Museu Antropológico da UFG - Goiânia - Goiás - Brasil
Dias 18 e 19 de julho de 2026, no Museu Antropológico da UFG, em Goiânia (GO), em formato presencial, como pós-evento da 35º Reunião Brasileira de Antropologia (RBA).
A 30a Jornada Rede NIGS Etnografias, Pedagogias e Políticas Feministas tem como objetivo celebrar os 35 anos do Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades, reunindo a REDE NIGS, rede internacional composta por professoras/es doutoras/es parceiras de projetos de pesquisa e egressas/os do Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades da UFSC, assim como estudantes vinculades a núcleos que fazem parte desta rede.
As Jornadas NIGS iniciaram em 1991 quando da criação do Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades (NIGS) e acontecem regularmente em diferentes lugares do Brasil. A cada ano é definido um tema sobre o qual todas as/os/es participantes, se debruçam em suas apresentações.
A edição comemorativa dos 35 anos do NIGS (1991-2026), tem como foco a reflexão teórica e metodológica sobre o papel e impacto do Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades da UFSC, na constituição do campo dos estudos de gênero e sexualidade em três grandes áreas: a Etnografia, a Pedagogia e a Política.
Coordenadora Geral - Miriam Pillar Grossi (UFSC)
Comissão organizadora: Alinne Bonetti (UFSC) Elisete Schwade (UFRN) Francine Pereira Rebelo (IFG) Juliana Cavilha (UES) Marcelo Oliveira (UFV e MDHC)
Comissão Científica: Anna Paula Uziel (UERJ) Camilo Braz (UFG) Carmen Gregorio Gil (Universidad de Granada) Elizabeth Imaz (Universidad del País Vasco) Eric Fassin (Université de Paris 8) Flavio Tarnovski (UFMT) Jérôme Courduriès (Université de Toulouse) José Maria Valcuende del Rio (Universidad Pablo Olavides) Jules Falquet (Université de Paris 8) Laurence Tain (Université de Lyon 2) Luiz Mello (UFG) Mario Pecheny (Universidad de Buenos Aires) Martha Patricia Castañeda (Universidad Autonoma de Mexico) Michel Bozon (INED - França) Miguel Vale de Almeida (ISCTE - Portugal) Paola Bacchetta (Berkeley University)

É com grande satisfação que apresentamos o caderno de resumos da Jornada 35 anos REDE NIGS 35: Etnografias, Pedagogias e Políticas Feministas, que será realizada nos dias 18 e 19 de julho de 2026, no Museu de Antropologia da UFG, em Goiânia (GO), em formato presencial.
Parabenizamos as autoras e autores dos trabalhos aceitos para apresentação
Consulte aqui o caderno de resumos e autores/as.
Agradecemos a todas as pessoas que submeteram trabalhos e celebramos a participação nesta edição especial da Jornada.
Nos vemos em Goiânia!
Carta-sentida à Rede NIGS
São José (SC), 17 de julho de 2026.
Querida Rede NIGS,
Escrevo-lhes na iminência da Jornada que celebra os 35 anos da Rede.
Talvez porque alguns fios precisem ser reconhecidos antes que possamos compreender o desenho
que tecem. Há percursos cujo sentido não se revela enquanto os vivemos. Talvez porque alguns
aprendizados só se deixem reconhecer quando já nos iniciaram em seus ritos. Apenas quando
estendemos o tecido sobre a mesa, com alguma delicadeza, percebemos que aquilo que parecia
disperso sempre pertenceu ao mesmo novelo.
Era isso que eu pretendia compartilhar em uma das mesas da Jornada.
Desejava apresentar um percurso de pesquisa que venho construindo desde minha formação
junto ao NIGS. Escolhi como título Quando o S do NIGS encarna: subjetividade, escuta e
autoetnografia nas políticas de cuidado e adoecimento docente porque queria testemunhar que
aquilo que aprendi nesse espaço havia ultrapassado, há muito, os limites de um núcleo de
pesquisa.
Mais do que uma trajetória acadêmica, eu desejava narrar uma forma de estar no mundo.
