O presente projeto de Oficina de Psicanálise
objetiva abordar o fenômeno psicótico na esquizofrenia e na paranoia, sob a
ótica de Sigmund Freud e Jacques Lacan, tendo como base central a discussão que
ambos fazem sobre o Caso Schreber, artigo escrito por Freud, em 1911, buscando,
assim compreender as características da estrutura psicótica e os caminhos que
levam à formação dos fenômenos.
O inventor da Psicanálise dedicou
seus esforços para demarcar uma teoria do inconsciente. Freud percebeu, em sua
experiência clínica, que a escuta por meio da associação livre possibilitava a
emergência do sujeito do inconsciente, além de criar condições mediante a
transferência para as suas manifestações.
Tudo isso foi postulado por ele tendo
como base a escuta de sujeitos neuróticos. Quando, no entanto, Freud se propôs
a pensar o trabalho clínico com sujeitos psicóticos, ele encontrou uma série de
dificuldades, chegando, inclusive, a contraindicar o tratamento psicanalítico
para esses sujeitos. Isso porque Freud pensou o tratamento com sujeitos
psicóticos nos mesmos moldes da neurose, isto é, tendo o laço de amor
transferencial como condição indispensável.
Para ele, a psicose não fazia o laço
transferencial que tal tratamento exigia como condição necessária, por isso
afirmou que o método psicanalítico não se aplicava ao tratamento da psicose.
Engana-se, no entanto, quem acredita
que Freud não contribuiu para a teoria e clínica da psicose. Desde a escrita de
seus textos pré-psicanalíticos, Freud fez importantes formulações a respeito
dessa clínica. Inicialmente, foi apoiando-se na sua teoria e prática com as
neuroses que Freud começou a trilhar os caminhos para o desenvolvimento do
conceito de psicose. Assim sendo, Freud baseia-se, a princípio, no conceito de Verdràngung
(recalque), para tecer suas formulações a respeito da psicose.
Assim sendo, o Caso Schreber é um importante estudo de
Freud, publicado em 1911 sob o nome de Notas Psicanalíticas Sobre Um Relato
Autobiográfico De Um Caso De Paranoia (Dementia Paranoides). Foi feito a
partir da leitura de Memórias de um Doente dos Nervos, de 1903, escrito pelo
paciente Daniel Paul Schreber, que nunca conheceu.
O presidente Schreber é marcado por
três crises que culminaram em internações. A primeira ocorreu em 1884, pouco
tempo depois de ter se candidatado a um importante cargo no congresso, o qual
foi atribuído por Schreber como sendo a causa dessa doença devido às tensões
emocionais aí vividas. Nessa época, ficou internado sob os cuidados do médico
Flechsig, que descreveu essa primeira doença como sendo uma crise grave de
hipocondria. Após ter restabelecido a saúde, Schreber relata ter sonhado
algumas vezes que a doença havia retornado e que, em certa ocasião, ocorreu-lhe
"a ideia de que deveria ser realmente bom ser uma mulher se submetendo ao
coito" (Schreber, Freud, 1911/2010).
A
segunda crise ocorreu pouco tempo depois de tomar a posse do cargo de
juiz-presidente do tribunal de apelação de Dresden, mesma época em que sua
esposa, pela primeira vez, se ausentou de casa devido a uma viagem. A
sobrecarga de trabalho quando assumiu o cargo foi atribuída por Schreber como
sendo a causa dessa segunda doença. Nessa época, foi internado com queixas de
insônia, mas seu quadro sintomatológico mudou rapidamente e começou a
apresentar ideias de perseguição e alucinações visuais e auditivas. Além disso,
começou a sentir-se perseguido pelo próprio médico, temendo que este abusasse
dele sexualmente. Desse modo, o delírio de Schreber surge da inversão do amor
em ódio, pois "aquele agora odiado e temido, por sua perseguição, seria
alguém amado e venerado anteriormente" (Freud, 1911/2010).
O
núcleo do delírio de Schreber era a convicção de que seu corpo estava sendo
transformado em um corpo feminino (a emasculação). Primeiramente, a ideia de
sua transformação em mulher era vista como perseguição, e essa transformação
ocorreria mediante abusos sexuais praticados por seu médico, Flechsig. Deus era
visto como seu aliado, mas ainda não havia encontrado uma maneira de ajudá-lo.
