EXTREMA DIREITA EM ESCOLAS E NA SOCIEDADE: A ASCENÇÃO CONTEMPORÂNEA DA IDEOLOGIA DA EXTREMA DIREITA, NEO NAZI FASCISTA, E OS IMPACTOS NO COTIDIANO EDUCACIONAL E NA SOCIEDADE LATINO AMERICANA E BRASILEIRA.

Publicado em 10/03/2025 - ISBN: 978-65-272-1241-6

Título do Trabalho
EXTREMA DIREITA EM ESCOLAS E NA SOCIEDADE: A ASCENÇÃO CONTEMPORÂNEA DA IDEOLOGIA DA EXTREMA DIREITA, NEO NAZI FASCISTA, E OS IMPACTOS NO COTIDIANO EDUCACIONAL E NA SOCIEDADE LATINO AMERICANA E BRASILEIRA.
Autores
  • HÉLIO ROBERTO BRAUNSTEIN
Modalidade
Minicurso
Área temática
Educação, políticas públicas e justiça social na América Latina
Data de Publicação
10/03/2025
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
Português
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/pensar-e-repensar/881362-extrema-direita-em-escolas-e-na-sociedade--a-ascencao-contemporanea-da-ideologia-da-extrema-direita-neo-nazi-fas
ISBN
978-65-272-1241-6
Palavras-Chave
Psicologia escolar, psicologia, educação democrática, ética, democracia.
Resumo
EXTREMA DIREITA EM ESCOLAS E NA SOCIEDADE: A ASCENÇÃO CONTEMPOR NEA DA IDEOLOGIA DA EXTREMA DIREITA, NEO NAZI FASCISTA, E OS IMPACTOS NO COTIDIANO EDUCACIONAL E NA SOCIEDADE LATINO AMERICANA E BRASILEIRA. HÉLIO ROBERTO BRAUNSTEIN Diante do impacto midiático e público dos recentes acontecimentos sobre as ações violentas cometidas por estudantes capturados pela extrema direita em diferentes escolas no Brasil. Diante da constatação do significativo aumento e visibilidade de simpatizantes de grupos extremistas, neonazistas, neofascistas no Brasil após 2018, e na América Latina e no mundo. Diante do significativo aumento do preconceito, e das recentes propostas de privatização e militarização das escolas, é importante refletir e compreender a amplitude destes fenômenos sociais e sobre estes episódios trágicos, e das consequentes propostas de gestão com viés positivista, higienista, militarista, e, portanto, enquanto prática medicalizante envolvendo um suposto propósito de eficácia interventiva, preventiva, pedagógica e disciplinar. Além das dores que impactam as pessoas diretamente envolvidas com as vítimas e vitimadores, pelos lutos, sentimento de perda, vulnerabilidade e transtornos pós-traumáticos, existem as necessidades de inúmeras ações concretas de apoio, atenção e cuidado numa dimensão emergencial e pós emergencial a serem realizadas. Perguntas como: O que fazer após um atentado dentro de uma escola…!? Quais ações e medidas tomar após um atentado violento quando a motivação implica em ideologia de extrema direita, neonazista, neofascista, racista, ou homofóbica...!? O que realmente pode motivar um atentado numa escola.!? Seria possível prevenir um atentado violento numa escola.!? Como prevenir um atentado violento numa escola!? Enfim… como prevenir.?... Como intervir.?... O que fazer.?... Como fazer.? Saberes ainda estão sendo produzidos após as recentes tragédias vivenciadas nas diferentes escolas no Brasil e no mundo. E a contradição destas questões, é que diante de uma análise crítica aprofundada e abrangente as motivações de inúmeras destas práticas de violência nas escolas e de supostas formas e discursos de enfrentamento, são reflexos e se refletem na sociedade, e são produzidas e reproduzidas muitas vezes pelos mesmos fatores desencadeadores com base na ideologia da extrema direita, neonazista e neofascista, e mais especificamente racista enquanto fenômeno colonial latino-americano. Em suma, a provocação e reflexão desta proposta é identificar e sistematizar quantitativamente e qualitativamente, que talvez o “veneno” e o suposto antidoto, tem a mesma origem, uma origem calcada na ideologia emergente da extrema direita e conservadora e racista. Considerando questões de atualidade, este minicurso tem por sustentação dados das diferentes escutas e observações pontuais “in loco” nos eventos dos atentados ocorridos nos municípios de Suzano (São Paulo - Brasil); de Aracruz (Espírito Santo - Brasil) e em São Paulo – Capital, além de embasamento sobre dados teóricos quantitativos e qualitativos e de experiência e atuação relacionados ao contexto escolar, educacional e sócio educacional. Portanto, a perspectiva de contribuição deste minicurso, está voltado especificamente ao objetivo de compreender e propor