Queria contar como essa formação continuava atravessando minha pesquisa, minha docência,
minha escrita e meu modo de habitar a vida; como ela já não me permitia olhar para as violências
institucionais sem mobilizar a leitura crítica e a disposição para agir que fui aprendendo nas
epistemologias feministas e que, pouco a pouco, também passaram a me constituir.
Parecia-me uma bela maneira de celebrar os trinta e cinco anos da Rede: compartilhar os efeitos
de uma formação feminista sobre minha trajetória acadêmica, profissional e, sobretudo, humana.
Mas a vida decidiu tricotar outra carreira.
Entre o envio do resumo e a realização da Jornada, precisei retirar minha participação. Não
porque o desejo de estar com vocês tivesse diminuído. Ao contrário.
Não estarei presente porque estarei onde a própria formação recebida junto ao NIGS, talvez
desde muito antes sem que eu percebesse, me conduziu: ao lado de minha mãe, acompanhando-a
em um percurso de exames, consultas, incertezas e cuidados.
Durante alguns dias, pensei que estivesse me afastando da Jornada.
Só mais tarde compreendi que havia mudado apenas o lugar a partir do qual ela continuaria
acontecendo.
Aquilo que eu imaginava compartilhar em uma mesa de diálogos passou a acontecer na
experiência cotidiana.
Foi dessa experiência que nasceu uma pergunta.
O que acontece quando a teoria deixa de ser apenas um campo de investigação e se torna uma
forma de habitar a vida?
O que acontece quando o cuidado — tantas vezes pensado, debatido e politizado pelos estudos
feministas — deixa de ser um conceito e passa, silenciosamente, a organizar nossas escolhas
mais difíceis?
Talvez essa seja a pergunta que verdadeiramente me trouxe até esta carta.
Segunda carreira
Ao estender sobre a mesa os fios dos anos que vivi junto ao NIGS, percebo que nenhum deles
começa onde eu imaginava.
Alguns nasceram nas leituras que compartilhamos. Outros, nas conversas depois dos seminários.
Outros ainda, nos gestos aparentemente pequenos que sustentavam nossos encontros.
Foram essas primeiras carreiras que deram consistência ao tecido inteiro, embora eu só consiga
reconhecer agora o desenho que elas já anunciavam.
Foi ali que começou a ser tecida, muito antes de encontrar um nome, aquilo que mais tarde
chamaria de “escuta-sentida”.
Ela não surgiu como método. Tampouco nasceu como conceito.
Manifestava-se na maneira como habitávamos nossos encontros e, quase sem perceber, éramos
iniciadas nos pequenos ritos do cuidado, da escuta e da convivência.
Estava presente na atenção dedicada ao lanche compartilhado, nas breves práticas de yoga que
antecediam alguns encontros, na criação da Comissão de Bem-Estar em eventos como o Fazendo
Gênero e o Circuito Lilás no Congresso Brasileiro de Sociologia.
Gestos discretos, quase invisíveis para quem olhava de fora, mas que, justamente por sua
repetição, constituíam um rito de cuidado profundamente político ao produzir condições para que
os corpos pudessem permanecer, respirar, descansar e existir.
A escuta-sentida começou ali, muito antes de receber esse nome.
Foi sendo tecida na convivência, nas formas de cuidado que atravessavam a produção do
conhecimento e nas maneiras pelas quais a Rede nos ensinava, quase sem o dizer, que conhecer
também implica sustentar a vida.
Muito antes de dialogar com Joan Tronto, Donna Haraway ou Sandra Harding, eu já
experimentava uma forma de estar no mundo que essas autoras, mais tarde, me ajudariam a
compreender.
Elas não inauguraram meu caminho.
Deram linguagem a um percurso que já vinha sendo tecido.
Foi nesse ambiente que minha pesquisa com as Marias no Cárcere encontrou seu modo de existir.
Ela não nasceu apenas de um interesse acadêmico.
Nasceu de uma formação ética.
Aprendi que pesquisar não significa extrair histórias, mas construir encontros; que escrever exige
responsabilidade diante das vidas que atravessam a escrita; e que uma investigação pode ser, ao
mesmo tempo, rigorosa, implicada e afetivamente comprometida.
