IX Reunião da Regional Sudeste da Sociedade de Arqueologia Brasileira
Auditório do IC II (Instituto de Ciências Humanas e Naturais) do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN) da UFES - Campus Goiabeiras - Vitória - Espírito Santo - Brasil
IX Reunião Regional Sudeste - Arqueologia em Difusão
É com grande satisfação que anunciamos a realização da IX Reunião Regional Sudeste. Com o tema Arqueologia em Difusão, o evento ocorrerá de 13 a 16 de outubro de 2026 na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em Vitória.
Esta será a primeira reunião da Sociedade de Arqueologia Brasileira, em âmbito nacional e regional, a ser realizada no estado do Espírito Santo. Em razão desse caráter inédito, promoveremos um encontro com ênfase na valorização do patrimônio arqueológico, incentivando a participação, o protagonismo e a confluência de diferentes sujeitos, entre pesquisadoras(es), estudantes, gestoras(es) culturais, profissionais da arqueologia e membros da sociedade civil.
Cronograma Geral
PRAZOS
Lançamento da 1ª Circular
24 de abril de 2026.
Abertura das Inscrições de Simpósio
27 de abril a 14 de junho de 2026. (PRORROGADO)
Avaliação de Simpósios
01 a 28 de junho de 2026.
Divulgação dos Simpósios Aprovados
29 de junho a 05 de julho de 2026.
Abertura para Submissão de Trabalhos
06 julho a 02 de agosto de 2026
(PRORROGADO)
Avaliação dos Trabalhos
28 de julho a 06 de setembro de 2026.
Divulgação dos trabalhos aprovados
07 a 13 de setembro de 2026.
SUMBMISSÔES - Apresentação Oral
Normas para Submissão de Apresentações Orais
As propostas de apresentação oral deverão ser submetidas exclusivamente por meio do sistema do evento, dentro do prazo estabelecido no cronograma.
As apresentações poderão ser inscritas em uma das seguintes modalidades:
Apresentação em Simpósio Temático: o(a) autor(a) deverá selecionar um dos 10 Simpósios Temáticos disponíveis no momento da submissão.
Apresentação Oral Individual: destinada aos trabalhos que não se enquadrem ou não desejem ser vinculados a um Simpósio Temático. As apresentações aprovadas nesta modalidade serão organizadas pela Comissão Científica em sessões temáticas.
A submissão deverá conter:
Resumo com extensão entre 300 e 500 palavras;
Três (3) a cinco (5) palavras-chave, separadas por ponto e vírgula.
Os demais dados da submissão, incluindo informações sobre autoria, filiação institucional e demais metadados solicitados, deverão ser preenchidos diretamente nos campos específicos do sistema.
Os resumos serão avaliados pela Comissão Científica quanto à sua adequação ao Simpósio Temático (quando aplicável), à relevância científica, à clareza da proposta e à conformidade com as presentes normas.
Serão aceitas apenas as submissões que atenderem aos requisitos estabelecidos neste regulamento e forem enviadas dentro do prazo previsto.
Pensar arqueologia no Espírito Santo: ontem e hoje
Christiane Lopes Machado
Rhea Estudos e Projetos
arqueologia@rheambiente.com.br
Rosana Najjar
Najjar Consultoria
rosana@najjarconsultoria.com
Até
um passado recente, o Estado do Espírito Santo abrigava raros profissionais e poucas
pesquisas arqueológicas. O crescimento alavancado pelas pesquisas preventivas
das últimas duas décadas trouxe novos profissionais, novos enfoques, a criação
de instituições, além do desenvolvimento de pesquisas acadêmicas. Com este
simpósio, pretendemos apresentar e discutir as pesquisas arqueológicas
realizadas no Estado do Espírito Santo, mostrando as diferentes abordagens
dessa disciplina utilizadas no estado. Por outro lado, o mesmo crescimento
trouxe pelo menos dois problemas: não há arqueólogos suficiente para atender a
demanda de projetos, como também não há instituições de pesquisa e guarda de acervo
suficientes ou instituições de ensino de arqueologia. Como resolver esses
problemas?
Dos quatro estados que compõem a Região Sudeste, o Espírito Santo
é o que conta com menor número de profissionais, instituições e pesquisas
relacionadas à arqueologia. A ausência de cursos graduação ou pós-graduação em
arqueologia acentua o problema. Apesar desse cenário preocupante, a arqueologia
do Espírito Santo existe e vem se desenvolvendo através dos anos. Podemos
dividir a arqueologia do estado em três períodos principais. O primeiro é o
período que vai até aproximadamente a década de 1960, o segundo período até a
década de 80 e o terceiro daí até a atualidade. A arqueologia do primeiro
período, sobretudo a realizada durante a primeira metade do século XX, contava
com apenas três pesquisadores que realizaram poucas mas importantes pesquisas
no estado, sendo apenas um deles arqueólogo profissional: Alfredo Ruschi,
Adam Orrsich e Salles Cunha.A partir da década de 1960, o destaque é o estabelecimento
do Prof. Celso Perota no estado, responsável pelarealização de pesquisas de forma mais continuada, alcançando
diversos municípios e propondo o estabelecimento de Fases e Tradições
Arqueológicas para o Espírito Santo. Prof. Perota além de pesquisador atuante e
professor da Universidade Federal do Espírito Santo / UFES, foi o responsável
pelo Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas/PRONAPA no estado e também
atuava como representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional/IPHAN para assuntos de arqueologia, ou seja, colaborava com o
instituto na preservação do patrimônio arqueológico do estado. O terceiro
período, cujo catalisador é a publicação da Resolução CONAMA 01/1986, apresenta
um aumento significativo das pesquisas arqueológicas no Espírito Santo a partir
da década de 1990, com vários profissionais
envolvidos (sendo a esmagadora maioria de outros estados), impulsionados pela
obrigatoriedade de abordar essa disciplina nos projetos de licenciamento
ambiental. A diversidade de pesquisadores enriqueceu o conhecimento já obtido
pelos pesquisadores pioneiros, fundamentais na construção dessa história,
trazendo então novos pontos de vista e abordagens teóricas e metodológicas. Também
se observa o crescimento de pesquisas dentro de projetos de restauração de
edificações tombadas motivadas pela Superintendência do IPHAN/ES e em Planos de
Manejo em áreas de preservação demandados pela Secretaria Estadual de Meio
Ambiente / SEMA. A partir desse contexto há um movimento de incremento da
arqueologia e surgem instituições privadas de pesquisa e guarda de coleções objetivando
atender a demanda das pesquisas que aumentava e aumenta a cada dia. Essas
instituições produzem estudos acadêmicos abordando os períodos pré-colonial,
histórico e contemporâneo, além do uso de diferentes métodos e técnicas de
pesquisa, produzindo conhecimento, promovendo atividades de educação
patrimonial, exposições e eventos científicos sobre a arqueologia. Mas tudo
isso ainda não é suficiente para atender a demanda das pesquisas, ainda são
necessários pesquisadores e instituições de pesquisa e ensino no estado. Além
disso, nas últimas décadas observa-se uma ampliação do diálogo entre a
arqueologia e outras áreas do conhecimento, tanto das ciências humanas como
ambientais. Essa interdisciplinariedade possibilita interpretações mais
abrangentes sobre os modos de vida das populações que ocuparam o território
capixaba ao longo do tempo. A utilização de novas tecnologias de análise,
incluindo geoprocessamento, sensoriamento remoto e estudos laboratoriais
especializados, também contribui para a qualificação das pesquisas. Tais avanços
permitem não apenas a identificação de novos sítios arqueológicos, mas também
uma compreensão mais detalhada dos processos culturais e ambientais
relacionados ao patrimônio arqueológico do Espírito Santo.Dessa forma, o presente
simpósio propicia uma oportunidade inédita de congregar pesquisadores atuantes
no Estado, para não apenas apresentar suas pesquisas, mas abordar problemas e
discutir seus resultados.
Palavras-chave:
Arqueologia; Espírito Santo; Pré-colonial; Restauração de Monumentos; Licenciamento
Ambiental.
Referências Bibliográficas
CUNHA,
Ernesto Salles. Sambaquis de Vitória. Reunião Anual da Sociedade Brasileira
Para o Progresso aa Ciência, 20(2)., 455–456, 1968.
CUNHA,
Ernesto Salles. Polidores neolíticos do Espírito Santo (Brasil). Reunião
Anual da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência, 22. Bahia,
133–154, 1970.
INSTITUTO
DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO. Anchieta: a Restauração de um Santuário.
Rio de Janeiro: IPHAN, 188 p, 1998.
MACHADO,
Christiane Lopes. Caracterização Arqueológica em áreas da Aracruz Celulose
no Estado do Espírito Santo. – Relatório Técnico. RHEA: Vitória/ES, 2007.
MACHADO,
Christiane Lopes. Atualização do Cadastro dos Sítios Arqueológicos no Estado
do Espírito Santo: Relatório Final
volume I/II (21ª SR IPHAN/RHEA). RHEA: Vitória/ES, 2008.
NAJJAR,
Rosana Pinhel Mendes. Catequese em Pedra e Cal: estudo arqueológico de uma
igreja jesuítica (Nossa Senhora de Assunção – Anchieta /ES). Dissertação
apresentada no curso de mestrado da Universidade de São Paulo. Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas; Serviço de Pós-Graduação: USP: São Paulo,
2001.
NAJJAR,
Rosana Pinhel Mendes. Construtores de Igrejas: um estudo arqueológico da
presença da Companhia de Jesus no litoral brasileiro. Tese (doutorado),
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
PEROTA,
Celso. Dados parciais sobre a arqueologia norte Espírito-Santense. Separata do
Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas, 4(15), 149–162, 1971.
PEROTA,
Celso. Resultados Preliminares Sobre a Arqueologia da Região Central do
Espírito Santo. In: Publicações Avulsas do Museu Paraense Emílio Goeldi,Vol. 26, pp. 127–140, 1974.
RUSCHI,
Alfredo. Contribuição à arqueologia de Santa Teresa, no Estado do Espírito
Santo: objetos de pedra de origem indígena. Boletim do Museu de Biologia
Mello Leitão, Santa Teresa/ES, (1), 1–22, 1953.
SLAVETICH,
Adam Orssich de. Relatório Arqueológico do Espírito Santo. Revista de
Cultura da UFES, 19, 45–117, 1981.
Simpósio Temático
"O caminho só existe quando você passa": arte rupestre e paisagem
Paulo Roberto Gomes Seda
Universidade do Estado do Rio de Janeiro/Departamento de Arqueologia
prgseda@gmail.com
Modernamente entende-se
não ser possível compreender as populações humanas fora de seu ambiente e estes
dois vieses – cultura e natureza – representariam uma interação sistêmica. A
relação entre cultura e natureza, dentro de uma visão sistêmica, pode ser
entendida como uma interação entre ambiente, adaptabilidade e demografia, sendo
o elemento cognitivo o mecanismo gerador, armazenador e transmissor da
informação adaptativa. Arqueologicamente, este dinamismo reduz-se a restos,
normalmente, materiais, que refletem ambientes, demografia e atividades humanas
passadas, em outras palavras, dados arqueológicos. Por outro lado, a
incorporação, mais recentemente, do conceito de paisagem, sobretudo paisagem
cultural, aos estudos arqueológicos, trouxe uma ampliação da interação entre as
realidades materiais e as socioculturais. Para abordarmos a Arqueologia da
Paisagem, entendemos que devemos reconhecer marcos naturais ou culturais: a
topografia, a hidrografia, os sítios arqueológicos etc. Aqui, a arte rupestre será
vista como um destes marcos e, junto com ela, pensamos em uma colonização da
paisagem.
Palavras chaves:
Paisagem – Arte Rupestre - Arqueologia
Categoria extremamente
dinâmica, a paisagem, além de expressar as práticas humanas ou as ações da
natureza, é capaz de narrar, através de suas manifestações aparentes ou
ocultas, a história de um espaço. A paisagem cultural, vista não só como aquela
com interferência humana, mas, sobretudo, interpretada pelo homem, traz,
necessariamente, uma abordagem transdisciplinar, que permite abarcar práticas
humanas, espaços naturais e outras condições físicas e materiais. Paisagens não
são sinônimo de meio ambiente, representam, na verdade, interações entre as
pessoas e seu ambiente são estruturadas e organizadas pelos sistemas culturais,
paisagem significa mundo exterior mediatizado pela experiencia subjetiva do homem
(COSGROVE 1985). Sendo produtos culturais, as sociedades transformam os espaços
físicos em lugares cheios de conteúdos, através de atividades diárias, crenças
e sistemas de valores. Assim, a experiência, a história, os sistemas de
valores, as circunstancias e as escolhas individuais, todas jogam seu papel em
como uma paisagem e descrita e identificada (TAÇON 1999, p. 34). Deduz-se que paisagem
não é meramente o mundo que vemos, mas uma construção, una composição de mundo (COSGROVE
1985). Arqueologia e paisagem, portanto, é um enfoque apropriado para o
objetivo arqueológico: explicar o passado da humanidade, mediante sua
capacidade de reconhecimento e avaliação das relações dinâmicas e
interdependentes que as pessoas mantêm com as dimensões físicas, sociais e
culturais de seu entorno através do tempo e espaço. A centralidade do contexto
cultural da paisagem é um registro material de padrões de conduta dentro do
contexto de um entorno específico e uma construção simbólica. As paisagens são
formas particulares de expressar concepções de mundo e são também um meio de
fazer referência a entidades físicas. A mesma paisagem
física pode ser vista
de muitas maneiras diferentes por pessoas distintas, muitas vezes
simultaneamente. O termo pode referir-se tanto a um ambiente — geralmente
moldado pela ação humana — quanto a uma representação que significa os sentidos
atribuídos a tal ambiente. Uma paisagem é uma imagem cultural, uma forma de representar,
estruturar ou simbolizar o entorno (Daniels
e Cosgrove, 1988:1). Ingold (1993, p. 156) entende que
paisagem é o mundo tal como é conhecido por aqueles que nele habitam, mas
também admite a paisagem como um padrão de atividades condensadas em um
conjunto de feições, uma forma externa criada por um padrão de atividades
humanas que permanece visível para os arqueólogos depois que seus criadores
desapareceram (Ingold, 1993, 162).