ações preventivas diante do recorte de atentados violentos cometidos e incentivados por ideologia extremista no Brasil pela extrema direita, e em outros países, motivados. pelos movimentos extremistas diversos (de direita, nazi- fascistas, religiosos, jihadistas…). Outro objetivo é compreender os impactos da gestão escolar educacional, e das políticas públicas de gestão positivistas, higienistas, “militarizantes” e de extrema direita, das práticas medicalizantes e individualizantes como forma de prevenção e intervenção disciplinar e pedagógicas. Um elemento importante, antes de qualquer outra compreensão e análise, envolve a percepção e visão crítica de que não há possibilidade de se estabelecer previsibilidades, ou de estabelecer receitas e procedimentos interventivos universalizáveis, mas sim, de compreender o fenômeno em sua diversidade, pluralidade e amplitude objetivando possibilitar a tomada de decisões, atitudes e ações preventivas individuais e coletivas, embasadas em procedimentos e parâmetros alguns deles inclusive já estabelecidos em políticas públicas, em diretrizes legais, protocolares, e que efetivamente podem contribuir para prevenir e evitar ações de violência e terrorismo no ambiente escolar e na sociedade. Qualitativamente a compreensão somada aos dados quantitativos, deve ir além da compreensão reducionista em relação à variável individual psicológica, autobiográfica (da dimensão da micro gênese humana), sobre os autores dos atentados. O desafio implica em superar hipóteses meramente pontuais, patologizantes, de cunho individualizado, biológico e orgânico. A complexidade da análise qualitativa está na interação e inter-relação de fatores imbricados qualitativamente, atuando em sinergia, dialeticamente e implicados em contradições, normalmente compreensível e discernível apenas e a partir de um processo dialético, dinâmico, histórico, cultural/social, ideológico e político, portanto, institucional, enquanto prática social concreta e complexa, mediada por atividade humana, objetiva e subjetiva, psicológica. Algo que devamos chamar de instituição, e não apenas nomear superficialmente como “escola”, “educação”, “família”, “sociedade”. Algo em que devamos compreender como produção discursiva, como produção de sentido compreensível, consciente que possamos atribuir enquanto atividade legitimada, instituída, institucionalizada e não apenas denominado de “atentado”, “fato”, “evento”, “tragédia” ou “crime”. Se existe perplexidade e isto é evidente, não nos cabe ficar paralisados cognitivamente, nem mesmo amedrontados politicamente. É necessário sem dúvida um grande esforço individual e coletivo, cognitivo, afetivo e político em relação ao que fazer entre a incompreensão do passado, a perplexidade do presente, e o que fazer...? No futuro, transformador preventivamente... “quefazer” (conforme Ignácio Martin-Baró), esperançosamente (conforme Paulo Freire). Considerando-se uma análise qualitativa multifatorial, ampla, é preciso considerar muito além dos fatores institucionais da realidade e do ambiente das unidades educacionais afetadas, da sociedade violentada, é preciso considerar variáveis que vão além das próprias escolas, e de aspectos individualizantes. De modo amplo e abrangente, as variáveis qualitativas motivacionais que alimentaram ou incentivam a prática de violência e dos atentados em escolas ou na sociedade são: Sentimento de ódio ou hetero agressão Ressentimento; sentimento de mágoa Preconceito, racismo, antissemitismo, anti sionismo, homofobia, xenofobia Ausência de empatia – sentimento de compaixão atenuado Racionalidade ideológica – extremismo ideológico Ideação suicida – auto e hetero destrutividade Pensamento disfórico / eufórico Comportamento socialmente e ideologicamente influenciável Sentimento de filiação grupal (extremista / genocida) Alteração da capacidade perceptiva do valor humano. Incapacidade de interação empática, intolerância e ausência, ou incapacidade de convívio na diversidade, ausência de convívio em espaços coletivos, comunitários democráticos e heterogêneos. Não acesso, ou não adesão a uma cultura e ideologia de paz, aceitação e respeito a diversidade e pluralidade humana. Ausência de mecanismos de auto regulação ético e moral. Metodologicamente, taxonomicamente, estas