PROTAGONISMO FEMININO TABAJARA E ALIANÇAS INTERESPÉCIES: O ENFRENTAMENTO DA COVID-19 NA ALDEIA BARRA DE GRAMAME NO SUL DA PARAÍBA

Publicado em 05/10/2025 - ISBN: 978-65-272-1729-9

Título do Trabalho
PROTAGONISMO FEMININO TABAJARA E ALIANÇAS INTERESPÉCIES: O ENFRENTAMENTO DA COVID-19 NA ALDEIA BARRA DE GRAMAME NO SUL DA PARAÍBA
Autores
  • Priscila Fazio Rabelo
Modalidade
Painel Temático 06 - Cosmopolíticas indígenas e relações multiespécies
Área temática
Cosmologias e naturezas
Data de Publicação
05/10/2025
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/ciclo-etnologia-indigena/1223171-protagonismo-feminino-tabajara-e-aliancas-interespecies--o-enfrentamento-da-covid-19-na-aldeia-barra-de-gramame-
ISBN
978-65-272-1729-9
Palavras-Chave
Covid-19; Mulheres Alianças; Quintais; Interespécies
Resumo
Esta comunicação oral busca partilhar parte da dissertação de mestrado, intitulada “Muito espinho, mas também muitas flores: Os impactos da Covid-19 na aldeia Barra de Gramame e no assentamento Sítio Tambaba - PB”. Embora o cenário global e nacional de circulação do vírus da Sars-CoV-2 tenha sido marcado pela alta taxa de óbitos e infectados, este cenário não representou a realidade da aldeia Barra de Gramame do povo Tabajara. Essa situação atípica, decorre de diversos fatores: a nível organizacional de quem vive na aldeia, foram estabelecidas barreiras e medidas de controle para regular a entrada de pessoas no território, a intensificação de equipes de saúde e de educação, a suspensão de atividades para evitar aglomerações e a disseminação do vírus. Além disso, houve incentivo para o desenvolvimento de atividades agrícolas visando fortalecer a segurança alimentar durante a pandemia. Nesta comunicação gostaria de destacar dois tópicos da dissertação que aborda, tanto a importância dos quintais na manutenção da vida em contexto pandêmico, quanto o protagonismo feminino do cuidado cotidiano e contínuo durante esse período. Destaco os quintais devido ao fato de que são nesses espaços onde ocorre a reprodução da vida material e simbólica, como o cultivo de roçados e ervas medicinais, além da transmissão de saberes, técnicas e o cuidado entre/interespécies. Os quintais são especialmente pertinentes, porque foi ao redor da morada que se cumpriu um dos protocolos mais importantes durante o período crítico da pandemia: o isolamento social, a partir da campanha nacional “Fique em Casa”. Essa relação íntima entre os quintais e as estratégias adotadas para enfrentar a pandemia tornou esse espaço um ponto crucial de análise das práticas cotidianas da aldeia e das formas de resistência e resiliência diante dos desafios impostos pelo contágio viral. É ao redor da morada em que parte do grupo MOARA, retoma as oficinas de produção de lambedores e garrafadas para o fortalecimento da imunidade. Esse fortalecimento não ocorre exclusivamente pelas propriedades medicinais dos vegetais. Como podemos observar a partir dos relatos de mulheres que compõem o grupo, a eficiência desse cuidado e, portanto, a preservação da vida depende também da relação espiritual que atravessou o feitio desses fitoterápicos. Em outras palavras, a ausência de óbitos, de pessoas internadas na UTI ou ainda a recuperação esteve intrinsecamente relacionada à existência dos quintais enquanto emaranhado interespécie entre humanos, não humanos e mais-que-humanos, como é o caso da região nordeste, dos encantados. Além do mais, os quintais também aparecem como elementares nos cuidados com a saúde mental, uma vez que, são nesses espaços onde se produz outras atividades cotidianas, além dos lambedores e garrafadas. A partir de uma etnografia multiespécie, busquei com essa pesquisa ampliar a perspectiva para além das relacionalidades entre pessoas humanas e considerar outros seres, outros fluxos de vida, suas interações e temporalidades distintas. Neste sentido, podemos afirmar