DECOLONIALIDADE E A HISTORIOGRAFIA DO CRISTIANISMO AFRICANO: O EGITO ENTRE A AFRICANIDADE E O APAGAMENTO

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
DECOLONIALIDADE E A HISTORIOGRAFIA DO CRISTIANISMO AFRICANO: O EGITO ENTRE A AFRICANIDADE E O APAGAMENTO
Autores
  • Vitor Emanoel Correa De Mesquita
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Ciência da Religião
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1257239-decolonialidade-e-a-historiografia-do-cristianismo-africano--o-egito-entre-a-africanidade-e-o-apagamento
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
Decolonialidade; Cristianismo Africano; Egito; Historiografia; Cristianismo egípcio.
Resumo
Esta comunicação, investiga a complexa posição do Egito na historiografia do cristianismo africano, analisando como as estruturas da colonialidade do saber promoveram um apagamento de sua africanidade. Explora as raízes do cristianismo primitivo no Egito. Discute movimentos contemporâneos que visam reintegrar a história do cristianismo egípcio na narrativa da fé africana. A pergunta "O Egito é africano?" revela disputas historiográficas. Desde o século XIX, a academia ocidental deslocou o Egito de sua localização africana, privilegiando conexões mediterrâneas. Essa operação recusa reconhecer o Egito como berço de tradições cristãs antigas. A historiografia do cristianismo traçou uma trajetória linear de Jerusalém para Atenas e Roma, com o Ocidente como guardião da fé. A África aparece tardiamente, como campo missionário subalterno. Esta visão é um artefato da "colonialidade do saber" (Mignolo, 2011). O Egito, centro vibrante do cristianismo, teve sua identidade cristã despojada de africanidade. O cristianismo copta é enquadrado como "oriental" ou "mediterrâneo", subtraindo-o do continente. Tal apagamento é uma operação epistemológica deliberada, alinhada à lógica da colonialidade. Ao criar uma "exceção egípcia", o pensamento eurocêntrico reivindica o legado de Alexandria e mantém a imagem de uma África "subsaariana" como "outro" absoluto. Bediako (2004, p. 153) e Oden (2011, p. 3) destacam a memória de Atanásio de Alexandria como "pai" africano, memória suprimida pela historiografia ocidental. Este trabalho propõe análise decolonial, focando no Egito para desconstruir fronteiras epistêmicas e reintegrá-lo em sua matriz africana. A presença cristã na África é coeva aos primórdios da fé. O continente é central, como a fuga da Sagrada Família para o Egito (Mateus 2:13-15) e o encontro de Filipe com o eunuco etíope (Atos 8:26-39), simbolizando transmissão direta da fé (Bediako, 2004, p. 154). Figuras como Tertuliano (Drobner, 2003, p. 160-165) e Santo Agostinho (Drobner, 2003, p. 395-420) são relevantes. O cristianismo já estava no Egito no final do século II (Griggs, 1991). Oden (2011, p. 67) descreve um "helenismo africano". A contribuição mais singular foi o monaquismo, com Santo Antão e São Pacômio, modelo para a cristandade. Atanásio de Alexandria, defensor da divindade de Cristo em Niceia (325), consagrou Frumentius como bispo da Etiópia (Bediako, 2004, p. 153). O cristianismo primitivo no Egito foi vibrante e africano, moldando o cristianismo mundial. A presença cristã no Egito se manifesta na transição para o copta, afirmando a língua do povo como veículo divino (Sanneh, 1989). Oden (2011, p. 63) refuta a romanização de Tertuliano, Cipriano e Agostinho, afirmando a vitalidade de seu pensamento africano. O monaquismo foi resposta às condições egípcias (Sundkler e Steed, 2000, p. 13). A arte copta expressa sensibilidade teológica, com a "era dos mártires" cimentando a identidade da Igreja Copta (Sundkler; Steed, 2000, p. 11). A marginalização do Egito da história africana é exemplo da "colonialidade do saber" (Quijano, Mignolo), que hierarquizou o mundo. A civilização egípcia desafiava essa narrativa, então foi racializada e geografada, separada do continente (Diop, 1974). Essa lógica de exceção foi aplicada ao cristianismo, reclassificando igrejas africanas como "latinas" ou "gregas" (Oden, 2011, p. 63). Mbembe (1988) critica a persistência dessa mentalidade, que impede a compreensão do cristianismo como força endógena. O cristianismo egípcio desmente essa visão. Seu apagamento foi condição para a invenção de uma "África" sem história cristã robusta. A tarefa decolonial é restaurar a integridade histórica. A construção do Egito como "exceção" está ligada ao racismo científico e ao projeto imperial. Said (1979) mostra o "Oriente" como construção europeia. O Egito foi agrupado