AS QUESTÕES CLIMÁTICAS NA PERSPECTIVA DE AILTON KRENAK

Publicado em 05/10/2025 - ISBN: 978-65-272-1729-9

Título do Trabalho
AS QUESTÕES CLIMÁTICAS NA PERSPECTIVA DE AILTON KRENAK
Autores
  • Paulo Dourian Pereira de Carvalho
Modalidade
Painel Temático 06 - Cosmopolíticas indígenas e relações multiespécies
Área temática
Cosmologias e naturezas
Data de Publicação
05/10/2025
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/ciclo-etnologia-indigena/1233706-as-questoes-climaticas-na-perspectiva-de-ailton-krenak
ISBN
978-65-272-1729-9
Palavras-Chave
Questões climáticas, perspectivas indígenas, Ailton Krenak, literatura.
Resumo
Este resumo tem como objetivo apresentar o projeto da minha pesquisa de pós-doutorado, que se propõe a investigar como as questões climáticas estão sendo narradas pelo escritor e filósofo indígena Ailton Krenak. Trata-se de uma pesquisa que está nos primeiros passos. Portanto, esta oportunidade de comunicação objetiva, também, estabelecer diálogos para a apreensão de insights de pesquisa e contribuições diversas que possam ajudar na construção da investigação. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa de cunho bibliográfico, que pretende analisar o conteúdo da obra de Krenak, com enfoque nas questões climáticas na era do Antropoceno. Por intermédio da análise de livros, palestras e produções culturais disponíveis e acessíveis nas redes, busca-se elaborar uma pesquisa comprometida em trazer à baila das discussões os saberes indígenas — isto é, suas cosmologias e narrativas — que podem auxiliar os brancos a "adiar o fim do mundo". Além disso, pretende-se valorizar os discursos e as verdades dos povos tradicionais, que desafiam, de maneira criativa, as ideologias e hegemonias dos ditos "povos civilizados", ou melhor dizendo: os povos da mercadoria. Com esta investigação, busca-se tornar o diálogo entre saberes indígenas e não indígenas uma prática cada vez mais frequente e produtora de novas formas de se relacionar com a diferença.Através da análise de conteúdo da obra literária de Krenak, pretende-se compreender um pouco dos diversos ensinamentos que os povos tradicionais têm para transmitir aos ocidentais, a fim de que o mundo não seja traído, novamente, por uma vontade sedenta de exploração e ganância dos "homens da mercadoria". Esta investigação se soma aos esforços de se criar histórias alternativas e contra culturais que possibilitam questionar e ressignificar as histórias e saberes que se pretendem únicos e que se mantém através de relações de poder historicamente localizados. TRABALHO COMPLETO Introdução Trecho do livro A vida não é útil Estamos a tal ponto dopados por essa realidade nefasta de consumo e entretenimento que nos desconectamos do organismo vivo da Terra. Com todas as evidências, as geleiras derretendo, os oceanos cheios de lixo, as listas de espécies em extinção aumentando, será que a única maneira de mostrar para os negacionistas que a Terra é um organismo vivo é esquartejá-la? Picá-la em pedaços e mostrar: “Olha, ela é viva”? É de uma estupidez absurda. (KRENAK, 2020-2021, p.18) Ailton Alves Lacerda Krenak, da etnia krenaque, nascido em 29 de setembro de 1953, emerge como um dos grandes líderes indígenas do Brasil e merece destaque por seu histórico trabalho como ativista do movimento socioambiental. Alfabetizado aos 18 anos, foi responsável por organizar a Aliança dos Povos da Floresta, composta por comunidades ribeirinhas e indígenas na Amazônia. Ailton também contribuiu para a criação da União das Nações Indígenas, entidade representativa dos direitos indígenas. Desde os anos 80, Krenak luta pelos seus “parentes”, tendo tido uma participação fundamental na Constituição de 1988. Um documento histórico para a construção dos direitos indígenas. No ano de 2016, Ailton recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais e no ano de 2020 foi homenageado com o título de "intelectual do ano" pela União Brasileira de Escritores (UBE), ocasião em que recebeu o troféu Juca Pato, um importante reconhecimento da literatura brasileira. Além disso, Krenak é filósofo, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras. Os saberes que compartilha têm alcançado eco internacional ao denunciar os ataques dos povos “brancos” ao Organismo Vivo que é a terra. O autor relacionada a violência colonial à crise climática, na medida em que critica