Título do Trabalho
ENTRELAÇANDO MEMÓRIAS
Autores
  • Thais de Souza Gomes
Modalidade
Minicurso
Área temática
Arte e Pensamento na América Latina
Data de Publicação
10/03/2025
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
Português
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/pensar-e-repensar/880254-entrelacando-memorias
ISBN
978-65-272-1241-6
Palavras-Chave
memórias; gênero; dissidências; corpo; sexualidade
Resumo
O objetivo de Entrelaçando Memórias é acolher através da roda de conversa e a elaboração multilinguagem de um trabalho artístico expressando as diversas sexualidades, gênero e corporalidades. A memória desempenha um papel crucial na afirmação das identidades dos indivíduos LGBTQIAPN+. Como coloca Halbwachs (1968) é pela memória coletiva que se recompõe o passado, e que a combinação desse grupo que produz por suas múltiplas experiências a memória. Quando olhamos para grupos com sexualidades diversas, as memórias pessoais e coletivas fornecem validação e um sentimento de pertencimento quando a ordem normativa marginaliza ou invalida suas experiências. Então se lembramos e compartilhamos histórias de resiliência, luta, amor e angústias nos asseguram para vivenciar as diversas identidades dentro da comunidade. Essas memórias se contrapõem à lógica normativa colonial e cisnormatividade atual generalizadas que dominam as narrativas sociais, fornecendo representações alternativas essenciais para o bem-estar mental e emocional das pessoas LGBTQIAPN+. Partimos do princípio que a memória coletiva é fundamental quando promove um senso de comunidade entre os indivíduos LGBTQIAPN+. Os marcos culturais e as lutas dos movimentos sociais criam e compartilham memórias desses momentos históricos,formando uma identidade coletiva que transcende as experiências individuais. Esse senso de história compartilhada e propósito comum é alternativa de fortalecimento na defesa do bem-estar e direitos dessas comunidades. O papel que arquivos LGBTQIAPN+, projetos de história oral e exposições históricas desempenham são vitais na preservação da história da comunidade. Garantimos não só que as conquistas dos antecessores na luta permaneçam, e não sejam esquecidas, como também reconhecidas e celebradas pelas gerações atuais e futuras. Ao documentar essas narrativas, as passagens significativas e demais contribuições, tecemos um registro histórico que considera a vida dessas pessoas. Citando um recorte de tempo específico como exemplo, a epidemia HIV/AIDS entre os anos 80 e 90 olhando de fora percebe-se o apagamento da comunidade nesse período, sem dizer o estigma da sociedade sobre as pessoas e a resistência da comunidade que carrega marcas até hoje dos que sobreviveram ao período. O impacto devastador da AIDS na comunidade LGBTQIAPN+ foi manifestado por ativistas e organizações LGBTQIAPN+ que documentaram suas experiências, lutaram por políticas públicas e direitos humanos básicos criando memoriais em defesa a essa causa. Por essa razão, é fundamental preservar o patrimônio cultural da comunidade LGBTQIAPN+ enquanto memória e resistência. Estamos falando de preservação da arte, literatura, música e outras expressões culturais contra-hegemônicas, que refletem as experiências e livre expressão de indivíduos LGBTQIAPN+. São esses relatos que entrelaçam história, cultura formando uma tapeçaria de criatividade e resiliência dessa comunidade, um testemunho visual das suas colaborações e sua presença e (re)existência. As consequências do sistema mundo moderno- colonial (Wallerstein, Quijano, Mignolo, Segato), que impôs a normatividade sexual elegendo essa como reguladora de uma expressão adequada social, onde tudo que se escapava da lógica hegemônica foi e é violentamente interrompido, diagnosticado enviando para instituições mentais para a manutenção do controle desses corpos. Por