que os quintais são em si organismos vivos que estão muito além de serem considerados somente territórios. Além disso, embora tenha havido um forte impacto em diversos territórios tradicionalmente ocupados, mortes, internações e infecções, é preciso compreender que a confluência de uma série de acontecimentos possibilitou quadros distintos em diferentes localidades. Em resumo, o que quero dizer é que não se pode afirmar que os impactos foram semelhantes, que todos os povos foram afetados de maneira brutal pela Covid-19. A aldeia Barra de Gramame, a partir de uma série de agenciamentos, produziu uma outra realidade diante do contexto da pandemia, os impactos foram atenuados a partir das alianças interespécies, principalmente entre mulheres e plantas. As pluralidades de vida foram preservadas. Houve ali um movimento de contracolonização frente às medidas de gestão da pandemia pelo Estado colonialista. TRABALHO COMPLETO Nesta comunicação oral busco partilhar parte da dissertação de mestrado, intitulada “Muito espinho, mas também muitas flores: Os impactos da Covid-19 na aldeia Barra de Gramame e no assentamento Sítio Tambaba - PB”, localizada no município do Conde - litoral Sul da Paraíba - a partir da elaboração de uma etnografia multiespécie. A escolha por essa abordagem teórica-metodológica sobre pandemia da Covid-19 em comunidades rurais e indígenas na Paraíba, justificou-se pela própria pandemia que é caracterizada pela interação entre espécies; pela consideração do campo etnográfico ser composto por quintais e estes, por conseguinte, não serem simplesmente um palco para as ações humanas, mas sim um emaranhado de assembleias polifônicas de seres vivos e abióticos. Além disso, a confecção de uma etnografia multiespécie considera que para além da interação com o vírus, as diferentes populações que ocupam esses territórios interagem em simbiose produzindo modos de existir, continuidades e descontinuidades que dependem necessariamente da relação constante entre multidões de seres vivos e abióticos como, por exemplo, os fluxos hídricos, a polinização de insetos, pássaros e outros mamíferos de pequeno porte, além de práticas humanas não predatórias e da preservação do ecossistema, mas também na relação com o mundo espiritual, sobretudo, com os encantados, no caso dos indígenas Tabajara. Nesta comunicação destaco os resultados da pesquisa que demonstram que, embora o cenário global e nacional de circulação do vírus da Sars-CoV-2 tenha sido marcado pela alta taxa de óbitos e infectados, este cenário não se aplicou à realidade da aldeia Barra de Gramame do povo Tabajara. Essa situação atípica, decorre de diversos fatores: a nível institucional, o DSEI Potiguara, por exemplo, desempenhou um papel importante nesse plano, realizando testagens, aplicação de vacinas e estabelecendo barreiras sanitárias. Além disso, o Cirus (Centro de Informação e Estratégia de Vigilância em Saúde) esteve envolvido na coordenação das ações. A nível organizacional, ou seja, de quem vive na aldeia, foram estabelecidas barreiras e medidas de controle para regular a entrada de pessoas no território, a intensificação de equipes de saúde e de educação, a suspensão de atividades para evitar aglomerações e a disseminação do vírus. Além disso, houve incentivo para o desenvolvimento de atividades agrícolas visando fortalecer a segurança alimentar durante a pandemia. Nesta comunicação destaco os dois últimos capítulos da dissertação que aborda, tanto a importância os quintais na manutenção da vida em contexto pandêmico, quanto o protagonismo feminino no cuidado contínuo no cotidiano, antes, durante e após esse período. Destaco os quintais devido ao fato de que são nesses espaços onde ocorre a reprodução da vida material e simbólica, como o cultivo de roçados e ervas medicinais, além da transmissão de saberes, técnicas e o cuidado entre/interespécies. Os quintais