IX Reunião da Regional Sudeste da Sociedade de Arqueologia Brasileira

IX Reunião da Regional Sudeste da Sociedade de Arqueologia Brasileira

presencial Auditório do IC II (Instituto de Ciências Humanas e Naturais) do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN) da UFES - Campus Goiabeiras - Vitória - Espírito Santo - Brasil

IX Reunião Regional Sudeste - Arqueologia em Difusão

É com grande satisfação que anunciamos a realização da IX Reunião Regional Sudeste. Com o tema Arqueologia em Difusão, o evento ocorrerá de 13 a 16 de outubro de 2026 na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em Vitória.

Esta será a primeira reunião da Sociedade de Arqueologia Brasileira, em âmbito nacional e regional, a ser realizada no estado do Espírito Santo. Em razão desse caráter inédito, promoveremos um encontro com ênfase na valorização do patrimônio arqueológico, incentivando a participação, o protagonismo e a confluência de diferentes sujeitos, entre pesquisadoras(es), estudantes, gestoras(es) culturais, profissionais da arqueologia e membros da sociedade civil.

Cronograma Geral

PRAZOS

Lançamento da 1ª Circular

24 de abril de 2026.

Abertura das Inscrições de Simpósio

27 de abril a 14 de junho de 2026. (PRORROGADO)

Avaliação de Simpósios

01 a 28 de junho de 2026.

Divulgação dos Simpósios Aprovados

29 de junho a 05 de julho de 2026.

Abertura para Submissão de Trabalhos

06 julho a 02 de agosto de 2026


(PRORROGADO)

Avaliação dos Trabalhos

28 de julho a 06 de setembro de 2026.

Divulgação dos trabalhos aprovados

07 a 13 de setembro de 2026.

SUMBMISSÔES - Apresentação Oral

Normas para Submissão de Apresentações Orais

As propostas de apresentação oral deverão ser submetidas exclusivamente por meio do sistema do evento, dentro do prazo estabelecido no cronograma.

As apresentações poderão ser inscritas em uma das seguintes modalidades:

  • Apresentação em Simpósio Temático: o(a) autor(a) deverá selecionar um dos 10 Simpósios Temáticos disponíveis no momento da submissão.

  • Apresentação Oral Individual: destinada aos trabalhos que não se enquadrem ou não desejem ser vinculados a um Simpósio Temático. As apresentações aprovadas nesta modalidade serão organizadas pela Comissão Científica em sessões temáticas.

A submissão deverá conter:

  • Resumo com extensão entre 300 e 500 palavras;

  • Três (3) a cinco (5) palavras-chave, separadas por ponto e vírgula.

Os demais dados da submissão, incluindo informações sobre autoria, filiação institucional e demais metadados solicitados, deverão ser preenchidos diretamente nos campos específicos do sistema.

Os resumos serão avaliados pela Comissão Científica quanto à sua adequação ao Simpósio Temático (quando aplicável), à relevância científica, à clareza da proposta e à conformidade com as presentes normas.

Serão aceitas apenas as submissões que atenderem aos requisitos estabelecidos neste regulamento e forem enviadas dentro do prazo previsto.

Submissões

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Simpósio Temático

Pensar arqueologia no Espírito Santo: ontem e hoje

Christiane Lopes Machado

Rhea Estudos e Projetos

arqueologia@rheambiente.com.br

Rosana Najjar

Najjar Consultoria

rosana@najjarconsultoria.com

 

     

 


Até um passado recente, o Estado do Espírito Santo abrigava raros profissionais e poucas pesquisas arqueológicas. O crescimento alavancado pelas pesquisas preventivas das últimas duas décadas trouxe novos profissionais, novos enfoques, a criação de instituições, além do desenvolvimento de pesquisas acadêmicas. Com este simpósio, pretendemos apresentar e discutir as pesquisas arqueológicas realizadas no Estado do Espírito Santo, mostrando as diferentes abordagens dessa disciplina utilizadas no estado. Por outro lado, o mesmo crescimento trouxe pelo menos dois problemas: não há arqueólogos suficiente para atender a demanda de projetos, como também não há instituições de pesquisa e guarda de acervo suficientes ou instituições de ensino de arqueologia. Como resolver esses problemas?

 


Dos quatro estados que compõem a Região Sudeste, o Espírito Santo é o que conta com menor número de profissionais, instituições e pesquisas relacionadas à arqueologia. A ausência de cursos graduação ou pós-graduação em arqueologia acentua o problema. Apesar desse cenário preocupante, a arqueologia do Espírito Santo existe e vem se desenvolvendo através dos anos. Podemos dividir a arqueologia do estado em três períodos principais. O primeiro é o período que vai até aproximadamente a década de 1960, o segundo período até a década de 80 e o terceiro daí até a atualidade. A arqueologia do primeiro período, sobretudo a realizada durante a primeira metade do século XX, contava com apenas três pesquisadores que realizaram poucas mas importantes pesquisas no estado, sendo apenas um deles arqueólogo profissional: Alfredo Ruschi, Adam Orrsich e Salles Cunha.  A partir da década de 1960, o destaque é o estabelecimento do Prof. Celso Perota no estado, responsável pela realização de pesquisas de forma mais continuada, alcançando diversos municípios e propondo o estabelecimento de Fases e Tradições Arqueológicas para o Espírito Santo. Prof. Perota além de pesquisador atuante e professor da Universidade Federal do Espírito Santo / UFES, foi o responsável pelo Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas/PRONAPA no estado e também atuava como representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/IPHAN para assuntos de arqueologia, ou seja, colaborava com o instituto na preservação do patrimônio arqueológico do estado. O terceiro período, cujo catalisador é a publicação da Resolução CONAMA 01/1986, apresenta um aumento significativo das pesquisas arqueológicas no Espírito Santo a partir da década de 1990, com  vários profissionais envolvidos (sendo a esmagadora maioria de outros estados), impulsionados pela obrigatoriedade de abordar essa disciplina nos projetos de licenciamento ambiental. A diversidade de pesquisadores enriqueceu o conhecimento já obtido pelos pesquisadores pioneiros, fundamentais na construção dessa história, trazendo então novos pontos de vista e abordagens teóricas e metodológicas. Também se observa o crescimento de pesquisas dentro de projetos de restauração de edificações tombadas motivadas pela Superintendência do IPHAN/ES e em Planos de Manejo em áreas de preservação demandados pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente / SEMA. A partir desse contexto há um movimento de incremento da arqueologia e surgem instituições privadas de pesquisa e guarda de coleções objetivando atender a demanda das pesquisas que aumentava e aumenta a cada dia. Essas instituições produzem estudos acadêmicos abordando os períodos pré-colonial, histórico e contemporâneo, além do uso de diferentes métodos e técnicas de pesquisa, produzindo conhecimento, promovendo atividades de educação patrimonial, exposições e eventos científicos sobre a arqueologia. Mas tudo isso ainda não é suficiente para atender a demanda das pesquisas, ainda são necessários pesquisadores e instituições de pesquisa e ensino no estado. Além disso, nas últimas décadas observa-se uma ampliação do diálogo entre a arqueologia e outras áreas do conhecimento, tanto das ciências humanas como ambientais. Essa interdisciplinariedade possibilita interpretações mais abrangentes sobre os modos de vida das populações que ocuparam o território capixaba ao longo do tempo. A utilização de novas tecnologias de análise, incluindo geoprocessamento, sensoriamento remoto e estudos laboratoriais especializados, também contribui para a qualificação das pesquisas. Tais avanços permitem não apenas a identificação de novos sítios arqueológicos, mas também uma compreensão mais detalhada dos processos culturais e ambientais relacionados ao patrimônio arqueológico do Espírito Santo. Dessa forma, o presente simpósio propicia uma oportunidade inédita de congregar pesquisadores atuantes no Estado, para não apenas apresentar suas pesquisas, mas abordar problemas e discutir seus resultados.

 

Palavras-chave: Arqueologia; Espírito Santo; Pré-colonial; Restauração de Monumentos; Licenciamento Ambiental.

 

Referências Bibliográficas

CUNHA, Ernesto Salles. Sambaquis de Vitória. Reunião Anual da Sociedade Brasileira Para o Progresso aa Ciência, 20(2)., 455–456, 1968.

CUNHA, Ernesto Salles. Polidores neolíticos do Espírito Santo (Brasil). Reunião Anual da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência, 22. Bahia, 133–154, 1970.

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO. Anchieta: a Restauração de um Santuário. Rio de Janeiro: IPHAN, 188 p, 1998.

MACHADO, Christiane Lopes. Caracterização Arqueológica em áreas da Aracruz Celulose no Estado do Espírito Santo. – Relatório Técnico. RHEA: Vitória/ES, 2007.

MACHADO, Christiane Lopes. Atualização do Cadastro dos Sítios Arqueológicos no Estado do Espírito Santo:  Relatório Final volume I/II (21ª SR IPHAN/RHEA). RHEA: Vitória/ES, 2008.

NAJJAR, Rosana Pinhel Mendes. Catequese em Pedra e Cal: estudo arqueológico de uma igreja jesuítica (Nossa Senhora de Assunção – Anchieta /ES). Dissertação apresentada no curso de mestrado da Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas; Serviço de Pós-Graduação: USP: São Paulo, 2001.

