I congresso internacional da Academia feirense de Letras

I congresso internacional da Academia feirense de Letras

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I CONGRESSO INTERNACIONAL DA ACADEMIA FEIRENSE DE LETRAS / I CONGRES INTERNATIONAL DE L’ACADÉMIE DES LETTRES DE FEIRA DE SANTANA

A Humanidade frente às encruzilhadas: entre sombras e luzes, aonde vai? Até onde a levamos? O que podemos fazer? / L’humanité face aux carrefours : entre ombres et lumières, où va-t-elle ? Jusqu’où la poussons-nous? Que pouvons-nous faire ?

I CONGRESSO INTERNACIONAL DA ACADEMIA FEIRENSE DE LETRAS

Tema: A Humanidade frente às encruzilhadas: entre sombras e luzes, aonde vai? Até onde a levamos? O que podemos fazer?

 

As conhecidas barbáries que marcaram a história da humanidade, como nos mostram a Literatura e as Ciências humanas, parecem se multiplicar com rapidez, no seio mesmo das sociedades ditas desenvolvidas, e ameaçam erodir o edifício do humanismo ocidental: a xenofobia, o racismo, a misoginia, a aporofobia…

De fato, em clivagens cada vez maiores, o tecido social revela-se esgarçado, rasgado, separando os indivíduos não apenas por sua condição econômica, mas também pela cor da pele, pela religião, pela língua que fala, pela faixa etária...

Marcos civilizatórios que pareciam sólidos e alicerçaram um modelo de civilização parecem não resistir ao avanço de velhas forças que, revigoradas em seu ímpeto destrutivo, investem, livremente, contra os pilares do velho humanismo. O lema da Revolução francesa que mobilizou as energias vitais para a construção de belas utopias se tornaria, nestes ‘tempos perigosos’(MCLAREN:1997) ‘fora de uso’.

Observe-se que, em níveis cada vez mais intensos, uma poderosa e eficiente indústria cultural tenta convencer indivíduos do mundo todo a descobrir as virtudes supostamente incontestáveis do individualismo enquanto uma filosofia de vida. Claro que a revelação da supressão das liberdades individuais em nome de um coletivismo forçado - sob o reino da pobreza material - , iria fornecer o ingrediente necessário para fazer germinar e frutificar a crença no individualismo tornado uma espécie de nova religião onde pontifica o novo deus chamado Mercado (FROMM:2023; SUNG:2018); tendo a deusa Liberdade como sua contraface (TODOROV: 2012).

Convencidos de que são eles mesmos os únicos responsáveis pelo próprio sofrimento ético-político (SAWAIA:1999), sentindo-se “culpados" homens e mulheres deixam-se ir, resignam-se e abandonam o poder de tomar o destino nas mãos, logo submetem-se ao Dinheiro, esse nova religião já anunciada por Balzac em Le Père Goriot (1835) e que condena os indivíduos a viverem na mais completa separatividade (FROMM: 2023) sem laços de solidariedade e pertencimento, no mais total desenraizamento (WEIL:1979)

Uma nova espécie de ditadura, não menos cruel que qualquer outra barbárie, instala-se nas sociedades ocidentais sob o signo da globalização a justificativa para o encolhimento do Estado com a consequente indiferença pela sorte dos menos favorecidos (DOWBOR:2017).

 Sem tortura física, sem armas ou prisões,  através de narrativas bem elaboradas e difundidas, cria-se nos corações e mentes uma adesão quase irrestrita ao que parecia uma suposta utopia bem plausível : ‘um mundo globalizado’ onde não haveria mais fronteiras geopolíticas e onde a igualdade e a liberdade reinariam entre os mortais (ORWELL: 1998).

Não é preciso dizer o quanto a crença em semelhante narrativa custou às nações mais pobres e menos desenvolvidas cujos governos abriram suas fronteiras comerciais e viram seu incipiente parque industrial prejudicado, com a desindustrialização deixando um rastro de  desemprego e o avanço da precarização do trabalho, ou uberização dos serviços,   com milhões de trabalhadores e trabalhadoras no empobrecimento (Forrester : 1997)

Utilizando-se do aval de intelectuais de vários matizes ideológicos, uma poderosa maquinaria de comunicação foi acionada para justificar a renúncia a qualquer crença em projeto coletivo, pois a “História estaria acabada”. O relativismo exacerbado cede lugar às utopias.  O que implicaria em aceitar a imobilidade com que assistimos à chamada “banalização do mal” (ARENDT, 2008, p.79), logo uma outra barbárie.

