A relação de Lacan
com o catolicismo é ambígua, profunda e estrutural. Ele se declarava ateu (sua
fórmula "Deus é inconsciente" é um ateísmo psicanalítico radical),
mas sua formação, cultura e interlocução eram profundamente católicas. Ele tinha
um irmão monge beneditino, Marc-François Lacan, com quem dialogava, e manteve
relações intelectuais intensas com jesuítas eminentes como Louis Beirnaert e
Michel de Certeau, que frequentavam seus seminários e escreviam sobre sua obra.
A intersecção entre a
psicanálise de Jacques Lacan e a teologia cristã, especificamente a teologia
paulina, constitui um dos campos mais férteis, complexos e, por vezes,
desconcertantes da teoria psicanalítica contemporânea. Jacques Lacan, figura
central do retorno a Freud no século XX, não se limitou a dialogar com a
filosofia hegeliana, a linguística saussuriana ou a antropologia estrutural;
ele estabeleceu um confronto direto, estrutural e continuado com os textos
fundadores do cristianismo, elegendo o Apóstolo Paulo como um interlocutor
privilegiado para articular as aporias fundamentais da Lei, do Desejo e do Gozo,
sobretudo no uso que este fez das cartas paulinas, com ênfase na Carta aos
Romanos e na Segunda Carta aos Coríntios, demonstrando como a subversão do
sujeito opera sobre o solo preparado pela teologia da graça, da transgressão e
da letra.
Lacan não utiliza
Paulo meramente como uma referência cultural, literária ou retórica, mas como
um teórico rigoroso da subjetividade dividida, um precursor da análise
estrutural do desejo humano diante da Lei. A operação de Lacan consiste em
extrair da teologia paulina uma estrutura lógica, a relação dialética
inextrincável entre a Lei e o Pecado, a tensão mortal entre a Letra e o
Espírito, para formalizar a economia do gozo no ser falante (parlêtre).
Desde a ética do desejo, formulada no seminal Seminário 7, até a lógica
do "não-todo" e da sexuação no Seminário 20, passando pelas
reflexões sobre o saber e a verdade no Seminário 16, a sombra de Tarso
projeta-se sobre a álgebra lacaniana, revelando que a psicanálise, longe de ser
uma simples negação da religião ao estilo do iluminismo vulgar, é, em certo
sentido, a sua decifração materialista e a sua herdeira crítica.
Ao longo deste seminario, exploraremos como a figura de Paulo, ele próprio um sujeito cindido entre a tradição farisaica e a revelação do evento Cristo, fornece a Lacan as ferramentas para pensar o supereu feroz, a impossibilidade da relação sexual e o triunfo do sentido religioso.
Por fim, catalogaremos as referências explícitas e implícitas que costuram a obra lacaniana ao corpus paulino, iluminando a complexa relação do psicanalista com o cristianismo católico.