NAJJAR, Rosana Pinhel Mendes. Construtores de Igrejas: um estudo arqueológico da presença da Companhia de Jesus no litoral brasileiro. Tese (doutorado), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

PEROTA, Celso. Dados parciais sobre a arqueologia norte Espírito-Santense. Separata do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas, 4(15), 149–162, 1971.

PEROTA, Celso. Resultados Preliminares Sobre a Arqueologia da Região Central do Espírito Santo. In: Publicações Avulsas do Museu Paraense Emílio Goeldi,  Vol. 26, pp. 127–140, 1974.

RUSCHI, Alfredo. Contribuição à arqueologia de Santa Teresa, no Estado do Espírito Santo: objetos de pedra de origem indígena. Boletim do Museu de Biologia Mello Leitão, Santa Teresa/ES, (1), 1–22, 1953.

SLAVETICH, Adam Orssich de. Relatório Arqueológico do Espírito Santo. Revista de Cultura da UFES, 19, 45–117, 1981. 

Simpósio Temático

"O caminho só existe quando você passa": arte rupestre e paisagem

Paulo Roberto Gomes Seda
Universidade do Estado do Rio de Janeiro/Departamento de Arqueologia
prgseda@gmail.com

Modernamente entende-se não ser possível compreender as populações humanas fora de seu ambiente e estes dois vieses – cultura e natureza – representariam uma interação sistêmica. A relação entre cultura e natureza, dentro de uma visão sistêmica, pode ser entendida como uma interação entre ambiente, adaptabilidade e demografia, sendo o elemento cognitivo o mecanismo gerador, armazenador e transmissor da informação adaptativa. Arqueologicamente, este dinamismo reduz-se a restos, normalmente, materiais, que refletem ambientes, demografia e atividades humanas passadas, em outras palavras, dados arqueológicos. Por outro lado, a incorporação, mais recentemente, do conceito de paisagem, sobretudo paisagem cultural, aos estudos arqueológicos, trouxe uma ampliação da interação entre as realidades materiais e as socioculturais. Para abordarmos a Arqueologia da Paisagem, entendemos que devemos reconhecer marcos naturais ou culturais: a topografia, a hidrografia, os sítios arqueológicos etc. Aqui, a arte rupestre será vista como um destes marcos e, junto com ela, pensamos em uma colonização da paisagem.

Palavras chaves: Paisagem – Arte Rupestre - Arqueologia


Categoria extremamente dinâmica, a paisagem, além de expressar as práticas humanas ou as ações da natureza, é capaz de narrar, através de suas manifestações aparentes ou ocultas, a história de um espaço. A paisagem cultural, vista não só como aquela com interferência humana, mas, sobretudo, interpretada pelo homem, traz, necessariamente, uma abordagem transdisciplinar, que permite abarcar práticas humanas, espaços naturais e outras condições físicas e materiais. Paisagens não são sinônimo de meio ambiente, representam, na verdade, interações entre as pessoas e seu ambiente são estruturadas e organizadas pelos sistemas culturais, paisagem significa mundo exterior mediatizado pela experiencia subjetiva do homem (COSGROVE 1985). Sendo produtos culturais, as sociedades transformam os espaços físicos em lugares cheios de conteúdos, através de atividades diárias, crenças e sistemas de valores. Assim, a experiência, a história, os sistemas de valores, as circunstancias e as escolhas individuais, todas jogam seu papel em como uma paisagem e descrita e identificada (TAÇON 1999, p. 34). Deduz-se que paisagem não é meramente o mundo que vemos, mas uma construção, una composição de mundo (COSGROVE 1985). Arqueologia e paisagem, portanto, é um enfoque apropriado para o objetivo arqueológico: explicar o passado da humanidade, mediante sua capacidade de reconhecimento e avaliação das relações dinâmicas e interdependentes que as pessoas mantêm com as dimensões físicas, sociais e culturais de seu entorno através do tempo e espaço. A centralidade do contexto cultural da paisagem é um registro material de padrões de conduta dentro do contexto de um entorno específico e uma construção simbólica. As paisagens são formas particulares de expressar concepções de mundo e são também um meio de fazer referência a entidades físicas. A mesma paisagem

física pode ser vista de muitas maneiras diferentes por pessoas distintas, muitas vezes simultaneamente. O termo pode referir-se tanto a um ambiente — geralmente moldado pela ação humana — quanto a uma representação que significa os sentidos atribuídos a tal ambiente. Uma paisagem é uma imagem cultural, uma forma de representar, estruturar ou simbolizar o entorno (Daniels e Cosgrove, 1988:1). Ingold (1993, p. 156) entende que paisagem é o mundo tal como é conhecido por aqueles que nele habitam, mas também admite a paisagem como um padrão de atividades condensadas em um conjunto de feições, uma forma externa criada por um padrão de atividades humanas que permanece visível para os arqueólogos depois que seus criadores desapareceram (Ingold, 1993, 162). Uma abordagem ecológica explica o comportamento como uma resposta a causas externas, ao passo que uma abordagem cultural visa compreender o comportamento como algo dotado de sentido. Por outro lado, é possível ler a paisagem, vendo-a como uma expressão de significados negociados em culturas passadas ou presentes, dependendo da identificação das referências de uma sociedade a elementos externos que nós também podemos perceber. O significado desta leitura, é aquilo que os indivíduos atribuem aos seus próprios atos. A consciência e o significado são obtidos ao "refletir" ou lançar um olhar retrospectivo sobre a experiência vivida, na medida que ela nos conduz adiante. Tal atividade subjetiva difere mesmo entre indivíduos que mantêm contato frequente, mas ainda mais entre pessoas separadas pelo tempo ou pelo espaço (Schutz, 1972). Neste sentido, para ler a paisagem, é que introduzimos o conceito de marcos da paisagem: marcos são pontos ou elementos que permitem identificar a paisagem como sendo ela, não outra. Por sua vez, esses marcos podem ser naturais, mistos (naturais, mas culturalmente trabalhados) e totalmente culturais. No caso dos totalmente culturais, é que trazemos, também, o conceito de colonização da paisagem: marcos que incorporam a paisagem a cultura, que “tomam posse” da paisagem, que a humanizam e colonizam. Neste sentido, a arte rupestre assume um aspecto privilegiado na paisagem e é como um marco que queremos encará-la aqui.


Referências Bibliográficas

Cosgrove, D. E. Prospect, perspective and the evolution of the landscape idea. Transactions of the Institute of British Geographers, 10: 45–62, 1985.

Daniels, S. e COSGROVE, D.. Introduction: iconography and landscape. In: The

FAGUNDES, Marcelo. Natureza e cultura: estudo teórico sobre o uso do conceito de paisagem nas ciências humanas. Revista Tarairiú,  Campina Grande-PB, Ano V – Vol.1 - Número  07, 2014.

Iconography of Landscape, S .Daniels and D. Cosgrove (eds), 1–10. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.

Ingold, T. The temporality of the landscape. World Archaeology 25, 152–74, 1993.

Schutz, A. The Phenomenology of the Social World. London, Heinemann, 1972.

TaÇon, P. S. C. Identifying ancient scared landscapes in Australia: From physical to social. In: Ashmore, W., and Knapp, A. B.(eds.), Archaeologies of Landscape: Contemporary Perspectives, Blackwell Publishers, Malden, MA, pp. 33–57. 1999.

Taylor & Francis e-Library, New York, NY, 2005.

Ucko, Peter J.  e Layton, Robert.  The Archaeology and Anthropology of Landscape.

Simpósio Temático

Arqueologia com a Cidade

Piero A. B. Tessaro

Museu de Arqueologia e Etnologia - USP

pierotessaro@gmail.com


Luciana Alves Costa

Museu de Arqueologia e Etnologia - USP

lucianacosta.arqueologia@gmail.com


O simpósio temático “Arqueologia com a Cidade” propõe discutir as múltiplas relações entre arqueologia e cidade, compreendendo o espaço urbano como um campo arqueológico ativo, marcado pela sobreposição de temporalidades, materialidades e processos contínuos de transformação. Partindo das discussões clássicas da arqueologia urbana, entre arqueologia na e da cidade, o simpósio busca reunir pesquisas voltadas às dinâmicas de urbanização e aos processos de formação do registro arqueológico em contextos urbanos contemporâneos. A proposta enfatiza abordagens que compreendam a urbanização como parte constitutiva da transformação e ressignificação dos contextos arqueológicos, articulando contribuições da arqueologia urbana, arqueologia pública, musealização da arqueologia e arqueologias colaborativas. Serão acolhidos trabalhos relacionados à arqueologia preventiva em cidades, arqueologia afrodiaspórica urbana, arqueologia da industrialização, patrimônio arqueológico urbano, paisagens urbanas e contextos paleoindígenas e indígenas em cidades contemporâneas.

Palavras chave: Arqueologia Urbana; Cidade; Patrimônio Arqueológico Urbano; Urbanização; Arqueologia Pública; Paisagem Urbana.

 

As cidades constituem fenômenos complexos, produzidos historicamente por relações sociais, políticas, econômicas e culturais que se materializam no espaço urbano. Mais do que conjuntos edificados, podem ser compreendidas como espaços de sobreposição de temporalidades, práticas sociais, conflitos, permanências e apagamentos, nos quais diferentes camadas históricas permanecem inscritas na paisagem contemporânea (LEFEBVRE, 2001; SANTOS, 2008; ROLNIK, 2004). Nesse sentido, a cidade apresenta-se como um palimpsesto material e simbólico continuamente transformado por seus habitantes, pelas políticas urbanas e pelas dinâmicas de ocupação e reocupação do território.

