O VI Seminário Discente do 4P propõe-se a suprir uma lacuna que ainda persiste na pós-graduação, a saber, a ausência de disciplinas e de debates sistemáticos que abordem de modo crítico as interseções entre raça, gênero, classe e território no campo das políticas públicas. É forçoso reconhecer que não se pode compreender o Brasil, a América Latina e o próprio Sul Global sem levar em consideração esses recortes estruturantes, sob pena de se perpetuar uma leitura incompleta das desigualdades e das dinâmicas de poder que moldam nossas sociedades.
A interseccionalidade, conceito elaborado pela jurista e teórica crítica Kimberlé Crenshaw, constitui-se como ferramenta analítica indispensável para revelar como o racismo, o patriarcado e a exploração econômica se articulam para produzir desigualdades múltiplas e persistentes. No caso brasileiro, cuja formação social está profundamente marcada pela herança escravocrata, impõe-se reconhecer que os efeitos dessa história prolongam-se até o presente: evidenciam-se nos altos índices de homicídios da juventude negra, na sub-representação de mulheres negras e indígenas em cargos de liderança e no acesso desigual a políticas públicas essenciais, como educação, saúde e moradia.
Ademais, a proximidade da COP 30, a ser realizada no Brasil, torna inadiável colocar em pauta as injustiças climáticas. Deve-se reconhecer que são justamente as populações racializadas, periféricas e historicamente marginalizadas as que mais sofrem os impactos da crise climática: enchentes e deslizamentos, secas prolongadas, insegurança alimentar, perda de territórios e exposição a poluentes. Não se trata de um fenômeno isolado, mas de um padrão que se repete em diversos países do Sul Global, o que evidencia a necessidade de se pensar o racismo ambiental como categoria central para a análise e para a formulação de políticas públicas. Nesse sentido, convém recordar, com Lélia Gonzalez, que a interpretação das desigualdades brasileiras exige incorporar as experiências históricas de negros e indígenas, sob pena de se reproduzirem epistemologias coloniais que invisibilizam sujeitos e lutas.
Outrossim, como adverte Angela Davis, não se pode falar em liberdade plena sem enfrentar, de modo simultâneo, o racismo, o sexismo e a exploração econômica. À vista disso, o seminário pretende constituir-se em espaço de reflexão crítica e de construção coletiva, no qual academia, movimentos sociais e gestores públicos possam dialogar e formular propostas para políticas públicas mais justas. Busca-se, assim, repensá-las desde o Sul Global, em chave interseccional, antirracista, feminista e decolonial, a fim de enfrentar tanto as desigualdades históricas quanto os desafios contemporâneos, entre eles a emergência climática e a urgência da justiça ambiental e social. Como nos lembra Carolina Maria de Jesus, “o Brasil precisa ser dirigido por alguém que já passou fome”. É com essa força e esse compromisso que o VII Seminário Discente do 4P propõe-se a refletir sobre políticas públicas desde o Sul Global, para que corpos, territórios e vozes historicamente silenciadas possam, enfim, ser ouvidos.
“... o que é muito difícil você vencer a injustiça secular, que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos.”
— Ariano Suassuna