variáveis são decorrentes da escuta de discursos, de narrativas de diversas pessoas, funcionários, educadoras e educadores, familiares, e falas de estudantes observados, ouvidos durante visitas e participação em reuniões e atividades em algumas das escolas, e decorrente de escuta em outros espaços institucionais, prisionais, sociais. Outras fontes de compreensão destas variáveis qualitativas motivacionais, são os relatos das investigações policiais, notas investigativas divulgadas na mídia, meios de comunicação, discursos de gestores e de políticos eleitos em cargos de gestão e que são responsáveis por formular e propor ações e políticas públicas de regulação, intervenção e prevenção. Outra dimensão de análise, é sem dúvida proveniente das redes sociais e das recentes proliferações e articulações globais da extrema direita enquanto retomada das esferas de poder em diversas comunidades e territórios. A ausência de complexidade e variabilidade de análise e de informações denotam muitas vezes, as contradições e perplexidade em relação à experiência vivenciada, sobre o sofrimento, em relação aos transtornos pós-traumáticos originados do luto, pela perda de pessoas queridas, afetivamente significativas, e pelo testemunho dos sobreviventes. É exatamente a perplexidade que implica na dificuldade de compreensão sobre os próprios sentimentos, no caso das pessoas vitimadas, sobreviventes, das pessoas que integram a comunidade escolar e da sociedade. Esta realidade muitas vezes tem sido alvo de manipulação e utilização pela extrema direita de uma política militarista, armamentista e conservadoras, com impactos significativos nas famílias e na sociedade. No que se refere a intenção de análise crítica e interventiva, é fundamental a compreensão sobre a periodização do desenvolvimento humano, de que o testemunho e discurso perceptivo de crianças, adolescentes e pessoas adultas são diferentes sobre a própria existência, sobre alguma eventual vivência traumática, e em relação às práticas sociais concretas, considerando os elementos instituídos, ou percebendo-os como instituintes de suas próprias realidades na instituição escolar, e no processo de construção e ressignificação de memórias, e de perspectivas existenciais futuras. É preciso compreender que os discursos são produzidos de modo multifatorial, relativizados, imbricados historicamente e determinado pelas dimensões culturais, da socio gênese e micro gênese, e não como produção de verdades. Conforme Patto (1997), em seu artigo “Para uma crítica da razão psicométrica”, existe um enorme desafio de superação de análises individualizantes, biologizantes. Nesta perspectiva a necessidade da implementação da lei 13.935/2019, que institui a contribuição multidisciplinar por meio da participação de assistentes sociais e profissionais da psicologia no sistema educacional brasileiro, ainda implica numa lacuna enorme na formação de quadro suficiente especializado na interface entre intervenção emergencial, institucional em Psicologia escolar e educacional, em assistência, superando lógicas reducionistas militarizantes (de militarização da educação) como solução para a violência na escola e sociedade. Existe ainda uma enorme dificuldade na perspectiva de construção e de atuação e intervenção em rede de apoio integrada e interdisciplinar, e de compreensão de gestores públicos diante desta necessidade de apoio em interface multisetorial em saúde mental, saúde, educação e assistência. As perspectivas tecnicistas, psicometricistas, medicalizantes, patologizantes, militarizantes, individualizantes e positivistas ainda estão enraizadas nas práticas de inúmeros profissionais da área e gestores, decorrente da ainda insuficiência de cursos de formação críticos e democráticos. A ainda ausência de consolidação de políticas públicas de gestão democrática e de respeito à diversidade, de formação e capacitação adequada de gestores e educadores, é sem dúvida resultante entre outros fatores, do “apagamento de memória” , da ausência de uma cultura e política de memória sobre as ideologias extremistas, positivistas , higienistas que instauraram regimes autoritários e ditaduras militares na américa latina e especificamente no Brasil entre 1964 e 1984. (conforme SELIGMANN SILVA, 2022). A cultura de