AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA EM PERSPECTIVA DECOLONIAL: IMPLICAÇÕES ÉTICAS, EPISTEMOLÓGICAS E METODOLÓGICAS JUNTO A COMUNIDADES INDÍGENAS, QUILOMBOLAS E NEGRAS

Publicado em 19/01/2026 - ISBN: 978-65-272-2134-0

Título do Trabalho
AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA EM PERSPECTIVA DECOLONIAL: IMPLICAÇÕES ÉTICAS, EPISTEMOLÓGICAS E METODOLÓGICAS JUNTO A COMUNIDADES INDÍGENAS, QUILOMBOLAS E NEGRAS
Autores
  • FRANCISCA LAUDECI MARTINS SOUZA
  • Allan Diego Ricarte de Araújo
Modalidade
Resumo Expandido Estruturado
Área temática
Saúde Mental e Bem-Estar – abordagens interdisciplinares para promoção da saúde mental, prevenção e cuidado integral
Data de Publicação
19/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/iv-semana-iniciacao-cientifica-universitaria/1386247-avaliacao-psicologica-em-perspectiva-decolonial--implicacoes-eticas-epistemologicas-e-metodologicas-junto-a-com
ISBN
978-65-272-2134-0
Palavras-Chave
decolonialidade; avaliação psicológica; comunidades tradicionais
Resumo
Introdução A avaliação psicológica consolidou-se historicamente no Brasil sob forte influência euro-norte-americana, pautada em instrumentos psicométricos padronizados a partir de populações brancas, escolarizadas e urbanas. Esse modelo, ao ser transplantado sem crítica para contextos culturais diversos, reproduz uma lógica universalista que ignora os modos de ser, saber e existir de povos e comunidades tradicionais. Em populações indígenas, quilombolas e negras, esse processo pode gerar o que se denomina violência epistêmica, isto é, a imposição de uma racionalidade colonial que deslegitima formas próprias de subjetivação, espiritualidade e linguagem. A decolonialidade surge, nesse cenário, como perspectiva ético-epistemológica que propõe a desobediência cognitiva e o reconhecimento de múltiplas racionalidades. Essa abordagem permite desnaturalizar os critérios hegemônicos de cientificidade e questionar a neutralidade supostamente universal da avaliação psicológica, evidenciando o quanto ela está imersa em hierarquias de raça, gênero e classe. Objetivos Objetivo geral: Sistematizar o estado da arte sobre a avaliação psicológica em perspectiva decolonial voltada a povos indígenas, comunidades quilombolas e população negra no Brasil e na América Latina. Objetivos específicos: a) mapear críticas ético-epistemológicas aos modelos hegemônicos de avaliação; b) identificar evidências de viés cultural e lacunas de validade e precisão de instrumentos; c) levantar boas práticas e diretrizes de avaliação culturalmente informada; d) propor uma matriz operacional decolonial para orientar práticas de avaliação sensíveis à diversidade epistêmica. Referencial Teórico A avaliação psicológica nasce e se consolida dentro de um paradigma técnico-racional. Herdeira direta do positivismo europeu do século XIX, carrega a crença na mensurabilidade da mente e na ideia de que é possível transformar a subjetividade em dado. Galton (1883) foi um dos primeiros a propor métodos de mensuração das diferenças individuais, relacionando inteligência e hereditariedade. No início do século XX, Binet e Simon (1905) criaram a primeira escala de avaliação intelectual, inaugurando a psicometria moderna. Essas experiências formaram o núcleo duro de uma psicologia que acreditava medir o humano e, ao fazê-lo, hierarquizava corpos e inteligências. Ao chegar à América Latina, esse modelo foi aplicado sem questionar seus pressupostos históricos e culturais. O resultado foi a reprodução de uma lógica universalista e excludente. Como afirmam Quijano (2000) e Mignolo (2011), a modernidade científica não existe sem a colonialidade: são faces da mesma estrutura de poder que define quem produz conhecimento e quem é objeto dele. O que a colonialidade faz é naturalizar hierarquias epistêmicas, a Europa como centro e o resto do mundo como periferia cognitiva. Dussel (1996) propõe romper com essa lógica por meio de uma ética da libertação: o conhecimento, para ser ético, precisa reconhecer o outro como sujeito, e não como matéria de estudo. É nesse gesto que a decolonialidade se torna um ato político e ético. Lugones (2007) aprofunda a discussão ao mostrar como o sistema moderno-colonial também estruturou gênero e sexualidade, impondo um modo único de ser mulher, homem, corpo e desejo. Essa matriz atravessa as práticas psicológicas e se infiltra na forma como a avaliação define o que é “normal” e o que é “desvio”. Fanon (1952; 1961) nos alerta para o preço subjetivo da colonização. Em sua leitura, o olhar colonial internalizado produz alienação, autonegação e cisão do eu. Uma psicologia que ignora esse processo repete a violência da colonização sob a aparência de neutralidade. Bourdieu e Passeron (1970) chamam isso de violência simbólica: quando as normas dominantes se impõem como universais e transformam desigualdade em mérito. No Brasil, a Psicologia Social Crítica, com Lane (1984) e Bock (1999; 2009), abriu um caminho de resistência. Lane insistiu que a psicologia só faz sentido quando enraizada na realidade social e histórica dos sujeitos. Bock reafirma a mesma direção: o compromisso da psicologia deve ser com a emancipação, não com a reprodução das hierarquias. As pensadoras negras brasileiras expandem esse debate. Carneiro (2005) e Gonzalez (1988) mostram que o racismo é um projeto de apagamento e que a inferiorização do negro foi historicamente produzida para sustentar um ideal branco de humanidade. Munanga (1999) lembra