Ao olhar para trás — como fizemos em nosso artigo inspirado em Sankofa, ao lado de colegas
tão queridas — compreendo que as Marias nunca foram apenas interlocutoras da pesquisa.
Elas confiaram a mim fragmentos de suas vidas.
Compartilharam experiências que jamais poderiam ser reduzidas a dados.
Recebê-las exigia mais do que escutá-las.
Exigia tornar-me responsável pelo encontro que acontecia entre aquelas grades.
Foi com elas que comecei a reconhecer uma forma de pesquisar que se recusava a transformar a
experiência da outra em objeto.
Ali, a escuta-sentida encontrou um nome.
Mas ela já existia.
Essa constatação sempre me faz lembrar Foucault.
Nomear uma experiência não significa inventá-la.
Significa tornar visível algo que já insistia em existir, ainda sem linguagem suficiente para ser
reconhecido.
Quando a escuta-sentida ganhou nome na tese, ela já vinha sendo tecida havia muitos anos: nos
encontros do NIGS, nas formas de convivência que me ensinaram a permanecer diante da
palavra da outra sem capturá-la e, depois, entre as Marias, onde essa aprendizagem encontrou um
território fértil para se aprofundar.
A tese apenas tornou visível um fio que atravessava, desde muito antes, o tecido da minha
formação.
Terceira carreira — a ética da presença e a metodologia que encarna
Talvez seja por isso que a escuta-sentida continue viva muito depois da defesa da tese.
Ela nunca foi apenas um conceito, tampouco apenas uma metodologia de pesquisa.
É, antes de tudo, uma “ética da presença”.
Tenho pensado que escutar-sentidamente mobiliza muito mais do que a audição. Convoca o olhar
que percebe, as mãos que acompanham, o corpo que permanece, a memória que reconhece.
Convoca todos os sentidos disponíveis para o encontro.
Mas há algo que organiza todos os outros sentidos: a disposição de permanecer diante da
experiência da outra sem tentar apressá-la, traduzi-la ou capturá-la.
É essa disposição que transforma percepção em responsabilidade.
Foi ela que me ajudou a compreender, com serenidade, por que eu não poderia estar na Jornada.
Durante alguns dias, vivi essa ausência como quem abandona um encontro profundamente
desejado. Eu me imaginava no auditório, revendo pessoas queridas, acompanhando os debates,
celebrando os trinta e cinco anos da Rede.
Aos poucos, porém, tornou-se impossível ignorar uma evidência simples: meu corpo poderia
estar ali, mas minha presença permaneceria ao lado de minha mãe.
E presença, aprendi com o NIGS, nunca foi apenas ocupar um lugar.
Presença é inteireza.
Esse é um rito importante apreendido no NIGS: permanecer inteira onde a vida nos convoca.
Foi essa formação que me ensinou a reconhecer que o cuidado não acontece apenas nos grandes
gestos. Ele se manifesta, muitas vezes, na escolha de onde colocamos nosso tempo, nossa
atenção e nossa disponibilidade mais profunda.
Percebi, então, que insistir em estar na Jornada significaria contrariar justamente aquilo que
aprendi ao longo de tantos anos de convivência na Rede.
Essa constatação me conduziu a outra compreensão, talvez a mais difícil de formular.
A metodologia feminista emerge também desses pequenos ritos cotidianos pelos quais
aprendemos a permanecer diante da vida sem apressar seus tempos.
Ela emerge da maneira como nos deixamos afetar pelos encontros.
Constitui-se quando aceitamos que conhecer também exige permanecer; quando reconhecemos
que produzir conhecimento implica responsabilidade diante da vida que se apresenta diante de
nós; quando entendemos que a escuta não é uma técnica de coleta, mas uma forma de relação.
A escuta-sentida, nesse sentido, deixou de ser apenas uma elaboração da tese.
Ela passou a orientar minhas escolhas concretas.
E foi no cotidiano do cuidado — entre consultas, exames, esperas e silêncios — que essa
aprendizagem encontrou sua expressão mais exigente.
Ali, sem qualquer solenidade, a metodologia deixou de ser apenas objeto de reflexão e começou
a encarnar-se como prática da vida.
