PERFORMANCE E TRAVESSIA: CORPOS DISSIDENTES, ANCESTRALIDADE E MÍDIA NA CENA DE LINIKER E ILÚ OBÁ DE MIN NA SÉRIE 3% DA NETFLIX

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
PERFORMANCE E TRAVESSIA: CORPOS DISSIDENTES, ANCESTRALIDADE E MÍDIA NA CENA DE LINIKER E ILÚ OBÁ DE MIN NA SÉRIE 3% DA NETFLIX
Autores
  • Natalhe Vieni
  • Mariana Corrêa Lenk
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Comunicação
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1263639-performance-e-travessia--corpos-dissidentes-ancestralidade-e-midia-na-cena-de-liniker-e-ilu-oba-de-min-na-serie
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
performance; identidade; mídia; representação; ancestralidade
Resumo
Este artigo analisa a presença da artista Liniker, mulher trans e negra, em conjunto com o coletivo afro-brasileiro Ilú Obá de Min, na segunda temporada da série 3% da Netflix. A cena escolhida, transformada em videoclipe da canção Preciso me Encontrar, de Candeia, mobiliza visualidade, música, ancestralidade e movimento como dispositivos estéticos e políticos. O objetivo central é compreender como a performance articula raça, gênero e ancestralidade para construir uma narrativa transversal de resistência, reexistência e pertencimento na mídia contemporânea. O ponto de partida é a constatação de que corpos dissidentes historicamente foram apagados ou estereotipados pela mídia brasileira. A emergência de artistas como Liniker, Linn da Quebrada e coletivos como o Ilú Obá de Min rompe esse apagamento ao instaurar uma pedagogia estética que inscreve a ancestralidade negra e a diversidade de gênero no centro da cena. A análise parte da hipótese de que tais presenças não se limitam a representar, mas agenciam novos modos de visibilidade, deslocando códigos tradicionais e instaurando contravisibilidades que tensionam as normas culturais. A fundamentação teórica se ancora em Judith Butler (2024), com a teoria da performatividade, que interpreta o gênero como prática discursiva e repetição transformável das normas sociais; em Angela Davis (2024), que problematiza as interseções entre racismo, sexismo e capitalismo, situando a experiência da mulher negra como lugar estratégico de resistência; em Muniz Sodré (2023), com a reflexão sobre o corpo negro como signo de potência criadora e sobre a comunicação ancorada em matrizes afro-brasileiras; e em Stuart Hall (2006), que discute a fragmentação identitária na pós-modernidade. O cruzamento desses referenciais possibilita compreender Liniker não apenas como artista, mas como linguagem viva, corpo-símbolo que encarna deslocamentos sociais, políticos e espirituais. A metodologia adotada é qualitativa, com análise de conteúdo e observação descritiva aplicada a três cenas do videoclipe: (1) a entrada ritualizada de Liniker em cortejo, carregada como figura régia e coroada pelo silêncio inicial rompido pela voz; (2) a mobilização comunitária, em que a multidão se envolve progressivamente, marcada pela aparição de personagens como o homem em cadeira de rodas e a mulher do violino, símbolos de resistência cotidiana; e (3) o clímax coletivo, com a presença das dançarinas do Ilú Obá de Min, bonecos com corações flamejantes e a fusão entre violino e tambores, transformando a cena em bloco popular de diversidade e ancestralidade. Na discussão, observa-se que a performance, ao contrário de reforçar estereótipos de dor ou marginalidade, projeta o corpo negro e trans como signo de potência simbólica e estética. A cena desloca o olhar do espectador da lógica individualista para o coletivo, do entretenimento neutro para a celebração ritual. O gesto performático não é apenas representação, mas ação social, capaz de instaurar brechas contra-hegemônicas no campo da mídia mainstream. Liniker, nesse contexto, corporifica o que Butler chama de “ato performativo não conformista”, ao desafiar a matriz heterossexual compulsória; enquanto Davis ajuda a situar sua presença no continuum histórico da luta das mulheres negras por reconhecimento. Sodré permite ler a cena como contravisibilidade, onde a cor deixa de ser índice de carência e torna-se signo de criação. Hall, por sua vez, possibilita compreender Liniker como sujeito pós-moderno fragmentado, cuja identidade se constrói em trânsito e multiplicidade. A análise revela que a performance audiovisual se organiza como travessia: do silêncio inicial à celebração compartilhada, do indivíduo ao coletivo, da dor à potência. O rito, encenado na distopia ficcional de 3%, transforma-se em gesto de futuro ancestral, em que corpos dissidentes se tornam pedagogos simbólicos da resistência. O Ilú Obá de Min, ao trazer seus tambores, danças e cosmologias afro-brasileiras, reinscreve a ancestralidade na linguagem midiática, evidenciando que a cultura negra e feminina não é apenas representação, mas estrutura de mundo. Conclui-se que a presença de Liniker e do Ilú Obá de Min no audiovisual globalizado atua como fissura no discurso hegemônico, abrindo espaço para novos regimes de visibilidade. A cena analisada mostra que a comunicação não é neutra: é campo de disputa simbólica e estética, onde se forjam imaginários sociais. Nesse sentido, a performance analisada é mais que entretenimento — é um gesto político, espiritual e artístico, que afirma a vida em sua multiplicidade. Assim, o artigo sustenta que produções midiáticas como 3%, ao inserir corpos trans e negros em posições centrais, podem provocar deslocamentos profundos no imaginário coletivo. Ainda que tensionadas pelas lógicas de mercado, tais performances são capazes de reconfigurar sensibilidades, instaurar escutas e convocar novos pertencimentos. O corpo de Liniker, em aliança com o coletivo Ilú Obá de Min, torna-se símbolo de travessia e convocação, afirmando que não há futuro possível sem diversidade, sem ancestralidade e sem a potência criadora dos corpos dissidentes.
Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

VIENI, Natalhe; LENK, Mariana Corrêa. PERFORMANCE E TRAVESSIA: CORPOS DISSIDENTES, ANCESTRALIDADE E MÍDIA NA CENA DE LINIKER E ILÚ OBÁ DE MIN NA SÉRIE 3% DA NETFLIX.. In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1263639-PERFORMANCE-E-TRAVESSIA--CORPOS-DISSIDENTES-ANCESTRALIDADE-E-MIDIA-NA-CENA-DE-LINIKER-E-ILU-OBA-DE-MIN-NA-SERIE. Acesso em: 12/03/2026

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