duramente as narrativa falaciosas que postulam uma “sustentabilidade capitalista” ou mesmo o conceito contraditório de “desenvolvimento sustentável”, defendo que não pode haver nem sustentabilidade e , tampouco, desenvolvimento em um sistema de exploração brutal que toma a Natureza, a Terra e os seus habitantes como recursos, ou melhor, mercadorias. Ao propor conceitos como “florestania” e “floricidade” para repensar a relação entre cidade e natureza, Krenak convida o ocidente a repensar as bases que sustentam os modos como se relacionam e pensam sobre o Planeta e os seres humanos e não humanos que o compõem. Em obras como Pensando com a cabeça na Terra (2017), Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019), O Amanhã Não está à Venda (2020), A Vida Não é Útil (2020-2021),, Firmando o pé no território, Lugares de Origem com Yussef Campos, O Sistema e o Antissistema: Três Ensaios, Três Mundos no Mesmo Mundo,, Futuro Ancestral (2022), Kuján e os Meninos Sabidos (2024), todas obras em que o autor esboça uma visão crítica da modernidade e, sobretudo, do capitalismo neoliberal, destacando a importância de mirarmos de nos reconectarmos com a Mãe Terra, e com o engajamento na construção de futuros coletivos baseados no compartilhamento de saberes ancestrais e na escuta da Terra. No sentido de aprofundar os diálogos entre os saberes do ocidente e os saberes indígenas, esta pesquisa busca refletir sobre as questões climáticas no pensamento de Ailton Krenak. O que pretendo fazer é uma espécie de etnografia nos textos do autor, no sentido de compreender os significados, sentidos, e compreensões de Krenak acerca das questões climáticas no Antropoceno. O material analisado serão as obras do autor, bem como documentários, entrevistas e textos escritos por Krenak, que toquem no tema das questões climáticas e articulam saberes indígenas e práticas de cuidado ecológico para pensar a crise climática e propor formas políticas de justiça ambiental. Esta é uma pesquisa eminentemente compreensiva e ensaística, baseada na análise de conteúdo da fortuna crítica de Krenak. Uma investigação desta natureza, justifica-se pela necessidade premente de construir contra discursos capazes de barrar e criar resistências frente ao rolo compressor branco que desde a época da colonização ameaça a biodiversidade e o equilíbrio de Gaia. Por meio de fichamentos e análise do material pretende-se mapear os conceitos centrais em Krenak, tais como racismo ambiental, florestania e futuro ancestral, aproximar essas visões com teorias antropológicas sobre cosmopolítica (Viveiros de Castro, Latour, Danowski) e justiça ambiental no sentido de estabelecer um espaço de debate entre os saberes. Além disso, entrevistas com lideranças indígenas e intelectuais indígenas, além de pesquisadores ligados à temática da pesquisa. Todo material recolhido e analisado será fonte para a criação de comunicações, materiais didáticos sobre as questões climáticas, seminários de reflexão coletiva e de partilha de saberes, além da construção de artigos e participação em eventos científicos que possibilitem a abertura à perspectiva de Krenak, aos saberes indígenas, cosmopolíticas e ontologias ameríndias. Nesta era das catástrofes, parafraseando o livro homônimo da filósofa Isabelle Stengers, ou do abismo da catástrofe ecológica, nas palavras de Débora Danowski, diante da crise climática global, e frente ao ponto de não retorno para onde caminhamos todos nós, humanos e não humanos, nessa espécie de encruzilhada, isto é, um momento decisivo em que há a necessidade de mudarmos completamente o modo de nos relacionarmos com o Planeta e os seus habitantes, mais do que nunca, acredito, é urgente tecermos esse diálogo com aqueles que vieram antes de nós, com aqueles que já vivenciaram um fim do mundo, desencadeado pelo “povo da mercadoria”, tal como Davi Kopenawa (2015) nomeia em A queda do céu os brancos, que historicamente tratam os elementos da natureza como meros recursos a serem queimados e exauridos na fornalha ardente e destrutiva do capitalismo neoliberal. Nesta investigação, para a coleta do material será utilizada a técnica de fichamentos, cujo conteúdo será disposto em uma tabela, contendo os seguintes elementos: autor, tipo de produção, ano de publicação, conteúdo e fonte pesquisada. Após a coleta e organização dos dados, as interpretações do material