aparecem especialmente pertinentes, porque foi ao redor da morada que se cumpriu um dos protocolos mais importantes durante o período crítico da pandemia: o isolamento social, a partir da campanha nacional “Fique em Casa”. Essa relação íntima entre os quintais e as estratégias adotadas para enfrentar a pandemia tornou esse espaço um ponto crucial de análise das práticas cotidianas da aldeia e das formas de resistência e resiliência diante dos desafios impostos pelo contágio viral. É ao redor da morada em que parte do grupo MOARA 11, retoma as oficinas de produção de lambedores e garrafadas para o fortalecimento da imunidade. Esse fortalecimento não ocorre exclusivamente pelas propriedades medicinais dos vegetais. Como podemos observar a partir dos relatos de mulheres que compõem o grupo, a eficiência desse cuidado e, portanto, a preservação da vida dependeu também da relação espiritual que atravessou o feitio desses fitoterápicos. Neste sentido, é relevante pontuar que o território Tabajara é habitado por seres-mais-que-humanas como dona das matas, a “Comadre Fulozinha” e o Pai do Mangue. Esses seres povoam as memórias e narrativas dos povos contracoloniais e são convocados em diversas atividades. No tocante a questão espiritual a presença de narrativas que evocam os encantados, seres mais-que-humanos que pertencem a cosmologia indígena, aparecem nas conversas cotidianas, nos cânticos no toré, além dos momentos de decisões importantes como, por exemplo, a própria formação do grupo de mulheres MOARA. Segundo a idealizadora do grupo de mulheres, Iraê Tabajara, a ideia de criar o grupo aconteceu depois que os encantados tocaram seu coração. Iraê 2, moradora da aldeia Barra de Gramame, começa destacando que o quintal é um espaço de espiritualidade, onde se cultiva a terra que forma todas as vidas, o lugar de fortalecimento da cura, do espírito e o lugar onde acontece os rituais, os eventos, onde recebe seu povo. Iraê reforça a questão da intensidade da espiritualidade do quintal e de como esse espaço é essencial, já que é no quintal onde ela planta, se alimenta, se pinta e participa dos rituais. “Então pra mim, tá debaixo daquele pé de Sapucaia é uma espiritualidade. É um pé de Sapucaia sagrado onde nasce uma combuca né. Essa combuca a gente usava muito pra bota farinha, sal e usa ainda se for necessário, dos nossos antepassados, então a minha conexão pelo meu quintal é essencial. Sentir a presença dos meus antepassados também, principalmente a noite, a conexão, a espiritualidade ali é muito forte, a gente sente, a gente vê, escuta eles andando, então a conexão disso aqui, tudo isso aqui é uma espiritualidade né?! O cuidar, cultivar é nascer, tá entendendo? (...) O quintal faz parte desse cultivo. É o cotidiano da gente (Iraê Tabajara. Entrevista concedida em 17/04/2023) Quando Iraê partilha que estar debaixo do pé de Sapucaia é uma espiritualidade e que aquela árvore é sagrada, ela está nos comunicando que a relação entre ela e os vegetais não se resume a uma lógica puramente material de produção e consumo. Não se planta, cultiva e cuida daquele ser vivo simplesmente porque há o uso de sua sombra, da combuca ou de suas propriedades medicinais. Mas principalmente porque há uma relação de espiritualidade entre essas pessoas e os vegetais que ali também habitam. Ao expor o processo do feitio das garrafadas, Iraê expressa a relação de espiritualidade a partir do ritual para a confecção do remédio. Em outro momento, ao perguntar sobre o feitio dos lambedores, essa questão espiritual volta a aparecer quando questiono se as plantas e ervas utilizadas são aquelas cultivadas na farmácia viva ou se ela as recolhe pelos caminhos. Nesse momento, outra voz junto à Iraê me intercede dizendo “não às que encontramos no caminho”. Iraê me explica que nesses feitios não se pode utilizar as plantas dispostas em caminhos. Isso porque é necessário