ESPECTROCÍDIO E BIOPODER: O APAGAMENTO DA AUTISTICIDADE NA ORDEM NORMATIVA DOS CORPOS

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
ESPECTROCÍDIO E BIOPODER: O APAGAMENTO DA AUTISTICIDADE NA ORDEM NORMATIVA DOS CORPOS
Autores
  • Rodrigo Vieira De Freitas
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Ciência da Religião
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1271978-espectrocidio-e-biopoder--o-apagamento-da-autisticidade-na-ordem--normativa-dos-corpos
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
Discurso religioso, representações sociais, estigma, autismo, inclusão perversa
Resumo
O presente trabalho propõe uma análise crítica sobre os processos de apagamento simbólico, político e epistêmico das pessoas autistas na sociedade contemporânea, tomando como chave de leitura o conceito de espectrocídio, termo cunhado pelo autor desta proposta e desenvolvido em sua dissertação de mestrado, bem como em artigo em publicação na revista Estudos de Religião da UMESP. O espectrocídio designa o conjunto de práticas sociais, discursivas e institucionais que operam o aniquilamento da legitimidade da experiência autista, promovendo a sua substituição por um ideal normativo de funcionamento, comunicação e conduta. O trabalho articula os aportes teóricos de Michel Foucault, especialmente a noção de biopoder, e os pressupostos da Teoria Crip, que questiona os regimes de normalidade e a administração disciplinar dos corpos dissidentes, para discutir como o corpo autista é controlado, patologizado e desautorizado em sua própria existência. O conceito de espectrocídio nasce da necessidade de nomear uma violência estrutural que não se restringe à exclusão física ou institucional, mas se realiza através do silenciamento da linguagem autista, da invalidação de suas formas de presença no mundo e da tutela constante de sua subjetividade. Trata-se de uma forma de aniquilação simbólica e normativa operada em nome da inclusão, da adaptação e da normalização. Ao observar os modos como pessoas autistas são sistematicamente levadas a performar um comportamento funcionalmente aceitável, evidencia-se que há uma lógica de poder que ultrapassa a mera opressão individual: há um projeto político de gestão da vida que decide quais corpos merecem ser reconhecidos como dignos de existir plenamente. Nesse contexto, Michel Foucault (1979) contribui com a noção de biopoder, compreendido como a tecnologia moderna de governo que se desloca da punição do corpo para o controle da vida, disciplinando e regulando a conduta dos indivíduos a partir de normatizações que visam a produtividade, a funcionalidade e a docilidade. O corpo autista, por não corresponder aos padrões comunicacionais, sensoriais e sociais estabelecidos, é capturado por esse sistema como ameaça à ordem normativa, sendo alvo de intervenções corretivas, medicalizações, terapias de adaptação e discursos que o empurram para uma zona de invisibilidade ou sobreexposição tutelada. A Teoria Crip, desenvolvida por autores como Robert McRuer (2006), vem como aporte complementar ao deslocar a deficiência do campo da patologia e situá-la no campo da dissidência. A perspectiva Crip denuncia a lógica da normalização como um projeto político-cultural que impõe uma estética da integridade e da performance. Nesse sentido, ser autista em uma sociedade Cripfóbica é não apenas ser "diferente", mas ser deslegitimado como sujeito de saber, de fala e de verdade. Discutir criticamente como a normalização dos corpos opera o espectrocídio na contemporaneidade. Apresentar o conceito de espectrocídio como categoria analítica para compreender o biopoder sobre a vida autista. Articular o biopoder (Foucault) e a Teoria Crip (McRuer) na compreensão das formas contemporâneas de violência simbólica contra pessoas autistas. Trata-se de uma pesquisa teórico-conceitual, com abordagem qualitativa, fundamentada em revisão crítica de literatura e produção própria, com base na dissertação de mestrado em desenvolvimento pelo autor e no artigo publicado. O trabalho adota o referencial da análise crítica do discurso, da filosofia da diferença e dos estudos críticos da deficiência, integrando perspectivas interseccionais e decoloniais. A experiência vivida enquanto pessoa autista também é incorporada como lugar epistemológico legítimo, tensionando o lugar do pesquisador na produção do saber. O espectrocídio se manifesta em diversos níveis: na linguagem clínica que reduz o autismo à disfunção; na escola que valoriza apenas a adaptação e a sociabilidade funcional; no mundo do trabalho que exige produtividade sem ruídos; nos espaços públicos que silenciam a sobrecarga sensorial; e nas relações sociais que infantilizam ou descartam o autista. Esses elementos não são desconexos: formam um sistema de exclusão normativa sustentado por dispositivos de biopoder que governam as diferenças como anomalias a serem corrigidas. O discurso da inclusão, muitas vezes, é instrumentalizado como estratégia de controle e conformação. O sujeito autista é admitido, mas apenas se abdicar de seus modos próprios de existir. Isso gera o que se denomina inclusão perversa (Sawaia, 2014), onde o pertencimento é condicionado à anulação da diferença. O espectrocídio, nesse sentido, não é apenas social; é existencial. É uma política de morte simbólica de modos de vida que escapam à lógica da normalidade. Ao nomear e denunciar o espectrocídio, este trabalho convida à ruptura com os paradigmas de controle, adaptação forçada e tutela. Reivindica-se o direito à diferença radical, à existência legítima e plena da autisticidade, não como ruído na ordem, mas como parte constitutiva da diversidade humana. O combate ao espectrocídio exige o deslocamento epistemológico do centro normativo e o reconhecimento de saberes autistas como fundamentos para uma ética da escuta, da presença e da justiça. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FOUCAULT, Michel. O nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008. McRUER, Robert. Crip Theory: Cultural Signs of Queerness and Disability. New York: New York University Press, 2006. SAWAIA, Bader Burihan. As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade social. Petrópolis: Vozes, 2014. FREIRAS, Rodrigo Vieira de; FRANCO, CLARISSA De. Espectrocídio religioso: o autismo diante da violência da cura e da pureza. No prelo. WALKER, Nick. Neuroqueer heresies: notes on the neurodiversity paradigm, autistic empowerment, and postnormal possibilities. San Francisco: autonomous press, 2021.
Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

FREITAS, Rodrigo Vieira De. ESPECTROCÍDIO E BIOPODER: O APAGAMENTO DA AUTISTICIDADE NA ORDEM NORMATIVA DOS CORPOS.. In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1271978-ESPECTROCIDIO-E-BIOPODER--O-APAGAMENTO-DA-AUTISTICIDADE-NA-ORDEM--NORMATIVA-DOS-CORPOS. Acesso em: 07/03/2026

Trabalho

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