Uma abordagem ecológica explica o comportamento como uma resposta a causas
externas, ao passo que uma abordagem cultural visa compreender o comportamento
como algo dotado de sentido. Por outro lado, é possível ler a paisagem, vendo-a
como uma expressão de significados negociados em culturas passadas ou presentes,
dependendo da identificação das referências de uma sociedade a elementos
externos que nós também podemos perceber. O significado desta leitura, é aquilo
que os indivíduos atribuem aos seus próprios atos. A consciência e o
significado são obtidos ao "refletir" ou lançar um olhar retrospectivo
sobre a experiência vivida, na medida que ela nos conduz adiante. Tal atividade
subjetiva difere mesmo entre indivíduos que mantêm contato frequente, mas ainda
mais entre pessoas separadas pelo tempo ou pelo espaço (Schutz, 1972). Neste sentido, para ler a paisagem, é que
introduzimos o conceito de marcos da paisagem: marcos são pontos ou elementos
que permitem identificar a paisagem como sendo ela, não outra. Por sua vez,
esses marcos podem ser naturais, mistos (naturais, mas culturalmente trabalhados)
e totalmente culturais. No caso dos totalmente culturais, é que trazemos,
também, o conceito de colonização da paisagem: marcos que incorporam a paisagem
a cultura, que “tomam posse” da paisagem, que a humanizam e colonizam. Neste
sentido, a arte rupestre assume um aspecto privilegiado na paisagem e é como um
marco que queremos encará-la aqui.
Referências Bibliográficas
Cosgrove, D. E. Prospect,
perspective and the evolution of the landscape idea. Transactions of the
Institute of British Geographers, 10: 45–62, 1985.
Daniels, S. e COSGROVE,
D.. Introduction: iconography and landscape. In: The
FAGUNDES, Marcelo.
Natureza e cultura: estudo teórico sobre o uso do conceito de paisagem nas
ciências humanas. Revista Tarairiú, Campina Grande-PB, Ano V – Vol.1 -
Número 07, 2014.
Iconography of Landscape, S .Daniels
and D. Cosgrove (eds), 1–10. Cambridge:
Cambridge University Press, 1988.
Ingold, T. The
temporality of the landscape. World Archaeology 25, 152–74, 1993.
Schutz, A. The
Phenomenology of the Social World. London, Heinemann, 1972.
TaÇon, P. S. C.
Identifying ancient scared landscapes in Australia: From physical to social. In:
Ashmore, W., and Knapp, A. B.(eds.), Archaeologies of Landscape:
Contemporary Perspectives, Blackwell Publishers, Malden, MA, pp. 33–57.
1999.
Taylor & Francis e-Library, New York, NY, 2005.
Ucko, Peter
J. e Layton,
Robert. The Archaeology and
Anthropology of Landscape.
Simpósio Temático
Arqueologia com a Cidade
Piero A. B. Tessaro
Museu de Arqueologia e Etnologia - USP
pierotessaro@gmail.com
Luciana Alves Costa
Museu de Arqueologia e Etnologia - USP
lucianacosta.arqueologia@gmail.com
O simpósio temático “Arqueologia com a Cidade” propõe
discutir as múltiplas relações entre arqueologia e cidade, compreendendo o
espaço urbano como um campo arqueológico ativo, marcado pela sobreposição de
temporalidades, materialidades e processos contínuos de transformação. Partindo
das discussões clássicas da arqueologia urbana, entre arqueologia na e da
cidade, o simpósio busca reunir pesquisas voltadas às dinâmicas de urbanização
e aos processos de formação do registro arqueológico em contextos urbanos
contemporâneos. A proposta enfatiza abordagens que compreendam a urbanização
como parte constitutiva da transformação e ressignificação dos contextos
arqueológicos, articulando contribuições da arqueologia urbana, arqueologia
pública, musealização da arqueologia e arqueologias colaborativas. Serão
acolhidos trabalhos relacionados à arqueologia preventiva em cidades,
arqueologia afrodiaspórica urbana, arqueologia da industrialização, patrimônio
arqueológico urbano, paisagens urbanas e contextos paleoindígenas e indígenas
em cidades contemporâneas.
As cidades constituem fenômenos complexos, produzidos
historicamente por relações sociais, políticas, econômicas e culturais que se
materializam no espaço urbano. Mais do que conjuntos edificados, podem ser
compreendidas como espaços de sobreposição de temporalidades, práticas sociais,
conflitos, permanências e apagamentos, nos quais diferentes camadas históricas
permanecem inscritas na paisagem contemporânea (LEFEBVRE,
2001; SANTOS, 2008; ROLNIK, 2004). Nesse sentido, a
cidade apresenta-se como um palimpsesto material e simbólico continuamente
transformado por seus habitantes, pelas políticas urbanas e pelas dinâmicas de
ocupação e reocupação do território.
A Arqueologia Urbana se consolidou ao longo do século XX
como um importante subcampo da Ciência Arqueológica, estando diretamente
relacionada às transformações teóricas da própria arqueologia. Apesar de sua
associação frequente com a Arqueologia Histórica, especialmente em suas fases
iniciais, sua formação ocorreu de maneira mais abrangente e heterogênea.
No final da década de 1960, a arqueologia urbana começou a
se estabelecer como um subcampo distinto da arqueologia. Com base em estudos
anteriores, que se apoiaram na antropologia urbana, e seguindo essa tendência
de aproximação com a antropologia do processualismo. Duas perspectivas
complementares foram desenvolvidas pelos arqueólogos Salwen (1973; 1978)
e Staski (1982; 1987a; 1987b) de arqueologia na e da
cidade. A primeira perspectiva refere-se à análise individualizada de contextos
arqueológicos inseridos na cidade. A segunda, por sua vez, refere-se à análise
do sítio arqueológico inserido no contexto de urbanização. Principalmente essa
segunda perspectiva resultou no desenvolvimento da ideia de que a cidade
deveria ser considerada um sítio arqueológico (CRESSEY e STEPHENS, 1982).
A formação da arqueologia urbana moderna está
intrinsecamente relacionada às transformações da própria ciência arqueológica
ao longo da segunda metade do século XX (TRIGGER, 2004). O deslocamento progressivo do foco
analítico dos artefatos isolados para os contextos arqueológicos e seus
processos de formação (SCHIFFER,
1972),
permitiu compreender a cidade não apenas como local onde se encontram sítios
arqueológicos, mas como um contexto arqueológico ampliado e continuamente
transformado. Nesse processo, a urbanização passou a ser compreendida não
apenas como o cenário das pesquisas arqueológicas, mas também como parte
constitutiva da formação do próprio registro arqueológico.
No contexto brasileiro, a arqueologia urbana esteve
inicialmente fortemente associada à arqueologia histórica, às pesquisas em
centros históricos e às políticas patrimoniais desenvolvidas a partir da
segunda metade do século XX. Entretanto, sobretudo a partir das décadas de 1980
e 1990, observa-se uma ampliação significativa das pesquisas arqueológicas em
cidades brasileiras, acompanhando tanto a expansão da arqueologia preventiva
quanto o amadurecimento teórico do campo (LIMA, 2022).
Esse processo resultou na diversificação temática da arqueologia urbana
nacional, incorporando discussões relacionadas à paisagem urbana,
industrialização, patrimônio, infraestrutura, cotidiano, arqueologia pública e
arqueologias do presente (TESSARO, 2026).
Paralelamente, a arqueologia urbana tem desafiado as
fronteiras convencionais entre os períodos pré-coloniais e históricos. Conforme
discutido por Zanettini (2004) e Funari (2005),
o arqueólogos urbanos investigam grupos anteriores à formação das cidades
contemporâneas. Nesse sentido, os contextos pré-coloniais também são parte
integrante da arqueologia urbana, uma vez que os processos de urbanização
transformam, ressignificam e incorporam esses vestígios às dinâmicas
contemporâneas da cidade. A coexistência entre diferentes temporalidades
evidencia a cidade como um macrovestígio em permanente transformação, marcado
por sucessivas camadas de ocupação, descarte, aterro, destruição e
reconfiguração da paisagem. Possibilitando, assim, a incorporação de histórias
paleoindígenas e indígenas frequentemente invisibilizadas no presente das
cidades.
As discussões mais recentes da arqueologia urbana também vêm
incorporando abordagens relacionadas à arqueologia pública, à musealização da
arqueologia e às práticas colaborativas, ampliando a compreensão da arqueologia
como prática social e politicamente situada. Nesse contexto, destaca-se
igualmente o crescimento das arqueologias afrodiaspóricas urbanas, que têm
problematizado os processos históricos de apagamento da presença negra nas
cidades brasileiras. Estudos desenvolvidos em antigos territórios de ocupação
negra, irmandades religiosas, áreas portuárias, espaços de sociabilidade e
regiões centrais submetidas a sucessivos projetos de remodelação urbana
evidenciam o potencial da arqueologia urbana na mediação de narrativas,
memórias e conflitos contemporâneos relacionados ao racismo estrutural, ao
patrimônio e ao direito à cidade.
A partir dessas discussões, o presente simpósio propõe uma
reflexão sobre uma Arqueologia com a Cidade, entendida não como um método
fechado ou uma nova subdivisão disciplinar, mas como uma postura ética e relacional
diante da cidade e de seus conflitos (TESSARO, 2026). A proposta tem como fundamento a
compreensão da cidade como um campo arqueológico ativo, no qual contextos
arqueológicos e sistêmicos coexistem, interagem e são continuamente
ressignificados. Dessa forma, a urbanização deixa de ser compreendida apenas
como pano de fundo das pesquisas arqueológicas e passa a ser entendida como
parte integrante dos próprios processos de formação do registro arqueológico.
A noção de Arqueologia com a Cidade articula contribuições
da Arqueologia Urbana, da Arqueologia Pública e da Musealização da Arqueologia,
buscando superar abordagens fragmentadas centradas exclusivamente no sítio
arqueológico isolado (TESSARO, 2026). A cidade passa a ser compreendida como
um campo ampliado de investigação arqueológica, no qual o patrimônio, a
materialidade, a paisagem, a memória e o cotidiano se relacionam de maneira
indissociável. Mais do que estabelecer uma nova categoria classificatória, a
proposta busca enfatizar a dimensão social, ética e política da arqueologia em
contextos urbanos contemporâneos.
Serão recebidos trabalhos que abordem diferentes métodos e
experiências de pesquisa, incluindo arqueologia preventiva em contextos
urbanos, arqueologia afrodiaspórica urbana, arqueologia da industrialização,
arqueologia de infraestruturas, arqueologia pública, musealização da
arqueologia, patrimônio arqueológico urbano, paisagens urbanas, arqueologias
colaborativas, arqueologias do presente, contextos paleoindígenas e indígenas
em cidades contemporâneas e reflexões teórico-metodológicas sobre os desafios
da prática arqueológica nas cidades.
O presente simpósio visa fomentar um diálogo entre as
pesquisas acadêmicas, as práticas profissionais e as experiências
institucionais acerca das relações entre arqueologia e cidade. Tal proposta
busca contribuir para o fortalecimento crítico da arqueologia urbana e para a
reflexão acerca da função social da arqueologia diante das transformações e
conflitos que atravessam as cidades contemporâneas.
Referências Bibliográficas
CRESSEY, Pamela
J.; STEPHENS, John F. The City-Site Approach to Urban Archaeology. In:
DICKENS JR., Roy S. Archaeology of Urban America: the search for
pattern and process. New York: Academic
Press Inc, 1982. Cap. 3, p. 41 - 61.
FUNARI, Pedro P. Arqueologia, Patrimônio e Educação. Campinas:
Unicamp, 2005.
LEFEBVRE, Henri. O Direito a Cidade. São Paulo: Centauro, 2001.
LIMA, Tania A. No Asfalto: Arqueologia histórica urbana no Brasil. In:
SYMANSKI, Luis C. P.; SOUZA, Marcos A. T. D. Arqueologia Histórica
Brasileira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2022. Cap. 5, p. 115 - 167.
ROLNIK, Raquel. O Que é Cidade. São Paulo: Brasiliense, 2004.
SALWEN, Bert. Archaeology in Megalopolis. In: REDMAN, Charles L. Research
and Theory in Current Archaeology. New York: John Willey & Sons,
1973. Cap. 10, p. 151-163.
SALWEN, Bert. Archaeology in
Megalopolis: update assessment. Journal of Field Archaeology, 5, n. 4,
1978. 453-459.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e
emoção. São Paulo: EDUSP, 2008.
SCHIFFER, Michael B.
Archaeological context and systemic context. American Antiquity, 37,
n. 2, 1972. 156 - 165.
STASKI, Edward (Ed.). Living
in Cities: current research in Urban Archaeology. Special Publication n.