memória em realidade foi substituída pela cultura do silenciamento e do esquecimento sobre as repercussões e atos das ditaduras militares na América Latina e mais especificamente no Brasil. A cultura do esquecimento e da impunidade é responsável pelo rejuvenescimento da extrema direita e de grupos neonazistas, neofascistas e de pessoas que defendem modelos ditatoriais, e de autoritarismo militar. Pedagogicamente e didaticamente os discursos e pautas da concepção das escolas sem partido, do apagamento da memória e negacionismo histórico sobre a ditadura militar, tem gerado o incentivo de propostas de militarização das escolas públicas. A substituição de educadores por militares talvez indique a descrença e a falência do modelo democrático educacional. Será que o processo de militarização nas escolas subordinando educadores e educadoras indique a falência da pedagogia como sinônimo de construção da liberdade da cidadania ativa, participativa e democrática...? Pensar e problematizar a respeito da violência nas escolas a partir de um recorte estritamente voltado aos atentados extremistas, não exclui todas as formas e expressões de violência escolar ou dos atos de violência que ocorrem além dos muros das escolas, na sociedade contemporânea. A hegemonia do modelo econômico capitalista, neocapitalista, neoliberal, armamentista, nacionalista e extremista tem causado profundas transformações nos modos da vida material, e por consequência dos modos de agir e pensar, implicando em concepções de gestão em que a privatização e lucro impactam inclusive a educação pública Sem dúvida, e de maneira inequívoca os metadados, os dados quantitativos e qualitativos da realidade macroeconômica, macrossocial e macro política denotam que os avanços tecnológicos sobre os meios de interação social, sobre os meios de produção, e divisão de recursos tem gerado enormes contradições. Nós fazemos parte e enquanto cidadãos, cidadãs na “polis”, nas cidades, enquanto “bios políticos” (conforme HANNAH ARENDT), somos quem produzimos e materializamos estas transformações, ainda que eventualmente não tenhamos consciência disto, ainda que seja muito difícil compreender a magnitude de nossa inserção no mundo, e nas esferas pública de gestão e de poder. Na dialética da inclusão e da exclusão, da participação ativa ou passiva, do protagonismo ou não no espaço público ou privado, nos modos de agir, viver, se alimentar, habitar, interagir, ensinar e aprender muitas coisas mudaram nos últimos anos, do pós guerra. Do macro ao micro, a educação formal, os processos de escolarização e formação tem um papel fundamental nestas mudanças, transformações e expectativas de futuro, num plano individual e coletivo/social, histórico, cultural. A instituição de ensino, educação, pesquisa, ciência, escola como responsável pela sistematização do acúmulo de conhecimento civilizatório, como instituição responsável pelo desenvolvimento humano é, portanto, o campo, o espaço de inflexão, de potencial transformador, de disputa ideológica, pois, conforme Michel Foucault (1979) “saber é poder”. A escola como alvo privilegiado...!? Sim, a escola é alvo de conflitos, de disputas ideológicas e de consolidação de poder... A escola e quem nela estiver, tornam-se alvos, enquanto sujeitos potencialmente ativos e potenciais transformadores de realidades. Das madraças, escolas extremistas islâmicas, das escolas da extrema direita, militares, confessionais, religiosas, sectárias, racistas e preconceituosas, a história é repleta de exemplos, e na atualidade também, em diversos territórios, assim como nas escolas democráticas, libertárias e que potencialmente podem constituir um mundo ético e de cuidado, em que o respeito às diferenças, em que o respeito à diversidade, à pluralidade, às diferenças e ao ambiente seja uma realidade instituída, consolidada. Conforme Paulo freire, a escola é o espaço da conscientização, da libertação para um mundo justo, igualitário, sem fome, sem pobreza, segundo Freire (em seu livro Pedagogia da autonomia) na educação e na escola estão a esperança, a utopia de um mundo feliz e gratificante incondicionalmente à todas, todes e todos...! Diante disto, a escola se institui e constitui enquanto contradição, sobre isto é preciso pensar, considerar como variável