No último momento de seu delírio, no entanto, Schreber passa a crer que sua
transformação em mulher se tratava, na verdade, de um propósito/projeto de
Deus.
O
delírio de Schreber, portanto, apresentou inicialmente uma conotação
persecutória, todavia, gradativamente e após várias transformações, adquiriu um
caráter místico-religioso, com nuances de megalomania. Schreber passa a crer
que Deus lhe atribuiu a missão de redimir o mundo e restituir o estado de
beatitude à humanidade.
Assim
sendo, nessa nova configuração de seu delírio, sua transformação em mulher
salvaria o mundo, passando a sentir-se, assim, como a esposa escolhida por
Deus. De acordo com Freud (1911/2010), apesar de essa transformação do delírio
parecer, a princípio, ser um agravamento do quadro clínico de Schreber,
trata-se, na verdade, de uma solução encontrada para lidar, em seu delírio, com
a ideia inicialmente recusada (Verwerfung), pois, na perspectiva de
Schreber, "era impossível se conciliar com o papel de uma mulher fácil
perante o médico". Porém, de modo contrário, não constituía uma
resistência para o ego se submeter a um desejo e escolha vindos de Deus e,
dessa maneira, salvar a humanidade.
A
leitura freudiana das memórias do presidente Schreber produz, como principal
contribuição, a ressignificação de suas experiências aflitivas pela via do
delírio, uma vez que, até então, para a Psiquiatria, o delírio era carregado de
acepção patológica. A partir da análise dessa biografia, Freud (1911/2010)
ressalta a função apaziguadora ocupada pelo delírio místico-religioso de
Schreber, contribuindo, desse modo, para a pacificação de seu sofrimento. Assim
sendo, nessa época, Freud já dava indícios de que o tratamento com sujeitos
psicóticos deveria contar com o recurso do delírio, formulando, assim, o
aforisma "o delírio como tentativa de cura".
Já Jacques-Marie Émile Lacan, como
estudioso da teoria freudiana, conseguiu perceber, por meio de seus estudos, as
peculiaridades da manifestação da transferência na psicose. A partir de algumas
formulações e argumentos lacanianos, não houve mais motivos para os
psicanalistas contestarem a clínica com sujeitos psicóticos.
A partir da análise da construção do
sistema delirante de Schreber, Lacan (1957/1958/1998) indica que o sujeito
psicótico tem a possibilidade de, via "metáfora delirante", construir
uma suplência à ausência da metáfora paterna. Para Lacan, a estabilização das
crises se torna possível quando há a construção de uma nova realidade a partir
do delírio. Desse modo, a estabilização se apresenta como "uma operação
que circunscreve, localiza, deposita, separa ou apazígua o gozo, correlativa de
uma entrada em algum tipo de discurso, por mais precário que ele seja"
(Alvarenga, 2000, p. 18). Portanto, a estabilização por meio do delírio é o que
há de mais próximo de uma cura possível da psicose.
Diante do trabalho que o sujeito
psicótico já realiza na tentativa de barrar o excesso de gozo do Outro, Lacan
salienta que cabe ao psicanalista a posição de ser o "secretário do
alienado". Trata-se de uma posição em que o analista interpreta literalmente
o que o sujeito lhe diz, escutando simplesmente, sem a preocupação de querer
compreender o que ouve e sem a ocupação de interpretar pelo sentido, afinal
essa função caberia ao delírio em suas conexões com o sujeito. Escutar o
sujeito em seu trabalho de construção de uma realidade própria equivale a uma
posição de secretariar, de testemunhar a relação singular do sujeito com o
Outro de acordo com Quinet.