5. ed. Ann Arbor: Society for Historical Archaeology, 1987a.
STASKI, Edward. Advances in
Urban Archaeology. Advances in Archaeological Method and Theory, v. 5,
p. 97-149, 1982.
STASKI, Edward. Living in
Cities: an introduction. Historical Archaeology, Special Publication,
n. 5, 1987b. IX-XI.
TESSARO, Piero A. B. Musealização da Arqueologia com a Cidade de São
Paulo. São Paulo, p. 246. 2026.
TRIGGER, Bruce G. História do Pensamento Arqueológico. São Paulo:
Odysseus Editora, 2004.
ZANETTINI, Paulo E. O Arqueólogo na Cidade. In: MAGNANI, José G. C. Expedição
São Paulo 450 anos: uma viagem por dentro da metrópole. São Paulo:
Secretaria Municipal de Cultura, Instituto Florestan Fernandes, 2004. p.
151-154.
Simpósio Temático
Arqueologia costeira do sudeste brasileiro: inovações analíticas, perspectivas interdisciplinares e relações interétnicas
Anderson
Tognoli
Museu de Arqueologia e Etnologia - USP
ar.tognoli@gmail.com
Ximena Villagran
Museu de Arqueologia e Etnologia - USP
villagran@usp.br
Henrique Valadares
Prefeitura de Vila Velha-ES
henrivaladares@alumni.usp.br
Este
Simpósio Temático propõe discutir a dinâmica de ocupação de grupos costeiros no
litoral sudeste do Brasil, enfatizando novas abordagens teóricas, analíticas e
metodológicas aplicadas à arqueologia de contextos pré-coloniais. A partir de
evidências associadas aos sambaquis e a grupos ceramistas, busca-se ampliar as
discussões sobre as relações sociais, culturais e ambientais estabelecidas
entre populações humanas e o ambiente costeiro ao longo do Holoceno. O simpósio
destaca o uso de tecnologias e métodos como LiDAR, análises de DNA antigo
(aDNA), isótopos estáveis, bioarqueologia, zooarqueologia, microarqueologia e
cronologia, os quais vêm possibilitando interpretações mais refinadas sobre
mobilidade, ancestralidade, saúde, práticas funerárias, organização social,
manejo de recursos e processos de formação de sítios arqueológicos.
Pretende-se, ainda, promover o diálogo interdisciplinar e incentivar revisões
críticas e novas perspectivas para os estudos arqueológicos da costa
brasileira.
Palavras-chave:
Arqueologia costeira – sambaquis – grupos pré-coloniais –
interdisciplinaridade.
Este
Simpósio Temático tem como proposta contribuir para as discussões acerca da
dinâmica de ocupação de grupos costeiros, com enfoque especial no litoral
sudeste do Brasil. Desde aproximadamente 8 mil anos AP, os vestígios
arqueológicos associados às populações pré-coloniais — desde os construtores de
sambaquis até grupos mais recentes, como os grupos ceramistas — evidenciam
relações culturais, sociais e econômicas complexas, marcadas por distintas
formas de interação entre si e com o ambiente costeiro. Tais contextos
arqueológicos revelam não apenas estratégias de ocupação territorial, mas
também formas diversificadas de adaptação, manejo ambiental, circulação de
materiais e construção de identidades sociais ao longo do tempo.
Nas
últimas décadas, o avanço tecnológico aplicado à pesquisa arqueológica tem
ampliado significativamente as possibilidades de investigação sobre as práticas
humanas do passado e suas interações socioculturais e ambientais. Nesse
contexto, diferentes abordagens analíticas e metodológicas vêm sendo
incorporadas aos estudos arqueológicos, promovendo novas interpretações acerca
da dinâmica cultural das populações pretéritas. O desenvolvimento de técnicas
laboratoriais, aliado ao refinamento de métodos de escavação, registro e
análise espacial, tem permitido a produção de dados mais precisos e integrados,
favorecendo leituras mais abrangentes sobre os modos de vida de populações
costeiras.
Assim,
o principal objetivo deste simpósio consiste em reforçar a necessidade
constante de revisão crítica das abordagens empregadas na pesquisa
arqueológica, ao mesmo tempo em que busca incentivar a proposição de novas
iniciativas teóricas, analíticas e metodológicas voltadas à compreensão das
dinâmicas culturais de grupos humanos, a partir de múltiplas perspectivas
temáticas. Pretende-se, portanto, estimular debates que dialoguem tanto com
interpretações clássicas quanto com abordagens emergentes, considerando a
crescente interdisciplinaridade que caracteriza a arqueologia contemporânea.
Estudos
recentes têm demonstrado que o emprego de inovações tecnológicas, como o uso de
LiDAR no mapeamento de sítios arqueológicos em diferentes contextos, tem
produzido resultados expressivos para a compreensão da interação entre humanos
e ambiente. Da mesma forma, análises de DNA antigo (aDNA) e de isótopos
estáveis vêm ampliando os debates sobre ancestralidade, mobilidade, paleodieta,
identidades e organização social, possibilitando interpretações mais refinadas
sobre os modos de vida das populações antigas. Essas abordagens permitem não
apenas compreender deslocamentos populacionais e relações interétnicas, mas
também discutir processos de contato, continuidade e transformação cultural em
contextos costeiros.
No
campo da bioarqueologia, os estudos voltados aos remanescentes humanos têm
contribuído significativamente para a compreensão das condições de vida, saúde,
dieta, mobilidade, práticas funerárias e organização social das populações
pré-coloniais. Análises osteológicas, paleopatológicas e tafonômicas,
associadas a métodos biomoleculares, vêm possibilitando interpretações mais
amplas sobre padrões de atividade, violência, marcadores de estresse
fisiológico, processos de adoecimento e relações sociais estabelecidas no
passado. Além disso, os contextos funerários associados aos sambaquis oferecem
importantes perspectivas para discussões sobre ritualidade, construção de
memória social e variabilidade cultural entre grupos costeiros.
No
âmbito da zooarqueologia, amplamente aplicada às pesquisas em sambaquis, as
discussões têm ultrapassado interpretações voltadas exclusivamente à
subsistência. Atualmente, os estudos zooarqueológicos vêm contribuindo para
reflexões mais amplas sobre organização social, estratégias econômicas, manejo
de recursos, sazonalidade e relações simbólicas estabelecidas entre grupos
humanos e fauna. Além disso, análises moleculares (ZooMS) aplicadas aos
vestígios faunísticos têm permitido refinamentos taxonômicos importantes,
contribuindo para a identificação de espécies e para discussões sobre
exploração ambiental, circulação de recursos e transformações ecológicas ao
longo do tempo.
Abordagens
microarqueológicas, voltadas à análise de vestígios muitas vezes imperceptíveis
em escala macroscópica, também têm possibilitado importantes reinterpretações
dos contextos sambaquieiros, especialmente no que se refere aos processos de
formação de sítios, ao uso dos espaços e às práticas cotidianas associadas às
populações costeiras. Estudos sedimentares, micromorfológicos e químicos têm
revelado padrões de deposição, áreas de atividade e processos tafonômicos que
anteriormente passavam despercebidos, ampliando significativamente o potencial
interpretativo dos contextos arqueológicos.
Além
disso, cresce o interesse por abordagens relacionadas à arqueologia da
paisagem, geoarqueologia e modelagens espaciais, as quais permitem compreender
os sambaquis e demais sítios costeiros enquanto elementos inseridos em sistemas
sociais e ambientais mais amplos. Tais perspectivas contribuem para a discussão
sobre territorialidade, mobilidade e transformação da paisagem ao longo do
Holoceno, possibilitando diálogos cada vez mais consistentes entre arqueologia,
paleoambiente e ciências naturais.
Dessa
maneira, este simpósio também se apresenta como uma oportunidade de reunir
pesquisas provenientes de diferentes áreas de atuação, promovendo o diálogo
interdisciplinar e ampliando iniciativas teóricas, metodológicas e estratégias
de amostragem voltadas ao estudo de diferentes grupos humanos da região
sudeste. Busca-se incentivar a participação de pesquisadores, estudantes e
profissionais interessados em discutir novas perspectivas para a arqueologia
costeira, especialmente aquelas fundamentadas em abordagens integradas e
colaborativas.
Espera-se,
portanto, que este espaço proporcione a troca de conhecimentos entre distintas
áreas de pesquisa, sendo bem-vindos trabalhos voltados a contextos
pré-coloniais, especialmente litorâneos, que contribuam para o desenvolvimento
de interpretações cada vez mais integradas e refinadas da pesquisa
arqueológica. Pretende-se, ainda, fortalecer redes de diálogo acadêmico e
estimular a construção de novas agendas de pesquisa capazes de ampliar a
compreensão sobre a diversidade cultural, histórica e ambiental das populações
costeiras do sudeste brasileiro.
Referências Bibliográficas
AFONSO, M. C. (2017). Arqueologia dos sambaquis no litoral
de São Paulo: análise da distribuição dos sítios e cronologia. Especiaria -
Cadernos de Ciências Humanas, 17(30), 203–227
ANGULO, R. J.; LESSA, G. C.; SOUZA, M. C. (2006). A critical
review of mid- to late-Holocene sealevel fluctuations on the eastern Brazilian
coastline. Quaternary Science Reviews, Amsterdam, v. 25, n. 5-6, p. 486-506,
Mar.
BARBOUR, T. E., SASSAMAN, K. E., ZAMBRANO, A. M. A., BROADBENT,
E. N., WILKINSON, B., & KANASKI, R. (2019). Rare pre-Columbian settlement
on the Florida Gulf Coast revealed through high-resolution drone LiDAR. Proceedings
of the National Academy of Sciences of the United States of America, 116(47),
23493–23498. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.1911285116
CALIPPO, F. R. (2004). Os sambaquis submersos de
cananéia: um estudo de caso de arqueologia subaquática. Universidade de São
Paulo.
COHEN, M. C. L.; FRANÇA, M. C.; ROSSETTI, D. F.; PESSENDA, L.
C. R.; GIANNINI, P. C F.; LORENTE, F. L.; BUSO JR., A. A.; CASTRO, D.; MACARIO,
K. (2014). Landscape evolution during the late Quaternary at the Doce River
mouth, Espírito Santo State, Southeastern Brazil. Palaeogeography,
Palaeoclimatology, Palaeoecology, Amsterdam, v. 415, p. 48-58.
DAVIS, D. S., DINAPOLI, R. J., SANGER, M. C., & LIPO, C.
P. (2020). The Integration of Lidar and Legacy Datasets Provides Improved Explanations
for the Spatial Patterning of Shell Rings in the American Southeast. Advances
in Archaeological Practice, 8(4), 361–375. DOI: https://doi.org/10.1017/aap.2020.18
DEBLASIS, P., KNEIP, A., SCHEEL-YBERT, R., GIANNINI, P. C.,
& GASPAR, M. D. (2007). Sambaquis e Paisagem - Dinâmica natural e
arqueologia regional no litoral do sul do Brasil. Arqueología Suramericana,
3(1), 29–61.
GASPAR, M. D.; MENDONÇA DE SOUZA, S. Pesquisa de campo em
sambaquis: introdução. In: GASPAR, Maria Dulce; MENDONÇA DE SOUZA, Sheila
(Ed.). (2013). Abordagens estratégicas em sambaquis. Erechim: Habilis. p.
15-31.
GASPAR, M. D. (2000). Sambaqui: arqueologia do litoral
brasileiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Descobrindo o Brasil).
GIANNINI, P. C. F.; RIBEIRO, P.; NASCIMENTO JR., D. R.;
PESSENDA, L. C. R. (2013). Os vermetídeos fósseis de Guarapari, ES: novos dados
para a discussão do nível relativo do mar e da circulação costeira no Holoceno.
In: CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTUDOS DO QUATERNÁRIO, 14., Natal.
Anais… Natal: ABEQUA. Não paginado.
IRIARTE, J., ROBINSON, M., DE SOUZA, J., DAMASCENO, A., Da
Silva, F., NAKAHARA, F., RANZI, A., & ARAGAO, L. (2020). Geometry by
design: Contribution of lidar to the understanding of settlement patterns of
the mound villages in SW Amazonia. Journal of Computer Applications in
Archaeology, 3(1), 151–169. DOI: https://doi.org/10.5334/JCAA.45
KLÖKLER, D. (2013). Em um mar de conchas, por onde começar?
Amostragem zooarqueológica em sambaquis. In: GASPAR, Maria Dulce; MENDONÇA DE
SOUZA, Sheila (Ed.). Abordagens estratégicas em sambaquis. Erechim: Habilis. p.
177-192.
LIMA, T. A.; MACARIO, K. D.; ANJOS, R. M.; GOMES, P. R. S.;
COIMBRA, M. M.; ELMORE, D. (2002). The antiquity of the prehistoric settlement
of the central-south Brazilian coast. Radiocarbon, Cambrige, v. 44, n. 3, p.
733-738, Bi-monthly. DOI: https://doi.org/10.1017/S0033822200032185.
LORENTE, F. L. (2015). Caracterização paleoambiental de
depósitos quaternários da costa norte do estado do Espírito Santo (ES-Brasil):
uma abordagem interdisciplinar. 215 f. Tese (Doutorado em Ciências) –
Universidade de São Paulo, São Paulo.
PEROTA, C. (1995) Pré-história do Espírito Santo: os índios
de Aracruz. Vitória: [s.n.].
PROUS, A. (2006). O Brasil antes dos brasileiros: a
pré-história do nosso país. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
PROUS, A. (1192). Arqueologia brasileira. Brasília: EdUnB.