importante para compreender os recentes atentados extremistas nas escolas, e os processos de incremento da medicalização e militarização da educação. Os dados atuais no Brasil, na América Latina e no mundo apontam para um expressivo crescimento da disseminação e apologia das ideologias de extrema direita, nas redes sociais tanto na deep web, quanto nos demais sites e aplicativos de relacionamento e interação social. Segundo dados da já falecida pesquisadora Adriana Dias (Universidade Estadual de Campinas/SP): “Adriana Dias, que se dedicou a pesquisar o neonazismo no Brasil desde 2002, mostra que existem pelo menos 530 núcleos extremistas (grupos neonazistas), um universo que pode chegar a 10 mil pessoas. Isso representa um crescimento de 270,6% de janeiro de 2019 a maio de 2021.” (no Brasil meu acréscimo). (fonte: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2022/01/16/grupos-neonazistas-crescem-270percent-no-brasil-em-3-anos-estudiosos-temem-que-presenca-online-transborde-para-ataques-violentos.ghtml Este dado é fundamental, pois, nos anos recentes a partir de 2018 no Brasil houve um aumento expressivo, decorrente de incentivo de instâncias políticas e governamentais de extrema direita, em que o racismo, a apologia e apoio em prol de grupos extremistas, supremacistas, foi motivador de dois atentados em específico, nas escolas de Suzano – SP e de Aracruz – ES, tal constatação foi evidenciada por meio da utilização de símbolos nazistas pelos autores (jovens estudantes capturados ideologicamente) dos atentados na ocasião. Desde o final da segunda guerra mundial em 1945 não se tinha notícias e indícios tão explícitos de organização e manifestações nazi fascistas, no Brasil, na América Latina e no mundo. Enquanto crença e discurso ideológico, tanto o fascismo quanto o nazismo ainda estão presentes em nossa sociedade, a consideração histórica e cultural conjuga os fatores de que o Brasil foi um país com um enorme número de militantes nazistas, e posterior a segunda guerra mundial, acolheu inúmeros refugiados imigrantes adeptos do nazi fascismo oriundos da então Alemanha nazista e Itália fascista. Os ressurgimentos destas ideologias também estão nas escolas, nas universidades, nas comunidades e nas convicções de cidadãos, estudantes e educadores, infelizmente, e esta evidência foi constatada em inúmeros noticiários e manifestações, principalmente nos últimos anos, sendo algumas destas manifestações com apoio de agentes públicos na esfera governamental federal, estadual, municipal, amplamente divulgados nas mídias e redes sociais. Historicamente, a escola tem sido o espaço do embate, a escola enquanto espaço democrático, promotora do protagonismo estudantil, docente, tem sido alvo de ataques autoritários, ataques que tem ameaçado a autonomia da comunidade escolar, que tem fragilizado as estruturas e organizações participativas de gestão. As ameaças aos ideais éticos e democráticos, os ataques às expressões da diversidade, pluralidade, do pensamento e diferenças são nítidos, e geradores de conflitos, impulsionando atos de humilhação e violência nas escolas. Percebe-se que houve um enorme incentivo e investimentos em escolas militares, por parte do governo federal entre 2018 e 2022 no Brasil, e na gestão atual a partir de 2023 no Estado de São Paulo, incentivando um discurso disciplinar e doutrinador militarista impregnado de intolerância, preconceitos e autoritarismo. Desde o período da redemocratização brasileira a partir de dezembro de 1988, do ressurgimento da escola pública democrática, o embate e desafios para a superação de uma ideologia ditatorial, autoritária, e de fortalecimento para uma educação libertadora e inclusiva proposta desde a Lei de diretrizes e Bases para a Educação (LDB 1996), e consonante com a Declaração Universal de Direitos Humanos promulgado pela Organização das Nações Unidas (O.N.U) em 1948, tem sido uma meta difícil de implementar. A gestão participativa, os conselhos gestores de equipamentos, em Unidades Escolares (UEs), os Grêmios Estudantis ainda carecem de implementação, sendo que estas instâncias participativas são fundamentais como estruturas e recursos que contribuem para a prevenção e mediação das relações de conflito e violência nas escolas. Existe um equívoco ainda vigente