Partindo da perspectiva das análises sobre as morfologias de diferentes cidades, os temas de cada conferência vêm se diversificando e acumulando conhecimentos e experiências fundamentais à compreensão das morfologias urbanas e os processos associados. Cada conferência contribuiu com avanços que surgem desde 2011, partindo de perspectivas quantitativas que focam na forma urbana e no desenho das cidades propriamente dito, à compreensão das diversificações, contextos regionais, interlocução com naturezas físicas, sociais e econômicas, refletindo sobre os desafios futuros.
A proposta desta organização para o PNUM 2026 na Universidade Federal Fluminense, segue em diálogo com as treze conferências antecedentes, mas, sobretudo, se alimenta na fonte das últimas edições brasileiras. Em que pese os desafios contemporâneos e as expectativas do futuro pautadas na reunião de 2022, no Rio de Janeiro, às questões advindas da reunião de Belém, em 2024, que foram instigadoras do aprofundamento sobre a reflexão das identidades diversas e constituintes da sociedade brasileira. Dadas suas múltiplas matrizes, falar da morfologia urbana brasileira é dialogar com as contribuições das muitas origens migratórias que se deram em diferentes momentos, tanto externas, com as levas de europeus, africanos e asiáticos, quanto às internas, desde os descimentos dos povos indígenas, aos deslocamentos motivados por causas econômicas, sanitárias, guerras e revoltas.
Nichteroy, águas escondidas em Tupi-Guarani, além da toponímia que revela os fatores geográficos que intercedem a produção dos assentamentos humanos, anuncia a primeira origem de suas gentes: indígenas. A estas se seguem as migrações intercontinentais que se estabelecem em seu território, notadamente europeus - portugueses e espanhóis - e vários povos africanos, principalmente Bantus e Yorubás. Milton Santos afirma:
O território em que vivemos é mais que um simples conjunto de objetos, mediante os quais trabalhamos, circulamos, moramos, mas também um dado simbólico. A linguagem regional faz parte desse mundo de símbolos, e ajuda a criar esse amálgama, sem o qual não se pode falar de territorialidade. Esta não provém de um simples fato de viver num lugar, mas da comunhão que com ele mantemos. Santos ([1987] 2007, p.81).
Pouca atenção é dada às linguagens desses povos, indígenas, negros, e até mesmo aos eurodescendentes periféricos, cujas territorialidades ainda são cerceadas e, por extensão, são invisibilizadas as tecnologias sociais que acumularam através das suas vivências e identidades.
Na 14ª Conferência da Rede Lusófona de Morfologia Urbana escolhemos o desafio de desvendar as contribuições ocultas, ou menos acessadas, para compreender as peculiaridades de nossas cidades na sua forma, processos e desafios futuros. Em Belém, buscou-se “perspectivas inovadoras e sensíveis às especificidades locais, contribuindo para consolidar debates e práticas que reconhecem as dinâmicas dos territórios periféricos como centrais para a compreensão e representação do espaço urbano contemporâneo” (Ana Claudia Barbosa, 2022). Em Niterói, retomamos essa trilha partindo da concepção de que territórios e identidades periféricas são centrais, ainda que subsumidos em nossa história e no urbanismo. Consideramos investigar e conhecer as contribuições das práticas passadas e sua evolução com dois propósitos: aprender com o passado e compreender o presente. Assim, pretendemos contribuir para a produção de cidades mais inclusivas, inteligentes e resistentes no futuro.
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