A Arqueologia Urbana se consolidou ao longo do século XX como um importante subcampo da Ciência Arqueológica, estando diretamente relacionada às transformações teóricas da própria arqueologia. Apesar de sua associação frequente com a Arqueologia Histórica, especialmente em suas fases iniciais, sua formação ocorreu de maneira mais abrangente e heterogênea.

No final da década de 1960, a arqueologia urbana começou a se estabelecer como um subcampo distinto da arqueologia. Com base em estudos anteriores, que se apoiaram na antropologia urbana, e seguindo essa tendência de aproximação com a antropologia do processualismo. Duas perspectivas complementares foram desenvolvidas pelos arqueólogos Salwen (1973; 1978) e Staski (1982; 1987a; 1987b) de arqueologia na e da cidade. A primeira perspectiva refere-se à análise individualizada de contextos arqueológicos inseridos na cidade. A segunda, por sua vez, refere-se à análise do sítio arqueológico inserido no contexto de urbanização. Principalmente essa segunda perspectiva resultou no desenvolvimento da ideia de que a cidade deveria ser considerada um sítio arqueológico (CRESSEY e STEPHENS, 1982).

A formação da arqueologia urbana moderna está intrinsecamente relacionada às transformações da própria ciência arqueológica ao longo da segunda metade do século XX (TRIGGER, 2004). O deslocamento progressivo do foco analítico dos artefatos isolados para os contextos arqueológicos e seus processos de formação (SCHIFFER, 1972), permitiu compreender a cidade não apenas como local onde se encontram sítios arqueológicos, mas como um contexto arqueológico ampliado e continuamente transformado. Nesse processo, a urbanização passou a ser compreendida não apenas como o cenário das pesquisas arqueológicas, mas também como parte constitutiva da formação do próprio registro arqueológico.

No contexto brasileiro, a arqueologia urbana esteve inicialmente fortemente associada à arqueologia histórica, às pesquisas em centros históricos e às políticas patrimoniais desenvolvidas a partir da segunda metade do século XX. Entretanto, sobretudo a partir das décadas de 1980 e 1990, observa-se uma ampliação significativa das pesquisas arqueológicas em cidades brasileiras, acompanhando tanto a expansão da arqueologia preventiva quanto o amadurecimento teórico do campo (LIMA, 2022). Esse processo resultou na diversificação temática da arqueologia urbana nacional, incorporando discussões relacionadas à paisagem urbana, industrialização, patrimônio, infraestrutura, cotidiano, arqueologia pública e arqueologias do presente (TESSARO, 2026).

Paralelamente, a arqueologia urbana tem desafiado as fronteiras convencionais entre os períodos pré-coloniais e históricos. Conforme discutido por Zanettini (2004) e Funari (2005), o arqueólogos urbanos investigam grupos anteriores à formação das cidades contemporâneas. Nesse sentido, os contextos pré-coloniais também são parte integrante da arqueologia urbana, uma vez que os processos de urbanização transformam, ressignificam e incorporam esses vestígios às dinâmicas contemporâneas da cidade. A coexistência entre diferentes temporalidades evidencia a cidade como um macrovestígio em permanente transformação, marcado por sucessivas camadas de ocupação, descarte, aterro, destruição e reconfiguração da paisagem. Possibilitando, assim, a incorporação de histórias paleoindígenas e indígenas frequentemente invisibilizadas no presente das cidades.

As discussões mais recentes da arqueologia urbana também vêm incorporando abordagens relacionadas à arqueologia pública, à musealização da arqueologia e às práticas colaborativas, ampliando a compreensão da arqueologia como prática social e politicamente situada. Nesse contexto, destaca-se igualmente o crescimento das arqueologias afrodiaspóricas urbanas, que têm problematizado os processos históricos de apagamento da presença negra nas cidades brasileiras. Estudos desenvolvidos em antigos territórios de ocupação negra, irmandades religiosas, áreas portuárias, espaços de sociabilidade e regiões centrais submetidas a sucessivos projetos de remodelação urbana evidenciam o potencial da arqueologia urbana na mediação de narrativas, memórias e conflitos contemporâneos relacionados ao racismo estrutural, ao patrimônio e ao direito à cidade.

A partir dessas discussões, o presente simpósio propõe uma reflexão sobre uma Arqueologia com a Cidade, entendida não como um método fechado ou uma nova subdivisão disciplinar, mas como uma postura ética e relacional diante da cidade e de seus conflitos (TESSARO, 2026). A proposta tem como fundamento a compreensão da cidade como um campo arqueológico ativo, no qual contextos arqueológicos e sistêmicos coexistem, interagem e são continuamente ressignificados. Dessa forma, a urbanização deixa de ser compreendida apenas como pano de fundo das pesquisas arqueológicas e passa a ser entendida como parte integrante dos próprios processos de formação do registro arqueológico.

A noção de Arqueologia com a Cidade articula contribuições da Arqueologia Urbana, da Arqueologia Pública e da Musealização da Arqueologia, buscando superar abordagens fragmentadas centradas exclusivamente no sítio arqueológico isolado (TESSARO, 2026). A cidade passa a ser compreendida como um campo ampliado de investigação arqueológica, no qual o patrimônio, a materialidade, a paisagem, a memória e o cotidiano se relacionam de maneira indissociável. Mais do que estabelecer uma nova categoria classificatória, a proposta busca enfatizar a dimensão social, ética e política da arqueologia em contextos urbanos contemporâneos.

Serão recebidos trabalhos que abordem diferentes métodos e experiências de pesquisa, incluindo arqueologia preventiva em contextos urbanos, arqueologia afrodiaspórica urbana, arqueologia da industrialização, arqueologia de infraestruturas, arqueologia pública, musealização da arqueologia, patrimônio arqueológico urbano, paisagens urbanas, arqueologias colaborativas, arqueologias do presente, contextos paleoindígenas e indígenas em cidades contemporâneas e reflexões teórico-metodológicas sobre os desafios da prática arqueológica nas cidades.

O presente simpósio visa fomentar um diálogo entre as pesquisas acadêmicas, as práticas profissionais e as experiências institucionais acerca das relações entre arqueologia e cidade. Tal proposta busca contribuir para o fortalecimento crítico da arqueologia urbana e para a reflexão acerca da função social da arqueologia diante das transformações e conflitos que atravessam as cidades contemporâneas.

 

Referências Bibliográficas

CRESSEY, Pamela J.; STEPHENS, John F. The City-Site Approach to Urban Archaeology. In: DICKENS JR., Roy S. Archaeology of Urban America: the search for pattern and process. New York: Academic Press Inc, 1982. Cap. 3, p. 41 - 61.

FUNARI, Pedro P. Arqueologia, Patrimônio e Educação. Campinas: Unicamp, 2005.

LEFEBVRE, Henri. O Direito a Cidade. São Paulo: Centauro, 2001.

LIMA, Tania A. No Asfalto: Arqueologia histórica urbana no Brasil. In: SYMANSKI, Luis C. P.; SOUZA, Marcos A. T. D. Arqueologia Histórica Brasileira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2022. Cap. 5, p. 115 - 167.

ROLNIK, Raquel. O Que é Cidade. São Paulo: Brasiliense, 2004.

SALWEN, Bert. Archaeology in Megalopolis. In: REDMAN, Charles L. Research and Theory in Current Archaeology. New York: John Willey & Sons, 1973. Cap. 10, p. 151-163.

SALWEN, Bert. Archaeology in Megalopolis: update assessment. Journal of Field Archaeology, 5, n. 4, 1978. 453-459.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: EDUSP, 2008.

SCHIFFER, Michael B. Archaeological context and systemic context. American Antiquity, 37, n. 2, 1972. 156 - 165.

STASKI, Edward (Ed.). Living in Cities: current research in Urban Archaeology. Special Publication n. 5. ed. Ann Arbor: Society for Historical Archaeology, 1987a.

STASKI, Edward. Advances in Urban Archaeology. Advances in Archaeological Method and Theory, v. 5, p. 97-149, 1982.

STASKI, Edward. Living in Cities: an introduction. Historical Archaeology, Special Publication, n. 5, 1987b. IX-XI.

TESSARO, Piero A. B. Musealização da Arqueologia com a Cidade de São Paulo. São Paulo, p. 246. 2026.

TRIGGER, Bruce G. História do Pensamento Arqueológico. São Paulo: Odysseus Editora, 2004.

ZANETTINI, Paulo E. O Arqueólogo na Cidade. In: MAGNANI, José G. C. Expedição São Paulo 450 anos: uma viagem por dentro da metrópole. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, Instituto Florestan Fernandes, 2004. p. 151-154.

