O fazer psicanalítico: transmissão, acesso e implicações da prática psicanalítica
UFJF - 05 e 06 de novembro de 2026
A Jornada de Estudos Psicanalíticos de 2026, proposta pelo Círculo de Estudos Psicanalíticos de Juiz de Fora em parceria com o Grupo de Pesquisa em Sociedade, Educação e Psicanálise, sediado na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora, se propõe a discutir “O fazer psicanalítico: transmissão, acesso e implicações da prática psicanalítica”, retomando um problema estrutural da história da psicanálise, que é a tensão entre a singularidade da experiência analítica e as tentativas de sua normatização institucional. Tomando como referências básicas os textos A questão da análise leiga (1926), de Sigmund Freud, e Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956, de Jacques Lacan, o evento pretende recolocar em debate os impasses que atravessam a formação, a transmissão e o acesso à psicanálise na contemporaneidade.
Desde sua origem, o campo psicanalítico se constituiu em tensão com os saberes instituídos, recusando subordinar-se integralmente à medicina, à psicologia ou a qualquer forma de autoridade externa. Ao escrever sobre a análise leiga, Freud (2014/1926) foi enfático: o exercício da psicanálise não pode ser reduzido a uma autorização legislativa, à existência de determinado diploma, uma vez que trata-se de algo sui generis: atravessar a experiência de uma análise, dedicar-se ao estudo da “psicologia das profundezas”, preferencialmente entre pares. Na mesma esteira, Lacan (1998a/1957) destaca a singularidade da formação do analista, assim como sua preocupação com a questão da transmissão, ao indagar “o que a psicanálise nos ensina, como ensiná-lo?”.
Freud (2014/1926) aponta que, a despeito da análise pessoal e do estudo teórico, na formação do analista, “algo ainda resta”. Ao rejeitar justamente essa dimensão, o desenvolvimento histórico do movimento psicanalítico acabou por introduzir dispositivos institucionais que, ao buscar garantir a transmissão e a legitimidade da prática, produziram efeitos de normatização. A formalização do modelo berlinense, conduzida por Max Eitingon, estabeleceu critérios como análise didática, formação teórica e prática supervisionada, configurando um sistema que transformou a psicanálise em uma “comunidade intelectual organizada em torno de uma técnica comum transmitida por métodos universais de ensino” (MAKARI, 2024, p. 358). Se, por um lado, essa estrutura respondeu à necessidade de formação e expansão do campo, por outro, instaurou o risco de redução da experiência analítica a um conjunto de procedimentos técnicos e normativos, nos quais tornar-se psicanalista significava ter passado por essas estruturas.
São justamente essas questões que Lacan denuncia como efeitos de adaptação, padronização e burocratização que atravessam a prática e a política psicanalítica de seu tempo, motivo pelo qual insiste que a formação do analista não pode ser garantida por dispositivos institucionais, mas deve ser pensada a partir da experiência singular da análise e de suas consequências subjetivas. Tal posição desloca o problema da formação do plano pedagógico para o plano ético, recolocando no centro a relação do sujeito com o inconsciente, com o desejo e o real em jogo.
Na contemporaneidade, esse debate adquire nova urgência diante das pressões por regulamentação profissional, certificação e adequação a lógicas neoliberais de gestão, desempenho e controle. Além disso, a psicanálise vem sendo tomada como mais uma tecnologia de performance subjetiva (coaching existencial, mindfulness com inconsciente etc.) inclusive por dispositivos não humanos, que constituem outra forma de normatização, binária e algorítmica. Tais dispositivos tendem a transformar a psicanálise em uma prática regulada por critérios de eficácia, padronização e mensuração, em detrimento de sua dimensão ética e de sua abertura à singularidade. Acrescente-se ainda que a percepção da psicanálise como um ofício soa anacrônica com a realidade de profissionais que dependem da clínica para sobreviver. O estatuto profissional da psicanálise enquanto trabalho precisa ser enfrentado na ordem das precarizações contemporâneas. Como já indicava Freud (2014/1926), a questão “quem pode ser psicanalista?” não pode ser dissociada da pergunta “o que é a psicanálise?”, tampouco das condições de acesso à formação e à clínica.
É diante desse contexto que a II Jornada do Círculo de Estudos Psicanalíticos propõe-se a articular os seguintes eixos temáticos:
1) Memória, resistências e identidade;
2) Psicanálise e trabalho;
3) Experiências formativas em psicanálise
4) Psicanálise, raça, gênero, etnia e decolonialidade.
O objetivo geral é o de problematizar as múltiplas incidências da normatização da subjetividade na prática e na formação psicanalítica.
Ao considerar tanto os impasses históricos quanto os desafios atuais, a Jornada busca sustentar um espaço de reflexão crítica sobre os modos de transmissão da psicanálise, suas condições de acesso e os efeitos institucionais que incidem sobre o fazer do analista, reafirmando a especificidade da experiência analítica diante das tentativas de sua captura por discursos normativos.
Bibliografia:
FREUD, Sigmund (2014). A questão da análise leiga. In: FREUD, S. Obras completas, v. 14. São Paulo: Companhia das Letras, pp. 124-230. (Originalmente publicado em 1926).
LACAN, Jacques (1998). Situação da psicanálise e formação do psicanalista. In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, pp. 461-495. (Originalmente publicado em 1956).
LACAN, Jacques (1998a). A psicanálise e seu ensino. In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, pp. 438-460. (Originalmente publicado em 1957).
MAKARI, George. Revolução em mente: a criação da psicanálise. São Paulo: Perspectiva, 2024.