para muitos, um imaginário mistificado que acredita que a mediação em Psicologia escolar e educacional ou em equipe interdisciplinar é algo estritamente técnico, de fora para dentro, de cima para baixo, em que a relação verticalizada, pré-conceitual, embasada exclusivamente em instrumentos da psicometria, ou no modelo clínico individual é possível e viável como práxis interventiva e preventiva. Em verdade não, pois, sem escuta, acolhimento plural, diverso numa dimensão coletiva, educativa democrática, cidadã, não há mediação preventiva possível, pois não promove afeto, cognição empática e compreensiva a partir das diferenças, ou seja, respeito promotor de uma atmosfera ética, e de uma ecologia sustentável promotora e mantenedora de cuidado mútuo. Para que isto ocorra é preciso conviver com e nas diferenças, é preciso aprender a curar feridas umas das outras, uns dos outros, é preciso aprender a enxugar as lágrimas nos rostos alheios, ter compaixão, ser solidário, amar, desenvolver amizade, percorrer caminhos de mãos dadas, em roda cirandar, cantar, sorrir... e tudo isto é viver e ser na escola e na sociedade, em comunidade. É preciso o investimento no desenvolvimento e aprendizagem humana cognitivo, afetiva ética e moral, democrática e não meramente conteudista e tecnicista. Nenhum sentimento e comportamento que envolvem preconceitos são inatos, ou são de origem biológica ou genética..., mas sim, frutos de interação e aprendizagem, são resultado do desenvolvimento das funções psíquicas superiores (desenvolvimento humano) de processos complexos de escolarização, racionalização e convivência afetuosa, inclusiva, cuidadora, e que, portanto, constitui o sujeito potencialmente ético, e coletivamente um mundo humano ético. (conforme e embasado numa perspectiva de psicologia histórico e cultural em Lev S.Vigotsky). No campo existencial, filosófico e político a capacidade de autorregulação, ética, humana enquanto superação da existência voltada exclusivamente para suprir desejos e o metabolismo, equivalente ao “animal laborans” conforme Hannah Arendt (2014) em seu livro “A condição humana”, é resultado da interação humana, e da aprendizagem dialógica no espaço público, na capacidade de agir como iguais enquanto direitos e imerso nas diferenças e diversidade, forjando-se assim, a condição do “bios políticos”, a condição que nos diferencia de qualquer outro ser vivente, e que nos dá a capacidade de agir em conjunto, de dialogar e instituir uma ética do cuidado democrática enquanto práticas sociais concretas. Justamente nesta questão existe uma contradição, uma relação dialética entre a concretude de uma realidade social histórica e escolar que frequentemente tem por expressão evidenciada atos de violência nas mais diversas formas e configurações, e em contradição a outra perspectiva, em que existe um ideal conceitual de cuidado, de respeito, reciprocidade, cooperação e, portanto, ético, democrático em que a escola e a educação são as principais mediadoras de construção do desenvolvimento humano instituído e constituído por uma cultura de paz, igualdade e justiça social. Aqui cabe a pergunta, como diminuir esta distância entre duas condições...? De que maneira é possível tornar concreto um ideal, uma perspectiva conceitual, supostamente utópica, diante de uma realidade concreta em que a violência surge e emerge historicamente e culturalmente como aparentemente prevalente ...? Como pensar e efetivar a escola, a educação, as relações e interações escolares, de aprendizagem e sociais e comunitárias como instituições éticas, democráticas e de cuidado efetivo...? Objetivamente é preciso pensar que numa perspectiva concreta e dialética tudo é processo, de que a práxis é processo, de que as formas de interação e conexão humana implicam em processos denominados por “desenvolvimento” humano numa dimensão imbricada na filogênese, ontogênese, sociogênese e microgênese humana, e que todo processo de transformação e mudança implica num esforço de embate, atrito entre o querer e o dever, entre a volição individual e o compromisso e a responsabilidade mútua, comunitária, pública. Neste sentido, a escola e a educação numa perspectiva crítica e desenvolvente (DUSAVITSKII, 2014) está muito além de uma perspectiva conteudista, restrita ao