 

Simpósio Temático

Arqueologia costeira do sudeste brasileiro: inovações analíticas, perspectivas interdisciplinares e relações interétnicas

Anderson Tognoli

Museu de Arqueologia e Etnologia - USP

ar.tognoli@gmail.com

Ximena Villagran

Museu de Arqueologia e Etnologia - USP

villagran@usp.br

Henrique Valadares

Prefeitura de Vila Velha-ES

henrivaladares@alumni.usp.br


Este Simpósio Temático propõe discutir a dinâmica de ocupação de grupos costeiros no litoral sudeste do Brasil, enfatizando novas abordagens teóricas, analíticas e metodológicas aplicadas à arqueologia de contextos pré-coloniais. A partir de evidências associadas aos sambaquis e a grupos ceramistas, busca-se ampliar as discussões sobre as relações sociais, culturais e ambientais estabelecidas entre populações humanas e o ambiente costeiro ao longo do Holoceno. O simpósio destaca o uso de tecnologias e métodos como LiDAR, análises de DNA antigo (aDNA), isótopos estáveis, bioarqueologia, zooarqueologia, microarqueologia e cronologia, os quais vêm possibilitando interpretações mais refinadas sobre mobilidade, ancestralidade, saúde, práticas funerárias, organização social, manejo de recursos e processos de formação de sítios arqueológicos. Pretende-se, ainda, promover o diálogo interdisciplinar e incentivar revisões críticas e novas perspectivas para os estudos arqueológicos da costa brasileira.

Palavras-chave: Arqueologia costeira – sambaquis – grupos pré-coloniais – interdisciplinaridade.

 

Este Simpósio Temático tem como proposta contribuir para as discussões acerca da dinâmica de ocupação de grupos costeiros, com enfoque especial no litoral sudeste do Brasil. Desde aproximadamente 8 mil anos AP, os vestígios arqueológicos associados às populações pré-coloniais — desde os construtores de sambaquis até grupos mais recentes, como os grupos ceramistas — evidenciam relações culturais, sociais e econômicas complexas, marcadas por distintas formas de interação entre si e com o ambiente costeiro. Tais contextos arqueológicos revelam não apenas estratégias de ocupação territorial, mas também formas diversificadas de adaptação, manejo ambiental, circulação de materiais e construção de identidades sociais ao longo do tempo.

Nas últimas décadas, o avanço tecnológico aplicado à pesquisa arqueológica tem ampliado significativamente as possibilidades de investigação sobre as práticas humanas do passado e suas interações socioculturais e ambientais. Nesse contexto, diferentes abordagens analíticas e metodológicas vêm sendo incorporadas aos estudos arqueológicos, promovendo novas interpretações acerca da dinâmica cultural das populações pretéritas. O desenvolvimento de técnicas laboratoriais, aliado ao refinamento de métodos de escavação, registro e análise espacial, tem permitido a produção de dados mais precisos e integrados, favorecendo leituras mais abrangentes sobre os modos de vida de populações costeiras.

Assim, o principal objetivo deste simpósio consiste em reforçar a necessidade constante de revisão crítica das abordagens empregadas na pesquisa arqueológica, ao mesmo tempo em que busca incentivar a proposição de novas iniciativas teóricas, analíticas e metodológicas voltadas à compreensão das dinâmicas culturais de grupos humanos, a partir de múltiplas perspectivas temáticas. Pretende-se, portanto, estimular debates que dialoguem tanto com interpretações clássicas quanto com abordagens emergentes, considerando a crescente interdisciplinaridade que caracteriza a arqueologia contemporânea.

Estudos recentes têm demonstrado que o emprego de inovações tecnológicas, como o uso de LiDAR no mapeamento de sítios arqueológicos em diferentes contextos, tem produzido resultados expressivos para a compreensão da interação entre humanos e ambiente. Da mesma forma, análises de DNA antigo (aDNA) e de isótopos estáveis vêm ampliando os debates sobre ancestralidade, mobilidade, paleodieta, identidades e organização social, possibilitando interpretações mais refinadas sobre os modos de vida das populações antigas. Essas abordagens permitem não apenas compreender deslocamentos populacionais e relações interétnicas, mas também discutir processos de contato, continuidade e transformação cultural em contextos costeiros.

No campo da bioarqueologia, os estudos voltados aos remanescentes humanos têm contribuído significativamente para a compreensão das condições de vida, saúde, dieta, mobilidade, práticas funerárias e organização social das populações pré-coloniais. Análises osteológicas, paleopatológicas e tafonômicas, associadas a métodos biomoleculares, vêm possibilitando interpretações mais amplas sobre padrões de atividade, violência, marcadores de estresse fisiológico, processos de adoecimento e relações sociais estabelecidas no passado. Além disso, os contextos funerários associados aos sambaquis oferecem importantes perspectivas para discussões sobre ritualidade, construção de memória social e variabilidade cultural entre grupos costeiros.

No âmbito da zooarqueologia, amplamente aplicada às pesquisas em sambaquis, as discussões têm ultrapassado interpretações voltadas exclusivamente à subsistência. Atualmente, os estudos zooarqueológicos vêm contribuindo para reflexões mais amplas sobre organização social, estratégias econômicas, manejo de recursos, sazonalidade e relações simbólicas estabelecidas entre grupos humanos e fauna. Além disso, análises moleculares (ZooMS) aplicadas aos vestígios faunísticos têm permitido refinamentos taxonômicos importantes, contribuindo para a identificação de espécies e para discussões sobre exploração ambiental, circulação de recursos e transformações ecológicas ao longo do tempo.

Abordagens microarqueológicas, voltadas à análise de vestígios muitas vezes imperceptíveis em escala macroscópica, também têm possibilitado importantes reinterpretações dos contextos sambaquieiros, especialmente no que se refere aos processos de formação de sítios, ao uso dos espaços e às práticas cotidianas associadas às populações costeiras. Estudos sedimentares, micromorfológicos e químicos têm revelado padrões de deposição, áreas de atividade e processos tafonômicos que anteriormente passavam despercebidos, ampliando significativamente o potencial interpretativo dos contextos arqueológicos.

Além disso, cresce o interesse por abordagens relacionadas à arqueologia da paisagem, geoarqueologia e modelagens espaciais, as quais permitem compreender os sambaquis e demais sítios costeiros enquanto elementos inseridos em sistemas sociais e ambientais mais amplos. Tais perspectivas contribuem para a discussão sobre territorialidade, mobilidade e transformação da paisagem ao longo do Holoceno, possibilitando diálogos cada vez mais consistentes entre arqueologia, paleoambiente e ciências naturais.

Dessa maneira, este simpósio também se apresenta como uma oportunidade de reunir pesquisas provenientes de diferentes áreas de atuação, promovendo o diálogo interdisciplinar e ampliando iniciativas teóricas, metodológicas e estratégias de amostragem voltadas ao estudo de diferentes grupos humanos da região sudeste. Busca-se incentivar a participação de pesquisadores, estudantes e profissionais interessados em discutir novas perspectivas para a arqueologia costeira, especialmente aquelas fundamentadas em abordagens integradas e colaborativas.

Espera-se, portanto, que este espaço proporcione a troca de conhecimentos entre distintas áreas de pesquisa, sendo bem-vindos trabalhos voltados a contextos pré-coloniais, especialmente litorâneos, que contribuam para o desenvolvimento de interpretações cada vez mais integradas e refinadas da pesquisa arqueológica. Pretende-se, ainda, fortalecer redes de diálogo acadêmico e estimular a construção de novas agendas de pesquisa capazes de ampliar a compreensão sobre a diversidade cultural, histórica e ambiental das populações costeiras do sudeste brasileiro.

 

Referências Bibliográficas

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Simpósio Temático

Arqueologia de Senzalas e Quilombos no Sudeste Do Brasil

Luis Symanski

Universidade Federal de Minas Gerais

claudio.symanski@gmail.com


Este simpósio temático tem por propósito discutir pesquisas arqueológicas recentes em contextos de senzalas e quilombos da região Sudeste. O Sudeste foi a região do Brasil que inaugurou os estudos de arqueologia da escravidão africana, primeiramente com as pesquisas de Carlos Magno Guimarães e colegas em contextos de quilombos do período colonial de Minas Gerais durante a década de 1980 (Guimarães e Lanna, 1980; Guimarães, 1990), e, na sequência, com as primeiras escavações em um contexto de senzala por Tania Andrade Lima no início da década seguinte (Lima, 1993). Contudo, as pesquisas nesses contextos pouco avançaram após essas pesquisas iniciais, apesar de alguns estudos isolados focados sobretudo em plantations. A partir  da segunda década do século XXI observamos um interesse renovado nesses contextos, com escavações em senzalas nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, bem como com pesquisas tanto em contextos de quilombos arqueológicos dos séculos XVIII e XIX em Minas Gerais, quanto estudos etnoarqueológicos diversos em comunidades quilombolas contemporâneas. Esses estudos mais recentes têm revelado uma grande diversidade na materialidade de grupos escravizados, seja nos espaços de senzalas seja nos quilombos. Itens como vasilhames cerâmicos artesanais e torneados (Agostini, 2010; Araújo et al. 2023; Azevedo, 2019; Farah 2025; Hepp et al., 2019; Lima, 2017; Rezende e Symanski, 2022; Siqueira, 2026; Symanski e Azevedo, 2025; Trindade e Souza, 2022), louças importadas (faianças, faianças finas e porcelanas) (Symanski, 2019), contas de vidro (Brito, 2023) e outros ornamentos corporais (Suguimatsu, 2017, 2019), itens devocionais (Symanski, 2020), cachimbos (Domingues, 2026), peças lúdicas (Nascimento, 2019); restos faunísticos (Symanski e Morais Júnior, 2016; Morais Jr e Symanski , 2019), e, mais especificamente no caso dos quilombos, arte rupestre (Guimarães e Lanna, 1980; Symanski, 2025; Rafael, 2025), têm revelado aspectos até então desconhecidos ou pouco abordados nas pesquisas historiográficas sobre a escravidão no Brasil, relacionados à cosmologia, religiosidade, práticas cotidianas, práticas lúdicas, saúde e cuidados com o corpo, hábitos alimentares, economia,  consumo, concepções estéticas dentre outras temáticas. Essas pesquisas têm, assim, revelado um quadro muito mais amplo e dinâmico do cotidiano, da vida material, das relações sociais e das expressões culturais dos grupos escravizados do que aquele comumente caracterizado pelas pesquisas com base em fontes escritas. Dessa forma, tais estudos têm levado à reformulação e ao aprofundamento de modelos teóricos que visam explicar os processos de formação e de reconfiguração de identidades afrodiaspóricas no Brasil, como é o caso dos modelos antagônicos de crioulização e afrocêntrico que têm sido tradicionalmente empregado nas pesquisas historiográficas para abordar esses processos (Gomes e Symanski, 2018), sendo o primeiro baseado na premissa da criatividade cultural que teria levado a um rápido processo etnogenético em detrimento das trocas culturais e do ajuste às estruturas sociais impostas pelos colonizadores europeus (Mintz e Price, 1992 [1976]) e o segundo focalizado na manutenção de identidades e referenciais culturais de matriz africana nesses cenários (Thorton, 1998). A proposta, portanto, é colocar essa produção acadêmica em perspectiva, considerando os estudos que têm abordado, sob um viés analítico e interpretativo, a cultura material evidenciada em tais contextos. Nesse sentido, são bem-vindos estudos que contemplem temáticas como paisagem, espacialidade, simbolismo, ritual, práticas cotidianas, relações de poder, estratégias de resistência, concepções estéticas e consumo.