selecionado, bem como o diálogo estabelecido contará com as contribuições de autores (as) como: Eduardo Viveiros de Castro, Bruno Latour, Isabelle Stengers, Débora Danowski, Tim Ingold, além de pensadores e pensadoras afinados com uma perspectiva “contra colonial”, parafraseando o próprio Krenak ao nos informar do lugar de onde nasce a sua fala. Tecer uma ecologia de saberes acerca da crise climática nos direciona à compreensão das múltiplas formas de conhecimento, não apenas científicas, mas também os saberes ancestrais. Entendemos que a voz de Ailton Krenak oferece um olhar crítico à ecologia moderna e ao discurso da sustentabilidade capitalista, denunciando o racismo ambiental e propondo alternativas baseadas em escuta da Terra para o estabelecimento de uma nova ética ambiental, planetária e climática. Em um contexto em que políticas ambientais nacionais e internacionais frequentemente marginalizam populações originárias, este estudo contribui para o fortalecimento de epistemologias subalternizadas pelo Poder Colonial. Para Krenak, estamos indissoluvelmente ligados uns aos outros, por isso a importância do despertar de uma consciência coletiva, de ações conjuntas motivadas pela ideia de um futuro partilhado entre nós, humanos e as outras formas de vida. Acredito, tal como Krenak, que a construção de novas maneiras de viver e existir são urgentes, e que elas podem se dar em encontros como esse, em nós, brancos, podemos aprender com a sabedoria dos povos originários, através do que o professor Orivaldo Pimentel (2019) vai chamar de “parcerias do conhecimento”, uma via alternativa à ciência tradicional que desconsidera as potencialidades das vozes subalternizadas. O pensamento de Krenak e a perspectiva que ele partilha sobre as questões climáticas, nasce de um lugar de resistência, como se ele fosse um intérprete para nós, “brancos”, dos sentimentos que germinam do coração da própria Terra, das emoções que só se revelam aos seres que aprenderam a escutar as palavras de Gaia. Espero que esta pesquisa possa ampliar, em alguma medida, esse campo de escuta. Aspiro que isso possa se dar através de um pacto etnográfico, nas palavras de Eduardo Viveiros de Castro: Como prossegue Albert, o etnógrafo deve estar preparado para compreender que o objetivo principal dos seus interlocutores indígenas, e o fundamento de sua cooperação, é o de converter o pesquisador em um aliado político, em seu representante diplomático ou intérprete junto à sociedade de onde ele provém, invertendo assim, tanto quanto possível, os termos da “troca desigual” subjacente à relação etnográfica. Os nativos aceitam se objetivar perante o observador estrangeiro na medida em que este aceite (e esteja tecnicamente preparado para isso) representá-los adequadamente perante a sociedade que os acossa e assedia — tal é o “pacto etnográfico” (KOPENAWA, 2015, p.18). Discussão teórica Trecho de Caminhos para o bem-viver: Os nossos parentes Quechua e Aymara têm, ambos, em suas línguas, com pequena diferença de expressão, uma palavra que é Sumak Kawsai. “O Sumak Kawsai é uma expressão que nomeia um modo de estar na Terra, um modo de estar no mundo. Esse modo de estar na Terra tem a ver com a cosmovisão constituída pela vida das pessoas e de todos os outros seres que compartilham o ar com a gente, que bebem água com a gente e que pisam nessa terra junto com a gente. Esses seres todos, essa constelação de seres, é que constituem uma cosmovisão.” (KRENAK, 2000, p.6). É por partilhar desta cosmovisão que faço esta pesquisa, e evoco o pensamento de Ailton Krenak, cuja narrativa nos ajuda a pensar o colapso climático que nos aflige no Antropoceno. A aproximação dos saberes propostos por Krenak pode nos ajudar a ampliar o nosso repertório existencial, a fim de que possamos estabelecer relações de respeito, contemplação e gratidão pelas dádivas que Gaia nos concede. Mas não só isso, nos permite criar alternativas epistêmicas e existenciais para combater os reiterados negacionismos climáticos que, de maneira irresponsável e egoísta defendem que não existe Antropoceno e tampouco crise climática. Tal negação e falseamento da realidade e dos fatos ameaça a sobrevivência de todas e todos nós e é sustentado pelas mesmas forças econômicas que querem o aval para continuar poluindo o planeta com a queima desenfreada de combustíveis fósseis, uma atividade genocida