UM CORPO NO MUNDO: A VIVÊNCIA DE ESTUDANTES MIGRANTES NA UNIVERSIDADE

Publicado em 10/03/2025 - ISBN: 978-65-272-1241-6

Título do Trabalho
UM CORPO NO MUNDO: A VIVÊNCIA DE ESTUDANTES MIGRANTES NA UNIVERSIDADE
Autores
  • Lidiane Costa de Oliveira
  • Adalberto Duarte Pereira Filho
Modalidade
Minicurso
Área temática
Migrações e Pobreza na América Latina
Data de Publicação
10/03/2025
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
Português
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/pensar-e-repensar/821297-um-corpo-no-mundo--a-vivencia-de-estudantes-migrantes-na-universidade
ISBN
978-65-272-1241-6
Palavras-Chave
migração; educação; social
Resumo
O acesso ao ensino superior no Brasil vem sendo ampliado após as políticas de cotas, assim como os processos de interiorização das universidades públicas. O processo de adaptação à nova modalidade de ensino traz consigo inúmeras vivências que perpassam o âmbito social, econômico, étnico e político. De acordo com Oliveira & Morais (2015): O maior responsável pela expansão universitária no contexto brasileiro pode ser atribuído ao Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), instituído no ano 2007, pelo Decreto nº 6.096/2007, no governo Lula, cujo lema foi a reestruturação das universidades públicas federais. (p.549) Com a expansão das universidades, foi possível notar que mais grupos sociais estavam adentrando o ensino superior e que, possivelmente, traria mais diversidade. Diante da inserção dos estudantes nesse lugar, se faz necessário uma investigação de como os sujeitos chegam à Universidade, pois é primordial para compreendermos quais são suas expectativas para com a instituição de ensino. Contudo, por mais que seja um espaço que esteja sendo ampliado, ainda existem muitas barreiras sociais que dificultam o acesso de boa parte da população. Oliveira & Morais (2015) destacam que: A universidade representa um marco na vida do cidadão, sobretudo na do jovem brasileiro. Trata-se da realização de um sonho e da oportunidade de concretização de um projeto de vida pessoal, profissional e familiar. (549) As pessoas que chegam a universidade como intuito de mudar a sua realidade e a da sua família são, geralmente, a classe pobre da sociedade e que percebem em uma profissão a possibilidade de melhorar a sua condição de vida. Ao pensarmos que a educação é algo que anteriormente apenas a elite tinha acesso, quando a classe proletária começa a adentrar esse espaço, a parcela burguesa da sociedade não enxerga com bons olhos, pois “como um filho de um pedreiro estudará na mesma sala que o meu?!”. Um bom exemplo disso é o filme “Que horas ela volta?” da diretora Anna Muylaert que retrata a história de Jéssica, filha da empregada nordestina da casa que irá prestar vestibular para a mesma faculdade do filho da patroa. Tomás destaca (2012): A invisibilidade social vai depender (entre outras coisas) da percepção que os outros têm de mim. Se o outro não me vê é certamente porque eu não existo para o outro, no entanto existo fisicamente, logo sou visível. A não-perceção do outro é o resultado da sua vida da qual eu não faço parte. (p. 3) Deste modo, se faz necessário os processos de identificação dos espaços universitários na perspectiva de estudantes migrantes, assim compreendendo quais são os desafios enfrentados, os preconceitos vividos, o suporte dado pela instituição de ensino e como as dinâmicas de poder aparecem nesse espaço que deve ser, por direito, de livre acesso a todos. Pois quando um estudante migrante se muda para São Paulo, por exemplo, para estudar na USP, ele leva consegue todo um peso de apenas ser quem se é, assim como traz intrinsecamente conteúdos acerca de uma cultura, que infelizmente ainda é retratada como escassa no imaginário social. Souza, Monteagudo & Tristan (2020): (...) o movimento migratório no Brasil como fenômeno de constituição da identidade nacional, o que falta realmente são debates que avancem ou expressem políticas voltadas para os sujeitos migrantes e refugiados. A prática docente vem como recurso para evitar práticas xenofóbicas, racistas e preconceituosas contra os migrantes e refugiados, todavia é necessário mais que conteúdo escolar para compreendermos e inserirmos os migrantes na escola e na educação brasileira(p,24) Ao pensarmos em espaços universitários que possibilitem os sujeitos a utilizarem a sua voz, falar da sua cultura, dos seus desejos e perspectivas acadêmicas, estamos atuando diretamente na permanência destes no espaço que, sobretudo, é político. Pois o que para muitos pode ser expresso apenas como um curso superior, para a maioria dos estudantes que migram é a possibilidade de crescer na vida. Tal