ENTRE A UNIVERSIDADE E A ESCOLA: DIÁLOGOS PARA DESCORTINAR A ARTE LATINO-AMERICANA.

Publicado em 10/03/2025 - ISBN: 978-65-272-1241-6

Título do Trabalho
ENTRE A UNIVERSIDADE E A ESCOLA: DIÁLOGOS PARA DESCORTINAR A ARTE LATINO-AMERICANA.
Autores
  • Simone Rocha de Abreu
  • Ana Carolina Delgado Sandim Taveira
  • Amanda Mamede
Modalidade
Minicurso
Área temática
Arte e Pensamento na América Latina
Data de Publicação
10/03/2025
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
Português
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/pensar-e-repensar/881112-entre-a-universidade-e-a-escola--dialogos-para-descortinar-a-arte-latino-americana
ISBN
978-65-272-1241-6
Palavras-Chave
Ensino de Arte, Currículo, Decolonialidade, Práticas Docente.
Resumo
O objetivo desse minicurso é estabelecer diálogo sobre práticas docentes na área de artes visuais que enfoque conhecimento sobre a América Latina e a partir do nosso continente incluindo referências de artistas latino-americanas no ensino de arte e assim quebrando a hegemonia europeia/estadunidense das obras de arte que tradicionalmente compõem o currículo da disciplina. Esse encontro que tem como objetivo principal conhecer e debater o pensamento social e em humanidades produzido sobre a América Latina, nos parece o lugar ideal para ministrar este minicurso que traçará as conquistas e os desafios na área de pensamento arte vivenciados pelas três proponentes no intuito de estabelecer práticas docentes que enfoquem artistas latino-americanos e pensamentos sobre a América Latina, outra relevância é que a proposta de estudo da arte da América Latina defendida aqui é interdisciplinar, precisando de apoio histórico, social e político, outra proposta coincidente com o evento e com toda a história do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (PROLAM/USP), instituição promotora do evento. Este minicurso se vincula ao eixo “Arte e Pensamento na América Latina”, pois reflete sobre as pesquisa para reescrever a arte da América Latina (Morais, 1997), além de, pesquisar novos conceitos em Arte para serem parâmetros para o ensino da disciplina e como desenvolver práticas docentes com o foco nesses referenciais. Tendo como ponto de partida o componente curricular “Arte da América Latina” implementado nos cursos de Artes Visuais da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) em 2019 e seus desdobramentos em pesquisas de Trabalhos de Conclusão de Curso, Iniciação Científica e/ou Mestrado desenvolvidos no âmbito do Grupo de Estudos e Pesquisa em Arte da América Latina (GEPALA - Cnpq/UFMS), além da prática docente de egressas deste curso na docência da Educação Básica. Portanto, a metodologia deste minicurso é aula expositiva dialogada e os relatos de experiências exitosas do ensino de arte focando artistas latino-americanos. No decorrer das aulas iremos perpassar as escolhas epistemológicas relacionadas ao tema, bem como os artistas referenciados que servem de fundamentação para os planos de aula, culminando com exemplificações de sequências didáticas. A leitura de imagens que o professor leva para a sala de aula é uma das ações que estruturam o ensino de arte, esta ação faz parte da proposta triangular, sistematizada por Ana Mae Barbosa entre 1987 e 1993 no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, enquanto Barbosa foi diretora, as demais ações desta proposta são a contextualização da imagem e dos sujeitos participantes dos processos de ensino /aprendizagem, ou seja, alunos e professor, e o fazer artístico. Nos mais de trinta anos da divulgação dessa proposta, essa ganhou relevância nacional e definitivamente tornou a imagem de uma obra central no ensino de arte, o que de fato, agregou muito ao ensino da disciplina. O que é impositivo e urgente é a pluralização imagética em sala de aula, é imperativo pensar: onde estão os referenciais de artistas latino-americanos, onde estão as artistas mulheres, onde estão as/os artistas indígenas, onde estão os artistas negros? Essa pluralização