com as nossas florestas para alimentar a indústria do consumo, que é retroalimentada pelo desejo insaciável por produtos e coisas que nunca trazem a dita felicidade que tanto prometem, mas que são motivadas pelas necessidades inventadas pela ideologia capitalista. As reflexões de Krenak nos convocam a uma responsabilidade coletiva, o que envolve a criação de laços de solidariedade e de uma ética ambiental e planetária que não despreza as relações de interdependência e coexistência entre humanos e não humanos, entre homens e rios, mares, montanhas,florestas e seres da natureza, que estão muito mais próximos do que supõe as visões reducionistas dos brancos que concebe esses outros seres como entes seperados, sendo que nas cosmovisões de Krenak, e de seus parentes, todos fazem parte de uma grande família, diversa, complexa e rizomática. Na obra O amanhã não está à venda, Krenak (2020, p.6) aponta que precisamos abandonar o antropocentrismo que concebe os seres humanos como o “sal da terra”. Ao invés dos humanos surgirem neste mundo como elementos que propiciam benefícios a Gaia e aos outros seres, manifestamos uma ganância perniciosa por recursos, que nos leva a devorar a terra, tal como uma máquina de destruição que consome florestas, rios, animais, minérios e a própria vida da Terra. “Somos piores que a Covid-19”, alerta Krenak (2020, p.6) pare se referir ao potencial nocivo dos humanos em relação à Gaia, de quem nos alienamos, passando a nos ver como separados ao invés de parte desse grande Organismo Vivo. “Eu não percebo que exista algo que não seja natureza. Tudo é natureza.”, aponta Krenak (2020, p.6). A supervalorização da economia em detrimento de Gaia e dos próprios humanos atesta a nossa ignorância para o que realmente importa, pois se levarmo o Planeta à exaustão e estresse climático extremos, não haverá economia para se preocupar, na verdade não haverá nada. Krenak aponta: Michel Foucault tem uma obra fantástica, Vigiar e punir, na qual afirma que essa sociedade de mercado em que vivemos só considera o ser humano útil quando está produzindo. Com o avanço do capitalismo, foram criados os instrumentos de deixar viver e de fazer morrer: quando o indivíduo para de produzir, passa a ser uma despesa. Ou você produz as condições para se manter vivo ou produz as condições para morrer. (2020, p.8). O capitalismo deixou de ser, ou talvez nunca tenha sido, um sistema econômico que coloca a vida humana em primeiro plano. Pelo contrário, a sua existência se dá única e exclusivamente em prol de si mesma. O fim último do capitalismo é ele mesmo. Tal sistema não está interessado nas vidas perdidas em decorrência de sua fome insaciável por produzir mercadorias, nos trabalhadores adoecidos, cansados e exaustos, nas florestas, rios e montanhas violentados. A lógica capitalista metaforiza uma lança jogada no coração da terra, a causar dor, sofrimento e sangramentos de Gaia. Krenak costuma apontar, em alguns dos seus discursos, que a Grande Mãe sabe educar os seus filhos, como uma mãe cuidadosa ela, dá sinais de sua insatisfação e ensina caminhos de mudança e transformação, entretanto, os brancos não ouvem os seus conselhos e pagam alto preço por esta ausência de sensibilidade em escutar as vozes da Terra. Exemplo da visão insensata dos brancos foi muito bem sintetizada em uma reportagem da jornalista Eliane Brum (2021), no dia em que foi perpetrado um grave ataque à floresta amazônica, que é o Projeto de Lei 490/2007, defendido pelo Governo Jair Bolsonaro pelos parlamentares bolsonaristas. Se esse projeto virar lei, aponta Brum (2021), a Amazônia chegará ao ponto de não retorno, isto é, um momento irreversível do cataclisma climático. A jornalista descreve o PL 490 como “um projeto de extermínio que atinge a população planetária”, pois, na prática, é golpe sobre a política de demarcação dos territórios indígenas, cujas terras, de acordo com diversas pesquisas e estatísticas são as mais preservadas. Embora isso já tenha começado a mudar devido às constantes invasões e ataques, que levam à diminuição significativa da biodiversidade com o desaparecimento de várias espécies nativas. Krenak ao reiterar que a Terra vive, aponta: [...] nós temos que entender que esse organismo maravilhoso da Terra, ele não é bobo, ele é inteligente e tem uma potência fantástica. A potência dele é incalculável. Então esse