PLATAFORMIZAÇÃO, TRANSFORMAÇÕES E SAÚDE NO TRABALHO

Publicado em 06/11/2025 - ISBN: 978-65-272-1829-6

Título do Trabalho
PLATAFORMIZAÇÃO, TRANSFORMAÇÕES E SAÚDE NO TRABALHO
Autores
  • Matheus Viana Braz
  • Jardel Melo Bonfim
  • Amanda Thuns Biazzi
Modalidade
Mesa Redonda
Área temática
Eixo II – Trabalho no capitalismo contemporâneo: Este eixo concentra-se nos temas: 1) Precarização nas relações de trabalho: terceirização, informalidade e plataformização do trabalho; 2) as violências no trabalho (metas abusivas, assédio moral e sexual, racismo, gestão autoritária; 3) tecnologia e ascensão do trabalho morto (IA, robôs); 4) trabalho escravo contemporâneo. 5) Trabalho e destruição ambiental; 6) migração, saúde e trabalho.
Data de Publicação
06/11/2025
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/contrab2025/1084786-plataformizacao-transformacoes-e-saude-no-trabalho
ISBN
978-65-272-1829-6
Palavras-Chave
plataformização do trabalho; uberização; resistências; saúde do trabalhador
Resumo
RESUMO GERAL O conceito de capitalismo de plataforma, proposto por Nick Srnicek, contrapõe-se à ideia de neutralidade na economia de compartilhamento, destacando transformações no capitalismo financeirizado. As plataformas digitais são centrais na dataficação da sociedade, consolidando novas formas de controle e gestão do trabalho por meio de algoritmos, que exercem influência política e ideológica sobre os trabalhadores. Nesta Mesa Redonda, analisamos as transformações no mundo do trabalho, especialmente a influência das plataformas em diversas categorias profissionais, dialogando com a sociologia do trabalho, os estudos críticos de plataformas e as clínicas do trabalho, como a psicodinâmica e a psicossociologia. O foco é a precarização do trabalho e seus impactos na saúde dos trabalhadores brasileiros, em contextos de plataformização e informalização. Matheus Viana Braz apresentará pesquisa sobre os impactos dos atendimentos online e da produção de conteúdo em mídias sociais na saúde de psicólogos clínicos brasileiros. Com base no conceito de tecnoestresse, serão analisadas dimensões como intimidade, visibilidade, conexão, desconexão, tempo de trabalho e descanso, identificando fatores que contribuem para a saúde ou o adoecimento no trabalho plataformizado da Psicologia. Jardel Melo Bonfim discutirá estratégias de enfrentamento adotadas por psicólogos clínicos diante da plataformização do trabalho. O estudo revelou que estratégias individuais, como autocuidado e limitação da jornada, têm eficácia limitada, enquanto ações coletivas, como grupos de apoio e reivindicação de direitos, mostram maior potencial de transformação, ainda que dificultadas pela lógica neoliberal da individualização. A pesquisa também destacou o desafio de conciliar a ética profissional com as exigências das plataformas. Amanda Thuns Biazzi encerrará a mesa com um estudo sobre o trabalho de streamers brasileiros. Com base na história laboral de sete streamers, será discutido o papel do sentido do trabalho na manutenção da precariedade em plataformas como a Twitch. A pesquisa problematiza a promessa de realização pessoal e financeira, analisando a instrumentalização do sentido do trabalho e a financeirização das relações nesse contexto. A mesa oferece uma análise crítica e interdisciplinar das transformações no mundo do trabalho, contribuindo para o debate sobre justiça social e condições dignas de trabalho no capitalismo digital. O(a) psicólogo(a) clínico(a) está “virando influencer”? Tecnoestresse, plataformização do trabalho e produção de conteúdos em mídias sociais Matheus Viana Braz A plataformização do trabalho na Psicologia no Brasil está associada à informalização e à uberização do trabalho, entendida como um novo modo de gestão e controle da força de trabalho (Abílio, 2019, 2020). Durante a pandemia de COVID-19, o uso de Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) entre psicólogos(as) clínicos(as), antes pouco utilizado (33,1%), saltou para 79,2%, estabilizando-se em 69,6% no pós-pandemia (CensoPsi, 2022). Além disso, tais profissionais tendem a utilizar cada vez mais as mídias sociais (Instagram, Facebook, TikTok, YouTube) para divulgar seus serviços, refletindo mudanças substanciais no mercado de trabalho. Este estudo buscou compreender os impactos dos atendimentos online e da produção de