O que acontece quando uma voz do sertão encontra a estética do teatro noh (nō) japonês? A indagação é o ponto de partida do trabalho de Felipe Mendes, pesquisador doutor em Artes que desembarca em Fortaleza para a palestra “Teatro Noh Contemporâneo: diálogos interculturais com o cordel", a ser proferida na noite do próximo dia 03 de julho, no auditório do Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

A convite do Laboratório de Língua e Cultura Japonesa da Uece (NihongoLab) e do Laboratório de Estudos de Estética e Imagem (Imago) da Universidade Federal do Ceará (UFC), o pesquisador aborda como a literatura de cordel pode reconfigurar o clássico teatro japonês como espaço de tradução intercultural, analisando as tensões e justaposições das culturas a partir da obra Jigoku no mon wo tataku otoko — ou Lampião Noh Inferno, promovida pela Embaixada do Brasil no Japão com direção de Soraya Umewaka.
A fala coloca em evidência as pesquisas em Estudos Japoneses enfatizadas pela relação Brasil x Japão e pelas negociações tradutórias possíveis entre formas artísticas supostamente distantes. A temática do pesquisador, que é natural de Fortaleza (CE), é resultado de sua tese de doutoramento na Universidade de Osaka, Japão, produzida como parte de sua temporada investigando a área em bolsa de pesquisa do Ministério da Educação, Cultura, Esporte, Ciência e Tecnologia do Japão (Monbukagakusho, MEXT).
Aberto à comunidade e com entrada franca, o público interessado no evento deve realizar, previamente, inscrição por meio da plataforma Even3. A apresentação ocorre a partir das 18h30 no auditório do Centro de Humanidades da Uece, com transmissão online dirigida às pessoas interessadas no formato híbrido.
A palestra é promovida pela parceria entre os grupos de pesquisa NihongoLab e Imago, que colaboram, desde o segundo semestre de 2025, com a difusão dos Estudos Japoneses no Ceará, bem como com as discussões afins ao tema nos campos da Sociologia, Antropologia, Estudos de Imagem, Comunicação e outros. O grupo NihongoLab é coordenado pela professora doutora Laura Tey Iwakami. As atividades do Imago, que é vinculado ao Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFC (PPGCOM-UFC), são dirigidas pela professora doutora Gabriela Frota Reinaldo.
A palestra tem correalização, ainda, do Programa de Pós-graduação em Sociologia (PPGS) da Uece.
Felipe Mendes é doutor em Artes pela Universidade de Osaka, mestre em Cultura Japonesa pela Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em Jornalismo pela UFC. Ex-aluno do curso de japonês da Uece, é a primeira vez que o pesquisador compartilha resultados finais de sua tese de doutorado em comunicação realizada em língua portuguesa.

SERVIÇO
Palestra Teatro Noh Contemporâneo: diálogos interculturais com o cordel, apresentada por Felipe Mendes, doutor em Artes pela Universidade de Osaka
Quando: 03 de julho, 18h30
Local: Auditório do Centro de Humanidades da Uece; Av. Luciano Carneiro, 345, Campus Fátima;
Formato: híbrido (orientações serão enviadas pelo e-mail fornecido no ato de inscrição)
Entrada gratuita, sujeita à lotação do espaço.
Acompanhe resumo completo da apresentação:
O que acontece quando uma voz do sertão encontra a estética do teatro nō japonês? Esta apresentação parte de uma pergunta aparentemente improvável para explorar um fenômeno presente na arte japonesa contemporânea, a reconfiguração do shinsaku-nō como espaço de tradução intercultural.
O nō é frequentemente descrito como a forma cênica mais hermética do Japão — uma arte de contenção, de ancestralidade, de presença quase espectral. O cordel, por sua vez, nasce do excesso: da voz que performa, da xilogravura que grita, da narrativa que circula entre feiras e mãos. São estéticas que parecem se recusar mutuamente. E é exatamente nessa tensão que algo novo emerge.
A obra Jigoku no mon wo tataku otoko — ou Lampião Noh Inferno — coloca essas duas tradições em contato direto, revelando que a tradução intercultural pode ser um encontro produtivo de diversas fricções. Ao longo desta apresentação, proponho que pensemos esse encontro não como uma sobreposição, mas como o que Lotman chamaria de fronteira semiótica: o lugar onde sentidos se transformam, no qual a alteridade se torna legível e dá à luz a novas possibilidades estéticas.