organismo vivo, inteligente, ofendido com a nossa grosseria, pode apagar a gente, e nós não faremos falta nenhuma. Como os bilhões de outros seres que habitam o Planeta, nós somos um. Se tirar a gente, nós já extinguimos uma lista de espécies, vocês sabem disso. (KRENAK, 2000, p.22). O pensamento krenakiano parece apontar para uma necessária sensibilização dos brancos, no que se refere à necessidade de se reaproximarem das raízes que os ligam a Gaia, ao passo que retira o estatuto humano de uma suposta superioridade em relação às outras espécies e formas de vida. É triste pensar que nós, seres humanos, somos diretamente e indiretamente responsáveis pelo extermínio de tantas espécies. Essa é uma razão para a nossa infelicidade enquanto espécie, pois, dessa forma, emergimos no mundo como uma espécie de vírus oportunista, que se prolifera, enfraquece o hospedeiro e o envenena lentamente até a sua morte. Pois não é isso que a humidade ou, como diz Davi Kopenawa Yanomami (2015), o “povo da mercadoria” não tem feito com a Grande Mãe? Na introdução do livro A Queda do Céu, há um belo, poderoso e potente texto escrito pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Trata-se, também, de uma crítica feroz contra os diversos sistemas de opressão e violência que incidem e acossam as comunidades indígenas no Brasil. Castro afirma, parafraseando Kopenawa, que “os brancos” não entendem a floresta devido à sua visão insensível, de um mero explorador de recursos. A ganância material os impede de ver os significados mais genuínos das florestas, dos espíritos que as habitam e de todos os mistérios, sabedorias e inteligências misturadas com as folhas que são, também, fontes de memórias. Castro (KOPENAWA, 2015, p.5), ainda no prefácio de A Queda do Céu, aponta para “os brasileiros e povos que cresceram às custas da escravidão e genocídio indígena é preciso levar a sério o que dizem os índios”. Esse levar à sério pode se materializar na compreensão de que os povos indígenas já viviam a ecologia em seu dia a dia, estabelecendo uma relação saudável com a Terra, os rios, mares, plantas e animais de outras espécies. Hoje, muitas das etnias que sobreviveram ao extermínio resistem contra ataques realizados de múltiplas frentes. São diversos os grupos econômicos e de poderosos interessados em barrar completamente a visibilidade e a compreensão sobre as comunidades indígenas. Grandes fazendeiros e mega empresários que lucram com a degradação ambiental. Veiros de Castro (KOPENAWA, 2015, p. 6) sintetiza o contexto de dilapidação das florestas e de todo o corpo de Gaia por uma processo de extração violento e assassino: Na beira do cataclismo climático convivemos diariamente com os direitos indígenas, e de tantas minorias sociais, sendo ameaçados. Castro (KOPENAWA, 2015, p.8) informa sobre construções de mega empreiteiras com capital privado de hidrelétricas, a serviço público e que põem em risco a vida das florestas e dos seus habitantes. O autor fortalece a crítica de Kopenawa e Bruce Albert e do próprio Krenak ao “povo da mercadoria” e sua relação doentia com a Terra. Autores como Eduardo Viveiros de Castro, Bruno Latour, Deborah Danowski, Marilyn Strathern, Tim Ingold e diversos outros antropólogos reforçam o papel da antropologia no estabelecimento de uma interlocução “radicalmente horizontal entre as comunidades indígenas e a nossa sociedade. Precisamos, nós, “brancos”, reconhecer a importância dos seus saberes e cosmologias para nossa sensibilização e ressignifação dos modos como nos relacionamos com Gaia e os outros seres. É importante destacar que a crise climática e este tempo de castástrofes demandam uma ecologia de saberes que reconheça as perspectivas indígenas para além da ciência linear. Escutar essas vozes historicamente silenciadas e oprimidas, pode nos permitir construir políticas climáticas que reconheçam o protagonismo indígena como sujeitos de direito e de saber. Considerações finais Trecho do livro Caminhos para o Bem-viver Sobre o que nós temos na nossa cultura que pode dar pistas para o Bem Viver, para estar nesse mundo de uma maneira criativa, corpo vivo em uma Terra viva, talvez seja observar ao seu redor, muito provavelmente tem uma floresta, uma montanha, então tem tanta vida gritando ao seu redor. Escuta essa vida, dialoga com ela, estabelece relação com ela. (KRENAK, 2020, p.26). Em uma de suas