SANDWEISS, D. H. (2003). Terminal Pleistocene through
Mid-Holocene archaeological sites as paleoclimatic archives for the Peruvian
coast. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, Amsterdam, v. 194, n.
1-3, p. 23-40. DOI: https://doi.org/10.1016/S0031-0182(03)00270-0.
SCHEEL-YBERT, R. (2013). Antracologia: preservados pelo
fogo. In: GASPAR, Maria Dulce; MENDONÇA DE SOUZA, Sheila (Ed.). Abordagens
estratégicas em sambaquis. Erechim: Habilis. p. 193-218.
SCHEEL-YBERT, R.; KLÖKLER, D.; GASPAR, M.; FIGUTI, L. (2005-2006).
Proposta de amostragem padronizada para macro-vestígios bioarqueológicos:
antracologia, arqueobotânica, zooarqueologia. Revista do Museu de Arqueologia e
Etnologia, São Paulo, n. 15-16, p. 139-163.
STENBORG, P., SCHAAN, D. P., & FIGUEIREDO, C. G. (2018).
Contours of the Past: LiDAR Data Expands the Limits of Late Pre-Columbian Human
Settlement in the Santarém Region, Lower Amazon. Journal of Field
Archaeology, 43(1), 44–57. https://doi.org/10.1080/00934690.2017.1417198.
SUGUIO, K.; MARTIN, L.; BITTENCOURT, A. C. S. P.; DOMINGUEZ,
J. M. L.; FLEXOR, J. M.; AZEVEDO, A. E. G. (1985). Flutuações do nível relativo
do mar durante o Quaternário Superior ao longo do litoral brasileiro e suas
implicações na sedimentação costeira. Revista Brasileira de Geociências, São
Paulo, v. 15, n. 4, p. 273-286.
TEIXEIRA, J. L. C. (2003). A malha paralela no levantamento
arqueológico regional: um estudo de caso da planície litorânea do norte
capixaba-Brasil. 153 f. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – Universidade de
São Paulo, São Paulo, 2003.
UCHÔA, D. P. (1981). Ocupação do litoral sul-sudeste
brasileiro por grupos coletor-pescadores holocênicos. Arquivos Do Museu de
História Natural, 6,7, 133–143.
UCHÔA, D. P., & GARCIA, C. (1983). Cadastramento dos
sítios arqueológicos da Baixada Cananéia-Iguape, litoral sul do Estado de São
Paulo, Brasil. Revista de Arqueologia, 1(1), 19–29. https://doi.org/10.24885/sab.v1i1.24.
VALADARES, H. (2020). A ocupação holocênica no litoral norte
do Espírito Santo. 2020. Tese (Doutorado em Arqueologia) – Museu de Arqueologia
e Etnologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.
VILLAGRAN, X. S. (2013). Estratigrafia e
micro-estratigrafia de sambaquis. In: GASPAR, Maria Dulce; MENDONÇA DE SOUZA,
Sheila (Ed.). Abordagens estratégicas em sambaquis. Erechim: Habilis. p.
Simpósio Temático
Arqueologia de Senzalas e Quilombos no Sudeste Do Brasil
Luis Symanski
Universidade Federal de Minas Gerais
claudio.symanski@gmail.com
Este simpósio temático tem por propósito discutir
pesquisas arqueológicas recentes em contextos de senzalas e quilombos da região
Sudeste. O Sudeste foi a região do Brasil que inaugurou os estudos de
arqueologia da escravidão africana, primeiramente com as pesquisas de Carlos Magno
Guimarães e colegas em contextos de quilombos do período colonial de Minas
Gerais durante a década de 1980 (Guimarães e Lanna, 1980; Guimarães, 1990), e,
na sequência, com as primeiras escavações em um contexto de senzala por Tania
Andrade Lima no início da década seguinte (Lima, 1993). Contudo, as pesquisas
nesses contextos pouco avançaram após essas pesquisas iniciais, apesar de
alguns estudos isolados focados sobretudo em plantations. A partir da segunda década do século XXI observamos um
interesse renovado nesses contextos, com escavações em senzalas nos estados de
Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, bem como com pesquisas tanto em
contextos de quilombos arqueológicos dos séculos XVIII e XIX em Minas Gerais,
quanto estudos etnoarqueológicos diversos em comunidades quilombolas
contemporâneas. Esses estudos mais recentes têm revelado uma grande diversidade
na materialidade de grupos escravizados, seja nos espaços de senzalas seja nos
quilombos. Itens como vasilhames cerâmicos artesanais e torneados (Agostini,
2010; Araújo et al. 2023; Azevedo, 2019; Farah 2025; Hepp et al., 2019; Lima,
2017; Rezende e Symanski, 2022; Siqueira, 2026; Symanski e Azevedo, 2025;
Trindade e Souza, 2022), louças importadas (faianças, faianças finas e
porcelanas) (Symanski, 2019), contas de vidro (Brito, 2023) e outros ornamentos
corporais (Suguimatsu, 2017, 2019), itens devocionais (Symanski, 2020), cachimbos
(Domingues, 2026), peças lúdicas (Nascimento, 2019); restos faunísticos (Symanski
e Morais Júnior, 2016; Morais Jr e Symanski , 2019), e, mais especificamente no
caso dos quilombos, arte rupestre (Guimarães e Lanna, 1980; Symanski, 2025;
Rafael, 2025), têm revelado aspectos até então desconhecidos ou pouco abordados
nas pesquisas historiográficas sobre a escravidão no Brasil, relacionados à
cosmologia, religiosidade, práticas cotidianas, práticas lúdicas, saúde e
cuidados com o corpo, hábitos alimentares, economia, consumo, concepções estéticas dentre outras
temáticas. Essas pesquisas têm, assim, revelado um quadro muito mais amplo e
dinâmico do cotidiano, da vida material, das relações sociais e das expressões
culturais dos grupos escravizados do que aquele comumente caracterizado pelas
pesquisas com base em fontes escritas. Dessa forma, tais estudos têm levado à
reformulação e ao aprofundamento de modelos teóricos que visam explicar os
processos de formação e de reconfiguração de identidades afrodiaspóricas no
Brasil, como é o caso dos modelos antagônicos de crioulização e afrocêntrico que
têm sido tradicionalmente empregado nas pesquisas historiográficas para abordar
esses processos (Gomes e Symanski, 2018), sendo o primeiro baseado na premissa
da criatividade cultural que teria levado a um rápido processo etnogenético em
detrimento das trocas culturais e do ajuste às estruturas sociais impostas
pelos colonizadores europeus (Mintz e Price, 1992 [1976]) e o segundo
focalizado na manutenção de identidades e referenciais culturais de matriz
africana nesses cenários (Thorton, 1998). A proposta, portanto, é colocar essa
produção acadêmica em perspectiva, considerando os estudos que têm abordado,
sob um viés analítico e interpretativo, a cultura material evidenciada em tais
contextos. Nesse sentido, são bem-vindos estudos que contemplem temáticas como
paisagem, espacialidade, simbolismo, ritual, práticas cotidianas, relações de
poder, estratégias de resistência, concepções estéticas e consumo.
Palavras-chave: senzalas, quilombos, cultura material
Referências
AGOSTINI, Camilla. Panelas e paneleiras de São Sebastião: um núcleo
produtor e a dinâmica social e simbólica de sua produção nos séculos XIX e XX. Vestígios
– Revista Latino-Americana de Arqueologia Histórica, v. 4, n. 2, p.
125-144, 2010.
ARAUJO,
Cheila Sumenssi de; APPOLONI, Carlos; IKEOKA, Renato; SYMANSKI, Luis. Study of
ceramics from Brazilian slave quarters of the XVIII and XIX centuries by EDXRF
and multivariate analysis. Applied
Radiation and Isotopes, v. 191, p.
1-8, 2023.
AZEVEDO, Paula de Aguiar Silva. Do barro às panelas de cozer:
variabilidade das cerâmicas artesanais na Senzala da Fazenda do Colégio dos
Jesuítas, Campos dos Goytacazes – RJ. Dissertação (Mestrado em
Antropologia) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019.
BRITO, Patrícia. Entre contas e corpos: crioulização e
negociações estéticas em contextos de escravizados do Sudeste, séculos XVIII e
XIX. Tese (Doutorado em Antropologia) – Universidade Federal de Minas Gerais,
Belo Horizonte, 2023.
DOMINGUES, Bibiana. Cachimbos de
barro e os processos de construção e negociação de identidades afrodiaspóricas
na Fazenda do Colégio, Campos dos Goytacazes RJ. Dissertação (Mestrado em
Arqueologia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2026.
FARAH, Rafael. Entre alguidares e
tigelas: a variabilidade morfológica da cerâmica vidrada da Fazenda do Colégio
de Campos dos Goytacazes entre 1700 e 1920. Monografia (Bacharelado em
arqueologia) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2025.
GOMES, Flávio dos Santos; SYMANSKI, Luís Cláudio Pereira. Senzalas,
crioulização e cultura material: uma proposta de arqueologia histórica em
fazendas escravistas, Campos dos Goytacazes, séculos XVIII e XIX. In:
SCHWARCZ, Lilia Moritz; MACHADO, Maria Helena (org.). Emancipação, inclusão,
exclusão: desafios do passado e do presente. São Paulo: EDUSP, 2018. p.
215-236.
GUIMARÃES, Carlos. O Quilombo do Ambrósio: Lendas,
Documentos e Arqueologia. Estudos
Íbero-Americanos, 16 (1/2): 161–174, 1990.
GUIMARÃES,
Carlos; LANNA, A. Arqueologia de
Quilombos em Minas Gerais. Revista
deAntropologia, 31: 23–28, 1980.
HEPP, Maurício; AZEVEDO, Paula; MONTEIRO, Victor. Práticas e usos da
cerâmica artesanal na senzala do Colégio dos Jesuítas. In: SYMANSKI,
Luís Cláudio Pereira; GOMES, Flávio dos Santos (org.). Arqueologias da
escravidão e liberdade: senzalas, cultura material e pós-emancipação na
Fazenda do Colégio, Campos dos Goytacazes, séculos XVIII a XX. Curitiba: Brazil
Publishing, 2019. p. 105-134.
LIMA, Nathália. Em torno da senzala: a variabilidade morfológica
da cerâmica vidrada em uma senzala oitocentista. Monografia (Bacharelado em
Antropologia) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2017.
MINTZ,
Sidney. PRICE, Richard. The birth of African American culture: an
anthropological perspective. Boston (US): Bacon Press, 1992 [1976].
MORAIS
JUNIOR, Geraldo. SYMANSKI, Luís Cláudio Pereira. Identidades y practicas alimentarias
en la comunidad esclavizada del Colégio de los Jesuítas de Campos dos
Goitacazes (Rio de Janeiro). Revista
de Arqueología Histórica Argentina y Latinoamericana, v. 13, n. 1,. p. 33-56, 2019.
NASCIMENTO, Karen. Jogos
de Resistência: Práticas Lúdicas na Senzala do Colégio dosJesuítas de Campos
dos Goytacazes. Monografia
(Bacharelado em Antropologia) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo
Horizonte, 2019.
RAFAEL, Hugo Sales. Entre raízes e
lapas: arqueologia dos rituais do Atlântico negro nas Minas Setecentistas. Monografia
(Bacharelado em Arqueologia) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo
Horizonte, 2024.
REZENDE, Rodrigo; SYMANSKI, Luis. Olarias, escravidão e a dinâmica da
produção, circulação e consumo de vasilhames cerâmicos em Campos dos Goytacazes
no século XIX. Anais do Museu Paulista, v. 30, p. 1-57, 2022.
SIQUEIRA, Carolina. Cerâmicas torneadas e a dinâmica da negociação social entre os
escravizados da Fazenda do Colégio, Campos dos Goytacazes (RJ), séculos XVIII e
XIX. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – Universidade de São Paulo, São
Paulo, 2026.
SUGUIMATSU, Isabel. O vestuário dos escravos entre
representação e materialidade. Habitus,
v. 15, n. 2, p. 221-240, 2017.
SUGUIMATSU, Isabela. Para além de algemas e grilhões: os objetos de
vestuário e ornamentação dos escravos. In: SYMANSKI, Luís Cláudio
Pereira; GOMES, Flávio dos Santos (org.). Arqueologias da escravidão e
liberdade: senzalas, cultura material e pós-emancipação na Fazenda do
Colégio, Campos dos Goytacazes, séculos XVIII a XX. Curitiba: Brazil
Publishing,
2019. p. 155-192.
SYMANSKI, Luís. Cerâmicas, linhas de cor e a negociação do espaço social
no Colégio dos
da escravidão e liberdade:
senzalas, cultura material e pós-emancipação na Fazenda do Colégio,
Campos dos Goytacazes, séculos XVIII a XX. Curitiba:
Brazil Publishing, 2019a. p. 69-104.
SYMANSKI, Luís. Cosmologias e materialidade: um estudo comparativo das
senzalas do Sudeste e Oeste do Brasil. In: KERN, Maria Lucia; MACEDO,
José Rivair (org.). Triângulo atlântico: fluxos, memórias, práticas
culturais e artísticas. Porto Alegre: Editora Sulina, 2020. p. 115-130.
SYMANSKI, Luis. Quilombos, cosmogramas e a herança cultural
centro-africana em Minas Gerais. In:
SYMANSKI, Luis; GOMES, Flávio (org.) Ensaios
sobre arqueologia e história dos quilombos e senzalas, séculos XVII-XXI.
