e 11ª Edição da sSemana de Ciências Sociais/UNIVASF. Anais...Juazeiro(BA) Complexo Multieventos/UNIVASF, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/sinjuve-semanaciso-univasf-554279/1161738-JUAZEIRO-BA--DAS-MIGRACOES-FORCADAS-AS-PERIFERIAS-CRIMINALIZADAS. Acesso em: 31/08/2025

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