EXU, O ORIXÁ DA LINGUAGEM: DESAFIOS DE UMA ONTOLOGIA RELIGIOSA AFRO-DIASPÓRICA- BRASILEIRA À EPISTEMOLOGIA PSICANALÍTICA DO SUJEITO FREUDIANO

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
EXU, O ORIXÁ DA LINGUAGEM: DESAFIOS DE UMA ONTOLOGIA RELIGIOSA AFRO-DIASPÓRICA- BRASILEIRA À EPISTEMOLOGIA PSICANALÍTICA DO SUJEITO FREUDIANO
Autores
  • Raul Bertolucci
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Ciência da Religião
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1254965-exu-o-orixa-da-linguagem--desafios-de-uma-ontologia-religiosa-afro-diasporica--brasileira-a-epistemologia-psica
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
Exu; inconsciente; psicanálise; decolonialidade; candomblé; ciências da religião
Resumo
Este projeto de pesquisa propõe um diálogo crítico e transversal entre a psicanálise freudiana e a cosmovisão iorubana presente no Candomblé, tomando Exu como figura central de mediação simbólica, teórica e epistemológica. Trata-se de uma investigação que parte da hermenêutica decolonial para tensionar as concepções clássicas do inconsciente, formuladas por Freud (1914), no contexto europeu do século XIX, com modos de compreender o desejo e a subjetividade oriundos das tradições africanas. Enquanto na psicanálise freudiana o sujeito se estrutura a partir de cisões – como a que separa homem e natureza – e conflitos marcados pela repressão moral e pela ambivalência, nas tradições iorubanas a pessoa se constitui por atravessamentos e trânsitos, numa constante negociação entre o visível e o invisível, o individual e o coletivo, o humano e o divino. A análise parte das formulações freudianas sobre a neurose, a repressão e o papel da moral na formação do inconsciente, compreendendo que tais conceitos carregam uma marca cultural específica: a de um projeto epistemológico eurocêntrico, modelado por ideais patriarcais e brancos, que universalizou experiências particulares. Freud ao instituir o Édipo e a lógica da castração como núcleos estruturantes da subjetividade, construiu um referencial que, embora potente, não contempla outras cosmologias e formas de viver o desejo. Nesse ponto, a pesquisa convoca autores como Frantz Fanon (2008), Grada Kilomba (2019) e Lélia (2020) Gonzalez para explicitar como os dispositivos coloniais atravessam e limitam a própria teoria psicanalítica, mostrando que o que se apresentou como universal é, muitas vezes, uma construção histórica e situada. No universo iorubano, Exu surge como chave de leitura e força disruptiva. Orixá da Linguagem, do movimento, da contradição e da encruzilhada, não se reduz ao papel de guardião de portais: ele é o próprio princípio de comunicação e troca, aquele que embaralha e reorganiza sentidos. No Candomblé, Exu não opera pela lógica da falta, mas pela potência da multiplicidade e da transformação. Pensar o inconsciente a partir de Exu implica deslocar a centralidade do recalcado para o gesto, o rito e o corpo, compreendendo que a verdade psíquica não se manifesta apenas na fala analisada, mas também na dança, no canto, no riso e no rito. Nesse sentido, o inconsciente não é apenas um depósito de conteúdos reprimidos, mas um campo vivo de mediações e relações, atravessado por forças comunitárias e coletivas. A pesquisa propõe, assim, um encontro entre epistemologias que não buscam reduzir uma à outra, mas permitir que se interpelem mutuamente. Essa perspectiva desloca a posição da psicanálise como lente única para interpretar o sujeito, oferecendo, em contrapartida, a possibilidade de que a cosmovisão iorubana também analise e problematize os pressupostos psicanalíticos. Ao incorporar Exu como operador conceitual, o trabalho não apenas amplia a compreensão do inconsciente, mas também questiona a ideia de que a ciência ocidental detém o monopólio da produção de conhecimento legítimo. No campo das Ciências da Religião, esta investigação contribui ao propor novas categorias para compreender o sagrado e a experiência religiosa. Ao invés de enquadrar as religiões de matriz africana como objetos a serem traduzidos pela gramática ocidental, a pesquisa as reconhece como sistemas epistemológicos autônomos e criadores de teoria. Isso significa que, ao estudar Exu, não se busca apenas uma “interpretação simbólica” compatível com os moldes europeus, mas uma escuta que acolha sua lógica própria – uma lógica que se constrói no trânsito entre mundos e na coexistência de opostos. Metodologicamente, o estudo será qualitativo, teórico e bibliográfico, combinando análise de textos fundadores da psicanálise com registros orais, literários e etnográficos sobre o culto a Exu no Brasil, especialmente os estudos de Pierre Verger e Reginaldo Prandi. Essa abordagem integrará também o diálogo com pensadores decoloniais, como Frantz Fanon, Grada Kilomba e Lélia Gonzalez, permitindo que o referencial teórico se construa a partir da encruzilhada entre campos disciplinares e tradições distintas. Ao mesmo tempo, busca-se produzir um conhecimento comprometido com as lutas políticas e simbólicas que envolvem a preservação e o reconhecimento das religiões afro-brasileiras. Assim, este projeto não é apenas uma comparação entre dois sistemas de pensamento, mas um exercício de deslocamento epistemológico. Ao assumir Exu como guia metodológico, propõe-se que o próprio percurso de pesquisa se dê como uma travessia, aberta à ambiguidade e à surpresa, sem se submeter ao ideal moderno de unidade e linearidade. Em última instância, trata-se de reivindicar um inconsciente que também fale iorubá, que se mova ao ritmo do atabaque, que reconheça no corpo e no rito lugares legítimos de produção de sentido e de subjetividade. Este é o gesto de encruzilhada que se oferece às Ciências da Religião: um convite para pensar o sagrado, a linguagem e o sujeito para além das fronteiras coloniais, permitindo que novas vozes, corpos e deuses possam habitar o campo acadêmico em toda a sua complexidade e vitalidade. Referencias: FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas (1952). Trad. Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008. FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914) In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. v. XIV. GONZALEZ, Lélia; RIOS, Flavia; LIMA, Márcia (Orgs.). Por um feminismo afrolatino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. 2. ed. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019. PIERRE, Verger. Orixás: Deuses iorubás na África e no Novo Mundo. 6. ed. Salvador, 2002.
Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

BERTOLUCCI, Raul. EXU, O ORIXÁ DA LINGUAGEM: DESAFIOS DE UMA ONTOLOGIA RELIGIOSA AFRO-DIASPÓRICA- BRASILEIRA À EPISTEMOLOGIA PSICANALÍTICA DO SUJEITO FREUDIANO.. In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1254965-EXU-O-ORIXA-DA-LINGUAGEM--DESAFIOS-DE-UMA-ONTOLOGIA-RELIGIOSA-AFRO-DIASPORICA--BRASILEIRA-A-EPISTEMOLOGIA-PSICA. Acesso em: 13/03/2026

Trabalho

Even3 Publicacoes