de vozes dos indivíduos que se distanciam do padrão branco, europeu/estadunidense, masculino, heterossexual, cisnormativo violentamente imposto desde os tempos da colonização e perpetuando pela colonialidade. Esse padrão coloca todas as subjetividades que envolvem os grupos diferentes dessas características à margem da grande narrativa da história da arte. O silenciamento de referenciais artísticos, culturais e estéticos latino-americanos, e a consequente deslegitimacão desses, enquanto os referenciais europeus e norte-americanos são privilegiados é uma realidade nos processos de ensino-aprendizagem em artes visuais em todos os níveis escolares e isso pode ser confirmado através de análise dos documentos que orientam e normatizam a educação básica, como a Base Nacional Curricular (BNCC) e os referenciais curriculares das secretarias de educação estaduais e municipais.. Esse fenômeno está diretamente relacionado à estruturação eurocêntrica dos currículos em todos os níveis escolares o que se encontra sob a lógica da colonialidade (Quijano,2010; Mignolo, 2014). Walter Mignolo (2014) afirma que a colonialidade é uma estrutura completa de níveis entrelaçados atravessada por atividades e controles específicos tais como a colonialidade do saber, a colonialidade do ser, a colonialidade do ver, a colonialidade do fazer e do pensar, a colonialidade do ouvir, etc. A partir da proposta de ruptura da colonialidade, Mignolo (2008) formulou o conceito de “desobediência epistêmica” para se efetivar a desobediência à lógica da colonialidade, apoiado nesse conceito Eduardo Moura (2018) apresenta o conceito de “des/obediência docente” para abordar o professor como agente fundamental que em sua prática docente política e cultural busca romper com a lógica moderna/colonial e assim, associa-se à uma pedagogia decolonial. Assim, pretende-se desmanchar estereótipos, desestabilizar certezas eurocêntricas de ensino e construir uma sala de aula mais acolhedora e com diversidade de saberes. Desta forma, se queremos pensar em uma prática de sala de aula que apresente as/aos estudantes a América Latina e seus artistas, que tiveram pela colonialidade um apagamento nos livros, circuitos artísticos e/ou educativos, é importante que estejamos abertos a repensar o ensino de arte incluindo a arte Latino-americana em sua diversidade, mas ressaltando o que nos une. Essa postura docente exige empenho para repensarmos paradigmas eurocêntricos que na imensa maioria dos casos, pautaram (e ainda pautam) a nossa formação na graduação, e criarmos através de pesquisas a história da arte que não nos foi contada e isso não significa somente conhecer artistas latino-americanos, mas conhecer os conceitos de arte estabelecidos por esses outros sujeitos que não o europeu branco. Além desse trabalho de pesquisa é necessário formação política cultural ao professor, o que extrapola a graduação em licenciatura em artes, formação essa que o torne consciente dos processos de subalternização dos sujeitos da América Latina e apto a despertar a criticidade ao olhar sobre as realidades socioculturais, históricas e artísticas latino-americanos, objetivando transformá-las através da arte/educação, assim teremos um docente apto à desobediência (Moura, 2018). Apesar dos esforços empreendidos, é possível identificar conceitos enraizados do que é arte de caráter eurocêntrico nas narrativas da disciplina arte, pensar e repensar o que representa ser latino-americanos, as marcas que carregamos, com base em referenciais teóricos, parece ser o caminho para estabelecermos práticas pedagógicas mais inclusivas, com diversidade de saberes. O minicurso pretende alcançar a construção de um espaço de diálogo entre os presentes, a universidade e a escola para a construção de conhecimento sobre como ensinar arte visuais enfocando artistas latino-americanos, colaborando desta forma para a construção de processos de ensino/aprendizagem que fortaleçam a formação de cidadãos latino-americanos cientes de sua história, sua produção artística, de seu valor e plenos de direitos. 