essa razão, na atualidade, os direitos sexuais, reprodutivos e a diversidade de gênero que deveriam ser assegurados são constantemente ameaçados pelos retrocessos conservadores desse projeto hegemônico. Refletir sobre essas questões de gênero e sexualidade nos corpos latino-americanos, através da narrativa e do tecimento das memórias são estratégias de enfrentamento á discriminação, violência e lgbtfobia. Transformar aas narrativas em poéticas visuais como forma de fortalecer essas memórias e corporalidades diversas. A luta da comunidade LGBTQIAPN+ é indissociável da luta contra o patriarcado e o capitalismo pois enfrenta diretamente a estrutura da família patriarcal e as instituições normativas que produzem trabalhadores disciplinados. Quando falamos dos corpos racializados que já estão nesse lugar do “outro” pela lógica colonial é necessário preservar e compartilhar essas memórias que refletem as diversas experiências dentro da comunidade, assim internamente a própria comunidade LGBTQIAPN+ passa a destacar os enfrentamentos desses indivíduos nessas intersecções. O que significa que, experiências de pessoas LGBTQIAPN+ pretas, indígenas, não-brancas, pessoas com deficiência, travestis e transgêneros se diferem significativamente das outras vivências das pessoas na comunidade. Rememorar as injustiças do passado, também é uma forma de atuar na luta trazendo atenção para as demandas atuais enfatizando a necessidade de defesa e resistência contínuas desse grupo que sempre tem seus direitos ameaçados. Será na memória e nos relatos das pessoas dessa comunidade que teremos estrutura para a compreensão das lutas atuais, olhando sempre para o que se foi feito anteriormente e assim planejar estratégias futuras. Em síntese, a memória é um dispositivo de resistência fundamental para a comunidade LGBTQIAPN+. Através dela é possível contar a história que não foi considerada, afirmar identidades, inspirar a comunidade, desafiar o apagamento e inspirar as gerações futuras. Relembrar e compartilhar suas histórias é um ato de afeto mas também de resistência às forças da marginalização e da exclusão, retomando seu lugar de direito na narrativa social e cultural como um todo. Mais que não esquecer do passado, a memória fornece fundação para um possível futuro, reconhecendo as lutas e conquistas da comunidade LGBTQIAPN+ para que sejam celebradas e construídas. Preservar e celebrar a memória de toda a comunidade LGBTQIAPN+ é dar continuidade às experiências que foram determinantes a resistência da opressão, a defesa dos direitos pra essas pessoas e poder assim determinar seu lugar em um futuro mais inclusivo e equitativo. Ao propor essa Oficina, pretende-se por meio da narrativa das/es/os participantes expressar essas memórias de forma visual utilizando a interdisciplinaridade entre arte e as epistemologias latino-americanas, como feminismo decolonial; pensamento anti-colonial e tecnologia de gênero. Através da oralidade em conjunto com o suporte da produção visual entretelaçaremos as várias vivências presentes na intenção de intercambiar memórias reconhecendo a diversidade em cada pessoa e retecer a teia social como instrumento de refúgio para essa comunidade. O uso de objetos indicados (tecidos, retalhos, linhas, objetos pessoais) neste trabalho evoca intencionalmente experiências pessoais, emoções e memórias. Ao incorporar as memórias na construção desse objeto visual, ele ganha nova vida, se entrelaça com outros objetos, formam redes de apoio e constroem novas histórias. A atividade pretende borrar as linhas entre o fala e memória, arte e ciências sociais utilizando técnicas livres onde novas possibilidades e imagens são criadas, interagindo com as outras peças e resultando em um diálogo visual da memória coletiva para que as pessoas dessa comunidade se entendam como agentes históricos. Halbwachs (1968) tem uma reflexão poética quando diz que vamos sumindo um do outro se não temos um grupo que rememore, assim a memória é potente enquanto resistência, especialmente tratando-se de comunidades marginalizadas como a comunidade LGBTQIAPN+. Resguardar a memória coletiva e poder celebrá-la são essenciais não apenas para estimular o senso de identidade e solidariedade, desafiando as narrativas opressoras, recuperando a história e defendendo a justiça social para essas pessoas. Esta oficina evidência o significado de memória através das narrativas das pessoas dessa comunidade LGBTQIAPN+ como forma de resistência, destacando seu papel na afirmação de identidades dissidentes, estimulando a existência da própria comunidade, preservando sua trajetória histórica para que as gerações futuras continuem tecendo essa colcha de memórias. Como falamos de América Latina, mas muitas vezes ao relatar as lutas da comunidade citamos eventos de fora, como a Revolta de Stonewall, sendo que aqui tivemos nossa revolta no Ferro’s Bar, bar onde grupo SOMOS e as lésbicas reagiram a tentativa de expulsão delas, tanto pelo dono do estabelecimento, polícia. Era um espaço de encontro e resistência, que circulavam panfletos de luta e liberdade sexual, com discussões avançadas sobre os direitos da mulher e pela sexualidade. Deixo aqui relatos sobre uma das atuações desses importantes grupos para comunidade lésbica: Grupo de Ação Lésbico-Feminista “Fato inédito na história do Brasil, pela primeira vez , durante uma semana, do dia 3 ao dia 12 de setembro, foi realizado um festival onde : as várias formas de expressão de capacidade artística da mulher, há muito silenciadas pela sociedade falocrática, tiveram a oportunidade de serem mostradas ao público. Foi bonito poder ver tantas mulheres juntas, reunidas, apresentando seus trabalhos, trocando idéias, afetividades e cumplicidades. Este primeiro Festival Nacional das Mulheres nas Artes foi patrocinado pela revista Nova e teve como principal organizadora a (entre outras coisas] atriz Ruth Escobar junto a Marie Quertim Moraes, Solange Padinha, Célia Macedo, Niece Levin e outras que ajudaram a concretizar e idéia de reunir diversos trabalhos de mulheres ligados a várias áreas de arte, música, teatro, literatura, dança, Artes Plásticas, oficinas de trabalho isto sem contar o futebol e os debates e palestras referentes às formas de criação acima citadas. […] O primeiro Festival Nacional das Mulheres nas Artes representou uma oportunidade para que nós mulheres, pudéssemos mostrar nossos trabalhos há tanto tempo silenciados pela cultura masculina” ( Carta por Sandra Mara, JORNAL CHANACOMCHANA, São Paulo, LF, n. 0, 1982) "O lesbianismo é um barato. Caro é o preço que a gente paga pra curtir esse barato. Toda mulher lésbica que já se viu forçada a sentir vergonha por amar outra mulher sabe bem disso. A sociedade falocrata não nos perdoa e vive nos empurrando para os guetos da vida. Os guetos da vida são os lugares que o mundo instalou dentro e fora de nós onde se reproduzem todos os opressores estereótipos de masculinidade e feminilidade" (BOLETIM CHANACOMCHANA, 1982, p. 2). [...] Nossa separação dos homens, naquela época em que se suponha poder haver uma igualdade no encaminhamento das questões das lésbicas e dos bichas, foi considerada separatista, divisionista e radical. [...] Mas, acontece que já naquele ano, percebíamos a grande diferença entre ser uma mulher lésbica em nossa sociedade falocêntrica e ser um homem bicha nesta mesma instituição (BOLETIM CHANACOMCHANA, 1983, p. 2). *Observação: eu não tenho mais o que escrever e por isso vou complementar com números pois existe um limite mínimo de palavras, me desculpe: Um Dois Três Quatro Cinco Seis Sete Oito Nove Dez Onze Doze Treze Catorze Quinze Dezesseis Dezessete Dezoito Dezenove Vinte Vinte e