São Luis: Editora Cancioneiro, 2025. p. 209-238.
SYMANSKI, luís; AZEVEDO, Paula. Cerâmicas, consumo e
crioulização na senzala da Fazenda do Colégio de Campos dos Goytacazes. Revista de Arqueologia, 38, n. 1, p.
55-85, 2025.
SYMANSKI, Luis; MORAIS JUNIOR, Geraldo. Alimentação, socialização e
reprodução
cultural na comunidade escravizada do Colégio dos Jesuítas de Campos dos
Goytacazes
(RJ). In: SOARES, Fernanda Codevilla (org.). Comida, cultura e
sociedade: arqueologia da
alimentação no mundo moderno. Recife: Editora
Universitária UFPE, 2016. p. 95-112.
THORNTON,
John. Africa and Africans in the making of the Atlantic world. Cambridge (UK):
Cambridge University Press, 1998.
TRINDADE, Cleide; SOUZA, Marcos. A cerâmica colonial do Vale do Macacu,
Rio de Janeiro:
uma perspectiva
diacrônica. Cadern
Simpósio Temático
Arqueologia Histórica do Estado do Rio
Gláucia Malerba Sene
Departamento de Arqueologia – UERJ
glaucia.malerba@gmail.com
Sílvia Alves Peixoto
Departamento
de Arqueologia - UERJ
silviapeixoto@gmail.com
Este simpósio se propõe a reunir pesquisas
acadêmicas e preventivas que vêm se debruçando sobre contextos históricos,
coloniais e pós-coloniais, de diferentes áreas do território fluminense, tanto
na capital como em outros municípios do Estado do Rio de Janeiro, visando
congregar os profissionais atuantes e debater conjuntamente os resultados de
seus trabalhos.
A trajetória da Arqueologia do Rio de
Janeiro, notadamente na capital, é marcada por uma série de descompassos no que
se refere a aspectos geográficos, cronológicos e temáticos. Além de
circunscrita às zonas mais centrais da cidade, relegando a segundo plano áreas
periféricas, a esmagadora maioria das pesquisas arqueológicas, tanto acadêmicas
quanto preventivas, se debruçou sobre contextos majoritariamente do século XIX.
Raros são os trabalhos que conseguiram dar conta de temporalidades mais
recuadas nas intervenções arqueológicas realizadas, o que resulta de uma série
de fatores, dentre eles o intenso e contínuo processo de urbanização vivenciado
no centro da cidade, que acabou por mascarar, ou mesmo obliterar, os vestígios
mais antigos (Peixoto, 2019). Isso é particularmente latente no que se refere
às materialidades de grupos indígenas nos contextos pós-contato, cuja baixa
preservação e consequente (in)visibilidade arqueológica tem sido debatida e
parcialmente atribuída aos processos inerentes aos fenômenos da urbanização,
como a formação dos aterros (Miranda, 2025).
Na última década, contudo, têm-se
observado um incremento considerável das investigações voltadas a contextos até
então pouco ou nada abordados, e que têm contribuído substancialmente para
preencher lacunas há muito abertas na Arqueologia Histórica Fluminense.
Pesquisas inovadoras, acadêmicas e preventivas, desenvolvidas em variadas áreas
da cidade do Rio, tanto no centro político-administrativo, como em bairros
periféricos, têm possibilitado o acesso a cronologias históricas bastante
recuadas, materialidades de diferentes grupos culturais, incluindo nativos, e
espaços onde atividades consideradas menos nobres foram realizadas. Da mesma
maneira, municípios da Baixada Fluminense, Região dos Lagos e áreas florestadas
da Costa Verde têm presenciado novos esforços de pesquisa, o que tem ampliado o
escopo de atuação e atestado o potencial arqueológico-histórico do território
fluminense.
Sob o ponto de
vista metodológico, cabe ressaltar ainda
a perspectiva inovadora da Arqueologia Experimental voltada para artefatos
históricos, apresentada em um simpósio exclusivo sobre o tema na VIII Reunião
do Núcleo Regional Sudeste da Sociedade de Arqueologia Brasileira, por
pesquisadores e graduandos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ,
iniciativa inédita no Brasil. Há anos as práticas experimentais vêm estrategicamente
ganhando força no estudo das materialidades pré-coloniais, desenvolvendo
metodologias, conquistando adeptos e revelando habilidades, performances e
estilos distintos de pesquisadores. E agora mostra toda a sua potencialidade na
pesquisa histórica. Tão importante para o processo analítico e interpretativo,
a experimentação lança luzes sobre o fazer arqueológico como um todo, agregando
conhecimentos ao estudo dos objetos com ênfase em cadeia operatória, gestos, processos,
escolhas culturais, saberes, tentativas, acertos, erros, fragilidades,
compartilhamentos, vínculos, estratégias, ensino e aprendizagem,
individualidades, hibridismos, fenomenologia.
Assim, pensando nesse cenário pulsante e diversificado que
vive nos últimos anos a Arqueologia Histórica Fluminense, propomos esse
simpósio para que os profissionais atuantes no Estado do Rio possam compartilhar
os resultados de suas pesquisas mais recentes, exortando o debate e a troca de
ideias.
Palavras Chave:
Arqueologia Histórica; Rio de Janeiro; Colonialismo; Espaços Periféricos;
Materialidades.
Referências Bibliográficas
CORDEIRO, Jeanne;
LIMA, Tania Andrade. Invasão e contato: os Tupinambá no Rio de Janeiro do
século XVI. Revista de Arqueologia, v. 38, n. 2, p. 17–35, 2025.
CORDEIRO, Jeanne;
BUARQUE, Angela; TÁBOAS, Alice. As contas de escambo do Rio de Janeiro no
século XVI. Revista de Arqueologia, v. 38, n. 2, p. 36–49, 2025.
LIMA, Tania Andrade;
SENE, Glaucia Malerba; MORGADO, Andrea Jundi. Monitorando transformações.
Revista de Arqueologia, v. 33, p. 28-54, 2020.
LIMA, Tania Andrade;
SENE, Glaucia Malerba; MORGADO, Andrea Jundi. Os lotes investigados e seus
ocupantes: a metodologia da pesquisa de campo. In: Tania Andrade Lima. (Org.).
Arqueologia urbana: estudo de uma vizinhança no Rio de Janeiro oitocentista. 1ed.Rio
de Janeiro: Museu Nacional, UFRJ, 2020, v. 1, p. 25-62.
LIMA, Tania
Andrade; SENE, Glaucia Malerba; SOUZA, Marcos André Torres de. Em
busca do Cais do Valongo, Rio de Janeiro, século XIX. Anais do Museu Paulista:
História e Cultura Material, v. 24, p. 299-391, 2016.
MIRANDA, Marina
Coppoli Dias de. Interpretando ausências indígenas no contexto urbano do Rio de
Janeiro. Revista de Arqueologia, v. 38, n. 2, p. 143–158, 2025.
NOELLI, F. S.,
SALLUM, M., & CASIMIRO, T. M. (2022). Conexões Atlânticas: Arqueologias do
Colonialismo. Cadernos Do LEPAARQ (UFPEL), 19(37),
07-16.
PEIXOTO, Sílvia A.
Jacarepaguá, a “planície dos muitos engenhos”: uma arqueologia do sertão
carioca, Rio de Janeiro, século XVII ao XIX. 2019. Tese (Doutorado em
Arqueologia) – Departamento de Antropologia, Museu Nacional/Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.
PEIXOTO, Sílvia A.;
LIMA, Tania A. Engenho do Camorim: arqueologia de um espaço açucareiro no Rio
de Janeiro seiscentista. Revista de Arqueologia, v. 33, p. 98-125, 2020.
PEIXOTO, Sílvia A.;
MACHADO, Christiane L. Arqueologia histórica na região Sudeste do Brasil:
passos e descompassos. In: SYMANSKI, Luis Claudio Pereira; SOUZA, Marcos André
Torres de. (ed.). Arqueologia histórica brasileira. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2022. p. 571-614.
PEIXOTO, Sílvia A.;
NOELLI, Francisco S.; SALLUM, Marianne. De São Vicente a Jacarepaguá: uma
genealogia de mulheres Tupiniquim e a itinerância da cerâmica paulista. Cadernos
do Lepaarq, v. 19, n. 37, 2022.
SENE, Glaucia
Malerba. Gênero, alimentação e cultura material em contextos urbanos do século
XIX: mulheres, corpos e vida cotidiana. Algumas diretrizes para o estudo em
arqueologia histórica. In: Fernanda Codevilla Soares. (Org.). Comida, cultura e
sociedade: arqueologia da alimentação no Mundo Moderno. 1ed.Recife: Editora da
UFPE, 2016, v. 1, p. 121-142.
SENE, Glaucia
Malerba. Arqueologia de gênero. In: Luís Cláudio P. Symanski; Marcos André
Torres de Souza. (Org.). Arqueologia Histórica Brasileira. 1ed.Belo Horizonte:
Editora UFMG, 2022, v. 1, p. 341-368.
SENE, Glaucia
Malerba; LOPES, Samuel de Alcântara . Hábitos de higiene bucal do século XIX:
um estudo de arqueologia experimental a partir de escovas de dentes do Cais do
Valongo e da Imperatriz no Rio de Janeiro. HABITUS, v. 23, p. 119-137, 2025.
SENE, Glaucia
Malerba; MORGADO, Andrea Jundi. Como comeram: das panelas à mesa. Arqueologia
urbana: estudo de uma vizinhança no Rio de Janeiro oitocentista. 1ed.Rio de
Janeiro: Museu Nacional, UFRJ, 2020, v. 1, p. 103-136.
SENE, Glaucia
Malerba; JUNDI, Andrea C. de Albuquerque; LOCKS, Martha; LIMA, Tania Andrade. O
sistema alimentar da cidade do Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX:
entre a conservação e a transformação. In: Soares, Carmen; Ribeiro, Cilene da
Silva Gomes. (Org.). Mesas luso-brasileiras: saúde e cultura. 1ed.Coimbra;
Curitiba: Imprensa da Universidade de Coimbra; PUC Press, 2018, v. 2, p.
357-371.
SIMÕES, Ane Elisabeth
Modesti. Histórias esquecidas no Rio de Janeiro: as gentes e a paisagem no
processo de ocupação da cidade velha e do Morro Cara de Cão. 2020. Dissertação
Mestrado em Arqueologia) – Departamento de Antropologia, Programa de Pós-Graduação
em Arqueologia, Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, 2020.
SOUZA, Marcos André
Torres de. A arqueologia dos grupos indígenas em contextos históricos:
problemas e questões. Revista de Arqueologia, v. 30, n. 2, p. 144-153,
2017.
SOUZA, Marcos André
Torres de; BUARQUE, Angela. Olhando para o passado, pensando o futuro: as
pesquisas arqueológicas na Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Revista de
Arqueologia, v. 32, n. 2, p. 178-196, 2019.
SOUZA, Marcos André
Torres de; PEIXOTO, Sílvia Alves. Sempre estiveram aqui: arqueologias do
colonialismo e da presença indígena no sudeste brasileiro. Revista de
Arqueologia, v. 38, n. 2, p. 3–16, 2025.
Simpósio Temático
Arqueologias do Corpo
Andrei Isnardis Horta
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
isnardis.andrei@gmail.com
Mario Junior Alves Polo
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
mariojrpolo@gmail.com
Diversas pesquisas em arqueologia têm pautado o corpo como conceito, tema ou campo de análise. Seja a respeito de corpos humanos que integram contextos arqueológicos, corpos artefatuais e sua constituição, ou ainda corporeidades (ou corporalidades) divergentes, a ontologia dos corpos têm ocupado muites/as/os de nós. Descrever, discutir e entender como corpos os artefatos, as pinturas, as composições funerárias, as pessoas e outros elementos têm permitido dar destaque a alguns de seus atributos que nos pareciam obscuros ou que restavam impercebidos. As características dos corpos das pessoas que fazem Arqueologia e o modo como esses se engajam nas pesquisas também têm vindo à pauta, desconstruindo algumas importantes suposições de neutralidade, de universalidade e de distanciamento objetivista. Em busca de considerar leques ampliados de sujeitos ativos nos contextos arqueológicos e nas práticas de pesquisa, pensar os corpos nos tem parecido um caminho frutífero. Este simpósio pretende criar um espaço no qual arqueólogues/as/os com diferentes questões de pesquisa, materiais e contextos, possam se reunir para conversar, explorando as perguntas que nos levam a ter o corpo como tema ou como conceito, compartilhando nossos caminhos analíticos, nossos resultados e nossas ativas dúvidas.
Palavras-Chave: Corpo; Arte Rupestre; Arqueologia Amazônica; Etnologia Indígena; Corpos artefatuais.
As noções de corpo e de múltiplas corporeidades têm sido tematizadas e ecoadas no campo da Arqueologia. No Brasil pesquisas do tipo têm sido desenvolvidas em grande medida a partir da Arte Rupestre (ISNARDIS e LINKE, 2021; ISNARDIS, 2024; MAGALHÃES, 2025) e da Arqueologia Amazônica (BARRETO, 2014; OLIVEIRA, 2016a e 2016b; NOBRE, 2017; POLO, 2019; POLO e LEITE, 2019; CABRAL, 2020; OLIVEIRA, NOBRE e BARRETO, 2020; POLO, 2023; RENÓ, 2026), e no geral em grande articulação com a Etnologia indígena. São trabalhos que debatem os sentidos ontológicos de corporeidade e as fronteiras borradas entre corpos e seres no registro arqueológico. No âmbito das Arqueologias do Corpo estão também incluídas pesquisas sobre modificações e técnicas corporais; o corpo em sua relação com diferentes materialidades; ou ainda corpos musealizados, em exposições (KIM, 2012; COSTA e ALFONSO, 2021) e curadorias corporificadas. Contempla-se, ainda, o corpo na sua interface com arte e imagem, doença e morte, gênero e sexualidade, deficiência e envelhecimento (MASTROROSA, 2022). Nesta direção, o simpósio aqui proposto abarca igualmente trabalhos que versem sobre os corpos implicados na pesquisa, o papel e a corporeidade de pesquisadores e o tipo de produção que emerge dessas construções em que o próprio corpo não é ignorado.