9h-10:30h - Primeiro momento O ensino de arte nos livros didáticos (Plano Nacional do Livro e do Material Didático - PNLD), enfoca-se a coleção "Por toda pARTE", da editora FTD, adotada pela rede municipal de Campo Grande/MS para o quadriênio 2020-2023. Análise dos conteúdos referentes à arte latino-americana. Aporte Legal - Base Nacional Curricular BNCC, referenciais curriculares. 11h-12:30h - Segundo momento Pensamentos decolonial e os fundamentos teóricos que serviram de base para a concepção e organização do componente curricular Arte da América Latina na UFMS. Os conceitos de “Desobediência docente” (MOURA, 2018), “Decolonização do Olhar e a Colonialidade do Ver” (BARRIENDOS, 2020), Exercícios Decolonizantes (GARCIA e VENICA, 2016). E pensadores da América Latina como José Martí, Roberto Fernández Retamar, Zulma Palermo e Luciana Ballestrin. 14h-15:30h - terceiro momento Prática político-pedagógica com propostas cujas fontes iconográficas e textuais e os conceitos dialogam com a opção decolonial, voltando nossos olhares para epistemologias do Sul global, com enfoque em exercícios de percepção de fontes iconográficas diversas para ressaltar as disparidades. 16-17:30h - quarto momento Apresentação do projeto pedagógico “Territórios: América Latina e Gênero” pela autora, Ana Carolina Sandim, projeto estabelecido a partir do pensamento decolonial, portanto esse projeto se encaixa no conceito de desobediência docente (MOURA, 2018), e outras práticas artísticas realizadas na Educação Básica para estudantes do Ensino Fundamental I e II. Através de uma análise do seu percurso docente a proponente irá mostrar as contribuições do ensino de Artes Visuais no repertório artístico e cultural das/dos estudantes e como o ensino de arte decolonial pode contribuir com a construção da identidade latino-americana e brasileira dos educandos, podendo assim, caminharem rumo à construção identitária. Referências ABREU, Simone Rocha de. AMÉRICA-LATINA, PRESENTE! fundamentos do ensino da arte latino-americana. In: SOUZA, Paulo C. A.; ABREU, Simone R.; FERNANDES, Vera L. P. (Orgs.). Percursos na formação em arte: abordagens e reflexões epistemológicas. Campo Grande: Ed. UFMS, 2021, p. 109-134. BARRIENDOS, Joaquín. A colonialidade do ver: rumo a um novo diálogo visual interepistêmico. In: Epistemologias do Sul, Revista da Universidade Federal da Integração da Latino-Americana. v.3,n.1,p. 38 - 56, 2019. https://revistas.unila.edu.br/epistemologiasdosul/article/view/2434/2103 COUTO, Mia. Incerteza Viva. 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Esse encontro que tem como objetivo principal conhecer e debater o pensamento social e em humanidades produzido sobre a América Latina, nos parece o lugar ideal para ministrar este minicurso que traçará as conquistas e os desafios na área de pensamento arte vivenciados pelas três proponentes no intuito de estabelecer práticas docentes que enfoquem artistas latino-americanos e pensamentos sobre a América Latina, outra relevância é que a proposta de estudo da arte da América Latina defendida aqui é interdisciplinar, precisando de apoio histórico, social e político, outra proposta coincidente com o evento e com toda a história do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (PROLAM/USP), instituição promotora do evento. 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O silenciamento de referenciais artísticos, culturais e estéticos latino-americanos, e a consequente deslegitimacão desses, enquanto os referenciais europeus e norte-americanos são privilegiados é uma realidade nos processos de ensino-aprendizagem em artes visuais em todos os níveis escolares e isso pode ser confirmado através de análise dos documentos que orientam e normatizam a educação básica, como a Base Nacional Curricular (BNCC) e os referenciais curriculares das secretarias de educação estaduais e municipais.. Esse fenômeno está diretamente relacionado à estruturação eurocêntrica