que a mestiçagem, celebrada como harmonia, foi também uma forma de encobrir o racismo estrutural e diluir identidades. Mais recentemente, Pereira (2023) propõe uma virada decolonial na avaliação psicológica, deslocando-a do lugar da técnica para o da escuta e do diálogo. Avaliar, nesse sentido, deixa de ser mensurar e passa a ser compreender, traduzir, co-construir. Grosfoguel (2012) chama esse movimento de direito à diferença cognitiva, o reconhecimento de que há muitos modos de pensar e produzir conhecimento que não cabem nos moldes ocidentais. Entre povos indígenas, por exemplo, o saber é oral, coletivo, espiritualizado. Entre quilombolas e comunidades negras, o corpo e a memória sustentam o pensamento. Nenhuma dessas dimensões cabe em um teste psicométrico. Augras (2007) lembra que compreender o outro é sempre entrar em mundos simbólicos próprios, e que o primeiro gesto ético é reconhecer o limite do nosso olhar. A avaliação decolonial nasce daí: de uma postura de humildade cognitiva, de quem entende que conhecer é também se deixar afetar. Esse conjunto de autores e autoras, da crítica latino-americana à psicologia negra brasileira, sustenta a leitura de que avaliar é, antes de tudo, um ato político e ético. É nesse sentido que este estudo propõe uma psicologia que escute, dialogue e devolva sentido, em vez de medir, classificar e normalizar. Metodologia Trata-se de um estudo exclusivamente bibliográfico, desenvolvido sob os parâmetros de uma revisão sistematizada. As buscas foram realizadas na Plataforma Capes, cobrindo o período de 2000 a 2025. Os critérios de inclusão envolveram publicações que abordassem a interface entre avaliação psicológica e comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas e negras. O processo metodológico compreendeu quatro etapas: (1) triagem inicial dos materiais com base em títulos e resumos; (2) leitura integral das obras selecionadas; (3) extração padronizada das informações; e (4) análise temática a partir de categorias emergentes: ética, epistemologia, metodologia e políticas decoloniais na avaliação. Resultados Os resultados revelam cinco eixos principais: Crítica à universalização: a aplicação de instrumentos importados desconsidera ontologias não ocidentais e produz interpretações distorcidas sobre modos de existência comunitária. Evidências de viés: identificam-se problemas de não invariância métrica, inadequações linguísticas e falhas de validade ecológica. Ética e direitos: reforça-se a necessidade de consentimento qualificado, devolutiva coletiva e mediação cultural em todo o processo avaliativo. Boas práticas emergentes: destacam-se experiências de coconcepção, adaptação situada, triangulação metodológica e incorporação de narrativas locais. Lacunas: há escassez de instrumentos construídos localmente e de estudos robustos com povos indígenas e quilombolas, além de fragilidade na formação de psicólogos para atuar nesses contextos. Discussão A partir das análises, evidencia-se que a avaliação psicológica precisa ser repensada como ato político e dialógico, e não como mera aplicação técnica. Romper com a colonialidade da psicologia implica deslocar o foco da mensuração para o encontro de saberes. É necessário investir em processos formativos que articulem ética, crítica e compromisso social, promovendo a escuta de saberes ancestrais. A pluriepistemicidade emerge como horizonte ético e metodológico: reconhecer que não existe uma única racionalidade psicológica válida. A integração de narrativas, práticas corporais e dimensões espirituais pode ampliar o conceito de validade, incorporando outras linguagens do existir. Conclusão A Psicologia avança quando reconhece a incompletude do seu saber e se abre ao diálogo com epistemologias situadas. A proposta de uma matriz operacional decolonial para a avaliação psicológica pressupõe etapas que envolvem pré-campo, escuta comunitária, coleta sensível, análise dialógica e devolutiva pactuada. Essa matriz visa transformar a avaliação em um instrumento de justiça epistêmica, promovendo o reconhecimento das vozes historicamente silenciadas e contribuindo para a construção de uma psicologia comprometida com a vida e a diversidade.
Título do Evento
I Congresso Multidisciplinar em Saúde, IV Semana de Iniciação Científica, II Semana de Extensão Universitária da UNINASSAU Juazeiro do Norte
Cidade do Evento
Crato
Título dos Anais do Evento
Anais do I Congresso Multidisciplinar de Saúde, IV Semana de Iniciação Científica, II Semana de Extensão Universitária da UNINASSAU Juazeiro do Norte
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

SOUZA, FRANCISCA LAUDECI MARTINS; ARAÚJO, Allan Diego Ricarte de. AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA EM PERSPECTIVA DECOLONIAL: IMPLICAÇÕES ÉTICAS, EPISTEMOLÓGICAS E METODOLÓGICAS JUNTO A COMUNIDADES INDÍGENAS, QUILOMBOLAS E NEGRAS.. In: Anais do I Congresso Multidisciplinar de Saúde, IV Semana de Iniciação Científica, II Semana de Extensão Universitária da UNINASSAU Juazeiro do Norte. Anais...Juazeiro do Norte(CE) Anais do I Congresso Multidisciplinar de Saúde, IV Semana de Iniciação Científica, II Semana de Extensão Universitária da UNINASSAU Juazeiro do Norte, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/iv-semana-iniciacao-cientifica-universitaria/1386247-AVALIACAO-PSICOLOGICA-EM-PERSPECTIVA-DECOLONIAL--IMPLICACOES-ETICAS-EPISTEMOLOGICAS-E-METODOLOGICAS-JUNTO-A-COM. Acesso em: 13/03/2026

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