Nos debates sobre corporeidade que emergem a partir da cerâmica, dos registros rupestres e de outros elementos da iconografia do universo indígena sul-americano tem sido estimulado o diálogo com a produção de indígenas do presente, bem como com as Artes e os campos da Antropologia da Arte, para além da Etnologia Indígena. São em geral esforços que examinam como as imagens incorporam efeitos e são participantes ativas na produção das relações sociais. Estas discussões têm aproximado e colocado questões comuns às formas como se abordam corpos, artefatos e imagens. Afinal, as linhas que separam estas três categorias encontram-se cada vez mais borradas, seja pela quebra do binarismo entre natureza e cultura, pela virada ontológica, pelo materialismo Queer, ou pelo emprego de noções como a de agência dos artefatos. Soma-se a isso a percepção de diverses pesquisadores de que há uma inadequação ou insuficiência dos repertórios tradicionais para lidar com os desafios dos contextos arqueológicos ameríndios antigos. Isto é, os repertórios interpretativos que vínhamos utilizando tem se demonstrado demasiado atinados à arte ocidental e europeia, e portanto tido pouca eficácia quando buscam dar conta da complexidade envolvida na composição dos corpos e das gentes que povoam o registro arqueológico desse universo indígena profundo. A corporeidade indígena segue sendo insubmissa e escapando a explicações normativas, simplificadoras ou generalizantes.
Para além dos remanescentes humanos e materialidades associadas, ou mesmo para além dos objetos-corpos e suas partes, outros índices materiais têm sido utilizados para se produzir diferentes interpretações sobre o tema da corporeidade na Arqueologia, muitas delas em termos de tecnologias corporais, performatividade ou gestualidade. São trabalhos que se reportam a corpos permeáveis cujos limites são transgredidos ou redefinidos mediante várias práticas que envolvem não apenas ornamentos e roupas, mas objetos não tão óbvios a um primeiro olhar (NANOGLOU, 2012, p. 162), a exemplo da análise proposta por Lambros Malafouris (2008) sobre a espada micênica e as alterações provocadas por esta sobre seus usuários, resultando em uma corporeidade distinta e relacional. Nesta esteira, se questiona cada vez mais as fronteiras entre humano e não-humano e se fala daqueles artefatos que intencionalmente jogam com a diferença entre “realidade” e representação, em alguns casos dando ênfase à fluidez e à transformabilidade dos corpos e identidades, seu contorno, seu desmembramento, fabricação, manutenção ou reelaboração.
A intenção do Simpósio é justamente aproximar pesquisas sobre diferentes contextos arqueológicos naquilo que elas possuem em comum: os aproveitamentos e os percalços de se tratar dos temas mencionados acima, e a diversidade dos caminhos teóricos e metodológicos que temos percorrido para isso.
Referências Bibliográficas
BARRETO, Cristiana. Modos de figurar o corpo na Amazônia pré-colonial. In: ROSTAIN, Stéphen (org.). Antes de Orellana: Actas del 3er Encuentro Internacional de Arqueología Amazónica. Quito (ECU): Instituto Francés de Estudios Andinos, 2014, p. 123-132.
CABRAL, Mariana Petry. Sobre urnas, lugares, seres e pessoas: materialidade e substâncias na constituição de um poço funerário Aristé. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 15, p. e20190123, 2020.
COSTA, Vanessa; ALFONSO, Louise. A musealização da arqueologia pela perspectiva do putafeminismo: materialidades e narrativas de trabalhadoras sexuais em uma exposição na cidade de Pelotas (RS). Revista Arqueologia Pública. Campinas, v.16, n.1, p.145, 2021.
ISNARDIS, Andrei. Pintar como relação: interações de pessoas e pinturas nas paredes de pedra. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 19, 2024.
ISNARDIS, Andrei; LINKE, Vanessa. De estruturas a corpos e seres: os vestígios perecíveis da Lapa do Caboclo em Diamantina, Minas Gerais. Revista de Arqueologia, v. 34, n. 3, p. 122-145, 2021.
KIM, Joon Ho. Exposição de corpos humanos: o uso de cadáveres como entretenimento e mercadoria. Mana, v. 18, p. 309-348, 2012.
MAGALHÃES, Larissa de Oliveira. A Fluidez dos Traços: Modos de Composição de Corpos-figura nas Pinturas Rupestres de Diamantina (MG). Dissertação (Mestrado em Antropologia), UFMG. 2025.
MALAFOURIS, Lambros. Is it ‘me’or is it ‘mine’? The Mycenaean sword as a body-part. In: BORIĆ, Dušan; ROBB, John (Eds.). Past bodies: body-centered research in Archaeology. Oxford: Oxbow Books, 2008.
MASTROROSA, Raquel. Por uma arqueologia dos envelhecidos: aspectos teóricos do envelhecimento humano. Clio Arqueológica, v. 37, n. 1, p. 168-210, 2022.
NANOGLOU, Stratos. Questioning Archaeological Bodies. In: TURNER, Bryan S. (Ed.). The Routledge Handbook of the Body. Routledge, p. 157, 2012.
NOBRE, Emerson. Objetos e imagens no Marajó antigo: agência e transformação na iconografia das tangas cerâmicas. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017.
OLIVEIRA, Erêndira. A serpente de várias faces: estilo e iconografia da cerâmica Guarita. Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia: Rumo a Uma Nova Síntese. Belém, IPHAN: Ministério da Cultura, p. 373-382, 2016a.
OLIVEIRA, Erêndira. Potes que encantam: Estilo e agência na cerâmica polícroma da Amazônia Central. Tese (Doutorado em Arqueologia), Universidade de São Paulo, 2016b.
OLIVEIRA, Erêndira; NOBRE, Emerson; BARRETO, Cristiana. Arte, arqueologia e agência na Amazônia. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 15, n. 3, e20200111, 2020.
POLO, Mario Junior; LEITE, Lúcio Flávio Costa. Os sapatos de Scarlett: o corpo na Arqueologia Amazônica, e os caminhos desenhados por uma posicionalidade Queer. Revista Arqueologia Pública, Campinas, SP, v. 13, n. 1 [22], p. 180–198, 2019.
POLO, Mario Junior Alves. Corpo e figuração na arqueologia da foz do Amazonas: uma abordagem pós-representacional aos conjuntos Maracá, Caviana e Cupixi. 2019. Tese (Doutorado em Arqueologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.
POLO, Mario Junior Alves. Corpos-urnas na arte e arqueologia da Foz do Amazonas: prerrogativas e percalços de uma pesquisa pretensamente pós-representacional. Revista de Arqueologia, v. 36, n. 1, p. 103-126, 2023.
RENÓ, José. Mortos-Gente: uma análise arqueológica das urnas antropomórficas amazônicas a partir da relação de alteridade com os mortos na etnologia indígena. Dissertação (Mestrado em Antropologia), UFMG, 2026.
Simpósio Temático
Caminhos teóricos para interdisciplinaridade em Arqueologia
Luis
Vinícius Sanches Alvarenga
LINTT MAE-USP, Origem
Arqueologia
luisviniciussa@gmail.com
Sofia
Helena Cardoso Rodrigues
UNICAMP e UNIMES
sofiahelenacr@gmail.com
Teoria
e Interdisciplinaridade são duas propriedades intrínsecas ao ofício arqueológico.
Presentes desde as práticas mais primordiais de contato e observação da
materialidade – que em muito antecedem a consolidação da disciplina acadêmica
no século XIX – por vezes acabam sendo tomadas como pressupostos inegociáveis
dentro de recortes de estudo. Desta forma, é relativamente incomum
encontrarmos, nos espaços de conversa científica, iniciativas voltadas à discussão
epistemológica das teorias ou interdisciplinaridades que estruturam o
pensamento arqueológico, notando fragilidades e flexibilidades conceituais. A
proposta deste ST é, portanto, fomentar o debate crítico acerca dessas
propriedades. São convidadas a submeter comunicações pesquisadoras e
pesquisadores, arqueólogas(os) ou de áreas afins, que lidem com a materialidade
em suas múltiplas perspectivas. Ainda que a pesquisa de campo seja atualmente o
rosto mais definidor da Arqueologia Brasileira, são igualmente convidadas a
apresentar seus entraves, reflexões e possibilidades todas as pessoas que, em
alguma medida, se dediquem a pensar teoricamente esses caminhos.
Palavras-chave: teoria
arqueológica; interdisciplinaridade; pensamento arqueológico; epistemologia.
O
caminho histórico da formação intelectual da Arqueologia é longo, tortuoso e por
vezes controverso. Apesar de surgir como disciplina formal, como campo
científico, em inícios do século XIX – com a institucionalização dos primeiros
cursos universitários, métodos sistemáticos e corpos teóricos próprios na
Europa – as práticas de coleta, observação, classificação e interpretação da
cultura material são definitivamente mais antigas. Tais práticas remontam, ao
menos, à Antiguidade (Schnapp, 1996; Momigliano, 2004; Trigger, 2006). E o
contato com a materialidade, para além deste contorno ocidental, demonstra
epistemologias diferentes dessa da academia europeia oitocentista, ao
observarmos expressões americanas, africanas e asiáticas no geral (cf. por
exemplo autoarqueologia indígena e afrodiaspórica [Viveiros de Castro, 2004; Tuyuca;
Valle, 2019; Silva, 2024; Ortiz, 2025; Costa, 2025 e outros]) e a arqueologia colaborativa,
engajada em demandas da sociedade. De modo paralelo, o ofício arqueológico, tanto
no passado como no presente, sempre esteve intrinsecamente ligado ao diálogo
com outros saberes de disciplinas diversas, que, não acessórias nem
complementares, complexificam a compreensão do nosso passado, de nossas
ancestralidades.
Diante
desse panorama, a proposta do presente Simpósio Temático – “Caminhos teóricos
para interdisciplinaridade em Arqueologia” é criar um espaço de reflexão e
debate crítico sobre a própria definição do conceito Arqueologia, suas práticas, experiências e trajetórias individuais
e coletivas. Para além disso, outro pilar central do Simpósio Temático é pensar
teoricamente a interdisciplinaridade, eixo que também acompanha a prática
arqueológica desde seus primórdios. Antes, com os antiquários (percussores dos
arqueólogos), a prática arqueológica andava junto às mais diversas profissões:
teatro, construção civil, arquitetura, arte, militarismo... Hoje, a
interdisciplinaridade ganha outros rostos, cada vez mais necessários para a
construção de narrativas plurais sobre o passado profundo: História, Geologia,
Biologia, Etnografia, Computação e inúmeros outros.
Algumas
questões norteadoras para as trocas aqui almejadas, que parecem triviais, mas que
em verdade podem ser encorajadoras, são: O que é Arqueologia? Há uma ontologia
da Arqueologia? Há pressupostos universais? Quais pressupostos teóricos norteiam
as práticas caso-a-caso?
Ao
fomentar esse debate, o Simpósio busca acolher reflexões críticas, experiências
diversas e abordagens teóricas que contribuam para repensar os caminhos da
Arqueologia contemporânea. São convidadas a submeter comunicações pesquisadoras
e pesquisadores, arqueólogas(os) ou de áreas afins, que lidem com a
materialidade em suas múltiplas perspectivas. Ainda que a pesquisa de campo
seja atualmente o rosto mais definidor da Arqueologia Brasileira, são
igualmente convidadas a apresentar seus entraves, reflexões e possibilidades
todas as pessoas que, em alguma medida, se dediquem a pensar teoricamente esses
caminhos.
Referências Bibliográficas
COSTA,
Luciana Alves. O Caminho de Casa: arqueologia, ancestralidade e
aquilombamento nos territórios Laje e Canjembre, Antiga Fazenda e Olaria Carmo,
em Rosário, Maranhão. 2025. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo,
São Paulo, 2025. Disponível em:
https://teses.usp.br/teses/disponiveis/71/71131/tde-23102025-122442/. Acesso
em: 28 maio 2026.
MOMIGLIANO,
Arnaldo. As Raízes clássicas da historiografia moderna. Bauru: EDUSC, 2004.
ORTIZ,
Rosalvo Ivarra. Arqueologia indígena nos Tekohás Jaguapirú e Bororó,
Dourados, Mato Grosso do Sul. 2025. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) -
Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025.
doi:10.11606/D.71.2025.tde-23012026-173738. Acesso em: 2026-05-28.
SCHNAPP,
Alain. The Discovery of the Past: The origins of Archaeology. London: Museu
TRIGGER,
B. G. História do Pensamento Arqueológico. São Paulo: Odysseus Editora, 2004.
TUYUCA,
Poani; VALLE, Raoni. “ɄTÃ WORI – um diálogo entre conhecimento Tuyuka e
arqueologia rupestre no baixo Rio Negro, Amazonas, Brasil”. In: Tellus, Campo
Grande, MS, ano 19, n. 39, p. 17-37, maio/ago. 2019.