dos currículos em todos os níveis escolares o que se encontra sob a lógica da colonialidade (Quijano,2010; Mignolo, 2014). Walter Mignolo (2014) afirma que a colonialidade é uma estrutura completa de níveis entrelaçados atravessada por atividades e controles específicos tais como a colonialidade do saber, a colonialidade do ser, a colonialidade do ver, a colonialidade do fazer e do pensar, a colonialidade do ouvir, etc. A partir da proposta de ruptura da colonialidade, Mignolo (2008) formulou o conceito de “desobediência epistêmica” para se efetivar a desobediência à lógica da colonialidade, apoiado nesse conceito Eduardo Moura (2018) apresenta o conceito de “des/obediência docente” para abordar o professor como agente fundamental que em sua prática docente política e cultural busca romper com a lógica moderna/colonial e assim, associa-se à uma pedagogia decolonial. Assim, pretende-se desmanchar estereótipos, desestabilizar certezas eurocêntricas de ensino e construir uma sala de aula mais acolhedora e com diversidade de saberes. 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Além desse trabalho de pesquisa é necessário formação política cultural ao professor, o que extrapola a graduação em licenciatura em artes, formação essa que o torne consciente dos processos de subalternização dos sujeitos da América Latina e apto a despertar a criticidade ao olhar sobre as realidades socioculturais, históricas e artísticas latino-americanos, objetivando transformá-las através da arte/educação, assim teremos um docente apto à desobediência (Moura, 2018). Apesar dos esforços empreendidos, é possível identificar conceitos enraizados do que é arte de caráter eurocêntrico nas narrativas da disciplina arte, pensar e repensar o que representa ser latino-americanos, as marcas que carregamos, com base em referenciais teóricos, parece ser o caminho para estabelecermos práticas pedagógicas mais inclusivas, com diversidade de saberes. O minicurso pretende alcançar a construção de um espaço de diálogo entre os presentes, a universidade e a escola para a construção de conhecimento sobre como ensinar arte visuais enfocando artistas latino-americanos, colaborando desta forma para a construção de processos de ensino/aprendizagem que fortaleçam a formação de cidadãos latino-americanos cientes de sua história, sua produção artística, de seu valor e plenos de direitos. 9h-10:30h - Primeiro momento O ensino de arte nos livros didáticos (Plano Nacional do Livro e do Material Didático - PNLD), enfoca-se a coleção "Por toda pARTE", da editora FTD, adotada pela rede municipal de Campo Grande/MS para o quadriênio 2020-2023. Análise dos conteúdos referentes à arte latino-americana. 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Crítica da colonialidade em oito ensaios e uma antropologia por demanda - 1ª ed. – Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021. ------------------------------------------------------------------------------------------------------
Título do Evento
IV Simpósio Internacional Pensar e Repensar a América Latina II Congresso Internacional Pensamento e Pesquisa sobre a América Latina
Cidade do Evento
São Paulo
Título dos Anais do Evento
Anais do Simpósio Internacional Pensar e Repensar a América Latina e do Congresso Internacional Pensamento e Pesquisa sobre a América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

ABREU, Simone Rocha de; TAVEIRA, Ana Carolina Delgado Sandim; MAMEDE, Amanda. ENTRE A UNIVERSIDADE E A ESCOLA: DIÁLOGOS PARA DESCORTINAR A ARTE LATINO-AMERICANA... In: Anais do simpósio internacional pensar e repensar a América Latina e do congresso internacional pensamento e pesquisa sobre a América Latina. Anais...Sao Paulo(SP) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2024. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/pensar-e-repensar/881112-ENTRE-A-UNIVERSIDADE-E-A-ESCOLA--DIALOGOS-PARA-DESCORTINAR-A-ARTE-LATINO-AMERICANA. Acesso em: 31/08/2025

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