Quarta carreira — o cachecol lilás
Foi esse mesmo tempo de cuidado que me ofereceu a aprendizagem mais silenciosa.
Entre consultas, exames, longas esperas e conversas interrompidas pelos silêncios que passaram
a habitar nossos dias, minha mãe me fez um pedido muito simples.
Pediu que eu tricotasse para ela um cachecol lilás.
Naquele instante, o pedido me pareceu apenas uma maneira delicada de ocupar as mãos
enquanto atravessávamos um tempo difícil.
Enquanto o cachecol nascia, outra compreensão também se deixava tecer.
Cada carreira passou a guardar uma espera. Aos poucos compreendi que tricotar também é entrar
em um rito do tempo.
Cada ponto reteve uma conversa.
Cada fio acolheu um medo, uma esperança, uma oração.
Havia dias em que o tricô avançava lentamente.
Outros em que permanecia sobre meu colo, quase imóvel, enquanto a vida exigia que nossas
mãos cuidassem de outras urgências.
Ainda assim, o cachecol continuava sendo tecido.
Talvez porque existam trabalhos que não acontecem apenas quando as mãos se movem.
Acontecem também quando aprendemos a permanecer.
Foi somente algum tempo depois que percebi a delicadeza daquele pedido.
Minha mãe me pediu um cachecol. Sem o saber, iniciava-me em um rito que completava, na
vida, aquilo que minha formação havia começado a tecer.
Sem o saber, convidou-me a habitar o tempo do cuidado.
Convidou-me a aceitar um ritmo diferente daquele a que a universidade tantas vezes nos
acostuma.
Um ritmo em que nem tudo pode ser acelerado.
Em que esperar também é agir.
Em que permanecer também é uma forma de presença.
Enquanto o cachecol crescia, fui reconhecendo nele muitos outros fios.
As leituras compartilhadas no NIGS.
As conversas que continuavam depois dos seminários.
Os cafés.
Os abraços.
As Marias.
Os gestos discretos de cuidado que atravessavam nossos encontros.
A escuta que aprendi antes mesmo de conseguir nomeá-la.
Tudo aquilo que durante tantos anos parecia pertencer a experiências distintas começava, diante
dos meus olhos, a revelar um único desenho.
Por isso, quando olho hoje esse cachecol lilás, já não vejo apenas uma peça feita de lã.
Vejo uma trajetória de formação.
Vejo um modo de conhecer que nunca separou pensamento e vida.
Vejo uma ética que encontrou, nas mãos de uma filha, uma maneira inesperada de continuar
existindo.
Talvez seja por isso que o cachecol não simbolize esse percurso.
Ele o materializa.
Foi nele que compreendi que o "S" do NIGS nunca pertenceu apenas à subjetividade como
campo de estudos. Desde o início, apontava para uma forma de habitar o mundo
Uma forma de permanecer.
Uma forma de escutar.
Uma forma de cuidar.
Talvez esta tenha sido, afinal, minha verdadeira participação na celebração dos trinta e cinco
anos da Rede.
Ela não aconteceu em uma mesa de debates.
Não foi apresentada em slides.
Não produziu certificado.
Foi sendo construída, lentamente, entre consultas, esperas, pontos de tricô e o cuidado cotidiano
de uma filha por sua mãe.
Assumiu, sem que eu pudesse prever, a forma de um cachecol lilás.
Agora ele está quase pronto.
No rito que aprendi a reconhecer como o "S" do NIGS, as franjas serão tramadas ao longo dos
próximos dois dias.
Gosto de pensar que elas não concluirão apenas um trabalho manual.
Concluirão um percurso que começou muito antes, quando alguns fios ainda não podiam ser
reconhecidos e o desenho do tecido permanecia invisível.
Ao estendê-lo sobre a mesa, o desenho finalmente aparece.
Os fios nunca estiveram soltos.
Sempre pertenceram ao mesmo novelo.
Por isso, embora meu corpo não esteja presente na Jornada, sinto que permaneço entre vocês.
Como permanecem os fios que continuam sustentando um tecido mesmo quando já não
conseguimos distingui-los um a um.
Com carinho,
Marinês da Rosa

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