Eixos Temáticos
Eixo 1: Artes e Patrimônio Cultural Afro-Diaspórico
Este estudo aborda a produção artística e cultural africana e afro-brasileira em suas múltiplas dimensões, concentrando-se em objetos, artefatos e obras de arte — desde as antigas até as contemporâneas — que simbolizam tanto o poder quanto a servidão, frequentemente situados em territórios marcados pelo abandono e pela marginalização. A análise perpassa diversas linguagens artísticas, como música, dança, teatro, artes visuais, cinema e arquitetura, com especial atenção às expressões originárias da diáspora negra no Brasil.
Examina-se o papel dos museus na África e no Brasil dedicados à história africana, afro-brasileira e diaspórica, incluindo os complexos processos de repatriação de obras de arte africana retidas por antigas potências colonizadoras. Também são contempladas as artes urbanas negras em suas variadas manifestações, bem como a atuação de grupos artísticos negros em ambos os contextos.
O texto explora ainda as políticas patrimoniais vigentes na África e no Brasil, investigando as relações entre tais políticas, a formação de acervos e as arquiteturas de matriz africana. Discute-se a patrimonialização de artefatos e expressões culturais negras à luz de processos históricos e contemporâneos, como a colonização, a globalização, o neoliberalismo e o turismo.
Outros eixos relevantes incluem: as reinvindicações por devolução e valorização de patrimônios africanos e afro-brasileiros lideradas por populações negras; as lutas políticas em torno do reconhecimento desses patrimônios; a patrimonialização de arquiteturas em escala local e global; e os fluxos diaspóricos de patrimônio material e imaterial entre a África e o Brasil.
Por fim, incorpora-se uma reflexão urgente sobre os impactos das mudanças climáticas nesses patrimônios, problematizando como as transformações ambientais afetam — e são por eles interpretadas — tanto no continente africano quanto em contextos afro-brasileiros.
Eixo 2: Cidades Afro-Diaspóricas
Este estudo examina as arquiteturas tradicionais africanas em sua diversidade tipológica — incluindo templos, palácios, monumentos, museus e mercados —, bem como os sítios urbanos reconhecidos como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Tais lugares constituem-se como lugares de memória do tráfico negreiro, da escravidão e da grandeza dos impérios africanos pré-coloniais.
Abordam-se também as arquiteturas coloniais (portuguesa, inglesa e francesa) e suas sobrevivências nos países africanos, em diálogo com as produções modernas e contemporâneas que reconfiguram as paisagens urbanas do continente.
Um destaque especial é conferido às arquiteturas dos “retornados” — os Agudás (ou “brasileiros”) de Porto Novo, Cotonou, Uidá e Lagos —, que testemunham os fluxos culturais transatlânticos e as identidades diaspóricas entre África e Brasil.
Analisam-se ainda as diásporas das arquiteturas do Benim, Nigéria, Angola e Congo no Brasil, investigando como esses repertórios construtivos e simbólicos influenciaram e ainda ressoam nas arquiteturas afro-brasileiras, especialmente em contextos religiosos, comunitários e urbanos.
Por fim, o texto incorpora uma reflexão urgente sobre os impactos das mudanças climáticas nesses patrimônios materiais e imateriais, destacando tanto as vulnerabilidades quanto as estratégias de resistência e adaptação desenvolvidas por comunidades africanas e afro-brasileiras para preservar sua herança arquitectónica face a um mundo em transformação.
Eixo 3: Arquivos, Memoriais e Museus em África e Brasil
Este eixo temático aborda o papel dos museus digitais no Brasil e na África na formação, gestão e divulgação de acervos, com foco em processos de patrimonialização e musealização em contextos transculturais. Discute-se como essas plataformas digitais possibilitam a reconstrução de narrativas históricas e culturais a partir de perspectivas africanas e diaspóricas, promovendo acesso democratizado e diálogos além-fronteiras.