mero repasse de conteúdo sem significação, restrito na maneira de construir conhecimentos e de desenvolver conteúdos, saberes e conhecimentos sem significação ética, cidadã e democrática. Uma escola e sem sentido, sem significação, sem anima, ou alma é uma escola e sociedade vulnerável à violência, aos conflitos, pois, o calor que irradia e ilumina a práxis de ensinar e a atividade de aprender e desenvolver-se, precisa ser significativa, fazer sentido, fazer-se sentimento, consolidando-se como empatia, democracia. Nesta perspectiva, toda estratégia, atividade participativa, que estimule o protagonismo e a autonomia numa perspectiva ética, democrática e do cuidado mútuo, são fundamentais, e implicam potencialmente numa gestão participativa, num cotidiano representativo e necessariamente legitimado por toda comunidade escolar democraticamente. Oposto ao autoritarismo, ao militarismo, ao totalitarismo, oposto aos modelos cotidianos de uma escola e sociedade em que os muros são divisores entre ricos e pobres, em que a divisão de trabalho e a meritocracia são mecanismos de produção de exclusão e desigualdade. Portanto, numa dimensão preventiva o cuidado de maneira ampla, as práticas éticas e democráticas de cuidar enquanto política pública intersetorial em rede de apoio, a organização e protagonismo social, político, educacional e comunitário são fundamentais no sentido de corroborar para a diminuição da violência. De maneira alguma a perspectiva unilateral de enfrentamento policial, pela segurança pública tem eficácia isolada, sem as outras dimensões de caráter preventivo e remediativo. Também, as ações isoladas e pontuais no campo da saúde numa perspectiva e visão patologizante e medicalizante são ineficazes. Pois, não se trata de ações remediativas e higienistas de criminalizar, patologizar, punir, policiar, encarcerar, vigiar… É necessário acolher, cuidar, é fundamental o exercício de uma cidadania ativa, solidária, ética, compromissada com a democracia, com uma educação acessível inspiradora de ideais de cooperação, respeito às diferenças, uma educação ética crítica e de qualidade. É fundamental não uma política de silenciamento em relação ao racismo, colonialismo, autoritarismo e regimes autoritários e ditatoriais, é preciso que a escola seja também um espaço de memória crítica, de uma cultura de memória transformadora de realidades. É na escola ética, solidária, democrática e crítica que o extremismo pode ser realmente combatido e enfrentado, em que a sociedade e o mundo podem ser transformados. Portanto, a educação e as escolas sempre foram e serão um espaço de luta, de enfrentamento entre as ideias da ética, da paz, da cooperação, da solidariedade e direitos humanos contra os discursos de ódio e do extremismo, e a luta contra a violência está respaldada por parâmetros de legalidade, socialmente e democraticamente legitimados. Somos nós cidadãs e cidadãos que acreditamos numa cultura de paz, na democracia enquanto instituição social e política que defendemos uma educação transformadora em prol de um mundo de justiça, igualdade e paz que devemos ocupar os espaços das salas de aula, as escolas, as ruas e praças.
Título do Evento
IV Simpósio Internacional Pensar e Repensar a América Latina II Congresso Internacional Pensamento e Pesquisa sobre a América Latina
Cidade do Evento
São Paulo
Título dos Anais do Evento
Anais do Simpósio Internacional Pensar e Repensar a América Latina e do Congresso Internacional Pensamento e Pesquisa sobre a América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

BRAUNSTEIN, HÉLIO ROBERTO. EXTREMA DIREITA EM ESCOLAS E NA SOCIEDADE: A ASCENÇÃO CONTEMPORÂNEA DA IDEOLOGIA DA EXTREMA DIREITA, NEO NAZI FASCISTA, E OS IMPACTOS NO COTIDIANO EDUCACIONAL E NA SOCIEDADE LATINO AMERICANA E BRASILEIRA... In: Anais do simpósio internacional pensar e repensar a América Latina e do congresso internacional pensamento e pesquisa sobre a América Latina. Anais...Sao Paulo(SP) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2024. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/pensar-e-repensar/881362-EXTREMA-DIREITA-EM-ESCOLAS-E-NA-SOCIEDADE--A-ASCENCAO-CONTEMPORANEA-DA-IDEOLOGIA-DA-EXTREMA-DIREITA-NEO-NAZI-FAS. Acesso em: 31/08/2025

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