ao "Oriente", enquanto a África "real" foi relegada ao primitivismo. Mbembe (1988) descreve a figura do "Negro" como significante da alteridade. A historiografia colonial não admitia continuidade entre Egito e o resto do continente. Essa fratura é visível na institucionalização dos estudos africanos, separando egiptologia dos estudos subsaarianos. Nos estudos cristãos, criou histórias paralelas. A colonialidade do saber moldou disciplinas. Descolonizar a historiografia implica trabalho interdisciplinar, reconhecendo que a identidade africana não é definida por critérios externos (Oden, 2011, p. 69). O pós-colonial testemunhou esforço para desmantelar narrativas e reconstruir a história africana. Nos estudos religiosos, resgatou-se a história do cristianismo no continente, com Egito e Norte da África reassumindo destaque. O resgate da memória cristã africana é "insubordinação simbólica" (Bayart). A academia, com Mbiti, Bediako, Walls e Oden, desafia o paradigma eurocêntrico. Mbiti (1969) viu religiões africanas como "preparação para o Evangelho". Walls (1998) articulou a "translatabilidade" do cristianismo, reintegrando Egito, Núbia e Etiópia (Bediako, 2004, p. 155). Oden, em "How Africa Shaped the Christian Mind" (2011), documenta contribuições norte-africanas, desafiando a "amnésia seletiva" ocidental (Oden, 2011, p. 71). Este movimento força reavaliação do cânone teológico ocidental, abrindo-o a uma história global policêntrica (Bediako, 2004, p. 160). Este movimento acadêmico se alinha à crescente consciência nas comunidades eclesiais africanas. O "Etiopianismo" no século XIX já buscava conexão com cristianismo autônomo. Mbembe (2023) diz que descolonização implica "reabrir os futuros". Ao reivindicar a história do cristianismo egípcio, africanos expandem identidades. O processo se manifesta em solidariedade Sul-Sul, reativando diálogo entre Igreja Copta e igrejas subsaarianas. Essa reconexão é política e cultural, desafiando a fronteira do Saara e reconstruindo a unidade (Mbembe, 2023, p. 86). A remoção do Egito de sua matriz africana foi estratégia epistêmica para construir uma África "outra", sem antiguidade intelectual, terreno para a "missão civilizadora" europeia. O Saara, de ponte, virou fronteira de silêncio, separando uma África "branca" e "histórica" de uma "negra" e "a-histórica". Essa fratura perpetuou visão distorcida (Bayart, Mbembe). O resgate contemporâneo deste legado, impulsionado por acadêmicos e consciência eclesial, é "insubordinação simbólica". Ao reivindicar Egito e Pais da Igreja africanos, cristãos africanos descolonizam a memória, redefinindo identidade e afirmando centralidade no cristianismo global. A reintegração do Egito na narrativa do cristianismo africano é passo indispensável para curar a fratura colonial. REFERÊNCIAS BEDIAKO, Kwame. Africa and Christian Identity: recovering an ancient story. The Princeton Seminary Bulletin, v. 25, n. 2, p. 153-161, 2004. Disponível em: <https://ia800509.us.archive.org/14/items/princetonseminar2522prin/princetonseminar2522prin.pdf>. SUNDKLER, Bengt; STEED, Christopher. A History of the Church in Africa. Cambridge University Press, 2000. ISICHEI, Elizabeth. A History of Christianity in Africa: from antiquity to the present. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1995. KALU, Ogbu (ed.). African Christianity: an african story. Pretoria: University of Pretoria, 2005. EASTMAN, David L. Cristianismo Primitivo no Norte da África. Editora Pro Nobis, 2023. MIGNOLO, Walter D. The Darker Side of Western Modernity: Global Futures, Decolonial Options. Durham: Duke University Press, 2011. SANNEH, Lamin. Translating the Message: The Missionary Impact on Culture. Maryknoll: Orbis Books, 1989. DIOP, Cheikh Anta. The African Origin of Civilization: Myth or Reality. Chicago: Lawrence Hill Books, 1974. WALLS, Andrew F. “Africa in Christian History — Retrospect and Prospect.” Journal of African Christian Thought 1/1 (1998): 2-15. SAID, Edward W. Orientalism. New York: Pantheon Books, 1978. MBITI, John S. African Religions and Philosophy. London: Heinemann, 1969.
Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

MESQUITA, Vitor Emanoel Correa De. DECOLONIALIDADE E A HISTORIOGRAFIA DO CRISTIANISMO AFRICANO: O EGITO ENTRE A AFRICANIDADE E O APAGAMENTO.. In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1257239-DECOLONIALIDADE-E-A-HISTORIOGRAFIA-DO-CRISTIANISMO-AFRICANO--O-EGITO-ENTRE-A-AFRICANIDADE-E-O-APAGAMENTO. Acesso em: 13/03/2026

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