TeIA da Educação Linguística Crítica: entre códigos e corpos
Entendi, então, a lógica da teia. Entendi que cada um dos elementos vivos segura uma ponta do fio da vida e o que fere e machuca a Terra, machuca também a todos nós, os filhos da Terra.
Foi aí que entendi que a diversidade dos povos, das etnias, das raças, dos pensamentos é imprescindível para colorir a Teia, do mesmo modo que é preciso o sol e a água para dar forma ao arco-íris.
Daniel Munduruku (Não somos donos da teia da vida, 2020)
A reflexão de Daniel Munduruku sobre a teia da vida nos inspira a compreender que estamos sempre conectadas/os por múltiplos fios: uns visíveis – de fibra, código, tela; outros sutis – de afeto, memória, corpo. É entre esses fios que tecemos a TeIA da educação linguística crítica, um espaço em que linguagem, conhecimento, práxis, corporeidade, território, tecnologia se entrelaçam. Nessa perspectiva, o que acontece nos espaços digitais não está separado da Terra nem de nossos corpos, mas emerge das experiências que nos constituem, e, ao mesmo tempo, nos transforma e reconfigura o modo como percebemos, conhecemos e habitamos o mundo. A tecnologia, assim, só faz sentido quando orientada para a vida, o que implica reconhecer que a inteligência artificial (IA) é, antes de tudo, atravessada por dimensões humanas.
No entanto, embora frequentemente apresentada como sinônimo de eficiência e inovação, a IA se apoia em trabalho humano muitas vezes invisibilizado, atravessado por desigualdades e precarização. Diante disso, é essencial questionar como os dados são produzidos e circulam, assim como o papel das plataformas digitais na manutenção dessas desigualdades. Nesse cenário, a educação se coloca como horizonte de longo prazo, por meio da formação de estudantes, docentes e profissionais comprometidas/os com a integridade da informação, com os letramentos digitais e com a promoção da justiça social.
É nesse emaranhado de fios que tecemos a 22ª edição do Encontro de Formação de Professoras/es de Línguas – ENFOPLE, que será realizada nos dias 7, 8 e 9 de outubro de 2026, em formato híbrido (atividades presenciais e online), na Universidade Estadual de Goiás, em Inhumas. Ao longo de mais de duas décadas, o ENFOPLE tem se afirmado como um espaço de formação, afeto e reexistência, reunindo docentes, pesquisadoras/es e estudantes do Brasil e de outros países para tecer coletivamente modos outros de pensar e viver a linguagem. Promovido pelo Grupo de Pesquisas em Formação de Professoras/es de Línguas (Gefople/CNPq), pelo Curso de Letras da UEG, Inhumas, e pelo Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Interculturalidade (POSLLI/UEG), o evento, nesta edição, reafirma a parceria com o Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Maranhão (PGE-UFMA) e com o curso de Letras da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP, campus Mariana), além de inaugurar a aliança com a Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) e a Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Com o tema TeIA da educação linguística crítica: entre códigos e corpos, o Encontro é um convite para pensarmos a formação docente como um gesto de reconexão crítico-decolonial que articula saberes corporificados e situados com tecnologias emergentes. Essa TeIA nos faz recordar que nenhuma inovação (nem a Inteligência Artificial Generativa) tem sentido se romper os vínculos com a Terra, com as pessoas e com os saberes. Afinal, acreditamos que nossas praxiologias docentes são tecidas coletivamente nesses vínculos.
Nesse entrelaçamento, ensinar e aprender línguas tornam-se também modos de habitar o mundo digital com ética, sensibilidade e consciência crítica, o que se materializa nas diferentes modalidades do evento – conferências, rodas de conversa, simpósios temáticos, comunicações orais, minicursos – concebidas como espaços de partilha, problematização e construção coletiva de conhecimentos. Isso implica reconhecer que o espaço tecnológico é igualmente um espaço de vida, no qual coexistem e se tensionam diferentes modos de existir, ser, saber, sentir e agir, atravessados por disputas de sentido, assimetrias e interesses econômicos, próprios das lógicas de plataforma que concentram decisões e produzem desigualdades.
Assim, assumir a educação linguística como TeIA é um gesto ético de criação coletiva e de esperança crítica, que nos lembra que formar professoras/es é também cuidar da Teia da vida.