haver uma conexão com a mata em lugares que “não passa ninguém” 3. Ela ainda me explica que toda mata ao redor do quintal é uma farmácia viva “começando a do remédio rasteira até a mata”. Iraê também vai contando sobre a finalidade dos lambedores “gastrite, pneumonia, bronquite, catarro pegado no peito, pra garganta”. Porque aqui tem muito remédio que a gente trabalha com ele fazendo lambedor. É o cupim do cajueiro roxo, é a cebola do mato, que é o alcaçuz, que é a vassourinha de botão, que é o espinho cigano que é do mato rasteirinha (...) então a gente trabalha aqui com essa área do quintal mais pra dentro da mata. A gente não pode usar assim perto de casa. A gente pode ter um bocado de remédio ali na frente de casa, mas eu não posso usar ele porque ali ele tá sendo enguiçado, como passa todo dia aí não pode. Tá entendendo? (Iraê Tabajara. Entrevista concedida em 17/04/2023) Sobre o uso e consumo de lambedores e garrafadas para o fortalecimento imunológico e no tratamento da COVID-19, fica evidente que a eficiência desses processos ocorre para além das propriedades medicinais dos vegetais. A eficiência desse cuidado e, portanto, a preservação da vida depende também da relação espiritual que atravessa o feitio desses fitoterápicos. Em outras palavras, a ausência de óbitos, de pessoas internadas na UTI ou ainda a recuperação está intrinsecamente relacionada à existência dos quintais enquanto emaranhado interespécie entre humanos, não humanos e mais-que-humanos. Outro fato que parece pertinente questionar é sobre a dedicação e o trabalho para manutenção desses espaços. Nesse sentido, pergunto à Iraê quem faz o trabalho de limpeza do quintal e quantas horas em média é preciso para cuidar daquele espaço. Iraê conta que quando ela tira o dia para limpar o quintal, é só o quintal e que geralmente é o dia todo, ou seja, inicia pela manhã e termina no final da tarde. Essas limpezas geralmente acontecem quando o quintal está sendo preparado para algum evento ou ritual. Nesses dias são tiradas uma pequena comissão para realizar a função. Em outros momentos de manutenção da limpeza desses espaços, Iraê conta que vai limpando sozinha até aparecer alguém que queira compartilhar dessa tarefa com ela. Após a limpeza do quintal, é comum que ela retorne para a casa para continuar com os trabalhos domésticos. Pergunto à Iraê se o quintal durante a pandemia ajudou ela em relação aos cuidados com a saúde mental. Iraê me explica que sim, que quando ela saia para limpar o quintal também havia uma conexão de inspiração do ar: “de sentir o ar puro”. Além disso, me conta que “no começo da pandemia foi um momento pra lapida, lapida mais, receber uma conexão diferente, uma energia diferente” e que passou a maior parte do tempo no quintal “ali no fogão de lenha fazendo lambedor”. Isso porque já era assim e continua sendo. Iraê conta que entra em casa só para fazer os trabalhos domésticos e dormir e que ela se sente melhor no quintal, porque este é o espaço em que ela tem maior conexão. Quando Iraê nos diz que era assim e continua sendo, uma possível reflexão acerca da existência desses quintais é que os modos de vida e as confluências entre uma pluralidade de vida nesses espaços foi crucial para garantir a sobrevivência dessas duas comunidades diante do contexto pandêmico. Nesse sentido, argumento que a ausência de óbitos, de pessoas internadas na UTI ou ainda a recuperação esteve intrinsecamente relacionada à existência dos quintais enquanto emaranhado interespécie entre humanos, não humanos e mais-que-humanos. Além do mais, os quintais também aparecem como elementares nos cuidados com a saúde mental, uma vez que, são nesses espaços onde se produz os lambedores e garrafadas, mas também outras atividades cotidianas, transmissão de saberes e “pedagogias de resiliência indígena” como acentua Gersem Baniwa (2021, p.9). Para Baniwa, diante da