Palavras-chave: senzalas, quilombos, cultura material


Referências

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Simpósio Temático

Arqueologia Histórica do Estado do Rio

Gláucia Malerba Sene

Departamento de Arqueologia – UERJ

glaucia.malerba@gmail.com

 

Sílvia Alves Peixoto

Departamento de Arqueologia - UERJ

silviapeixoto@gmail.com



Este simpósio se propõe a reunir pesquisas acadêmicas e preventivas que vêm se debruçando sobre contextos históricos, coloniais e pós-coloniais, de diferentes áreas do território fluminense, tanto na capital como em outros municípios do Estado do Rio de Janeiro, visando congregar os profissionais atuantes e debater conjuntamente os resultados de seus trabalhos.  

 


A trajetória da Arqueologia do Rio de Janeiro, notadamente na capital, é marcada por uma série de descompassos no que se refere a aspectos geográficos, cronológicos e temáticos. Além de circunscrita às zonas mais centrais da cidade, relegando a segundo plano áreas periféricas, a esmagadora maioria das pesquisas arqueológicas, tanto acadêmicas quanto preventivas, se debruçou sobre contextos majoritariamente do século XIX. Raros são os trabalhos que conseguiram dar conta de temporalidades mais recuadas nas intervenções arqueológicas realizadas, o que resulta de uma série de fatores, dentre eles o intenso e contínuo processo de urbanização vivenciado no centro da cidade, que acabou por mascarar, ou mesmo obliterar, os vestígios mais antigos (Peixoto, 2019). Isso é particularmente latente no que se refere às materialidades de grupos indígenas nos contextos pós-contato, cuja baixa preservação e consequente (in)visibilidade arqueológica tem sido debatida e parcialmente atribuída aos processos inerentes aos fenômenos da urbanização, como a formação dos aterros (Miranda, 2025).

Na última década, contudo, têm-se observado um incremento considerável das investigações voltadas a contextos até então pouco ou nada abordados, e que têm contribuído substancialmente para preencher lacunas há muito abertas na Arqueologia Histórica Fluminense. Pesquisas inovadoras, acadêmicas e preventivas, desenvolvidas em variadas áreas da cidade do Rio, tanto no centro político-administrativo, como em bairros periféricos, têm possibilitado o acesso a cronologias históricas bastante recuadas, materialidades de diferentes grupos culturais, incluindo nativos, e espaços onde atividades consideradas menos nobres foram realizadas. Da mesma maneira, municípios da Baixada Fluminense, Região dos Lagos e áreas florestadas da Costa Verde têm presenciado novos esforços de pesquisa, o que tem ampliado o escopo de atuação e atestado o potencial arqueológico-histórico do território fluminense.

Sob o ponto de vista metodológico,  cabe ressaltar ainda a perspectiva inovadora da Arqueologia Experimental voltada para artefatos históricos, apresentada em um simpósio exclusivo sobre o tema na VIII Reunião do Núcleo Regional Sudeste da Sociedade de Arqueologia Brasileira, por pesquisadores e graduandos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, iniciativa inédita no Brasil. Há anos as práticas experimentais vêm estrategicamente ganhando força no estudo das materialidades pré-coloniais, desenvolvendo metodologias, conquistando adeptos e revelando habilidades, performances e estilos distintos de pesquisadores. E agora mostra toda a sua potencialidade na pesquisa histórica. Tão importante para o processo analítico e interpretativo, a experimentação lança luzes sobre o fazer arqueológico como um todo, agregando conhecimentos ao estudo dos objetos com ênfase em cadeia operatória, gestos, processos, escolhas culturais, saberes, tentativas, acertos, erros, fragilidades, compartilhamentos, vínculos, estratégias, ensino e aprendizagem, individualidades, hibridismos, fenomenologia.

 Assim, pensando nesse cenário pulsante e diversificado que vive nos últimos anos a Arqueologia Histórica Fluminense, propomos esse simpósio para que os profissionais atuantes no Estado do Rio possam compartilhar os resultados de suas pesquisas mais recentes, exortando o debate e a troca de ideias.

 

Palavras Chave: Arqueologia Histórica; Rio de Janeiro; Colonialismo; Espaços Periféricos; Materialidades.

 

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SOUZA, Marcos André Torres de. A arqueologia dos grupos indígenas em contextos históricos: problemas e questões. Revista de Arqueologia, v. 30, n. 2, p. 144-153, 2017.

SOUZA, Marcos André Torres de; BUARQUE, Angela. Olhando para o passado, pensando o futuro: as pesquisas arqueológicas na Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Revista de Arqueologia, v. 32, n. 2, p. 178-196, 2019.

SOUZA, Marcos André Torres de; PEIXOTO, Sílvia Alves. Sempre estiveram aqui: arqueologias do colonialismo e da presença indígena no sudeste brasileiro. Revista de Arqueologia, v. 38, n. 2, p. 3–16, 2025.




Simpósio Temático

Arqueologias do Corpo

Andrei Isnardis Horta

Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

isnardis.andrei@gmail.com 

Mario Junior Alves Polo

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

mariojrpolo@gmail.com


Diversas pesquisas em arqueologia têm pautado o corpo como conceito, tema ou campo de análise. Seja a respeito de corpos humanos que integram contextos arqueológicos, corpos artefatuais e sua constituição, ou ainda corporeidades (ou corporalidades) divergentes, a ontologia dos corpos têm ocupado muites/as/os de nós. Descrever, discutir e entender como corpos os artefatos, as pinturas, as composições funerárias, as pessoas e outros elementos têm permitido dar destaque a alguns de seus atributos que nos pareciam obscuros ou que restavam impercebidos. As características dos corpos das pessoas que fazem Arqueologia e o modo como esses se engajam nas pesquisas também têm vindo à pauta, desconstruindo algumas importantes suposições de neutralidade, de universalidade e de distanciamento objetivista. Em busca de considerar leques ampliados de sujeitos ativos nos contextos arqueológicos e nas práticas de pesquisa, pensar os corpos nos tem parecido um caminho frutífero. Este simpósio pretende criar um espaço no qual arqueólogues/as/os com diferentes questões de pesquisa, materiais e contextos, possam se reunir para conversar, explorando as perguntas que nos levam a ter o corpo como tema ou como conceito, compartilhando nossos caminhos analíticos, nossos resultados e nossas ativas dúvidas.

Palavras-Chave: Corpo; Arte Rupestre; Arqueologia Amazônica; Etnologia Indígena; Corpos artefatuais.


As noções de corpo e de múltiplas corporeidades têm sido tematizadas e ecoadas no campo da Arqueologia. No Brasil pesquisas do tipo têm sido desenvolvidas em grande medida a partir da Arte Rupestre (ISNARDIS e LINKE, 2021; ISNARDIS, 2024; MAGALHÃES, 2025) e da Arqueologia Amazônica (BARRETO, 2014; OLIVEIRA, 2016a e 2016b; NOBRE, 2017; POLO, 2019; POLO e LEITE, 2019; CABRAL, 2020; OLIVEIRA, NOBRE e BARRETO, 2020; POLO, 2023; RENÓ, 2026), e no geral em grande articulação com a Etnologia indígena. São trabalhos que debatem os sentidos ontológicos de corporeidade e as fronteiras borradas entre corpos e seres no registro arqueológico. No âmbito das Arqueologias do Corpo estão também incluídas pesquisas sobre modificações e técnicas corporais; o corpo em sua relação com diferentes materialidades; ou ainda corpos musealizados, em exposições (KIM, 2012; COSTA e ALFONSO, 2021) e curadorias corporificadas. Contempla-se, ainda, o corpo na sua interface com arte e imagem, doença e morte, gênero e sexualidade, deficiência e envelhecimento (MASTROROSA, 2022). Nesta direção, o simpósio aqui proposto abarca igualmente trabalhos que versem sobre os corpos implicados na pesquisa, o papel e a corporeidade de pesquisadores e o tipo de produção que emerge dessas construções em que o próprio corpo não é ignorado.