conteúdo em mídias sociais na saúde de psicólogos(as) clínicos(as) brasileiros(as). Foram utilizados métodos mistos de coleta de dados: entrevistas com dez profissionais e um questionário sociodemográfico aplicado a 170 psicólogos(as), incluindo a Escala de Tecnoestresse - RED/TIC. A amostra foi majoritariamente composta por mulheres (84%), brancas (64%), entre 24 e 35 anos (60%), sem filhos (72%), sendo 50% solteiros(as), 65% com pós-graduação e 61% formadas em instituições privadas. Os resultados indicam que, embora as plataformas digitais ofereçam vantagens, há sofrimentos relacionados ao excesso de trabalho, dificuldade em separar vida pessoal e profissional, e pressão pela produtividade imposta pelos algoritmos das mídias sociais. De acordo com os dados, 9% da população apresentam alto grau de tecnoestresse, enquanto 40% têm níveis moderados e 51% possuem níveis baixos. As dimensões mais impactadas foram a fadiga e a ansiedade, decorrentes da necessidade de permanecer sempre conectado e produzindo conteúdo. O fato de que 49% destes profissionais apresentam níveis de tecnoestresse relacionados ao uso de TICs é um dado alarmante, que exige a ampliação do debate sobre a plataformização do trabalho na Psicologia. A dificuldade em mensurar o tempo gasto nessa produção e a fragmentação da fronteira entre trabalho e vida pessoal agravam tais problemas. Além disso, muitos profissionais não percebem o tecnoestresse, sugerindo uma naturalização do sofrimento. A estigmatização da produção de conteúdo nas mídias sociais, especialmente pelos pares, também gera frustração, refletindo a falta de debates e pesquisas sobre o tema nas universidades. Conclui-se que a plataformização na Psicologia é um fenômeno recente e complexo, com impactos ambíguos: traz eventualmente fontes de prazer e rentabilidade, mas também sofrimento, precarização e intensificação da jornada de trabalho. É urgente ampliar o debate, priorizando a saúde mental desses profissionais e compreendendo as contradições dessas novas configurações de trabalho. Palavras-chave: plataformização do trabalho; uberização; psicologia clínica; mídias sociais; tecnoestresse. Estratégias de enfrentamento dos(as) psicólogos(as) clínicos(as) perante a plataformização do trabalho Jardel Melo Bonfim As investigações sobre a plataformização do trabalho têm evidenciado um cenário caracterizado pela exploração dos(as) trabalhadores(as) nas empresas-plataforma, que, embora neguem o vínculo empregatício, acabam por controlar rigorosamente as atividades laborais, mascarando essa realidade por meio da gestão algorítmica, como tem evidenciado as pesquisas críticas. Apesar da precarização das condições de trabalho, a literatura mostra que os(as) trabalhadores(as) não aceitam passivamente essa situação e têm desenvolvido estratégias para lidar com ela. Nesse contexto, a pesquisa em questão examina as formas de enfrentamento adotadas por psicólogos(as) clínicos(as) diante da plataformização de trabalho. O objetivo principal foi entender como esses profissionais lidam com o sofrimento no trabalho, quais as estratégias de defesa e as ações de mobilização que empregam. A base teórica adotada é a Psicodinâmica do Trabalho, que aborda o sofrimento no trabalho como um fenômeno inevitável que exige tanto estratégias defensivas quanto a mobilização coletiva para transformar as condições laborais. Além disso, recorre à sociologia crítica do trabalho e à escuta política do sofrimento, esta resgata a centralidade do trabalho sob a ótica marxista e dejouriana, mais vai além, ao estimular a reflexão e a ação dos(as) trabalhadores(as) para criar alternativas e novas formas de viver que possibilitem superar a mentalidade capitalista impulsionada pela lógica do empreendedor de si mesmo. A pesquisa revelou que, embora as estratégias de defesa individuais, como autocuidado e limitação da jornada de trabalho, sejam comuns, elas possuem um impacto limitado na transformação das condições de trabalho. Por outro lado, as estratégias coletivas, como a formação de grupos de apoio e a busca por reivindicações, têm se mostrado mais eficazes, embora a fragilidade do coletivo, exarcebado pela lógica neoliberal da individualização da vida, dificulte sua efetivação. Além disso, a pesquisa identificou que, apesar das adversidades, os(as) psicólogos(as) têm se mobilizado de forma