pandemia, os povos indígenas em geral possuem referências existências, como a reciprocidade, a generosidade, a serenidade, a solidariedade, o respeito com a natureza e o cosmo que possibilita enfrentar situações de desastres e doenças e que “em consequência dos seus processos educativos aprenderam a superar momentos de profundas adversidades”. Além disso, o indígena e antropólogo argumenta que (Idem, p.10) Os povos indígenas estão reaprendendo com a dor e o sofrimento pelas mortes de seus membros a valorizar e potencializar ainda mais seus valores ancestrais, como o profundo amor à vida, ao outro, à natureza, aos saberes tradicionais próprios, à solidariedade, aos modos de vida coletivos e comunitários. Reaprendendo a reconhecer e remanejar seus limites, mas também redescobrindo suas potências como no caso dos seus saberes no campo da medicina tradicional e mergulhando na realidade profunda em que vivem. É assim que a força da solidariedade, a potência dos saberes tradicionais e as dádivas resultantes do profundo respeito à natureza estão sendo essenciais e vitais para o enfrentamento da pandemia pelos povos indígenas, diante da ausência de políticas públicas e da omissão imoral dos governantes A potência dos saberes tradicionais e a utilização da medicina tradicional através dos usos de garrafadas e lambedores confeccionados pelo grupo de mulheres MOARA na aldeia Barra de Gramame, possibilitou a continuidade da vida e a redução dos impactos da pandemia. Além disso, como argumenta a antropóloga indígena e integrante do grupo MOARA, Taíza Nunes Santos (2023) 4, a prática da medicina tradicional é um elemento fundamental que justifica também, em termos legais, a ocupação tradicional dos territórios assegurados pela constituição federal no artigo 231 e 232. Partindo dessa relação entre corpo e território Tabajara e no protagonismo dessas mulheres na promoção contínua da saúde, Santos (2023, p.54) afirma que: é importante destacar o papel fundamental que nós mulheres exercemos no itinerário de cuidados com saúde, pois estamos sempre atentas aos cuidados básicos da aldeia, cuidando das crianças, a começar pela própria família, projetando esse cuidado através de ações práticas como o plantio de hortaliças dentro da aldeia vitória, organização, planejamento e manejo dos remédios naturais produzidos na farmácia viva das MOARA, e se preocupando com as ferramentas de produção e reprodução midiática, expandindo e compartilhando o conteúdo da luta, criando uma espécie de mídia independente indígena, que as mulheres da yby-rapó kunhã da aldeia nova conquista agenciam. Ou seja, o protagonismo vivo das mulheres indígenas Tabajara em vários setores, desde da organização social em suas casas e famílias, se expandindo para a luta pela conquista dos direitos das mulheres através da organização de pautas para construção política e demarcação do território. As considerações de Santos destacam alguns elementos fundamentais sobre o protagonismo feminino. Um desses elementos é que essas mulheres estão na linha de frente tanto no cuidado cotidiano de pessoas e de espaços, quanto na luta pela demarcação do território, além disso essa articulação extrapola os próprios limites geográficos da aldeia Barra de Gramame, já que essa articulação é formada pelas mulheres que habitam a aldeia Vitória, Nova Conquista Taquara e as periferias de João Pessoa. Ainda segundo Santos, o ativismo de mulheres Tabajara na luta pela demarcação busca a garantia dos direitos a partir de uma agenda de luta coletiva produzida pelas próprias mulheres Tabajara, o que segundo a antropóloga, é um processo fundamental para a reativação da memória coletiva, o fortalecimento da tradição, dos laços comunitários e da rede de trocas. Além disso, a antropóloga defende que (Idem, p.73-74) ancorado no território, o saber é corporificado, constituindo os Tabajara como um corpo coletivo, em