Nos debates sobre corporeidade que emergem a partir da cerâmica, dos registros rupestres e de outros elementos da iconografia do universo indígena sul-americano tem sido estimulado o diálogo com a produção de indígenas do presente, bem como com as Artes e os campos da Antropologia da Arte, para além da Etnologia Indígena. São em geral esforços que examinam como as imagens incorporam efeitos e são participantes ativas na produção das relações sociais. Estas discussões têm aproximado e colocado questões comuns às formas como se abordam corpos, artefatos e imagens. Afinal, as linhas que separam estas três categorias encontram-se cada vez mais borradas, seja pela quebra do binarismo entre natureza e cultura, pela virada ontológica, pelo materialismo Queer, ou pelo emprego de noções como a de agência dos artefatos. Soma-se a isso a percepção de diverses pesquisadores de que há uma inadequação ou insuficiência dos repertórios tradicionais para lidar com os desafios dos contextos arqueológicos ameríndios antigos. Isto é, os repertórios interpretativos que vínhamos utilizando tem se demonstrado demasiado atinados à arte ocidental e europeia, e portanto tido pouca eficácia quando buscam dar conta da complexidade envolvida na composição dos corpos e das gentes que povoam o registro arqueológico desse universo indígena profundo. A corporeidade indígena segue sendo insubmissa e escapando a explicações normativas, simplificadoras ou generalizantes. 

Para além dos remanescentes humanos e materialidades associadas, ou mesmo para além dos objetos-corpos e suas partes, outros índices materiais têm sido utilizados para se produzir diferentes interpretações sobre o tema da corporeidade na Arqueologia, muitas delas em termos de tecnologias corporais, performatividade ou gestualidade. São trabalhos que se reportam a corpos permeáveis cujos limites são transgredidos ou redefinidos mediante várias práticas que envolvem não apenas ornamentos e roupas, mas objetos não tão óbvios a um primeiro olhar (NANOGLOU, 2012, p. 162), a exemplo da análise proposta por Lambros Malafouris (2008) sobre a espada micênica e as alterações provocadas por esta sobre seus usuários, resultando em uma corporeidade distinta e relacional. Nesta esteira, se questiona cada vez mais as fronteiras entre humano e não-humano e se fala daqueles artefatos que intencionalmente jogam com a diferença entre “realidade” e representação, em alguns casos dando ênfase à fluidez e à transformabilidade dos corpos e identidades, seu contorno, seu desmembramento, fabricação, manutenção ou reelaboração.

A intenção do Simpósio é justamente aproximar pesquisas sobre diferentes contextos arqueológicos naquilo que elas possuem em comum: os aproveitamentos e os percalços de se tratar dos temas mencionados acima, e a diversidade dos caminhos teóricos e metodológicos que temos percorrido para isso.



Referências Bibliográficas

BARRETO, Cristiana. Modos de figurar o corpo na Amazônia pré-colonial. In: ROSTAIN, Stéphen (org.). Antes de Orellana: Actas del 3er Encuentro Internacional de Arqueología Amazónica. Quito (ECU): Instituto Francés de Estudios Andinos, 2014, p. 123-132.

CABRAL, Mariana Petry. Sobre urnas, lugares, seres e pessoas: materialidade e substâncias na constituição de um poço funerário Aristé. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 15, p. e20190123, 2020.

COSTA, Vanessa; ALFONSO, Louise.  A musealização da arqueologia pela perspectiva do putafeminismo: materialidades e narrativas de trabalhadoras sexuais em uma exposição na cidade de Pelotas (RS). Revista Arqueologia Pública. Campinas, v.16, n.1, p.145, 2021.

ISNARDIS, Andrei. Pintar como relação: interações de pessoas e pinturas nas paredes de pedra. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 19, 2024.

ISNARDIS, Andrei; LINKE, Vanessa. De estruturas a corpos e seres: os vestígios perecíveis da Lapa do Caboclo em Diamantina, Minas Gerais. Revista de Arqueologia, v. 34, n. 3, p. 122-145, 2021.

KIM, Joon Ho. Exposição de corpos humanos: o uso de cadáveres como entretenimento e mercadoria. Mana, v. 18, p. 309-348, 2012.

MAGALHÃES, Larissa de Oliveira. A Fluidez dos Traços: Modos de Composição de Corpos-figura nas Pinturas Rupestres de Diamantina (MG). Dissertação (Mestrado em Antropologia), UFMG. 2025.

MALAFOURIS, Lambros. Is it ‘me’or is it ‘mine’? The Mycenaean sword as a body-part. In: BORIĆ, Dušan; ROBB, John (Eds.). Past bodies: body-centered research in Archaeology. Oxford: Oxbow Books, 2008.  

MASTROROSA, Raquel. Por uma arqueologia dos envelhecidos: aspectos teóricos do envelhecimento humano. Clio Arqueológica, v. 37, n. 1, p. 168-210, 2022.

NANOGLOU, Stratos. Questioning Archaeological Bodies. In: TURNER, Bryan S. (Ed.). The Routledge Handbook of the Body. Routledge, p. 157, 2012.

NOBRE, Emerson. Objetos e imagens no Marajó antigo: agência e transformação na iconografia das tangas cerâmicas. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017.

OLIVEIRA, Erêndira. A serpente de várias faces: estilo e iconografia da cerâmica Guarita. Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia: Rumo a Uma Nova Síntese. Belém, IPHAN: Ministério da Cultura, p. 373-382, 2016a. 

OLIVEIRA, Erêndira. Potes que encantam: Estilo e agência na cerâmica polícroma da Amazônia Central. Tese (Doutorado em Arqueologia), Universidade de São Paulo, 2016b.

OLIVEIRA, Erêndira; NOBRE, Emerson; BARRETO, Cristiana. Arte, arqueologia e agência na Amazônia. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 15, n. 3, e20200111, 2020.

POLO, Mario Junior; LEITE, Lúcio Flávio Costa. Os sapatos de Scarlett: o corpo na Arqueologia Amazônica, e os caminhos desenhados por uma posicionalidade Queer. Revista Arqueologia Pública, Campinas, SP, v. 13, n. 1 [22], p. 180–198, 2019.

POLO, Mario Junior Alves. Corpo e figuração na arqueologia da foz do Amazonas: uma abordagem pós-representacional aos conjuntos Maracá, Caviana e Cupixi. 2019. Tese (Doutorado em Arqueologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.

POLO, Mario Junior Alves. Corpos-urnas na arte e arqueologia da Foz do Amazonas: prerrogativas e percalços de uma pesquisa pretensamente pós-representacional. Revista de Arqueologia, v. 36, n. 1, p. 103-126, 2023.

RENÓ, José. Mortos-Gente: uma análise arqueológica das urnas antropomórficas amazônicas a partir da relação de alteridade com os mortos na etnologia indígena. Dissertação (Mestrado em Antropologia), UFMG, 2026.

Simpósio Temático

Caminhos teóricos para interdisciplinaridade em Arqueologia

Luis Vinícius Sanches Alvarenga

LINTT MAE-USP, Origem Arqueologia

luisviniciussa@gmail.com

Sofia Helena Cardoso Rodrigues

UNICAMP e UNIMES

sofiahelenacr@gmail.com


Teoria e Interdisciplinaridade são duas propriedades intrínsecas ao ofício arqueológico. Presentes desde as práticas mais primordiais de contato e observação da materialidade – que em muito antecedem a consolidação da disciplina acadêmica no século XIX – por vezes acabam sendo tomadas como pressupostos inegociáveis dentro de recortes de estudo. Desta forma, é relativamente incomum encontrarmos, nos espaços de conversa científica, iniciativas voltadas à discussão epistemológica das teorias ou interdisciplinaridades que estruturam o pensamento arqueológico, notando fragilidades e flexibilidades conceituais. A proposta deste ST é, portanto, fomentar o debate crítico acerca dessas propriedades. São convidadas a submeter comunicações pesquisadoras e pesquisadores, arqueólogas(os) ou de áreas afins, que lidem com a materialidade em suas múltiplas perspectivas. Ainda que a pesquisa de campo seja atualmente o rosto mais definidor da Arqueologia Brasileira, são igualmente convidadas a apresentar seus entraves, reflexões e possibilidades todas as pessoas que, em alguma medida, se dediquem a pensar teoricamente esses caminhos.

Palavras-chave: teoria arqueológica; interdisciplinaridade; pensamento arqueológico; epistemologia.

 

O caminho histórico da formação intelectual da Arqueologia é longo, tortuoso e por vezes controverso. Apesar de surgir como disciplina formal, como campo científico, em inícios do século XIX – com a institucionalização dos primeiros cursos universitários, métodos sistemáticos e corpos teóricos próprios na Europa – as práticas de coleta, observação, classificação e interpretação da cultura material são definitivamente mais antigas. Tais práticas remontam, ao menos, à Antiguidade (Schnapp, 1996; Momigliano, 2004; Trigger, 2006). E o contato com a materialidade, para além deste contorno ocidental, demonstra epistemologias diferentes dessa da academia europeia oitocentista, ao observarmos expressões americanas, africanas e asiáticas no geral (cf. por exemplo autoarqueologia indígena e afrodiaspórica [Viveiros de Castro, 2004; Tuyuca; Valle, 2019; Silva, 2024; Ortiz, 2025; Costa, 2025 e outros]) e a arqueologia colaborativa, engajada em demandas da sociedade. De modo paralelo, o ofício arqueológico, tanto no passado como no presente, sempre esteve intrinsecamente ligado ao diálogo com outros saberes de disciplinas diversas, que, não acessórias nem complementares, complexificam a compreensão do nosso passado, de nossas ancestralidades.