um Vinte e dois Vinte e três Vinte e quatro Vinte e cinco Vinte e seis Vinte e sete Vinte e oito Vinte e nove Trinta Trinta e um Trinta e dois Trinta e três Trinta e quatro Trinta e cinco Trinta e seis Trinta e sete Trinta e oito Trinta e nove Quarenta Quarenta e um Quarenta e dois Quarenta e três Quarenta e quatro Quarenta e cinco Quarenta e seis Quarenta e sete Quarenta e oito Quarenta e nove Cinquenta Cinquenta e um Cinquenta e dois Cinquenta e três Cinquenta e quatro Cinquenta e cinco Cinquenta e seis Cinquenta e sete Cinquenta e oito Cinquenta e nove Sessenta Sessenta e um Sessenta e dois Sessenta e três Sessenta e quatro Sessenta e cinco Sessenta e seis Sessenta e sete Sessenta e oito Sessenta e nove Setenta Setenta e um Setenta e dois Setenta e três Setenta e quatro Setenta e cinco Setenta e seis Setenta e sete Setenta e oito Setenta e nove Oitenta Oitenta e um Oitenta e dois Oitenta e três Oitenta e quatro Oitenta e cinco Oitenta e seis Oitenta e sete Oitenta e oito Oitenta e nove Noventa Noventa e um Noventa e dois Noventa e três Noventa e quatro Noventa e cinco Noventa e seis Noventa e sete Noventa e oito Noventa e nove Cem Cento e um Cento e dois Cento e três Cento e quatro Cento e cinco Cento e seis Cento e sete Cento e oito Cento e nove Cento e dez Cento e onze Cento e doze Cento e treze Cento e catorze Cento e quinze Cento e dezesseis Cento e dezessete Cento e dezoito Cento e dezenove Cento e vinte Cento e vinte e um Cento e vinte e dois Cento e vinte e três Cento e vinte e quatro Cento e vinte e cinco Cento e vinte e seis Cento e vinte e sete Cento e vinte e oito Cento e vinte e nove Cento e trinta Cento e trinta e um Cento e trinta e dois Cento e trinta e três Cento e trinta e quatro Cento e trinta e cinco Cento e trinta e seis Cento e trinta e sete Cento e trinta e oito Cento e trinta e nove Cento e quarenta Cento e quarenta e um Cento e quarenta e dois Cento e quarenta e três Cento e quarenta e quatro Cento e quarenta e cinco Cento e quarenta e seis Cento e quarenta e sete Cento e quarenta e oito Cento e quarenta e nove Cento e cinquenta Cento e cinquenta e um Cento e cinquenta e dois Cento e cinquenta e três Cento e cinquenta e quatro Cento e cinquenta e cinco Cento e cinquenta e seis Cento e cinquenta e sete Cento e cinquenta e oito Cento e cinquenta e nove Cento e sessenta Cento e sessenta e um Cento e sessenta e dois Cento e sessenta e três Cento e sessenta e quatro Cento e sessenta e cinco Cento e sessenta e seis Cento e sessenta e sete Cento e sessenta e oito Cento e sessenta e nove Cento e setenta Cento e setenta e um Cento e setenta e dois Cento e setenta e três Cento e setenta e quatro Cento e setenta e cinco Cento e setenta e seis Cento e setenta e sete Cento e setenta e oito Cento e setenta e nove Cento e oitenta Cento e oitenta e um Cento e oitenta e dois Cento e oitenta e três Cento e oitenta e quatro Cento e oitenta e cinco Cento e oitenta e seis Cento e oitenta e sete Cento e oitenta e oito Cento e oitenta e nove
Título do Evento
IV Simpósio Internacional Pensar e Repensar a América Latina II Congresso Internacional Pensamento e Pesquisa sobre a América Latina
Cidade do Evento
São Paulo
Título dos Anais do Evento
Anais do Simpósio Internacional Pensar e Repensar a América Latina e do Congresso Internacional Pensamento e Pesquisa sobre a América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

GOMES, Thais de Souza. ENTRELAÇANDO MEMÓRIAS.. In: Anais do simpósio internacional pensar e repensar a América Latina e do congresso internacional pensamento e pesquisa sobre a América Latina. Anais...Sao Paulo(SP) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2024. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/pensar-e-repensar/880254-ENTRELACANDO-MEMORIAS. Acesso em: 31/08/2025

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