O projeto “Lirismo de Quinta – ocupação poética e musical no IFB” consiste na realização quinzenal de rodas conversa e saraus abertos a toda a comunidade. A metodologia que adotaremos busca no formato da roda, cujas origens remontam a ancestralidade, em que pessoas de uma comunidade se reuniam ao redor de uma árvore (Arbre à palabre) para discutir os assuntos da vida cotidiana, ouvir os conselhos de anciãos, rememorar histórias do povo, entre outros. Esse tipo de configuração está na base da produção cultural focada em uma pedagogia da oralidade presente em diferentes contextos brasileiros, conforme explica Cordeiro (2024, p. 188): “A confecção do fazer artístico, desse modo, descreve essa circularidade em tempos e situações distintas, sendo a roda (de choro, de samba, de capoeira, de ciranda, da pedagogia dos griôs) o que move a cultura brasileira”. Inspiradas nesse formato, buscamos construir um caminho didático em que possamos construir pontes epistemológicas entre saberes do mundo das ciências da linguagem e do legado das tradições e vivências líricas, visando superar a hierarquização que encastela a academia – que, por um lado, deixa de aprender com outras formas de saber, e, por outro, alija toda a população não privilegiada do acesso aos saberes acadêmico-científicos, bem como do acesso à fruição estética e a espaços de produção artística. Essa perspectiva busca construir conhecimentos solidários na perspectiva da Ecologia de Saberes (Santos, 2010) e parametrizadas pela ética Ubuntu (Nascimento, 2013). Pautamo-nos também pela tríade do método freiriano (Freire, 2006) da reflexão-ação-reflexão, deixando aos participantes o protagonismo de seu aprendizado e valorizando o que são capazes de produzir como agentes transformadores de suas realidades. Objetivamos promover a fruição estética e a reflexão sobre a produção artística como espaços simbólicos de humanização a partir da compreensão de que a arte é um direito humano imprescindível, conforme nos ensina Antonio Candido no ensaio o “Direito à Literatura” (Candido, 1995). Igualmente, entendemos que o acesso a expressões artísticas e a epistemologias que permitam compreender seu funcionamento social pode cooperar para a superação de problemas sociais, consoante ao que postula Augusto Boal sobre o teatro como arte marcial – “Sabemos que para resistir não basta dizer não. Desejar é preciso! É preciso sonhar. Não o sonho tecnicolorido da televisão, que substitui a dura realidade em preto e branco, mas o sonho que prepara uma nova realidade.” –, ou seja, que precisa de disciplina, treino, vivência, e que, ao mesmo tempo pode ser arma na construção de uma utopia radicalmente humanista. Assim, instanciaremos rodas de trocas em que tematizaremos diferentes questões sociais que atravessam e são atravessadas pela produção poética. Para tanto, contamos com o apoio de docentes do IFB e dos Departamentos de Teoria Literária e de Música da UnB, bem como com o coletivo de CPL Poetas Contra o Fascismo do DF e com a Rádio Cultura de Brasília. Para além, buscaremos também ampliar a participação de artistas de São Sebastião e de outras Regiões Administrativas do DF, focalizando o apoio de atores sociais da cidade, a fim de promover uma integração maior da escola/academia com a comunidade de São Sebastião.
Palavras-chave: Poesia. Movimentos Sociais. Letramento Comunitário. Transmissão Oral de Saberes. Epistemologias Solidárias. Ecologia de Saberes.
|