ESTIGMAS RELACIONADOS À MACONHA EM UMA COMUNIDADE TRADICIONAL DO VALE DO SÃO FRANCISCO

Publicado em 13/07/2025 - ISBN: 978-65-272-1588-2

Título do Trabalho
ESTIGMAS RELACIONADOS À MACONHA EM UMA COMUNIDADE TRADICIONAL DO VALE DO SÃO FRANCISCO
Autores
  • Maria Geyzielle Braz Santos Genovez
  • Marcílio Brandão
Modalidade
Resumo Expandido para Publicação em Anais
Área temática
GT 1: Antropologia e Sociologia – fronteiras e porosidades
Data de Publicação
13/07/2025
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
Português
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/sinjuve-semanaciso-univasf-554279/1159508-estigmas-relacionados-a-maconha-em-uma-comunidade--tradicional-do-vale-do-sao-francisco
ISBN
978-65-272-1588-2
Palavras-Chave
Maconha. Estigma. Comunidade tradicional.
Resumo
GT 1: Antropologia e Sociologia – fronteiras e porosidades TÍTULO E SUBTÍTULO Estigmas relacionados à maconha em uma comunidade tradicional do Vale do São Francisco Maria Geyzielle Braz Santos Genovez Graduanda em Bacharelado em Ciências Sociais, Univasf. mariageyzielle.genovez@discente.univasf.edu.br Marcílio Dantas Brandão Doutor em Sociologia, professor Univasf. marcilio.brandao@univasf.edu.br RESUMO O plantio ilícito da maconha chegou à comunidade tradicional enfocada nesta comunicação como uma iniciativa que, segundo narrativas de populares, enfrentou desafios e gerou conflitos sociais. O estudo que baseia esta comunicação está sendo realizado em uma comunidade quilombola de Pernambuco, na porção submédia do Vale do São Francisco, que integra a região conhecida como Polígono da Maconha, por concentrar diversas transações ilegais com esta planta. Esta comunicação discute algumas dessas transações a partir de saberes locais, considerando que moradores da comunidade já realizaram o plantio e mantêm diferentes formas de uso, revelando modos diferentes de tratamento e estigmatização. A proposta metodológica se baseia em pesquisa autobiográfica (ABRAHÃO, 2024). Por princípios éticos, preservamos a identidade dos interlocutores e do local da pesquisa. Teoricamente, tomamos por base a noção de atenção cíclica à maconha no Brasil (BRANDÃO et al. 2024), comunidade tradicional como disposto em Brandão (2010) e estigma na perspectiva de Goffman (1988/1963). Palavras-chave: Maconha. Estigma. Comunidade tradicional. 1. INTRODUÇÃO No início deste século XXI, na região pesquisada, plantou-se maconha em ilhas fluviais de difícil acesso, onde se acreditava ser mais difícil para as polícias localizar e identificar os responsáveis por tal cultivo. Esta estratégia se devia aos riscos de realizar esta atividade tornada ilegal em todo o território brasileiro nos anos 1930 (BRANDÃO et al, 2024). Os primeiros habitantes desta comunidade que praticaram esta cultura agrícola obtiveram sucesso, conseguindo adquirir bens materiais e melhorar de vida. Isso chamou a atenção de outros moradores, que também quiseram entrar no negócio. No entanto, poucos se envolveram, muitos tinham medo das consequências e aconselhavam os demais a não se arriscar. Ocorreram muitas situações traumáticas e de desordem com a descoberta do plantio pelas autoridades. Deste modo, nem todos tiveram a mesma sorte que os pioneiros. Diferentes forças policiais intensificaram as investigações sobre o tema, organizando grandes operações de combate ao plantio e tráfico. Helicópteros passaram a sobrevoar a região com frequência, assustando os moradores, que nunca haviam presenciado algo semelhante. Quando policiais chegavam à comunidade, os plantadores entravam em desespero, tentando fugir pelo rio e pelas matas. Trabalhadores rurais que não tinham envolvimento com o plantio também sentiam medo de ser confundidos e presos injustamente. Mesmo sob risco, alguns mantiveram o plantio, mas a repressão policial se intensificou ainda mais e, no presente, não há notícia de quem se arrisque em tal atividade produzindo volume superior ao necessário para seu próprio consumo. 