Como parte do
Colóquio Internacional “Expressão
artística, discurso midiático: trajetórias e performances políticas no Brasil e
França”, organizado pelo
Instituto Francês de Imprensa da Universidade Paris-Panthéon-Assas (IFP) e a
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) no
contexto das comemorações do Ano França-Brasil, o Seminário “POTÊNCIAS NEGRAS: Mulher Preta quando se junta
ergue quilombo” foi
idealizado pelo grupo de Conselheiras Negras do Conselho de Desenvolvimento
Econômico Social Sustentável – CDESS, da Presidência da República do Brasil, em
parceria com o Diversitas – Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e
Conflitos, da Universidade de São Paulo.
O Colóquio “Expressão artística, discurso midiático: trajetórias e
performances políticas no Brasil e França”, a ser realizado entre os dias 27 e
29 de agosto, busca apresentar os percursos de Carolina Maria de Jesus na
França e de Françoise Ega no Brasil, com o objetivo de dar continuidade ao
diálogo fictício criado entre essas duas mulheres do século XX, cujos olhares e
reflexões permanecem extremamente atuais.
O Seminário Potências Negras, como
parte do Colóquio, se inspira na transgressão de Carolina de Jesus e Françoise
Ega, que subvertem ao estabelecido e criam, através de suas escritas e
narrativas, uma nova maneira de comunicar necessidades, desejos e sonhos,
desmontando o sistema por dentro e defendendo o trabalho decente como
pressuposto para alcançar um arco de dignidade que devolva ao povo preto sua
condição de cidadão.
“Se um dia eu
lhe enviar estas linhas, você vai querer saber o resto da minha história. Hoje
à noite, digo a mim mesma: ‘De que adianta?’. Estou cansada. Quando você juntou
as tábuas para o barraco, você não conhecia a expressão ‘de que adianta?’, isso
me dá uma vontade danada de escrever meus pensamentos, preto no branco,
enquanto as crianças dormem (...)
Fecho uma
janela em meus pensamentos, outra se abre, e a vejo curvada, na favela,
escrevendo no papel que tinha catado no lixo. Eu, que tenho a imensa felicidade
de ter um caderno, um abajur e uma música bem baixinho que sai do rádio, acho
que seria covardia largar tudo porque uma criança rasgou as folhas do caderno.
Só me resta recomeçar”
(Cartas a uma
Negra - Françoise Ega)
Neste ano em
que celebramos o bicentenário das relações diplomáticas entre a França e o
Brasil, o Colóquio “Expressão artística, discurso midiático: trajetórias e
performances políticas no Brasil e França” e o Seminário “Potências Negras:
mulher preta quando se junta ergue quilombo” também ilustram o caráter
“silencioso” dessa amizade: uma relação que vai além dos acordos oficiais e dos
encontros institucionais, sendo também tecida por meio de trocas cotidianas,
saberes, cumplicidade, (re)conhecimento... mesmo que distantes.
A
exemplo da máxima de que “Mulher Negra quando se junta ergue quilombo”, frase de autoria de Monique Prado, e
inspiradas no legado e na potência dos escritos de Carolina Maria de Jesus e
Françoise Ega, que relatam as desigualdades sociais e a luta cotidiana das
muitas mulheres negras, pretendemos compreender como essas mulheres têm
incorporado tecnologias sociais, que podem ser utilizadas por todas as
mulheres, e têm se organizado para resistir e existir. Pretende-se ainda discutir
como a política pública tem pautado as necessidades para esse avanço e sobre
quais circunstâncias contribui na estruturação do conceito de reparação,
justiça e equidade racial.
Para tanto, nos inspiramos também em duas teóricas
e ativistas do movimento negro que defendem a assunção de mulheres negras como
pressuposto para inclusão de todas as mulheres em espaços de existência: a
francesa Francoise Vergé e a brasileira Lélia Gonzalez.
O debate sobre a necessidade da existência do mulherismo
africana tem pautado a agenda de ativistas, teóricas e estudiosas da temática
do empoderamento de mulheres para o fortalecimento de famílias. Os argumentos de quem se posiciona contra
consistem no fato de que, historicamente, mulheres ocupam um espaço de
subalternidade, e, portanto, a divisão por raça enfraqueceria a luta.
Entretanto, quando se pauta a agenda para o combate ao sexismo e discriminação,
temas que são específicos das mulheres pretas deixam de ser contemplados na
longa lista de conquistas necessárias para sairmos da desigualdade no percurso
para equidade nos espaços.
Um outro diálogo importante a ser iniciado neste
encontro é a necessidade da criação de um conceito para orientar as ações de
reparação a escravidão e o papel das mulheres neste processo, considerando que,
mulheres negras cuidam, acolhem, referenciam a família a avançar e não são
lembradas, protegidas ou priorizadas na construção de políticas públicas de
cuidado e acesso a direitos. A importância do conceito e poder avaliar quais
são os parâmetros a serem estruturados para reparar as ausências e o acesso a
cidadania que permanece como herança da escravidão. Iniciar esse debate é
urgente: como se compensa um passado de perversidades e ausência com inédito
viável, na concepção freiriana: o futuro possível a partir das utopias cocriadas
pela articulação de políticas públicas e vontade política de fazer justiça
racial.