VIVEIROS
DE CASTRO, Eduardo. Perspectivismo e multinaturalismo na América
indígena. O que nos faz pensar, Rio de Janeiro, v. 14, n. 18, p.
225-254, set. 2004.
Simpósio Temático
Sítios costeiros e a diversidade arqueológica do sudeste brasileiro
Anderson Marques Garcia
Núcleo de Pesquisas Arqueológicas
Indígenas (NuPAI), Departamento de Arqueologia (DARQ), Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (UERJ)
andersonmarquesgarcia@gmail.com
Claudia Rodrigues-Carvalho
Programa de Pós-graduação em
Arqueologia (PPGARQ), Departamento Antropologia, Museu Nacional (MN),
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Departamento de Sistema de
Museus Acervos e Patrimônio Cultural (SIMAP)
claudia@mn.ufrj.br
Célia Boyadjian
Programa de Pós-graduação em
Arqueologia (PPGARQ), Departamento Antropologia, Museu Nacional (MN),
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
boyadjian.celia@mn.ufrj.br
Com essa proposta pretendemos
atrair pesquisadores interessados no estudo dos sítios costeiros do sudeste
brasileiro, sejam suas contribuições fundamentadas em estudos de caso
específicos ou regionais, bem como trabalhos de caráter teórico a respeito de
sítios implementados nessa região.
Buscamos promover um encontro que aborde a diversidade de tipos de
sítios arqueológicos, bem como de materiais identificados nos mesmos, e discuta
o cenário complexo que se coloca atualmente com base nos dados e interpretações
mais recentes sobre os povos que ocuparam o litoral sudeste.
Nessa oportunidade pretendemos
discutir a diversidade dos tipos de sítios costeiros existentes no litoral do Sudeste
brasileiro, associados ora aos sambaquieiros, ora às tradições Macaé, Itaipu,
Una e Tupi-guarani. Nessa região, com cerca de 7 mil anos AP, estão alguns dos
sítios mais antigos do Sudeste e do litoral do Brasil, remanescentes de
populações conhecidas pela construção de sambaquis, cuja cultura material
aponta para um sofisticado conhecimento e domínio da costa (KNEIP et al., 1981;
MUEHE & KNEIP, 1995; LIMA et al., 2002). Sítios com essas características
são encontrados ao longo de mais de 50% do litoral do Brasil, compartilhando
entre si similaridades materiais devido ao aproveitamento de recursos
aquáticos, ponto central de seus modos de vida, que podem corresponder a um
sistema sociocultural mantido no Sul e Sudeste por cerca de seis mil anos (DEBLASIS
& GASPAR, 2009).
Quanto às tradições
Macaé e Itaipu (DIAS Jr., 1969. MENDONÇA DE SOUZA, 1981), apesar de terem sido propostas
inicialmente enquanto fenômenos culturais distintos, com o desenvolvimento da
Arqueologia voltada aos sítios dos ambientes costeiros, que levou à redução da
utilização das categorias tradição e fase, os sítios têm sido atualmente associados
a uma mesma cultura. No Rio de Janeiro, o ápice desse modo de vida se deu por
volta de 3 mil anos AP e seu colapso pode ser observado por volta de 1000 anos
AP, momento com registros arqueológicos intensos da presença de grupos
ceramistas/horticultores relacionados às tradições Una e Tupi-guarani no
litoral, inclusive em camadas superiores de muitos sambaquis (BELTRÃO, 1978;
CARVALHO, 1983; KNEIP, 1987; GUIMARÃES, 2007). O modelo construído a partir
desses dados sugeriu um processo de substituição populacional e cultural, reforçado
pelas informações dos cronistas do século XVI que registram os “montes de
conchas” como obras de grupos desconhecidos dos indígenas contactados.
Todavia, para além da
presença dos grupos ceramistas, ao olharmos para as áreas de ocorrências
presentes em nossa região, é perceptível que há diversidade mesmo dentro de
microrregiões, tanto em relação aos materiais móveis identificados, quanto aos
materiais construtivos (ou não) que compõem suas estratificações e os lugares
em que foram implementados na paisagem. Junto a isso, outro problema que se
apresenta é a acepção heterogênea do termo sambaqui, uma consequência das
diferentes orientações teóricas e interpretativas desenvolvidas ao longo do
tempo (NETO, 1885; IHERING, 1093; GASPAR, 1991; FISH et al., 2000).
Atualmente, o
entendimento mais frequente a respeito de sambaquis é o de que eles são
construções de função funerária, onde as conchas são elementos característicos,
mas que podem também estar ausentes em alguma das construções. De fato, vemos
na literatura que esse modelo interpretativo se adequa bem à algumas regiões
brasileiras, mas noutras o encaixe não é hermético. Assim, para alguns
sambaquis do Sul e do Sudeste, em paralelo, continuam sendo levantadas
hipóteses habitacionais (GUIMARÃES, 2007; WAGNER & BARCELLOS, 2008;
VILLAGRÁN, 2014; WAGNER, 2022).
Outro ponto importante
é que existem outros tipos de sítios arqueológicos nos quais são também
encontrados materiais típicos de sambaquis, mas que não são sambaquis. Ao nos
debruçarmos sobre os sítios da região sudeste, compreendemos que é necessário
abrir os horizontes de investigação para além dos montículos e buscar
identificar outras evidências do modo de produção desses grupos, para além de
seus espaços funerários.
Vemos que a longevidade
dos sistemas culturais costeiros é marcada pela diversidade e variabilidade
espaço-temporal, inclusive com evidências de produção de alimentos, instrumentos,
bases territoriais de longa duração e um complexo sistema de distribuição
espacial de montículos. Tais dados revelam ainda uma complexidade que escapa ao
modelo pescador-caçador-coletor tradicional. No caso dos montículos
construídos, suas localizações estratégicas em áreas de costa visualmente de
boa referência, oferece aos mesmos uma peculiaridade que se relaciona à
espacialidade geográfica e a paisagem. Tal ponto de referência transmite ao
observador um contexto de territorialidade de grupo e uma definição de limites.
Por fim, nossa proposta
pretende fomentar o diálogo entre pesquisadores interessados nesses povos, suas
estratégias e dinâmicas regionais. Todavia, não defendemos aqui uma nova adoção
acrítica das fases e tradições antes citadas, mas uma reflexão acerca das diferenças
entre os contextos que fizeram com que os mesmos fossem outrora definidos como
evidências de atividades e ou grupos distintos. Quando olhamos para as
produções acadêmicas anteriores, e para os contextos que temos trabalhado, os materiais
identificados sugerem que as dinâmicas territoriais não se resumiram a um
modelo de substituição simples, nem mesmo na presença de um grupo homogêneo,
fazendo-se necessária a construção de novos entendimentos para esse cenário
complexo de relações sociais ao longo da costa.
Referências bibliográficas
BELTRÃO, Maria da Conceição. Pré-História
do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Forense, 1978
CARVALHO, Eliana Teixeira de. Estudo
arqueológico do sítio Corondó. Missão de 1978. Dissertação (Mestrado em
Antropologia Social). Universidade de São Paulo, São Paulo, 1983.
DEBLASIS, Paulo; GASPAR, Maria
Dulce. Os sambaquis do sul catarinense: retrospectiva e perspectivas de dez
anos de pesquisas. Especiaria: Cadernos de Ciências Humanas, v. 11, n.
20/21, p.83-125, 2009.
DIAS Jr, Ondemar. A fase Itaipu,
sítios sobre dunas no Estado do Rio de Janeiro. Simpósio de Arqueologia da Área
do Prata, III. Pesquisas, São Leopoldo, Anais, 20: 5-12, 1969.
FISH, Suzanne; DE BLASIS, Paulo;
GASPAR, Maria Dulce; FISH, Paul. Eventos incrementais na construção de
sambaquis, litoral sul do estado de Santa Catarina. Revista do Museu de
Arqueologia e Etnologia, v.10, p.69-87, 2000.
GASPAR, Maria Dulce. Aspectos da
organização social de um grupo de pescadores, coletores e caçadores: Região
compreendida entre a Ilha Grande e o delta do Paraíba do Sul, Estado do Rio de
Janeiro. Tese (Doutorado em Antropologia Social). Universidade de São
Paulo, São Paulo, 1991.
GUIMARÃES, Márcia Barbosa da Costa.
A ocupação pré-colonial da Região do Lagos, RJ: Sistma de assentamento e
relações intersocietais entre grupos sambaquianos e grupos ceramistas Tupinambá
e da Tradição Una. Tese (Doutorado em Arqueologia). Universidade de São Paulo,
São Paulo, 2007.
IHERING, Hemann Von. A origem dos
sambaquis. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo,
v.8, p.446-465, 1903.
KNEIP, Lina. Coletores e
Pescadores Pré-históricos de Guaratiba Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro/Niterói: UFRJ/UFF, 1987.
KNEIP, Lina; PALLESTRINI, Luciana;
CUNHA, Fausto. Pesquisas Arqueológicas no litoral de Itaipú, Niterói, RJ.
Rio de Janeiro: Luna LTDA, 1981.
LIMA, Tania Andrade; MACARIO, Kita;
ANJOS, Roberto; SEDA, Paulo; COIMBRA, Melayne; ELMORE, David. The
antiquity of the prehistoric settlement of the Central-South Brazilian Cost. Radiocarbon,v.44, n.3, p.733-738,
2002.
MENDONÇA DE SOUZA, Alfredo. Pre-Historia
Fluminense. Rio de Janeiro: Instituto Estadual do Patrimonio
Cultural e Secretaria Estadual de Educação e Cultura, 1981.
MUEHE, Dieter; KNEIP, Lina Maria. O
Sambaqui de Camboinhas e o de Maratuá e as oscilações relativas do nível do
mar. Documento de Trabalho, Série Arqueologia, n.3, p.75-82, 1995.
NETO, Ladislau. Investigações sobre
a Arqueologia brasileira. Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro,
n.6, p.257-554, 1885.
VILLAGRÁN,
Ximena. A redefinition of waste: deconstructing shell and fish mound formation
among coastal groups of southern Brazil. Journal of Anthropological
Archaeology, v.
36, p. 211-227, 2014.
WAGNER, Gustavo Peretti. O
povoamento da costa atlântica brasileira, uma abordagem geoarqueológica para a
transição entre Holoceno inicial e médio. Tessituras, v.10, n.1,
p.73-111, 2022.
WAGNER, Gustavo
Peretti; BARCELLOS, André Bernardi Bicca de. Interpretação do Paleoambiente do
Sambaqui do Recreio: Uma análise Geofísica e Paleogeográfica. Cadernos do
LEPAARQ, v.5, n.9/10, p.64-81, 2008.
Simpósio Temático
Teoria e metodologia arqueológica no âmbito da revisão da Portaria n. 07/88
Thandryus Augusto Guerra Bacciotti Denardo
Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)
thandryus.denardo@iphan.gov.br
É necessário discutir as fundamentações metodológicas que deverão fazer
parte do escopo das pesquisas nacionalmente no âmbito da revisão da Portaria n.
07/1988. Desde a publicação da portaria diversos novos métodos foram discutidos
e realizados, bem como surgiram e se consolidaram outros campos no Brasil, como
Arqueologia Afro-Diaspórica, Arqueologia Pública, Arqueologia do Lixo, entre
tantas outras; nesse mesmo período, surgiram novas técnicas arqueométricas, e a
Educação Patrimonial ganhou espaço através da publicação da Portaria n.
230/2002. Assim, é o momento de revisar as práticas que já são rotineiramente
utilizadas e discutir os novos métodos que devem ser incorporados.
Palavras-chave:Portaria n. 07/88, metodologia arqueológica, práxis
A Portaria n. 07/1988 serve como marco
regulatório para todas as pesquisas arqueológicas realizadas no país. Desde
então, a prática arqueológica avançou em diversas direções; um exemplo disso é
a própria interpretação do contexto arqueológico em áreas antropizadas, não só
rurais como também espaços urbanos. Também houve um avanço na chamada
Arqueologia de Contrato a partir do licenciamento ambiental, levando a
ponderações diversas. Nesse mesmo período houve a consolidação de subcampos
como a Arqueologia Afro-Diaspórica e a Arqueologia do Lixo, que trazem questões
importantes acerca não só da metodologia empregada em campo, mas também da
própria conceitualização do que é um sítio arqueológico. Também vimos
escavações em espaços de dor e sofrimento, como o caso da vala de Perus, e que
trazem à tona toda uma série de discussões acerca de como conduzir as pesquisas
arqueológicas junto a vítimas da violência do Estado.
Outras áreas apresentaram novas
questões importantes. A necessidade de participação social também cresceu cada
vez mais, e vimos a emergência das discussões acerca da Arqueologia Pública no
Brasil, impulsionadas pela destruição do patrimônio muitas vezes causada por
obras públicas, mas também pela obrigação dos projetos apresentarem a Educação
Patrimonial em seu escopo. Embora a boa prática da Educação Patrimonial
encontre diversos desafios para a sua execução, muitas vezes relacionados ao
seu financiamento e ao tempo de execução, vimos que o campo tem sido cada vez
mais discutido na Arqueologia, embora ainda não seja possível afirmar que ele
seja visto como parte integral das pesquisas arqueológicas. Nesse sentido,
também foi preciso repensar toda a prática curatorial, iniciada já em campo,
que devem culminar na patrimonialização dos vestígios arqueológicos detectados
e estudados, seja através da sua extroversão, seja através de processos mais
continuados e socializados.
