XIX Semana de História da UFPI
A História me Absolverá: Formação da Memória e Consciência Histórica.
A XIX Semana de História da Universidade Federal do Piauí propõe, como eixo de reflexão, o tema “A História me Absolverá: Formação da Memória e Consciência Histórica”, com o objetivo de fomentar o debate acerca da memória enquanto construção histórica, social e política, marcada por disputas, silenciamentos e processos de seleção do passado. Parte-se do entendimento de que a memória não constitui um simples repositório de fatos pretéritos, mas um campo de conflito no qual diferentes sujeitos, instituições e grupos sociais disputam os sentidos atribuídos à experiência histórica.
Nesse horizonte, o evento busca problematizar os mecanismos pelos quais determinadas narrativas são legitimadas, enquanto outras são sistematicamente apagadas, marginalizadas ou desqualificadas. O uso do passado como instrumento de legitimação do presente será tratado como elemento central para a compreensão das estratégias simbólicas e ideológicas mobilizadas por grupos hegemônicos na construção de determinada ordem social. Em oposição a isso, a Semana de História pretende reafirmar a importância da preservação da memória popular, da memória da classe trabalhadora e das experiências históricas dos grupos subalternizados, cujas trajetórias foram, por longo tempo, excluídas dos registros oficiais e das representações dominantes da história.
A temática contempla, ainda, a discussão sobre os processos de apagamento histórico, compreendidos não apenas como ausência documental, mas como parte de projetos políticos e culturais orientados à produção do esquecimento. Nesse sentido, serão valorizadas reflexões sobre a destruição de arquivos, a invisibilização de sujeitos históricos, a insuficiência de políticas públicas de preservação da memória e a baixa circulação, nos espaços educacionais e culturais, de produções voltadas à problematização das lutas populares, das revoluções, das revoltas e das experiências de organização política e social da classe trabalhadora.
Entre os eixos possíveis de debate, destacam-se as experiências revolucionárias e de resistência, como a Revolução Russa, a Revolução Cubana, a Grande Guerra Patriótica, os processos de descolonização, as guerrilhas latino-americanas, as Ligas Camponesas e outras formas de enfrentamento à opressão social e política. A preservação da memória desses processos constitui dimensão fundamental para a compreensão das continuidades e rupturas da história contemporânea, bem como para a formação de uma consciência histórica crítica.
A noção de consciência histórica ocupa lugar central nesta proposta, pois remete à capacidade de indivíduos e coletividades se reconhecerem como sujeitos da história, dotados de agência, inseridos em relações sociais determinadas e capazes de interpretar o passado à luz dos conflitos do presente. A formação dessa consciência depende diretamente das formas pelas quais a memória é socialmente elaborada, transmitida e disputada. Assim, refletir sobre a memória implica também refletir sobre as condições de produção do conhecimento histórico e sobre o papel social do historiador na preservação das experiências coletivas.
Ao mobilizar a expressão “A História me absolverá”, a Semana reafirma a centralidade da luta pela memória e pelo reconhecimento das experiências históricas que o poder dominante tentou ocultar ou deslegitimar. Trata-se de uma formulação que expressa não apenas a confiança no julgamento histórico, mas também a permanência da disputa entre projeto de dominação e projeto emancipatório no interior da sociedade.
Inspirada nas contribuições de autores como Karl Marx, Friedrich Engels, Antonio Gramsci, Walter Benjamin, Domenico Losurdo e Enzo Traverso, a XIX Semana de História da UFPI propõe-se a constituir um espaço acadêmico de debate, reflexão e crítica sobre a formação social da memória, os usos políticos do passado e o papel da história na construção da consciência histórica. Ao reunir pesquisadores, docentes, estudantes e demais interessados, o evento reafirma o compromisso da universidade pública com a produção e a difusão de conhecimento historicamente situado, socialmente comprometido e intelectualmente rigoroso.