Diante desse panorama, a proposta do presente Simpósio Temático – “Caminhos teóricos para interdisciplinaridade em Arqueologia” é criar um espaço de reflexão e debate crítico sobre a própria definição do conceito Arqueologia, suas práticas, experiências e trajetórias individuais e coletivas. Para além disso, outro pilar central do Simpósio Temático é pensar teoricamente a interdisciplinaridade, eixo que também acompanha a prática arqueológica desde seus primórdios. Antes, com os antiquários (percussores dos arqueólogos), a prática arqueológica andava junto às mais diversas profissões: teatro, construção civil, arquitetura, arte, militarismo... Hoje, a interdisciplinaridade ganha outros rostos, cada vez mais necessários para a construção de narrativas plurais sobre o passado profundo: História, Geologia, Biologia, Etnografia, Computação e inúmeros outros.

Algumas questões norteadoras para as trocas aqui almejadas, que parecem triviais, mas que em verdade podem ser encorajadoras, são: O que é Arqueologia? Há uma ontologia da Arqueologia? Há pressupostos universais? Quais pressupostos teóricos norteiam as práticas caso-a-caso?

Ao fomentar esse debate, o Simpósio busca acolher reflexões críticas, experiências diversas e abordagens teóricas que contribuam para repensar os caminhos da Arqueologia contemporânea. São convidadas a submeter comunicações pesquisadoras e pesquisadores, arqueólogas(os) ou de áreas afins, que lidem com a materialidade em suas múltiplas perspectivas. Ainda que a pesquisa de campo seja atualmente o rosto mais definidor da Arqueologia Brasileira, são igualmente convidadas a apresentar seus entraves, reflexões e possibilidades todas as pessoas que, em alguma medida, se dediquem a pensar teoricamente esses caminhos.

 

Referências Bibliográficas

COSTA, Luciana Alves. O Caminho de Casa: arqueologia, ancestralidade e aquilombamento nos territórios Laje e Canjembre, Antiga Fazenda e Olaria Carmo, em Rosário, Maranhão. 2025. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/71/71131/tde-23102025-122442/. Acesso em: 28 maio 2026.

MOMIGLIANO, Arnaldo. As Raízes clássicas da historiografia moderna. Bauru: EDUSC, 2004.

ORTIZ, Rosalvo Ivarra. Arqueologia indígena nos Tekohás Jaguapirú e Bororó, Dourados, Mato Grosso do Sul. 2025. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) - Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025. doi:10.11606/D.71.2025.tde-23012026-173738. Acesso em: 2026-05-28.

SCHNAPP, Alain. The Discovery of the Past: The origins of Archaeology. London: Museu

BritânicoPress, 1996.

SILVA, Fabíola Andréa. Etnografando a arqueologia: dado etnográfico, prática etnográfica e conhecimento arqueológico. . Universidade de São Paulo. Museu de Arqueologia e Etnologia, 2024.DOI: https://doi.org/10.11606/9788560984701 Disponível em: www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/1243 . Acesso em 1 junho. 2026.

TRIGGER, B. G. História do Pensamento Arqueológico. São Paulo: Odysseus Editora, 2004.

TUYUCA, Poani; VALLE, Raoni. “ɄTÃ WORI – um diálogo entre conhecimento Tuyuka e arqueologia rupestre no baixo Rio Negro, Amazonas, Brasil”. In: Tellus, Campo Grande, MS, ano 19, n. 39, p. 17-37, maio/ago. 2019.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Perspectivismo e multinaturalismo na América indígena. O que nos faz pensar, Rio de Janeiro, v. 14, n. 18, p. 225-254, set. 2004.

Simpósio Temático

Sítios costeiros e a diversidade arqueológica do sudeste brasileiro

Anderson Marques Garcia

Núcleo de Pesquisas Arqueológicas Indígenas (NuPAI), Departamento de Arqueologia (DARQ), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

andersonmarquesgarcia@gmail.com

Claudia Rodrigues-Carvalho

Programa de Pós-graduação em Arqueologia (PPGARQ), Departamento Antropologia, Museu Nacional (MN), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Departamento de Sistema de Museus Acervos e Patrimônio Cultural (SIMAP)

claudia@mn.ufrj.br

Célia Boyadjian

Programa de Pós-graduação em Arqueologia (PPGARQ), Departamento Antropologia, Museu Nacional (MN), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

boyadjian.celia@mn.ufrj.br


Com essa proposta pretendemos atrair pesquisadores interessados no estudo dos sítios costeiros do sudeste brasileiro, sejam suas contribuições fundamentadas em estudos de caso específicos ou regionais, bem como trabalhos de caráter teórico a respeito de sítios implementados nessa região.  Buscamos promover um encontro que aborde a diversidade de tipos de sítios arqueológicos, bem como de materiais identificados nos mesmos, e discuta o cenário complexo que se coloca atualmente com base nos dados e interpretações mais recentes sobre os povos que ocuparam o litoral sudeste. 

Palavras-chave: Arqueologia costeira; sambaquis; litoral fluminense; pescadores-coletores; paisagem arqueológica; variabilidade arqueológica.

 

Nessa oportunidade pretendemos discutir a diversidade dos tipos de sítios costeiros existentes no litoral do Sudeste brasileiro, associados ora aos sambaquieiros, ora às tradições Macaé, Itaipu, Una e Tupi-guarani. Nessa região, com cerca de 7 mil anos AP, estão alguns dos sítios mais antigos do Sudeste e do litoral do Brasil, remanescentes de populações conhecidas pela construção de sambaquis, cuja cultura material aponta para um sofisticado conhecimento e domínio da costa (KNEIP et al., 1981; MUEHE & KNEIP, 1995; LIMA et al., 2002). Sítios com essas características são encontrados ao longo de mais de 50% do litoral do Brasil, compartilhando entre si similaridades materiais devido ao aproveitamento de recursos aquáticos, ponto central de seus modos de vida, que podem corresponder a um sistema sociocultural mantido no Sul e Sudeste por cerca de seis mil anos (DEBLASIS & GASPAR, 2009).

Quanto às tradições Macaé e Itaipu (DIAS Jr., 1969. MENDONÇA DE SOUZA, 1981), apesar de terem sido propostas inicialmente enquanto fenômenos culturais distintos, com o desenvolvimento da Arqueologia voltada aos sítios dos ambientes costeiros, que levou à redução da utilização das categorias tradição e fase, os sítios têm sido atualmente associados a uma mesma cultura. No Rio de Janeiro, o ápice desse modo de vida se deu por volta de 3 mil anos AP e seu colapso pode ser observado por volta de 1000 anos AP, momento com registros arqueológicos intensos da presença de grupos ceramistas/horticultores relacionados às tradições Una e Tupi-guarani no litoral, inclusive em camadas superiores de muitos sambaquis (BELTRÃO, 1978; CARVALHO, 1983; KNEIP, 1987; GUIMARÃES, 2007). O modelo construído a partir desses dados sugeriu um processo de substituição populacional e cultural, reforçado pelas informações dos cronistas do século XVI que registram os “montes de conchas” como obras de grupos desconhecidos dos indígenas contactados.

Todavia, para além da presença dos grupos ceramistas, ao olharmos para as áreas de ocorrências presentes em nossa região, é perceptível que há diversidade mesmo dentro de microrregiões, tanto em relação aos materiais móveis identificados, quanto aos materiais construtivos (ou não) que compõem suas estratificações e os lugares em que foram implementados na paisagem. Junto a isso, outro problema que se apresenta é a acepção heterogênea do termo sambaqui, uma consequência das diferentes orientações teóricas e interpretativas desenvolvidas ao longo do tempo (NETO, 1885; IHERING, 1093; GASPAR, 1991; FISH et al., 2000).

Atualmente, o entendimento mais frequente a respeito de sambaquis é o de que eles são construções de função funerária, onde as conchas são elementos característicos, mas que podem também estar ausentes em alguma das construções. De fato, vemos na literatura que esse modelo interpretativo se adequa bem à algumas regiões brasileiras, mas noutras o encaixe não é hermético. Assim, para alguns sambaquis do Sul e do Sudeste, em paralelo, continuam sendo levantadas hipóteses habitacionais (GUIMARÃES, 2007; WAGNER & BARCELLOS, 2008; VILLAGRÁN, 2014; WAGNER, 2022).

Outro ponto importante é que existem outros tipos de sítios arqueológicos nos quais são também encontrados materiais típicos de sambaquis, mas que não são sambaquis. Ao nos debruçarmos sobre os sítios da região sudeste, compreendemos que é necessário abrir os horizontes de investigação para além dos montículos e buscar identificar outras evidências do modo de produção desses grupos, para além de seus espaços funerários.

Vemos que a longevidade dos sistemas culturais costeiros é marcada pela diversidade e variabilidade espaço-temporal, inclusive com evidências de produção de alimentos, instrumentos, bases territoriais de longa duração e um complexo sistema de distribuição espacial de montículos. Tais dados revelam ainda uma complexidade que escapa ao modelo pescador-caçador-coletor tradicional. No caso dos montículos construídos, suas localizações estratégicas em áreas de costa visualmente de boa referência, oferece aos mesmos uma peculiaridade que se relaciona à espacialidade geográfica e a paisagem. Tal ponto de referência transmite ao observador um contexto de territorialidade de grupo e uma definição de limites.