No entanto, vemos que, neste vácuo de projetos que privilegiem a articulação de laços de solidariedade e de pertencimento entre os seres humanos,  grande corporações vão ocupar os espaços dos antigos estados nacionais e se tornam cada vez mais poderosas, ditando comportamentos, definindo estilos de vida e tentando forjar realidades, sinalizando para o que seria um novo humanismo sem o homem, uma nova entidade, “o pós-humano”.

Convencidos de que não haveria outra alternativa possível, orientados por uma mídia corporativa a serviço de grandes organizações, homens e mulheres, seja em Bagdá, em Porto Príncipe, no Sertão do Brasil,  ou nas  Ilhas Maurício, ou em Damasco, ou Salvador da Bahia de Todos os Santos, todos submetem-se e alteram seus modos de pensar e trabalhar, sentir e se alimentar, de amar e de se vestir, cada vez mais apressados em seguirem  a moda (HELLER:1989;LIPMANN:2008).

Entorpecidos ou ‘zumbificados’ apáticos, sob o feitiço do desencanto do mundo, grande parte da humanidade aceita, com resignação aparente, o avanço das sombras da repetição de uma catástrofe prenunciada (ADORNO:2000).

Mas, se em todo  Caos podem estar presentes as sementes de uma nova organização (MORIN: 2001), cabe-nos perguntar, enquanto professores, acadêmicos, escritores, homens e mulheres que militamos pela Palavra (RICOEUR: 2006), o que podemos fazer para, através da Palavra, quebrar o que parece ser um enfeitiçamento coletivo que condena os humanos a tropeçarem, tateando, à beira do abismo, deixando [...] o céu, por ser escuro, e vão ao inferno, à procura de luz [...]” como nos lembram os versos de Esses moços, de  Lupicínio Rodrigues.

Convencidos de que  “a humanidade espera mais de nós” (FANON:2008), e acreditando nas possibilidades reais de que a humanidade possa aprender a criar as condições para viver em Comunhão conclamamos os homens e mulheres de boa vontade a emprestarem suas experiências e suas esperanças a este projeto.

 

I CONGRES INTERNATIONAL DE L’ACADÉMIE DES LETTRES DE FEIRA DE SANTANA                     

Thème : L’humanité face aux carrefours : entre ombres et lumières, où va-t-elle ? Jusqu’où la poussons-nous? Que pouvons-nous faire ?

Les barbaries bien connues qui ont marqué l’histoire de l’humanité, comme nous le montrent la littérature et les sciences humaines, semblent se multiplier rapidement au sein même des sociétés dites développées, et menacent d’éroder l’édifice de l’humanisme occidental : la xénophobie, le racisme, la misogynie, l’aporophobie

En effet, sous l’effet de clivages toujours plus profonds, le tissu social se révèle effiloché, déchiré, séparant les individus non seulement selon leur condition économique, mais aussi selon la couleur de leur peau, leur religion, la langue qu’ils parlent, leur tranche d’âge… Des marqueurs civilisatrices qui paraissaient solides et avaient servi de fondement à un modèle de civilisation semblent ne pas résister à l’avancée de vieilles forces qui, revigorées dans leur élan destructeur, s’attaquent librement aux piliers du vieil humanisme. La devise de la Révolution française, qui avait mobilisé des énergies vitales pour la construction de belles utopies, deviendrait, en ces « temps dangereux » (MCLAREN, 1997), « hors d’usage ».

Il faut observer que, à des niveaux de plus en plus intenses, une puissante et efficace industrie culturelle tente de convaincre les individus du monde entier de découvrir les vertus prétendument incontestables de l’individualisme en tant que philosophie de vie. Il est évident que la révélation de la suppression des libertés individuelles au nom d’un collectivisme forcé — sous le règne de la pauvreté matérielle — fournirait l’ingrédient nécessaire pour faire germer et fructifier la croyance en un individualisme devenu une sorte de nouvelle religion, où pontifie le nouveau dieu appelé Marché (FROMM : 2023 ; SUNG : 2018), ayant la déesse Liberté comme son envers (TODOROV : 2012).