Um aspecto central é a análise dos processos de repatriação de objetos e peças pré-coloniais africanos retidos em museus europeus, examinando os desafios políticos, éticos e logísticos envolvidos na devolução desse patrimônio aos países de origem.
Aborda-se ainda a construção de novos museus dedicados às civilizações africanas, à memória da escravidão e do tráfico negreiro, aos reinos e impérios pré-coloniais e às religiosidades e culturas locais. Esses espaços buscam reverter narrativas coloniais e valorizar a governança histórica e cultural dos povos africanos.
Inclui-se o estudo de museus contemporâneos da diáspora negra na África e no Brasil, que articulam passado e presente por meio de expografias críticas e intervenções curatoriais inovadoras.
Examina-se também as políticas nacionais e transnacionais de criação de lugares de memória, memoriais e museus no mundo afro-atlântico, destacando o papel de organismos internacionais, governos e organizações da sociedade civil.
Por fim, valorizam-se as iniciativas de musealização comunitária, nas quais comunidades negras locais assumem o protagonismo na preservação, interpretação e gestão de seus próprios patrimônios, construindo narrativas autóctones e estrategicamente posicionadas no debate decolonial.
Eixo 4: Tramas das Espiritualidades e Religiosidades Africanas e Afro-Brasileiras
Este eixo temático examina os espaços religiosos africanos e afro-brasileiros, desde os templos e lugares de culto tradicionais em África até os terreiros de candomblé no Brasil. Inclui-se a análise de bosques sagrados em países africanos e sua ressignificação em parques urbanos brasileiros, onde se manifestam práticas religiosas e memórias ancestrais.
Estuda-se a materialidade religiosa por meio de objetos sagrados – como instrumentos, vestimentas e insígnias – e sua transmutação simbólica entre os contextos africano e brasileiro. Aborda-se também o papel das línguas africanas (iorubá, fon, quicongo, quimbundo) em rituais e suas reelaborações no Brasil, onde funcionam como veículos de preservação cultural e resistência.
Outro foco são as práticas medicinais de origem africana, seus saberes associados e suas adaptações no universo religioso brasileiro, onde se integram a sistemas de cuidado comunitário.
Os cultos são analisados em perspectiva comparada e diaspórica:
O culto aos Voduns no Benim e suas correspondências nas nações Jeje-Mahi, Jeje-Dahomé, Jeje-Mundunbi e Jeje-Savalu no Brasil;
O culto aos Inquices em Angola e Congo e suas expressões nos candomblés Congo-Angola;
O culto aos Orixás na Nigéria e Benin e sua presença nos terreiros de nação Ketu, Nagô, Nagô-Vodun, Ixejá e Culto Egungun no Brasil.
Por fim, investigam-se as diásporas religiosas entre Brasil e África, incluindo fluxos contemporâneos de pessoas, saberes, objetos e imaginários, que reconfiguram constantemente essas tradições em ambos os lados do Atlântico.
Eixo 5: Patrimônio Cultural e Mudanças Climáticas
Este eixo acolhe reflexões críticas sobre os impactos das mudanças climáticas em todas as formas de patrimônio cultural – desde sítios arqueológicos e paisagens culturais até tradições orais, saberes ancestrais e expressões artísticas imateriais. Em um cenário de emergência planetária, propomos discutir:
A) Vulnerabilidades multidimensionais:
Como eventos extremos (enchentes, incêndios, secas), elevação do nível do mar, acidificação dos oceanos e alterações ecológicas ameaçam patrimônios materiais e imateriais em diferentes biomas e contextos geográficos.
B) Respostas baseadas em conhecimento:
Estratégias de adaptação ancoradas em saberes tradicionais, sistemas locais de gestão territorial, técnicas construtivas vernaculares e práticas comunitárias de resiliência.
C) Iniciativas transformadoras:
O papel de projetos como a Iniciativa Global Preservando Legados/Preserving Legacies (ICOMOS/National Geographic Society/Climate Heritage Network) no mapeamento de riscos, capacitação de comunidades e co-criação de planos de salvaguarda climática para patrimônios culturais globais.