Por fim, nossa proposta pretende fomentar o diálogo entre pesquisadores interessados nesses povos, suas estratégias e dinâmicas regionais. Todavia, não defendemos aqui uma nova adoção acrítica das fases e tradições antes citadas, mas uma reflexão acerca das diferenças entre os contextos que fizeram com que os mesmos fossem outrora definidos como evidências de atividades e ou grupos distintos. Quando olhamos para as produções acadêmicas anteriores, e para os contextos que temos trabalhado, os materiais identificados sugerem que as dinâmicas territoriais não se resumiram a um modelo de substituição simples, nem mesmo na presença de um grupo homogêneo, fazendo-se necessária a construção de novos entendimentos para esse cenário complexo de relações sociais ao longo da costa.


Referências bibliográficas

BELTRÃO, Maria da Conceição. Pré-História do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Forense, 1978

CARVALHO, Eliana Teixeira de. Estudo arqueológico do sítio Corondó. Missão de 1978. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social). Universidade de São Paulo, São Paulo, 1983.

DEBLASIS, Paulo; GASPAR, Maria Dulce. Os sambaquis do sul catarinense: retrospectiva e perspectivas de dez anos de pesquisas. Especiaria: Cadernos de Ciências Humanas, v. 11, n. 20/21, p.83-125, 2009.

DIAS Jr, Ondemar. A fase Itaipu, sítios sobre dunas no Estado do Rio de Janeiro. Simpósio de Arqueologia da Área do Prata, III. Pesquisas, São Leopoldo, Anais, 20: 5-12, 1969.

FISH, Suzanne; DE BLASIS, Paulo; GASPAR, Maria Dulce; FISH, Paul. Eventos incrementais na construção de sambaquis, litoral sul do estado de Santa Catarina. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, v.10, p.69-87, 2000.

GASPAR, Maria Dulce. Aspectos da organização social de um grupo de pescadores, coletores e caçadores: Região compreendida entre a Ilha Grande e o delta do Paraíba do Sul, Estado do Rio de Janeiro. Tese (Doutorado em Antropologia Social). Universidade de São Paulo, São Paulo, 1991.

GUIMARÃES, Márcia Barbosa da Costa. A ocupação pré-colonial da Região do Lagos, RJ: Sistma de assentamento e relações intersocietais entre grupos sambaquianos e grupos ceramistas Tupinambá e da Tradição Una. Tese (Doutorado em Arqueologia). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

IHERING, Hemann Von. A origem dos sambaquis. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, v.8, p.446-465, 1903.

KNEIP, Lina. Coletores e Pescadores Pré-históricos de Guaratiba Rio de Janeiro. Rio de Janeiro/Niterói: UFRJ/UFF, 1987.

KNEIP, Lina; PALLESTRINI, Luciana; CUNHA, Fausto. Pesquisas Arqueológicas no litoral de Itaipú, Niterói, RJ. Rio de Janeiro: Luna LTDA, 1981.

LIMA, Tania Andrade; MACARIO, Kita; ANJOS, Roberto; SEDA, Paulo; COIMBRA, Melayne; ELMORE, David. The antiquity of the prehistoric settlement of the Central-South Brazilian Cost. Radiocarbon, v.44, n.3, p.733-738, 2002.

MENDONÇA DE SOUZA, Alfredo. Pre-Historia Fluminense. Rio de Janeiro: Instituto Estadual do Patrimonio Cultural e Secretaria Estadual de Educação e Cultura, 1981.

MUEHE, Dieter; KNEIP, Lina Maria. O Sambaqui de Camboinhas e o de Maratuá e as oscilações relativas do nível do mar. Documento de Trabalho, Série Arqueologia, n.3, p.75-82, 1995.

NETO, Ladislau. Investigações sobre a Arqueologia brasileira. Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, n.6, p.257-554, 1885.

VILLAGRÁN, Ximena. A redefinition of waste: deconstructing shell and fish mound formation among coastal groups of southern Brazil. Journal of Anthropological Archaeology, v. 36, p. 211-227, 2014.

WAGNER, Gustavo Peretti. O povoamento da costa atlântica brasileira, uma abordagem geoarqueológica para a transição entre Holoceno inicial e médio. Tessituras, v.10, n.1, p.73-111, 2022.

WAGNER, Gustavo Peretti; BARCELLOS, André Bernardi Bicca de. Interpretação do Paleoambiente do Sambaqui do Recreio: Uma análise Geofísica e Paleogeográfica. Cadernos do LEPAARQ, v.5, n.9/10, p.64-81, 2008.

Simpósio Temático

Teoria e metodologia arqueológica no âmbito da revisão da Portaria n. 07/88

Thandryus Augusto Guerra Bacciotti Denardo

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)

thandryus.denardo@iphan.gov.br



É necessário discutir as fundamentações metodológicas que deverão fazer parte do escopo das pesquisas nacionalmente no âmbito da revisão da Portaria n. 07/1988. Desde a publicação da portaria diversos novos métodos foram discutidos e realizados, bem como surgiram e se consolidaram outros campos no Brasil, como Arqueologia Afro-Diaspórica, Arqueologia Pública, Arqueologia do Lixo, entre tantas outras; nesse mesmo período, surgiram novas técnicas arqueométricas, e a Educação Patrimonial ganhou espaço através da publicação da Portaria n. 230/2002. Assim, é o momento de revisar as práticas que já são rotineiramente utilizadas e discutir os novos métodos que devem ser incorporados.

 

Palavras-chave: Portaria n. 07/88, metodologia arqueológica, práxis

 

A Portaria n. 07/1988 serve como marco regulatório para todas as pesquisas arqueológicas realizadas no país. Desde então, a prática arqueológica avançou em diversas direções; um exemplo disso é a própria interpretação do contexto arqueológico em áreas antropizadas, não só rurais como também espaços urbanos. Também houve um avanço na chamada Arqueologia de Contrato a partir do licenciamento ambiental, levando a ponderações diversas. Nesse mesmo período houve a consolidação de subcampos como a Arqueologia Afro-Diaspórica e a Arqueologia do Lixo, que trazem questões importantes acerca não só da metodologia empregada em campo, mas também da própria conceitualização do que é um sítio arqueológico. Também vimos escavações em espaços de dor e sofrimento, como o caso da vala de Perus, e que trazem à tona toda uma série de discussões acerca de como conduzir as pesquisas arqueológicas junto a vítimas da violência do Estado.

Outras áreas apresentaram novas questões importantes. A necessidade de participação social também cresceu cada vez mais, e vimos a emergência das discussões acerca da Arqueologia Pública no Brasil, impulsionadas pela destruição do patrimônio muitas vezes causada por obras públicas, mas também pela obrigação dos projetos apresentarem a Educação Patrimonial em seu escopo. Embora a boa prática da Educação Patrimonial encontre diversos desafios para a sua execução, muitas vezes relacionados ao seu financiamento e ao tempo de execução, vimos que o campo tem sido cada vez mais discutido na Arqueologia, embora ainda não seja possível afirmar que ele seja visto como parte integral das pesquisas arqueológicas. Nesse sentido, também foi preciso repensar toda a prática curatorial, iniciada já em campo, que devem culminar na patrimonialização dos vestígios arqueológicos detectados e estudados, seja através da sua extroversão, seja através de processos mais continuados e socializados. 

Por fim, também foram desenvolvidos novos métodos de análises arqueométricas, tanto em campo como em laboratório. Métodos como Difusão de Raios-X e Espectrometria são usados cada vez mais para estudar a composição de cerâmicas arqueológicas, enquanto outros métodos já começam a ser discutidos no país, como é o caso do uso da Microscopia de Força Atômica. Por outro lado, os métodos de datação são cada vez mais conhecidos e utilizados. 

Diante desses avanços, é preciso discutir quais são os métodos esperados para as pesquisas arqueológicas no Brasil, que garantam não só o levantamento de dados que permita a melhor interpretação do contexto arqueológico, mas também a responsabilidade social das pesquisas, com um processo curatorial e educativo adequado desde o planejamento das pesquisas. É necessário discutir as especificidades que advém de cada contexto, como as pesquisas em espaços sagrados. Também é preciso discutir, com o avanço das tecnologias, quais são as análises esperadas nas pesquisas arqueológicas.

Sendo assim, o presente seminário foi pensado como uma oportunidade de incorporar os trabalhos apresentados às discussões feitas no âmbito da revisão da Portaria n. 07/88, a fim de aproximar a instituição das pesquisadoras e dos pesquisadores que trabalham na área, tanto na Academia quanto no Contrato. Espera-se que as apresentações mostrem os avanços possíveis mas também os limites e atuais dificuldades que existem nas pesquisas, e que podem eventualmente ser superadas. O presente simpósio também serve como um espaço de discussões a fim de avaliar os avanços que tivemos na prática arqueológica nacional, permitindo assim pensar em uma práxis (teórica e metodológica) fundamentalmente brasileira.

 

 

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2º Lote

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Colaborador

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Graduando

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R$ 25,00

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Não Associadas/os/es

Graduandos

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R$ 40,00

R$ 50,00

Público em geral

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Indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais

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Isento

Isento

























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