  Convaincus qu’ils sont eux-mêmes les seuls responsables de leur propre souffrance éthico-politique (SAWAIA : 1999), se sentant « coupables », hommes et femmes se laissent aller, se résignent et abandonnent le pouvoir de prendre leur destin en main ; ils se soumettent alors à l’Argent, cette nouvelle religion déjà annoncée par Balzac dans Le Père Goriot (1835), qui condamne les individus à vivre dans la plus complète séparabilité (FROMM : 2023), sans liens de solidarité ni de sentiment d’appartenance, dans le déracinement le plus total (WEIL : 1979). Une nouvelle forme de dictature, non moins cruelle que n’importe quelle autre barbarie, s’installe dans les sociétés occidentales sous le signe de la mondialisation, devenue la justification du rétrécissement de l’État et, par conséquent, de l’indifférence à envers les moins favorisés (DOWBOR : 2017).

    Sans torture physique, sans armes ni prisons, c’est par des récits soigneusement élaborés et largement diffusés que l’on crée, dans les cœurs et les esprits, une adhésion presque irrétractable à ce qui semblait être une utopie supposément plausible : « un monde globalisé » où il n’y aurait plus de frontières géopolitiques et où l’égalité et la liberté régneraient entre les mortels (ORWELL : 1998).

    Il n’est pas nécessaire de préciser combien la croyance en un tel récit a coûté aux nations les plus pauvres et les moins développées, dont les gouvernements ont ouvert leurs frontières commerciales et ont vu leur parc industriel naissant gravement affecté. La désindustrialisation a laissé derrière elle un sillage de chômage et l’avancée de la précarisation du travail — ou l’« ubérisation » des services — a plongé des millions de travailleurs et de travailleuses dans l’appauvrissement (Forrester : 1997).

En s’appuyant sur l’aval d’intellectuels de diverses orientations idéologiques, une puissante machinerie de communication a été activée pour justifier la renonciation à toute croyance en un projet collectif, puisque « l’Histoire serait terminée ». Le relativisme exacerbé cède la place aux utopies. Cela impliquerait d’accepter l’immobilité avec laquelle nous assistons à ce que l’on appelle la « banalisation du mal » (ARENDT, 2008, p. 79), autrement dit une autre forme de barbarie.

  Cependant, nous constatons que, dans ce vide de projets susceptibles de privilégier l’articulation de liens de solidarité et de sentiment d’appartenance entre les êtres humains, de grandes corporations occupent désormais les espaces autrefois réservés aux anciens États nationaux et deviennent de plus en plus puissantes. Elles dictent des comportements, définissent des styles de vie et tentent de façonner des réalités, annonçant ce qui serait un nouvel humanisme sans l’homme, une nouvelle entité:« le post‑humain ».

  Convaincus qu’il n’existerait aucune autre alternative possible, orientés par un média corporatif au service de grandes organisations, hommes et femmes — que ce soit à Bagdad, à Port‑au‑Prince, dans le Sertão brésilien, aux îles Maurice, à Damas, ou à Salvador de Bahia de Tous les Saints — se soumettent tous et modifient leurs manières de penser et de travailler, de sentir et de se nourrir, d’aimer et de s’habiller, toujours plus pressés de suivre la mode (HELLER : 1989 ; LIPMANN : 2008).     

Engourdie ou « zombifiée », apathique, sous le charme du désenchantement du monde, une grande partie de l’humanité accepte, avec une résignation apparente, l’avancée des ombres de la répétition d’une catastrophe préfigurée (ADORNO : 2000).  

 Mais, si dans tout Chaos peuvent se trouver les germes d’une nouvelle organisation (MORIN : 2001), il nous revient de nous interroger, en tant que professeurs, universitaires, écrivains, hommes et femmes qui militons pour la Parole (RICOEUR : 2006), sur ce que nous pouvons faire, par la Parole, pour briser ce qui semble être un enchantement collectif condamnant les humains à avancer en trébuchant, à tâtons, au bord de l’abîme, laissant derrière eux le ciel — trop sombre — et se dirigeant vers l’enfer à la recherche de lumière, comme nous le rappellent les vers de Esses moços, de Lupicínio Rodrigues.       

  Convaincus que « l’humanité attend davantage de nous » (FANON : 2008), et croyant aux possibilités réelles permettant à l’humanité d’apprendre à créer les conditions d’une vie en Communion, nous appelons les hommes et les femmes de bonne volonté à prêter leurs expériences et leurs espérances à ce projet.


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