2. ANÁLISE E COMENTÁRIO DO CONTEÚDO O referido consumo tem significados sociais completamente distintos na comunidade. Dependendo do contexto em que é utilizada, a relação com a planta recebe um julgamento diferente: fumo, finalidade terapêutica, adição à cachaça ("raizada") e outras formas de uso. Os jovens que fumam maconha são geralmente considerados como pessoas que fazem “coisas erradas”, estão “relacionados com o crime” e com o uso de outras substâncias ilícitas. Há, frequentemente, referência a eles como “má influência” para outros jovens e crianças. Por tudo isso, são tratados como marginais ou “doidos”. O idoso que fuma ou foi envolvido com o plantio é referenciado como “véi safado” por ter envolvimento com a planta mesmo depois de uma idade avançada, considerado como uma vergonha para a sociedade. O julgamento é ainda mais severo no caso das mulheres que se relacionam com qualquer prática relacionada com a planta; são consideradas “bandidas”, “sem prestígio” ou “sem vergonha”, revelando a intersecção entre estigma e machismo, onde a conduta feminina é regulada por normas morais mais rígidas. As formas de tratamento estigmatizadas apontam o que Goffman (1988, p.20) denomina de “identidade virtual”, ou seja, o estigma construído socialmente apaga a complexidade da pessoa. Por outro lado, o uso da maconha em busca de cura ou remédio para algum mal físico é percebido com mais empatia e até prestígio, tal como em outras localidades do país (POLICARPO, MARTINS, 2019). Nesse caso, o mesmo produto deixa de ser associado à criminalidade ou à marginalidade e passa a ser visto como símbolo de cuidado com a saúde e de coragem para o tratamento de quem precisa desse tipo de remédio que, na comunidade, é utilizado principalmente por pessoas idosas ou com doenças crônicas. Outras formas de usos, inclusive como “tempero” para a cachaça, são tratadas de modo intermediário. O plantio, por ser ilegal, continua tratado como atividade de “marginal”. A existência de diferentes formas de tratamento social de quem se relaciona com maconha na comunidade demonstra que o estigma não está na planta em si, mas no julgamento moral que os habitantes locais impõem à sua utilização. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta pesquisa é relevante para conhecer como os saberes populares contribuem para a compreensão das transações com maconha em contexto de comunidades tradicionais populares, encontrando estigmatização em modos diferentes de uso da planta e, em outras, pelo contrário, associa-se o uso da planta à coragem e ao cuidado. As diferentes práticas relacionadas à planta recebem julgamentos distintos por parte dos habitantes locais, refletindo uma perspectiva elástica em relação ao tema, que estica a relação positiva ou negativa com a planta de acordo com a valoração moral da comunidade, por vezes expondo preconceitos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAHÃO, MHM. Pesquisa (auto)biográfica no Brasil: da aventura à insubordinação. RBPAB, v. 9, n. 24, p. e1153, 2024. BRANDÃO, CR. A comunidade tradicional. Uberlândia: UFU, 2010. BRANDÃO, MD; FRAGA, P; POLICARPO, F; REZENDE, D. Continuidade da atenção cíclica à maconha no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.39, n.114, 2024. GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 1988 [1963]. POLICARPO, F; MARTINS, L. “‘Dignidade’, ‘doença’ e ‘remédio’: uma análise da construção médico-jurídica da maconha medicinal”. Antropolítica, n. 47, p.143-166, 2019.
Título do Evento
II SIMPÓSIO INTERNACIONAL JUVENTUDES E EDUCAÇÃO - SINJUVE & XI SEMANA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - UNIVASF
Cidade do Evento
Juazeiro
Título dos Anais do Evento
Dossiê Conjunto de Produções Acadêmicas da 2ª Edição do Simpósio Internacional sobre Juventudes e Educação e 11ª Edição da sSemana de Ciências Sociais/UNIVASF
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

GENOVEZ, Maria Geyzielle Braz Santos; BRANDÃO, Marcílio. ESTIGMAS RELACIONADOS À MACONHA EM UMA COMUNIDADE TRADICIONAL DO VALE DO SÃO FRANCISCO.. In: Dossiê Conjunto de Produções Acadêmicas da 2ª Edição do Simpósio Internacional sobre Juventudes e Educação e 11ª Edição da sSemana de Ciências Sociais/UNIVASF. Anais...Juazeiro(BA) Complexo Multieventos/UNIVASF, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/sinjuve-semanaciso-univasf-554279/1159508-ESTIGMAS-RELACIONADOS-A-MACONHA-EM-UMA-COMUNIDADE--TRADICIONAL-DO-VALE-DO-SAO-FRANCISCO. Acesso em: 31/08/2025

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