movimento traz à tona questões objetivas, como moradia, alimentação e transporte, assim como elucida questões subjetivas no processo de (des)apropriação. Quando os sujeitos deixam as suas casas para vivenciar uma nova realidade acadêmica, De acordo com Rosa, Berta, Carignato & Alencar (2009): A migração territorial é processo que mobiliza e enlaça motivações sociais, políticas, econômicas e subjetivas – a relação com a nova terra e os novos laços terão as marcas desses processos. Essa condição tem a potência de relativizar toda relação fixa do sujeito com o poder de modo que o olhar do exilado, migrante ou refugiado pode, por sua exterioridade, ser perturbador para a cidade, gerando hostilidades e violências. (p.3) Compreendendo a complexidade multideterminada das relações existentes no processo de migração temporária ou permanente, o presente minicurso visará produzir um espaço de diálogos acerca desses afetos sociais, políticos e subjetivos, assim como um momento vivencial que reflita sobre as afetações que implicam na possibilidade ou não de pertencimento dos estudantes migrantes em uma universidade pública. Visualizando o Programa Interunidades de Pós-graduação Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (PROLAM/USP), como um espaço de debate sociopolítico acerca das vivências dos sujeitos latino-americano e suas interfaces, o minicurso traz a proposta de promover diálogos acerca dos estudantes que deixam suas cidades natais para ingressar no ensino superior em uma Universidade, de modo que tal movimento demanda dos estudantes subsídios financeiros, assim como está totalmente interligado com a noção de identidade, pois se faz necessário uma adaptação geográfica e subjetiva. Ferreira, Almeida e Soares (2001) salientam que: [...] que o sucesso acadêmico do aluno seja avaliado através do progresso que o aluno vai realizando no sentido de atingir os seus objetivos educativos e pessoais, em vários domínios, tais como: (i) desenvolvimento de competências acadêmicas e cognitivas; (ii) estabelecer e manter relações interpessoais positivas e gratificantes; (iii) desenvolver a identidade; (iv) desenvolver a autonomia em direção à interdependência; (v) desenvolver e manter uma vida emocional equilibrada; (vi) desenvolver um projeto vocacional e definição de um estilo de vida próprio; (vii) estabelecer e manter um estilo saudável de vida, contribuindo para o bem estar pessoal e físico; e (viii) desenvolver uma filosofia integrada de vida.(p.02) O eixo escolhido para dialogar com a proposta do minicurso foi o Migrações e Pobreza na América Latina, partindo do pressuposto da heterogeneidade de estudantes universitários, principalmente os que migram para estudar. De modo que a vivência destes pode envolver questões socioeconômicas, de vulnerabilidade social e, possivelmente, precisarão de acesso a políticas estudantis que garantam a permanência na instituição de ensino. O minicurso tem como inspiração artística a música da conta Luedji Luna, um corpo no mundo (2017), que retrata de modo poético e, ao mesmo tempo, nos faz refletir sobre processos de autoafirmação da negritude acerca das vivências dos processos de migração. “Atravessei o mar, um sol Da América do Sul me guia Trago uma mala de mão Dentro uma oração, um adeus Eu sou um corpo, um ser, um corpo só Tem cor, tem corte E a história do meu lugar, ô Eu sou a minha própria embarcação Sou minha própria sorte...” Este será desenvolvido, a partir de quatro momentos, sendo dois no bloco da manhã e dois no horário da tarde. Será adotado um formato de diálogo acerca das migrações estudantis assim como será elaborada uma oficina vivencial/estética acerca dos afetos, trajetórias e construção de pertencimento no cotidiano do processo de migração. Os momentos do minicurso serão construídos com as ferramentas de círculos de cultura Freire (1991) de modo que incluirá dinâmicas corporais, produções estéticas/visuais, de modo que possibilitemos uma oficina semiestruturada, contemplando os fenômenos em sua complexidade multifacetada. O primeiro momento será o “fazendo as malas, refazendo espaços”, que visa possibilitar o reconhecimento das trajetórias de cada estudante, o que desencadeou o processo de migração, explorando assim, a relação entre expectativa/realidade da chegada à universidade, assim como na nova cidade. Este momento iniciará com dinâmicas corporais e respiratórias para que possamos dar início à segunda dinâmica, que consistirá no discurso sobre a história do nome pessoal de cada um, de modo a ativar nos participantes um processo de memória afetiva com relação à sua identidade. O segundo bloco do minicurso na parte da manhã, o “mapeando afetos” terá uma