Por fim, também foram desenvolvidos
novos métodos de análises arqueométricas, tanto em campo como em laboratório.
Métodos como Difusão de Raios-X e Espectrometria são usados cada vez mais para
estudar a composição de cerâmicas arqueológicas, enquanto outros métodos já
começam a ser discutidos no país, como é o caso do uso da Microscopia de Força
Atômica. Por outro lado, os métodos de datação são cada vez mais conhecidos e
utilizados.
Diante desses avanços, é preciso
discutir quais são os métodos esperados para as pesquisas arqueológicas no
Brasil, que garantam não só o levantamento de dados que permita a melhor
interpretação do contexto arqueológico, mas também a responsabilidade social
das pesquisas, com um processo curatorial e educativo adequado desde o
planejamento das pesquisas. É necessário discutir as especificidades que advém
de cada contexto, como as pesquisas em espaços sagrados. Também é preciso
discutir, com o avanço das tecnologias, quais são as análises esperadas nas
pesquisas arqueológicas.
Sendo assim, o presente seminário foi
pensado como uma oportunidade de incorporar os trabalhos apresentados às
discussões feitas no âmbito da revisão da Portaria n. 07/88, a fim de aproximar
a instituição das pesquisadoras e dos pesquisadores que trabalham na área,
tanto na Academia quanto no Contrato. Espera-se que as apresentações mostrem os
avanços possíveis mas também os limites e atuais dificuldades que existem nas
pesquisas, e que podem eventualmente ser superadas. O presente simpósio também
serve como um espaço de discussões a fim de avaliar os avanços que tivemos na
prática arqueológica nacional, permitindo assim pensar em uma práxis (teórica e
metodológica) fundamentalmente brasileira.
Referências Bibliográficas
AGOSTINI, Camilla. Arqueologia dos séculos XX e XXI e os estudos de
cultura material no Brasil. Revista Habitus, v. 22, n. 1. 2024.
ALFONSO, Louise Prado. Arqueologia e turismo: sustentabilidade e
inclusão social. Tese de Doutorado junto ao Museu de Arqueologia e Etnologia da
Universidade de São Paulo. 2012.
ALVES, Márcia Angelina. Cadeias operatórias e sistemas técnicos em
Arqueologia e Etnologia no Brasil: estudos em homenagem à memória de Luciana
Pallestrini. Curitiba: Editora CRV. 2024.
ANDRADE, Cilcair. Educação Patrimonial em Arqueologia: a dinâmica das
práticas evidenciando redes de conhecimento. Revista de Arqueologia, v. 32, n.
2. 2019.
ARAÚJO, A. G. M. Peças que descem, peças que sobem e o fim de Pompéia:
algumas observações sobre a natureza flexível do registro arqueológico. Revista
do Museu de Arqueologia e Etnologia, v. 5. 1995.
ARAÚJO, A. G. M. Destruído pelo arado? Arqueologia de superfície e as
armadilhas do senso comum. Revista de Arqueologia, v. 14-15. 2001.
APPOLONI, C. R.; FERNANDES, C. P.; INOCENTINNI, M. D. M.; MACEDO, A.
Ceramic foams porous microstructure characterization by X-ray microtomography.
Materials Research, Vol. 7, n. 4, p. 557-64. 2004.
ARENAS, Iraida Vargas. La Arqueología Social: un paradigma alternativo
al angloamericano. Revista de História da Arte e da Cultura, n. 8. 2007.
ATALAY, Sonya. Community-based archaeology: research with, by, and for indigenous and
local communities. Berkeley e Los Angeles: University of
California Press. 2012.
BARRETO, Bruno de Souza; PEREIRA, Daiane. Onde estão as quadrículas? A
decapagem mecânica e suas contribuições para o estudo de unidades domésticas no
contexto da arqueologia preventiva. Revista de Arqueologia, 36(1), 199-224.
2023.
BEZERRA, Márcia. O austrolopiteco corcunda: as crianças e a arqueologia
em um projeto de arqueologia pública na escola. Tese de Doutorado junto à
Universidade de São Paulo. São Paulo. 2003.
BRASIL. Portaria IPHAN n. 07, de 01 de dezembro de
1988. Estabelece os procedimentos necessários à comunicação prévia, às
permissões e às autorizações para pesquisas e escavações arqueológicas em
sítios arqueológicos previstas na Lei 3924 de 26 de julho de 1961. 1988.
CALDARELLI, Solange Bezerra. O emprego de maquinário pesado na pesquisa
arqueológica por contrato. Revista do CEPA, v. 25, n. 33, p. 81-90. 2001.
CARVALHO, Patrícia Marinho de. Visibilidade do Negro: Arqueologia do
Abandono na comunidade quilombola do Boqueirão - Vila Bela/MT. Tese de
Doutorado junto ao Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São
Paulo. 2018.
CHARTKOFF, Kerry Kona. Transect Interval Sampling
in Forests. American Antiquity, v. 43, n. 1. 1978.
COSTA, Fernando Walter da Silva. Arqueologia das campinaranas do baixo
rio Negro: em busca dos pré-ceramistas nos areais da Amazônia Central. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. 2009.
CUDDY, Thomas W.; LEONE, Mark P. New Africa:
Understanding the Americanization of African Descent Groups through
Archaeology. In: C. Colwell-Chanthaphonh e T.J. Ferguson. Collaboration in
Archaeological Practice. Engaging Descendent Communities.
Lanham: Altamira Press. 2008.
DENARDO, Thandryus Augusto Guerra Bacciotti Denardo. O ensino do
invisível tornado visível: uma discussão preliminar do uso da Microscopia de
Força Atômica para o estudo de cerâmicas arqueológicas. Revista de Arqueologia,
v. 36, n. 2. 2023.
DENARDO, Thandryus Augusto Guerra Bacciotti Denardo. Um minkisi em
Campinho? Dificuldades e Possibilidades de Interpretação de Artefatos
Religiosos Afro-brasileiros no Contexto da Arqueologia Urbana, em Campinho, Rio
de Janeiro. Clio Arqueológica, v. 38, n. 2. 2024.
DIAS, Marjori Pacheco. Curadoria e conservação arqueológica no Rio
Grande do Sul: um levantamento dos métodos. Dissertação de Mestrado junto ao
Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. 2018.
DODE, Suzana dos Santos. A presença do conservador nos projetos de
pesquisa arqueológica. Semina - Revista Dos Pós-Graduandos Em História Da UPF.
2021.
FERNANDES, Tatiana Costa. Vamos criar um sentimento?! Um olhar sobre a
Arqueologia Pública no Brasil. Dissertação apresentada junto à Pós-Graduação em
Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. 2007.
FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Public archaeology from
a Latin American perspective. Public Archaeology, v. 1, n. 4. 2001.
FUNARI, Pedro Paulo Abreu. A Arqueologia Pública na América Latina e seu
contexto mundial. III Seminário Latino-Americano de Estudos de Cultura.
“Contribuições das humanidades nos estudos da cultura latino-americana:
transversalidades e travessias em tempos de pandemia”. 2020.
FUNARI, Pedro Paulo Abreu; ZARANKIN, Andrés; REIS, José Alberioni dos.
Arqueologia da Repressão e da Resistência: América Latina na era das ditaduras
(1960-1980). Annablume/Fapesp. 2008.
GORDENSTEIN, Samuel Lira. De Sobrado a Terreiro: a construção de um
candomblé na Salvador oitocentista. Tese apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia. 2014.
GORDENSTEIN, Samuel Lira. Arqueologia do axé. Considerações sobre o
estudo do candomblé baiano oitocentista. In: V. Santos, L. C. Symanski e A. Holl (eds.) História da cultura material na África e na diáspora africana (pp.
295-310). Curitiba:
Brazil Publishing. 2019.
HODDER, Ian. The archaeological process: an
introduction. Haboken: Wiley-Blackwell. 1999.
HUTCHINGS, R.; LA SALLE, M. J. Arqueologia como capitalismo do desastre.
Revista de Arqueologia, v. 28, n. 2. 2015.
IPHAN. Diretrizes para execução das pesquisas de avaliação de impacto. 2026.
LA SALLE, M. J. Community Collaboration and Other
Good Intentions. Archaeologies: Journal of the World Archaeological Congress.
Number 3. p. 401-422. 2010.
LIGHTFOOT, Kent G. Regional Surveys in the Eastern
United States: The Strengths and Weaknesses of Implementing Subsurface Testing
Programs. American Antiquity, v. 51, n. 3. 1986.
LIGHTFOOT, Kent G. A Defense of Shovel-Test
Sampling: A Reply to Shott. American Antiquity, v. 54, n. 2. 1989.
LIMA, Helena Pinto; ANDRADE, Ellen Barbosa; SILVA, Carlos Augusto da.
Gestão do patrimônio arqueológico na Amazônia: desafios da curadoria
compartilhada na REDES do Tupé, Manaus, Amazonas. Revista Arqueologia Pública,
Universidade Estadual de Campinas. v. 11 n. 2: Dossiê "Debates em torno
das políticas de salvaguarda e acesso de acervos arqueológicos no Brasil".
2017.
LUMBRERAS, Luis Guillermo. La Arqueología como Ciencia Social. Lima:
Editora Histar. 1981.
MÄHLER-NAKASHIMA, Henry. Como pode a arqueologia forense contribuir à
reparação, à verdade e às memórias indígenas? Cadernos do Leeparq, v. 22, n.
44. 2025.
NOVAES, Luciana de Castro Nunes. Arqueologia do Axé: o Exu submerso e a
paisagem sagrada. Revista Vestígios, v. 16, n. 1. 2022.
OLIVEIRA, Aline Feitoza de; CALAZANS, Marília Oliveira; GIUSTO, Marina
Di; CORREIA, Maria Ana; MARTINEZ, Candela; TAUHYL, Ana Paula Moreli; REIS,
Mariana Inglez dos; RIBEIRO, Talita Máximo Carreira; GRATÃO, Marina da Silva;
HATTORI, Márcia Lika. A construção social dos mortos em casos de
desaparecimento - a materialidade além do corpo. Cadernos do Leeparq, v. 22, n. 44. 2025.
SAMFORD, Patricia Merle. Power runs in many
channels: subfloor pits and West African-based spiritual traditions in Colonial
Virginia. Dissertação apresentada para a University of North Carolina. 2000.
SHOTT, Michael. Shovel-Test Sampling as a Site
Discovery Technique: A Case Study from Michigan. Journal of Field Archaeology,
v. 12, n. 4. 1985.
SHOTT, Michael. Shovel-Test Sampling in
Archaeological Survey: Comments on Nance and Ball, and Lightfoot. American Antiquity, v. 54, n. 2. 1989.
SILVA, Bruno Sanches Ranzani da. Descobrindo a Chácara e a Charqueada,
pela arqueologia pública. Tese de Doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia,
Universidade de São Paulo, São Paulo. 2017.
PALLESTRINI, Luciana. Interpretação das estruturas arqueológicas em
sítio do estado de São Paulo. São Paulo: Museu Paulista. 1975.
PALLESTRINI, L.; CHIARA, P. Indústria lítica de Camargo 76, município de
Piraju, estado de São Paulo. In: Coletânea de estudos em homenagem à Annette
Laming-Emperaire. São Paulo: Museu Paulista, 1978.
RICHARDSON, Lorna-Jane; ALMANSA-SÁNCHEZ, Jaime. Do
you even know what Public Archaeology is? Trends, theory, practice, ethics. World
Archaeology, v. 47, n. 2. 2015.
SLOWIKOWSKI, A. M. ‘The greatest depository of
archaeological material’: the role of pottery in ploughzone archaeology. In:
Shepherd, E. (ed.) Interpreting stratigraphy. Hunstanton: Witley Press. 1995.
SHANKS, Michael; TILLEY, Christopher.
Reconstructing archaeology: theory and practice. Cambridge: Cambridge
University Press. 1992.
SUNDSTROM, Linea. A Simple Mathematical Procedure
for Estimating the Adequacy of Site Survey Strategies. Journal of Field
Archaeology, v. 20, n. 1. 1993.
TAYLOR, J. Cultural depositional processes and
post-depositional problems. In: Ricardo Francovich e Helen Petterson (org.)
Extracting meaning from ploughsoil assemblages. Barnsley: Oxbow
Books. 2000.
TESSARO, P. A. B. A garrafa que deixou de ser: arqueologia com a cidade
e musealização. Revista de
Arqueologia, volume 27, n. 1. 2014.
YORSTON, R. M.; GAFFNEY, V.
L.; REYNOLDS, P. J. Simulation of artifact movement due to cultivation. Journal of Archaeological
Science, 17, p. 67-83. 1990.
Inscrições - Valores
VALORES
Categoria
1º Lote
2º Lote
3º Lote
Associadas/os/es
Efetivo
R$ 140,00
R$ 170,00
R$ 200,00
Colaborador
R$ 125,00
R$ 155,00
R$ 190,00
Graduando
R$ 20,00
R$ 25,00
R$ 30,00
Não Associadas/os/es
Graduandos
R$ 30,00
R$ 40,00
R$ 50,00
Público em geral
R$ 205,00
R$ 235,00
R$ 270,00
Indígenas, quilombolas e comunidades
tradicionais
Isento
Isento
Isento
* Se você ainda não é associada/o/e mas tem
interesse em associar, acesse o site da Sociedade de Arqueologia Brasileira
(SAB-Nacional) pelo link https://www.sabnet.org/filiacao e
preencha o formulário.