entrevistas, ao falar sobre o aumento excessivo das temperaturas nas cidades, como um dos efeitos do aquecimento global, Krenak vaticina que, no futuro, as pessoas podem derreter feito lesmas na calçada. É para tentar mitigar esse cenário catastrófico que, acredito, precisamos escutar o que os povos indígenas estão dizendo. É para aprofundar e ampliar esse diálogo que esta pesquisa será realizada, no sentido de ampliar o coro de vozes combativas ao desmatamento desenfreado da Amazônia, à destruição da nossa biodiversidade. Como aponta Krenak (2021) e Danowski (2021), a pandemia foi só um aviso do que está por vir, caso as agressões à Gaia não cessem. É premente repensar a lógica de desenvolvimento e progresso que obriga a natureza a pagar a conta. Para Krenak isso se dá com uma crítica contundente ao capitalismo que é essencialmente necropolitico, genocida e assassino das possibilidades de vida humana neste Planeta. Além dessa crítica, coletivamente, precisamos alimentar epistemologias e cosmovisões, cosmopoliticas, novas ontologias que nos permitam reelaborar e recrear os sentidos das relações que estabelecemos com Gaia e os outros seres. Esta é para somar os esforços a fim de adiar o fim do mundo, para compartilhar a visão de que o amanhã não está à venda e a esperança de que o nosso futuro é ancestral. Referências AGÊNCIA PÚBLICA. Pública+10 | Negacionismo Científico e Mudanças Climáticas – Com Ailton Krenak e Deborah Danowski. YouTube, [s. l.], 22 fev. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9evZTNzjq5w. Acesso em: 4 set. 2025. BRUM, Eliane. Congresso decide extinguir a Amazônia. El País (Brasil), 24 jun. 2021. Disponível em: http://elianebrum.com/desacontecimentos/congresso-decide-extinguir-a-amazonia/. Acesso em: 4 set. 2025. CONECTAS. “Crise climática é anunciada pelos povos originários desde sempre”, entrevista com Ailton Krenak. set. 2021. INVESTIGADOR. “Ailton Krenak fala de sua leitura de mundo no contexto das mudanças climáticas”. Envolverde, entrevista, 2022. KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés; prefácio de Eduardo Viveiros de Castro. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020-2021. KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. KRENAK, Ailton. O amanhã não está à venda. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. KRENAK, Ailton. Pensando com a cabeça na Terra. Anais da ReACT – Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia, v. 3, n. 3, 2017. KRENAK, Ailton; CARELLI, Rita. Kuján e os meninos sabidos. Ilustrações de Rita Carelli. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2024. KRENAK, Ailton; DE CAMPOS, Yussef Daibert Salomão. Lugares de origem. São Paulo: Jandaíra, 2021. KRENAK, Ailton; SILVESTRE, Helena; SOUSA SANTOS, Boaventura de. O sistema e o antissistema: três ensaios, três mundos no mesmo mundo. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. LATOUR, Bruno. Reflexão sobre o culto moderno dos deuses fe(i)tiches. Bauru, SP: EDUSC, 2002. LATOUR, Bruno. “Não congelarás a imagem”, ou: como não desentender o debate ciência-religião.” Revista Mana: Estudos de Antropologia Social, n. 10, fasc. 2. Rio de Janeiro: PPGAS, Contra Capa, 2004. LOPES JR., Orivaldo Pimentel. Parcerias do conhecimento: epistemologia dos estudos da religião e do mito. Natal: EDUFRN, 2019. PIMENTA, Angelise Nadal; MENEZES, Paula Mendonça de (orgs.). Firmando o pé no território: temática indígena nas escolas. Belo Horizonte: Pachamama Editora, 2020. REPORTAGEM. “Em conferência em Paris, imortal Ailton Krenak critica COP30…” UOL/RFI, 1 maio 2025. SOUSA, H.; SANTOS, Boaventura de Sousa; KRENAK, Ailton. O sistema e o antissistema: três ensaios, três mundos no mesmo mundo. 2024.
Título do Evento
VII Ciclo de Estudos e Debates em Etnologia Indígena | UFRN
Cidade do Evento
Natal
Título dos Anais do Evento
Anais do VII Ciclo de Estudos e Debates em Etnologia Indígena da UFRN
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

CARVALHO, Paulo Dourian Pereira de. AS QUESTÕES CLIMÁTICAS NA PERSPECTIVA DE AILTON KRENAK.. In: Anais do VII Ciclo de Estudos e Debates em Etnologia Indígena da UFRN. Anais...Natal(RN) UFRN, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/ciclo-etnologia-indigena/1233706-AS-QUESTOES-CLIMATICAS-NA-PERSPECTIVA-DE-AILTON-KRENAK. Acesso em: 13/05/2026

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