Portanto,
nossa oficina terá o objetivo de discutir dois textos, a saber: “OBSERVAÇÕES
PSICANALÍTICAS SOBRE UM CASO DE PARANOIA (DEMENTIA PARANOIDES) RELATADO
EM AUTOBIOGRAFIA (“O CASO SCHEREBER” 1911)” de Sigmund Freud e “DE UMA QUESTÃO PRELIMINAR A TODO TRATAMENTO
POSSÍVEL DA PSICOSE”, (ESCRITOS), de Jacques Lacan, apresentado no seu
seminário durante os dois primeiros trimestres do ano letivo 1955/1956, em que o Psicanalista francês
discutiu o texto de Freud de 1911, a fim de que possamos vislumbrar a visão de
ambos sobre o mesmo tema e as possíveis saídas para essa estrutura psíquica que
causa tanta curiosidade e discussões no mundo acadêmico.
Por
último, a fim de fechar nossa discussão traremos um texto de Fabíola Moreira
Alvarenga, intitulado: O FENÔMENO PSICÓTICO: SOB A ÓTICA DE FREUD E
LACAN, a fim de fazer um fechamento para nossa oficina.
Pois,
eis a pergunta feita por Lacan: O que é o fenômeno psicótico? É a emergência na
realidade de uma significação enorme que não se parece com nada – e isso, na
medida em que não se pode ligá-la a nada, já que ela jamais entrou no sistema
da simbolização. (LACAN, 1985, p.102).
Assim sendo, apresentamos o plano de
estudo dos temas a serem debatido nesta nova oficina.
01.
OBSERVAÇÕES PSICANALÍTICAS SOBRE UM
CASO DE PARANOIA (DEMENTIA PARANOIDES) RELATADO EM AUTOBIOGRAFIA (“O CASO
SCHREBER”, 1911) – Pag. 14/46
·
INTRODUÇÃO E HISTÓRIA CLÍNICA
02.
OBSERVAÇÕES PSICANALÍTICAS SOBRE UM
CASO DE PARANOIA (DEMENTIA PARANOIDES) RELATADO EM AUTOBIOGRAFIA (“O CASO
SCHREBER”, 1911)
·
TENTATIVAS DE INTERPRETAÇÃO
03.
OBSERVAÇÕES PSICANALÍTICAS SOBRE UM
CASO DE PARANOIA (DEMENTIA PARANOIDES) RELATADO EM AUTOBIOGRAFIA (“O CASO
SCHREBER”, 1911) - Pág. 78/108.
·
SOBRE O MECANISMO DA PARANOIA E
PÓS-ESCRITO
04.
ESCRITOS: DE UMA QUESTÃO PRELIMINAR A
TODO TRATAMENTO POSSÍVEL DA PSICOSE: - Pag. 531/553
·
RUMO A FREUD E DEPOIS DE FREUD
05. ESCRITOS: DE UMA QUESTÃO PRELIMINAR A TODO TRATAMENTO POSSÍVEL DA
PSICOSE: - Pág. 554/563.
·
COM FREUD
06. ESCRITOS: DE UMA QUESTÃO PRELIMINAR A TODO TRATAMENTO POSSÍVEL DA
PSICOSE: – Pág. 563/575
·
DO LADO DE SCHEREBER PARTE I
07. ESCRITOS: DE UMA QUESTÃO PRELIMINAR A TODO TRATAMENTO POSSÍVEL DA
PSICOSE: - Pág. 575/590
·
DO LADO DE SCHEREBER PARTE II –
PÓS-ESCRITO
08. O FENÔMENO PSICÓTICO: SOB A ÓTICA DE FREUD E
LACAN Artigo da Dra. Fabíola Moreira Alvarenga
METODOLOGIA
A oficina será realizada
pelos organizadores da Oficina, sendo que a leitura será feita de acordo com o
tema indicado, também cabe os organizadores a função de facilitar, e fomentar o
debate entre os participantes.
Serão 08
encontros, quinzenais, aos sábados, com duração de duas horas, das 10 às 12
horas, iniciando em agosto/2023, com término em novembro/2023, e;
O objetivo dos
encontros quinzenais é permitir a leitura prévia do tema indicado em tempo
hábil, sendo que os organizadores sempre providenciarão a disponibilização dos
textos, quando possível, via digital, para os participantes, devendo os
participantes fazerem as leituras prévias, como modo de maior participação nos
encontros, em especial para aprofundar a discussão dos textos, promovendo
assim, uma melhor dinâmica da oficina, uma vez que o objetivo da formação em
Psicanálise é a troca de experiências, de conhecimentos e construção de novos
saberes.