CONVOCATÓRIA DA VI JORNADA DE PSICANÁLISE DA SUBSEDE CUIABÁ/MT
“É preciso uma aldeia para criar uma criança”. O provérbio africano expressa a experiência ancestral de que os pais não são os únicos responsáveis pela criação de um sujeito. Quando falamos em sujeito, nos referimos não somente a uma pessoa, mas a um conceito que se liga à ética, à ancestralidade. Isso porque o sujeito não se faz pelas suas próprias palavras, mas depende das palavras dos outros que o ensinam a falar e falam dele também. É o sujeito do inconsciente, que poderá desejar, amar, ou ser causado pelo Outro. É o Isso freudiano. Isso aí, que já está lá e, ao mesmo tempo, será eu, no futuro. É o Isso freudiano, isso aí, que já estava lá e que, ao mesmo tempo, será eu, no futuro, formado através de uma nova ação psíquica fundada nessa “soma de incontáveis eus”.
Esses incontáveis “eus” são como fósseis, estruturas desidratadas de um universo linguageiro dos antepassados não só consanguíneos, mas territoriais. É com esses fósseis incontáveis que o sujeito se faz.
Somos vários, divididos e sobredeterminados. Sujeitos não são ‘filhos de chocadeira’, não se fazem de si mesmos, tampouco se fazem somente com os que convivem, sujeito é efeito do campo da linguagem e, por isso, são divididos entre o ser e a palavra, entre a coisa e sua representação. Essa divisão faz de nós algo complexo, resistente à pré-determinação, à previsão e à redução biológica. Somos resistentes à unidade. Somos vários em um corpo, somos mais divíduos do que indivíduos.
Por isso mesmo, nada mais oposto ao inconsciente que a idéia do indivíduo. Reduzir o sujeito ao indivíduo, é, portanto, aniquilar o sujeito. Essa aniquilação é, no entanto, uma demanda recorrente na história da civilização e que toma novas formas na sociedade atual. Formas mais violentas e refinadas, pensamos com Mbembe, em Crítica da Razão Negra, que o futuro que nos espera é o avanço do colonialismo na subjetividade. Pelas telas dos app’s e mercantilização da vida íntima, a subjetividade vira produto para as redes sociais (Mbembe, 2020).
Colonizar o outro, inclusive a sua intimidade. Esse seria o último estágio da colonização, uma escravização da subjetividade. No avanço de escravização tele-guiada, o devir negro está para todos, negros de pele ou não, e dá o tom de distopia à aldeia global.
As redes seduzem: “Quem quer brincar põe o dedo aqui, que já vai fechar...” . Como produção massiva dessa distopia, vemos crescerem, vertiginosamente, os casos de disfunções classificadas como orgânicas e de medicalização das emoções. Não estaria a sociedade capitalista buscando colonizar a subjetividade? Nos perguntamos se o crescimento vertiginoso dos diagnósticos de transtornos na infância não mostra uma recusa em participar de um mundo onde a subjetividade encontra-se cada vez mais amordaçada. Será que não se trataria de um monte de gente que não quer participar desse “abacaxi”?
Uma vez que nós mesmos nos sentimos como tendo perdido esse espírito coletivo, o provérbio africano ressoa cada vez mais alto nos tempos de individualismo, meritocracia e micro empreendedorismo individual. A questão deixa de ser o posicionamento do sujeito e se torna a inadequação do indivíduo. Acumulam-se revistas, podcasts e livros de autoajuda que aconselham as pessoas a “cuidarem de suas próprias vidas”, como se fossem capazes de apartar-se do que lhes demandam, do que veem, e do que ouvem e seguirem “funcionais”
A noção de transtorno coloniza a subjetividade. Pessoas não são mais revoltadas, inibidas ou “rodam a baiana”: são transtornadas. Reduzindo o sujeito ao indivíduo, o transtorno é a colonização do mal-estar, que pode recobrir a recusa em aceitar a disfunção humanitária pelo embuste da disfunção orgânica.
É por isso que dizemos que há uma transtornalização em curso como estratégia.
Indiferenciado pelo DSM, as “dificuldades”, “alterações” ou “comportamentos antissociais”, são lidos como “disfunções sociais”, sem definir propriamente se se trata de sofrimentos experimentados pelo sujeito ou de dificuldades que esses fenômenos causam nos outros.
Nos é claro que existe uma medicalização potente para oferecer conforto ou contenção à atos potencialmente prejudiciais a si mesmo e aos outros, mas o uso que se faz de medicações e diagnósticos supera essa faixa largamente.
Trata–se não só a transtornalização da infância, como da transtornalização do infantil que resiste à uma “maturação comportamental”: a sexualidade. Em “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), Freud aponta que a sexualidade é perversa, polimorfa e infantil. Contra essa sexualidade rebelde ao enquadramento, desde sempre é demandada uma formatação de modos estabelecidos desde fora e que só podem significar uma redução de seu campo à sua função.
Porém, o mal-estar da civilização insiste e Freud nos explicou que a emoção tem razão. E-moções vem de mover para fora, movimentar para fora o que está dentro. Os afetos nos fazem falar, quer seja a palavra leiga ou douta. Colocando para fora podemos “olhar para dentro”:
– Quer ver? Escuta!
Uma psicanálise que se preze escuta a subjetividade de sua época. Nesta, onde a clínica é a política do sujeito, ouvimos a erosão dos laços de trabalho, dos laços de cidadania, dos laços entre os povos, além de uma nova onda de moralização da sexualidade.
Como a transtornalização tem afetado as subjetividades das crianças e adolescentes? Como esse fenômeno se articula à recusa da sexualidade infantil desde que ela foi apresentada ao mundo por Freud no século passado? Quais os panoramas desses fenômenos na clínica, nas escolas e nas instituições?
São essas e outras questões que a VI Jornada do Laço Analítico/ Escola de Psicanálise de Cuiabá vem provocar (pro vocare = promover a vocalização).
Como um lugar de escuta e de interrogação dos fenômenos da Transtornalização da Infância, visamos abordar o transtorno como tendo agência, como palavra (significante) que produz subjetividades. Nossa intenção é virar do avesso nossos pontos de vista e encontrar novas saídas para velhos problemas.
Na esteira da descolonização, nos alinhamos ao Perspectivismo Ameríndio, incorporando a subjetividade no saber, para entender, ao avesso das ciências humanas, que o caminho não é objetivar o homem, mas sim, subjetivar seus objetos (Castro, 2018).
Bora?
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