proposta de um mapeamento individual, onde os integrantes fecharão os olhos e tatearão seu próprio corpo por um determinado tempo para posterior narrativa sobre características marcantes do seu próprio corpo, de modo a reconhecer o território que elas habitam. O processo de socialização do mapeamento de suas características com o grupo facilitará o segundo momento que se dará pela produção de uma oficina de cartazes com a metodologia de cartografia social, mais especificamente a de cartografia local, que irá, primeiramente, se configurar por uma proposta de confecção individual de um mapa da Universidade, contendo símbolos e insígnias daquele local e suas afetações no cotidiano desses sujeitos. Então, segundamente, dividiremos o grupo em dois em virtude da discussão sobre os seus mapas individuais e a construção um mapa coletivo a partir desse debate. Finalizará com o debate dos dois mapas e possíveis propostas de intervenções nesses espaços que promovem experiências de violências e/ou acolhimentos nos estudantes. Na parte da tarde, será realizado outro momento, o jogando o meu corpo no mundo, no qual a primeira dinâmica corporal se dará de modo que os participantes andem pela sala, aleatoriamente, e em determinado momento parem e olhem olho a olho com outro participante, de modo que esse processo trará a dimensão coletiva do jogar-se no mundo em contato com a diversidade do ser. A segunda dinâmica corporal buscará refletir sobre como os corpos transitam na universidade, com alguns bloqueios ou acessos, e se dará da seguinte forma: será preparada uma fila com duas pessoas lado a lado. Então, dois participantes, por vez, andarão pela sala e se cruzarão em determinado espaço para um cumprimento com partes do corpo que eles escolherão, assim como poderão falar o que é perceptível aos olhos. Esse processo permitirá uma reflexão, juntamente com a música Mistério do Planeta (Novos Baianos), sobre as vivências desse corpo no mundo, utilizando-se das perguntas presentes no texto e subtexto da canção, repercutindo a “lei natural dos encontros” e suas implicações. Por fim, o quarto momento, o desmascarando afetos, possibilitará uma nova fase do jogar o corpo no mundo, a partir de uma vivência estética/terapêutica, com a produção de máscaras de gesso. Os/as participantes formarão duplas para a confecção dessas máscaras, utilizando na técnica estética aspectos que remetam a todo o processo de migração desses corpos, a partir de vivências e afetos presentes neles. O viés terapêutico se dará por meio do contato físico entre os corpos durante a confecção das máscaras, possibilitando um momento de autocuidado tanto para quem está produzindo-a como para quem está recebendo a máscara. REFERÊNCIAS: ROSA, M. A condição errante do desejo: os imigrantes, migrantes, refugiados e a prática psicanalítica clínico-política. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 12, n. 3, p. 497–511, set. 2009. OLIVEIRA, R. E. C. de; MORAIS, A. Vivências acadêmicas e adaptação de estudantes de uma universidade pública federal do Estado do Paraná. Revista de Educação Pública, [S. l.], v. 24, n. 57, p. 547–568, 2015. DOI: 10.29286/rep.v24i57.1796. Tomàs, J. (2012) A invisibilidade social, uma construção teórica. https://www.researchgate.net/publication/228333133_A_invisibilidade_social_uma_constr ucao_teorica. FERREIRA, J. A.; ALMEIDA, L. S.; SOARES, A. P. C. Adaptação Estudante académica em estudante do primeiro ano: diferenças de gênero, situação de estudante e curso. Psico-USF, Itatiba, v. 6, n. 1, p. 01-10, jan./jun. 2001. ANDRADE, A. dos Santos et al. Vivências acadêmicas e sofrimento psíquico de estudantes de psicologia. 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Título do Evento
IV Simpósio Internacional Pensar e Repensar a América Latina II Congresso Internacional Pensamento e Pesquisa sobre a América Latina
Cidade do Evento
São Paulo
Título dos Anais do Evento
Anais do Simpósio Internacional Pensar e Repensar a América Latina e do Congresso Internacional Pensamento e Pesquisa sobre a América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

OLIVEIRA, Lidiane Costa de; FILHO, Adalberto Duarte Pereira. UM CORPO NO MUNDO: A VIVÊNCIA DE ESTUDANTES MIGRANTES NA UNIVERSIDADE.. In: Anais do simpósio internacional pensar e repensar a América Latina e do congresso internacional pensamento e pesquisa sobre a América Latina. Anais...Sao Paulo(SP) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2024. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/pensar-e-repensar/821297-UM-CORPO-NO-MUNDO--A-VIVENCIA-DE-ESTUDANTES-MIGRANTES-NA-UNIVERSIDADE. Acesso em: 31/08/2025

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