criativa para enfrentar o sofrimento ético, buscando equilibrar os princípios da ética profissional com as exigências das plataformas, especialmente no que diz respeito ao preenchimento dos prontuários digitais. Em termos práticos, os resultados apontam para a necessidade urgente de mais estudos sobre o trabalho desses profissionais nesse contexto, além da criação de espaços de discussão organizados que permitam repensar o trabalho e buscar formas de pensar, sentir e agir que conduzam à emancipação do sistema capitalista neoliberal. Palavras-chave: psicólogos clínicos; plataformas digitais; estratégias de enfrentamento. A instrumentalização do sentido e a monetização de si no trabalho de streamers brasileiros Amanda Thuns Biazzi Com a propagação do acesso à internet, novas configurações de trabalho surgem atreladas à promessa neoliberal de “ganhar dinheiro fazendo o que ama” (Duffy, 2017). Tal lema flutua em nosso imaginário, representando a epítome do sujeito neoliberal: aquele que extrai possibilidades de sucesso de toda a sua existência, mesmo do lazer, em um constante investimento e lucro sob seu capital humano, se tornando um empreendedor de si (Dardot e Laval, 2016). Neste contexto surge a atividade do live streaming, associada principalmente à cultura de jogos digitais, enquanto uma possibilidade de tornar o jogo privado em público (Taylor, 2018) e, possivelmente, rentável. O live streaming é a transmissão de vídeo ao vivo realizada por usuários em plataformas de mídia, caracterizada pela difusão de conteúdo em tempo real com interação simultânea do público, mediada pela figura do streamer. A Twitch - propriedade da Amazon -, pioneira e maior plataforma de live streaming, apresenta-se como um espaço que permite que "os streamers construam comunidades para aumentar a sensação de pertencimento" (Twitch, 2025). Embora enquadrada pela empresa como uma atividade de lazer que estimula a socialização, realizar lives exige um trabalho significativo: os streamers devem planejar e organizar seu trabalho, mantendo dedicação constante, investimento subjetivo e de seus capitais (Bourdieu, 1986). Ademais, a plataforma se divulga enquanto um meio potencial de obter renda através da monetização, a qual é pautada nas interações sociais estabelecidas nas lives. Como resultado, categorias como socialização e monetização, lazer e trabalho, usuário e trabalhador se confundem e se entrelaçam. Apesar disso, a maior parte dos streamers exerce a atividade de forma não/sub-remunerada, movidos pelo sentido obtido na atividade (Dejours, 2011) e pela esperança de remuneração futura (Kuehn e Corrigan, 2013), aprofundando a incerteza ao definir live streaming enquanto trabalho. Diante dessas contradições, esta pesquisa buscou examinar como a governança das plataformas de live streaming molda as experiências subjetivas e a sociabilidade de streamers brasileiros, especialmente em relação à monetização do lazer, dos vínculos sociais e do trabalhador em si. Com base em uma etnografia digital (Fragoso, Recuero e Amaral, 2011) na plataforma Twitch e em histórias de vida laboral (Carreteiro, 2017) de sete streamers brasileiros, argumentamos que a Twitch estrutura o trabalho sub-remunerado na plataforma a partir da lógica da monetização de si: promete realização pessoal e financeira enquanto instrumentaliza sentidos, afetos e vínculos, promovendo a comodificação do sujeito. Palavras-chave: monetização; live streaming; sentido do trabalho; trabalho afetivo; mídias sociais.
Título do Evento
II CONTRAB - Congresso Brasileiro de Trabalho, Subjetividade e Práticas Clínicas
Cidade do Evento
Corumbá
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Brasileiro de Trabalho, Subjetividade e Práticas Clínicas: Capitalismo, devastação do planeta e transformações do trabalho
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

BRAZ, Matheus Viana; BONFIM, Jardel Melo; BIAZZI, Amanda Thuns. PLATAFORMIZAÇÃO, TRANSFORMAÇÕES E SAÚDE NO TRABALHO.. In: Anais do Congresso Brasileiro de Trabalho, subjetividade e práticas clínicas: Capitalismo, devastação do planeta e transformações do trabalho. Anais...Corumbá(MS) UFMS, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/contrab2025/1084786-PLATAFORMIZACAO-TRANSFORMACOES-E-SAUDE-NO-TRABALHO. Acesso em: 31/05/2026

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