Por que um simpósio sobre questões afrodiaspóricas na perspectiva do Diálogos Afrodiaspóricos
A diáspora africana produziu mundos, linguagens, epistemes, tecnologias sociais e maneiras de existir que transformaram o Brasil. Entretanto, a produção intelectual e científica sobre essas experiências ainda é frequentemente marginalizada ou enquadrada sob perspectivas eurocentradas que não captam a complexidade dessa existência.
O Diálogos Afrodiaspóricos nasce justamente da necessidade de reposicionar essas narrativas no centro, valorizando perspectivas negras sobre cultura, arte, sociedade, política, corpo e espiritualidade. Criar um simpósio dentro desse projeto significa:
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fortalecer epistemologias afrodiaspóricas dentro do ambiente acadêmico;
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ampliar a presença de pesquisadores negros e aliades em espaços de reconhecimento científico;
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promover debates que rompem com as fronteiras tradicionais entre teoria, prática, arte e ancestralidade;
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legitimar modos de pensar que nascem do território, da vivência, da oralidade e da experiência histórica negra.
O simpósio, portanto, não é apenas um segmento do evento — é uma intervenção epistemológica, uma afirmação política e um gesto de autoria coletiva.
Por que criar uma versão para trabalhos acadêmicos do Diálogos Afrodiaspóricos
O Diálogos Afrodiaspóricos sempre foi um espaço de circulação potente, mas faltava um lugar onde pesquisadores pudessem apresentar trabalhos, registrar suas produções e participar de uma comunidade intelectual que dialoga com a estética e com o compromisso político do projeto.
Criar essa versão acadêmica permite:
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validar formalmente pesquisas em desenvolvimento ou concluídas;
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criar um repositório permanente de conhecimento (Anais);
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aproximar a academia da vida, da arte e das epistemes afrodiaspóricas;
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garantir que estudantes e pesquisadores negros tenham um espaço para publicar, discutir e fortalecer suas trajetórias;
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ampliar o impacto científico, institucional e social do Diálogos.
Trata-se de transformar o DA em um ecossistema contínuo de produção intelectual, e não apenas um evento anual.
Quais são e por que estes eixos temáticos
Os eixos foram pensados para refletir os campos fundamentais das experiências negras no Brasil e, ao mesmo tempo, garantir amplitude para acolher pesquisas de diversas áreas. Eles nascem das travessias que estruturam o próprio Diálogos Afrodiaspóricos:
1. Cultura e Sociedade
Porque compreender o Brasil é compreender como a experiência negra funda nossas relações, nossos modos de existir e nossas memórias.
2. Cidadania e Direitos Humanos
Porque a luta por justiça racial, acesso, equidade e políticas públicas é central na vida das populações negras e exige produção crítica e posicionamento.
3. Espiritualidade e Religiosidade
Porque as cosmopercepções negras sustentam ética, cuidado, coletividade e resistência — e são ferramentas epistemológicas legítimas.
4. Corpo, Gênero e Subjetividades
Porque subjetividade negra é produzida no cruzamento entre raça, gênero, sexualidade, afetos e violências, exigindo leituras interseccionais.
5. Estética e Arte Ancestral
Porque a arte negra é tecnologia ancestral, política, sensível e futurista — lugar de invenção e memória.
Esses cinco eixos abrangem a totalidade da experiência afrodiaspórica, mantendo profundidade e coerência epistemológica.
Objetivo Geral
Promover um espaço acadêmico de alta qualidade científica, comprometido com as epistemes afrodiaspóricas, para apresentar, debater e publicar pesquisas que ampliem a compreensão sobre cultura, sociedade, política, arte, corpo e espiritualidade negras no Brasil.
Escopo Conceitual
O simpósio está fundamentado em princípios da afrocentricidade, da justiça epistemológica, da interseccionalidade e da ética da ancestralidade. Reconhece que:
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conhecimento é produzido também pela experiência e pela memória coletiva;
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a diáspora africana constitui um campo próprio de pensamento;
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a escrita e a pesquisa negras articulam ciência, sensibilidade, território e espiritualidade;
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metodologias decoloniais e afrodiaspóricas reposicionam o centro do discurso;
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arte, política e subjetividade são dimensões inseparáveis.
Assim, o simpósio se apresenta como um território acadêmico insurgente, comprometido com a dignidade, a autoria e a potência intelectual negra.