diálogo com o corpo território (...) O corpo é ativo na vida social e situado politicamente, o corpo e o território são indissociáveis nas representações coletivas, construídas por múltiplos significados, que estão continuamente imersos em torno do corpo político do território. A partir dessa compreensão de continuidade e inseparabilidade entre corpo e território, podemos argumentar que a redução dos impactos da pandemia, a partir da produção e consumo de remédios naturais é fruto das alianças interespécies entre mulheres, plantas e encantados que povoam esses territórios. Essa relação não é exclusiva da aldeia Barra de Gramame ou do assentamento Sítio Tambaba. Como demonstra Larissa Portugal (2022), as mulheres Pataxó da Boca da Mata, na Bahia, também se fortaleceram e atravessaram a pandemia a partir dessa relação, inclusive iniciando um projeto de farmácia viva e confeccionando remédios naturais para comercialização, como forma de complementação da renda econômica. Portugal também destaca a relação entre a esfera espiritual e as ervas medicinais, visto que suas interlocutoras de pesquisa relatam que a orientação das ervas ou formas de uso são também frutos de sonhos com entidades espirituais. A partir de uma etnografia multiespécie, busquei com essa pesquisa ampliar a perspectiva para além das relacionalidades entre pessoas humanas e considerar todos os outros fluxos de vida, suas interações e temporalidades distintas. Neste sentido, podemos afirmar que os quintais são em si organismos vivos que estão muito além de serem considerados somente territórios. Além disso, embora tenha havido um forte impacto em diversos territórios tradicionalmente ocupados, mortes, internações e infecções, é preciso compreender que a confluência de uma série de acontecimentos possibilitou quadros distintos em diferentes localidades. Em resumo, o que quero dizer é que não se pode afirmar que os impactos foram semelhantes, que todos os povos foram afetados de maneira brutal pela Covid-19. A aldeia Barra de Gramame, a partir de uma série de agenciamentos, produziu uma outra realidade diante do contexto da pandemia, os impactos foram atenuados a partir das alianças interespécies, principalmente entre mulheres e plantas. As pluralidades de vida foram preservadas. Houve ali um movimento de contracolonização frente às medidas de gestão da pandemia pelo Estado colonialista. Como nos diz Dos Santos (2023, p.48) “No começo da pandemia de covid-19, alguns setores da sociedade fizeram alarde: “Os quilombolas vão morrer, os indígenas vão morrer, eles vão morrer primeiro porque são os mais fragilizados”. Inventaram que somos mais fragilizados”. A partir desta contribuição de Nêgo Bispo, questiono a quem interessa essa narrativa de fragilidade e vulnerabilidade em relação aos povos contracoloniais? Em parte, argumento que o principal beneficiário é o próprio capitalismo e o Estado colonialista. Como dizer que essas populações com uma renda mensal baixa, diante dos conflitos, diante das violências que marcam seus territórios, diante de um contexto pandêmico, não só sobrevivem, como também continuam se alimentando, propagando práticas de cuidado com a saúde. Em outras palavras, porque o capitalismo e o Estado temem a propagação de narrativas não hegemônicas que afirmam em dizer que esses povos, são povos de abundância? Abundância porque consideram a terra como um organismo vivo que deve ser cuidado, cultivado e que provém o necessário para viver. Abundância porque nesses territórios há a transmissão de saberes que são passados de geração em geração e que apesar do epistemicídio continuam sendo perpetuados. Abundância por conter uma pluralidade de vegetais que auxiliam na saúde, fortalecem a imunidade e tratam e curam doenças. Abundância porque a conexão com os encantados, com a espiritualidade que auxilia nos atravessamentos de momentos difíceis como no