Sobre o evento
Fiel ao que já se tornou uma tradição, a Associação dos Africanos do Maranhão (AAMA) organiza mais uma vez este ano um importante evento: a Semana da África 2026. Este evento se insere na linha lógica dos seminários África-Brasil, como foi o caso do ano passado com o IV SEMINÁRIO ÁFRICA-BRASIL, que transcorreu com grande sucesso de 21 a 24 de maio de 2025, sob o tema «CONFLUÊNCIA TRANSATLÂNTICA: INTERCONEXÕES CULTURAIS E SOCIOECONÔMICAS ENTRE O BRASIL E OS PAÍSES AFRICANOS”.
Notou-se com grande satisfação a participação de alunos de graduação e pós-graduação, professores-pesquisadores do ensino básico e superior, bem como, de representantes de diversas instituições parceiras. As atividades giraram em torno de minicursos, mesas redondas, simpósios temáticos, oficinas práticas e conferências.
É importante lembrar que esses eventos, realizados anualmente, permitem comemorar uma das maiores conquistas do Pan-africanismo: a criação da Organização da Unidade Africana (OUA), fundada em 25 de maio de 1963, em Adis Abeba, na Etiópia, por líderes políticos africanos como Kwame Nkrumah, de Gana, Modibo Keita, do Mali, Julius Nyerere, da Tanzânia, Jomo Kenyatta, do Quênia, e Gamal Abdel Nasser, do Egito da época (...) sob a liderança do imperador da Etíopia, Haile Selassie. No âmbito da modernização dessa organização pan-africana, nomeadamente adaptando-a à evolução dos tempos e sob o impulso do líder da Líbia, o Coronel Muammar Muhammad al-Gaddafi (1942–2011), a OUA foi transformada na União Africana (UA) em 2002, durante a 36ª e última cúpula da OUA, realizada em Durban, na África do Sul, tendo Thabo Mbeki como primeiro presidente.
Neste ano de 2026, a celebração da Semana da África tem como tema «ÁFRICA, PAN-AFRICANISMO E O MUNDO NEOLIBERAL: avanços, permanências e oportunidades no século XXI». Na verdade, tudo parte de um pressuposto palpável, até mesmo chocante: o de um mundo multilateral no qual se manifesta a hegemonia dos países do Norte no contexto da globalização e do desenvolvimento do neoliberalismo, cujos efeitos ainda não foram suficientemente avaliados, sobretudo para os países do Sul Global em geral e os da África em particular. Mais de sessenta anos após as independências, a África continua sendo o continente mais subdesenvolvido do mundo, apesar das numerosas e diversas riquezas de que é dotada. A busca por estratégias de desenvolvimento para os países africanos, continua sendo um verdadeiro desafio para as gerações atuais e futuras. Isso se torna ainda mais complicado quando se percebe as implicações nefastas de fatores exógenos, como as tensões internacionais, notadamente entre a Rússia e a Ucrânia, bem como, entre o bloco Israel-americano e o Irã. A estes somam-se certos fatores endógenos, nomeadamente as crises sociopolíticas (terrorismo, golpes de Estado, corrupção, permanência prolongada no poder, violação dos princípios democráticos e dos direitos humanos, etc.). É evidente que a trajetória histórica da África foi fortemente influenciada por certos fatores históricos, como o tráfico de escravizados e a colonização. É, portanto, o momento certo para saudar a iniciativa tomada por Gana, que culminou, em 25 de março de 2026, no reconhecimento pela Organização das Nações Unidas (ONU) do Tráfico Transatlântico de Escravizados Africanos como o CRIME MAIS GRAVE CONTRA A HUMANIDADE. Trata-se de uma verdadeira conquista histórica e, sem dúvida, um grande avanço. No entanto, trata-se apenas de uma etapa de um longo processo, pois o tráfico e a escravidão foram oficialmente abolidos já no século XIX, e somente em 2026, se chegou a esse reconhecimento. A próxima etapa deverá, portanto, ser a da justiça e das reparações, pois não pode haver crime sem punição. Isso pressupõe, consequentemente, a determinação das responsabilidades dos atores envolvidos. Nessa lógica, a África tem o direito de exigir uma espécie de “Plano Marshall” para combater os efeitos duradouros do ajuste estrutural histórico de que foi vítima desde o século XV, com o início do Tráfico Transatlântico.