D) Políticas integradas:
Articulação entre agendas de preservação cultural, ações climáticas e direitos humanos – com ênfase em populações indígenas, comunidades tradicionais e grupos vulneráveis.
Chamada para submissões (EXCLUSIVO EIXO 5):
Convidamos pesquisadores, comunidades detentoras de patrimônio, gestores públicos e organizações a submeter artigos completos que abordem:
Diagnósticos de vulnerabilidade climática em patrimônios culturais;
Estudos de caso sobre enfrentamento, resiliência, adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas no patrimônio;;
Metodologias de avaliação de risco;
Abordagens decoloniais e participativas;
Análises críticas de políticas públicas;
Saberes climáticos tradicionais;
Migrações climáticas e perda de patrimônio imaterial;
Tecnologias digitais para documentação de ameaças.
Formato das contribuições (EXCLUSIVO EIXO 5):
- Submissões: Artigos completos em português, inglês, espanhol ou francês.
- Apresentações: Vídeos pré-gravados de 20 minutos (com legendas em inglês para vídeos em outros idiomas) para autores baseados no exterior. Presenciais para autores baseados no Brasil.
- Formato do vídeo: MP4 (1920x1080) com legenda incorporada.

Alyne Fernanda Reis
Arquiteta e Urbanista, Especializada
em Conservação e Restauro de Bens Patrimoniais (SENAI/2014), mestra em
Patrimônio Cultura e Sociedade - UFRRJ. Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo - PPGAU/UFBA. PHd na École D'urbanisme de Paris. Atuante em projetos arquitetônicos e com pesquisas acerca dos Estudos Urbanos, Patrimônio Histórico Cultural e
Territórios Negros.
Celso Almeida
Professor
e pesquisador nas áreas de Patrimônio Cultural, Artes e Design. Doutorando do
Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da
Bahia (PPGAU/UFBA), na linha de pesquisa em Conservação, Restauração e Gestão
de Bens Patrimoniais.
Gabriela Santiago Xavier
Mestranda em Arquitetura e Urbanismo pelo PPGAU/UFBA, arquiteta e urbanista pela UFBA e Técnica em Edificações pelo IFBA. Membro do Grupo de Pesquisa EtniCidades, voltado para estudos étnico-raciais em arquitetura e urbanismo. Desenvolve pesquisa na área de conservação e restauro, com ênfase nas relações entre direito à cidade, memória e resistências negras no espaço urbano. Seus interesses de pesquisa incluem arquitetura africana e afro-brasileira, epistemologias afro-referenciadas, cultura e identidades africanas e afro-brasileiras, resistência urbana, gênero, diversidade e o direito à cidade.
Mário Silva Santana
Graduação Licenciatura em Geografia pela UCSal. Especialização em Gestão Ambiental pela UNIVERSO. Mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela UFBA. Professor do Col. Est. Noêmia Rêgo. Professor do Programa Aula de Campo pela Impacto Educacional.
Magnair Barbosa
Historiadora e Pedagoga.
Especialista em História e Cultura Baiana. Mestra em Cultura e Sociedade pela
Universidade Federal da Bahia - UFBA. Possui pesquisas, publicações e jogos
educativos na área do patrimônio cultural.


Sueide Gonçalves
Rosa
Arquiteta e urbanista, especialista em patologia das
construções, especialista em restauração de arquitetura, residente em
arquitetura, urbanismo e engenharia (RAU+E), mestre em arquitetura e urbanismo (PPG-AU/UFBA) . Membro do grupo etnicidades e
pesquisadora do Patrimônio Cultural de Salvador.
Sônia Mendes
Pedagoga, mestranda do
PPGAU-FAUBA, membro do EtniCidades-FAUFBA, desenvolve pesquisa sobre os
processos de verticalização de terreiros, e as relações entre terreiros de roça
e terreiros de laje.