contexto da pandemia. Se por um lado as narrativas do capitalismo e do Estado são constituídas a partir do episteme da modernidade/colonialidade baseada unicamente na experiência humana, por outro as histórias tecidas pelos povos contracoloniais são fundamentais na construção de outras leituras de mundo. Como nos lembra Krenak (2022, p.37-38) (...) não podemos nos render à narrativa de fim de mundo que tem nos assombrado, porque ela serve para nos fazer desistir dos nossos sonhos, e dentro dos nossos sonhos estão as memórias da Terra e de nossos ancestrais. Estamos vivendo num mundo onde somos obrigados a mergulhar profundamente na terra para sermos capazes de recriar mundos possíveis. Acontece que, nas narrativas de mundo onde só o humano age, essa centralidade silencia todas as outras presenças. Querem silenciar inclusive os encantados, reduzir a uma mímica isso que seria “espiritar”, suprimir a experiência do corpo em comunhão com a folha, com o líquen e com a água, com o vento e com o fogo, com tudo que ativa nossa potência transcendente e que suplanta a mediocridade a que o humano tem se reduzido. Nesse sentido, busco acentuar que no campo etnográfico desta pesquisa, houve um movimento contrário ao movimento hegemônico da pandemia, ou seja, houve a preservação da vida e a contenção na circulação e no contágio do vírus. Isso porque o trabalho do cuidado com o território e com a comunidade, pensado a partir de um viés anticapitalista ocorre de forma contínua, durante a pandemia, um modo de vida baseado na reciprocidade entre pessoas, vegetais e animais, em parte norteado pelos saberes ancestrais e pela memória de luta e resistência, inclusive contra o genocídio em curso que, desde a colonização, a partir de um habitar colonial (Ferdinand, 2022) tem inserido doenças nos territórios tradicionalmente ocupados. Sendo assim é importante destacar nessa comunicação que essa forma de habitar a Terra, tem como fundamento ontológico a violência, ou seja, a violência no processo de apropriação da terra, no ato de desbravar e atualmente, na expansão das fronteiras agrícolas e de extração de minérios e no massacre contínuo de povos indígenas, sejam por armas ou por epidemias. A partir das contribuições do intelectual martinicano, Malcom Ferdinand, é relevante atentar que esse habitar colonial da Terra tem reproduzido, desde sua fundação em 1492 plantations, dependências geográficas e ontológicas, além de subjugações misóginas e racistas. E é neste sentido que considero a pandemia da COVID-19 enquanto uma das consequências da continuidade desse modo de habitar a Terra que tem produzido massacres e lugares feridos. Em meio às ruínas produzidas por esse modelo de mundo - branco, ocidental, masculinista e cisheternormativo - os lugares feridos têm sido elementares na consolidação de alianças e justiça multiespécie, pois são nestes lugares em que se subestima as lutas de resistência, por reflorestamento e retomadas. Dessa forma nossa atentatividade aos povos contracoloniais precisa pautar que para além do lugar de vítimas e sobreviventes de uma guerra permanente, esse emaranhado multiespécie, composto por povos indígenas, animais, vegetais e encantados, têm protagonizado a retomada dos territórios e a restauração dos ecossistemas degradados, tanto pelo próprio modo de vida, quanto pelas suas filosofias. Celermajer et al. (2021) enfatizam que embora a academia tenha avançado nessas discussões e engajamentos, devemos lembrar que muitas destas perspectivas e propostas não são inovadoras. Nesse sentido é importante acentuar que há apagamentos a apropriações indevidas, como por exemplo, as genealogias indígenas, como a da relacionalidade entre espécies ou ainda a ideia de “co-tornar-se responsável de maneiras situadas”. Além disso, Celermajer et al. enfatizam que o problema não consiste na aproximação entre estudos multiespécies e filosofias indígenas, mas na negligência do campo espiritual e cosmológico ou ainda na criação de dualismos problemáticos. Por fim, lembram que há milhares de anos esses povos concebem “o mundo, humano e mais-que-humano, como animado, agencial, conhecedor, sentimental e relacional” (Celermajer et al. 2021, p.125, tradução minha) Para pessoas não indígenas (e aqui me incluo), é fundamental explicitar que para além da disposição na construção de alianças políticas com os povos indígenas, mais-que-humanos e não humanos é preciso compreender o lugar que ocupamos nesse emaranhado multiespécie. Temos muito mais a aprender com as filosofias e modos de vida indígenas e suas estratégias de luta contracolonial e anticapitalista do que temos a ensinar. Referências BANIWA, Gersem. A pedagogia da resiliência indígena em tempos de pandemia. Revista de Educação Pública, v. 30, p. 1-17, 2021. CELERMAJER, Danielle et al. Multispecies justice: theories, challenges, and a research agenda for environmental politics. Environmental politics, v. 30, n. 1-2, p. 119-140, 2021. DOS SANTOS, Antônio Bispo. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023. FERDINAND, Malcom. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. Ubu Editora, 2022. KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. Companhia das Letras, 2022. PORTUGAL, Larissa Moreira. “Abaixo de Deus eu tenho fé nesses matos”: uma etnografia do regime de cuidado cotidiano entre os Pataxó da aldeia Boca da Mata/ Larissa Moreira Portugal – 2022. SANTOS, Taíza Nunes. “Cada Planta tem um caboclo, cada caboclo tem uma planta”: Etnocartografia sobre as práticas de saúde do povo indígena Tabajara do litoral Sul da Paraíba. UFCG, 2023. NOTAS 1 Organização de mulheres do povo Tabajara à espiritualidade e cuidado dos corpos-territórios. Atua na luta coletiva por direitos e melhorias para sua aldeia – Barra de Gramame- , com foco no fortalecimento das mulheres. Também preserva e transmite saberes ancestrais, como o uso de ervas medicinais. 2 Iraê Tabajara é liderança feminina e fundadora do grupo MOARA, que une a organização de mulheres do povo Tabajara à espiritualidade e cuidado dos corpos-territórios. Atua na luta coletiva por direitos e melhorias para sua aldeia – Barra de Gramame- , com foco no fortalecimento das mulheres. Também preserva e transmite saberes ancestrais, como o uso de ervas medicinais. 3 Segundo Santos (2023, p.76) “Dentro da cosmovisão Tabajara existem conhecimentos biofísicos e bioquímicos das plantas, há padrões na colheita e uso das plantas. Eles têm horário, local, quantidade e maneira específica para colher e utilizá-las. Conceitos que os Tabajara entendem como parte do processo de preparo de um remédio natural, sua eficácia e cura”. 4 Taíza Nunes (Tai Tuwixa'wã) da etnia Cariri, faz parte da articulação de mulheres indígenas da Paraíba a AMIP, faz parte do grupo MOARA da aldeia Barra de Gramame e dentro do território luta pela garantia da demarcação territorial e o direito das mulheres. Tai também é graduada, mestra em ciências sociais pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e poetiza.
Título do Evento
VII Ciclo de Estudos e Debates em Etnologia Indígena | UFRN
Cidade do Evento
Natal
Título dos Anais do Evento
Anais do VII Ciclo de Estudos e Debates em Etnologia Indígena da UFRN
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

RABELO, Priscila Fazio. PROTAGONISMO FEMININO TABAJARA E ALIANÇAS INTERESPÉCIES: O ENFRENTAMENTO DA COVID-19 NA ALDEIA BARRA DE GRAMAME NO SUL DA PARAÍBA.. In: Anais do VII Ciclo de Estudos e Debates em Etnologia Indígena da UFRN. Anais...Natal(RN) UFRN, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/ciclo-etnologia-indigena/1223171-PROTAGONISMO-FEMININO-TABAJARA-E-ALIANCAS-INTERESPECIES--O-ENFRENTAMENTO-DA-COVID-19-NA-ALDEIA-BARRA-DE-GRAMAME-. Acesso em: 14/06/2026

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