O Hiperorgânicos é um evento internacional dedicado à pesquisa e à experimentação nos campos da arte, da ciência, da tecnologia e da natureza. Realizado pelo NANO — Núcleo de Arte e Novos Organismos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o evento reúne artistas, pesquisadores, cientistas, estudantes e pensadores interessados na criação de práticas transdisciplinares e em novas formas de relação entre organismos, ambientes, comunidades e tecnologias.
Em sua 13ª edição, o Hiperorgânicos será realizado no Museu de Arte Contemporânea de Niterói — MAC, reunindo um Laboratório Aberto, apresentações de pesquisas, processos artísticos, oficinas, encontros, performances e um simpósio. Mais do que apresentar obras concluídas, o evento busca constituir um ambiente temporário de colaboração, investigação e compartilhamento de conhecimentos.
A edição de 2026 tem como tema “Acoplamentos Sutis: Comunidade, Pertencimento e Memória”. A proposta parte da compreensão de que corpos, organismos, tecnologias, territórios e comunidades não existem de forma isolada, mas são constituídos por relações, intercâmbios, lembranças e processos de transformação. A noção de acoplamento permite pensar conexões entre sistemas distintos, enquanto o termo sutil chama atenção para vínculos nem sempre imediatamente visíveis, mas que participam da produção de experiências, afetos, identidades e modos de existência.
O tema convida à investigação de práticas artísticas relacionadas à memória coletiva, ao pertencimento, às comunidades humanas e mais que humanas, às sensibilidades socioecológicas e às formas de comunicação estabelecidas entre organismos, máquinas e ambientes. Interessa ao Hiperorgânicos explorar as relações entre o biológico e o digital, o humano e o não humano, o material e o imaterial, o visível e o imperceptível, considerando a presença de redes orgânicas, telemáticas e sutis na constituição da experiência contemporânea.

Crachá do Hiperorgânicos 12. Fonte: Acervo do NANO (2025)
O evento ocorrerá entre os dias 10 e 14 de novembro de 2026, de forma presencial e remota. Reforçamos que nem todas as atividades poderão ser remotas.
CRONOGRAMA
Será atualizado conforme andamento.
- 31/07 a 30/08 Submissão de propostas para o OpenLab.
- 18/09 Divulgação dos selecionados para o OpenLab.
- 28/09 e 19/10 às 9h Reuniões com selecionados.
O Hiperorgânicos 13 é realizado pelo NANO — Núcleo de Arte e Novos Organismos, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, por meio do Centro de Letras e Artes, da Escola de Belas Artes e do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais.
Esta edição conta com o apoio institucional e logístico do Museu de Arte Contemporânea de Niterói — MAC Niterói, que receberá as atividades do evento, e da Fundação Itaú. Conta também com o apoio de agências de fomento à pesquisa e à formação acadêmica, entre elas CNPq, CAPES e FAPERJ, bem como das Fundações Bunge y Born e Williams, parceiras do NANO no desenvolvimento de uma residência artística vinculada ao Hiperorgânicos. O evento reúne ainda a colaboração de artistas, pesquisadores, estudantes e instituições parceiras.
Acoplamentos Sutis: comunidade, pertencimento, memória
Sobre o tema desta edição
Vivemos um tempo marcado pela intensificação da fragmentação social, pela crise dos vínculos comunitários e pelo avanço de forças autoritárias em escala global. A captura da vida por lógicas neoliberais, somada à mediação crescente das relações por sistemas técnicos e plataformas digitais, produz não apenas conflitos políticos, mas uma crise mais profunda: uma crise das formas de estar junto, de compartilhar o sensível e de produzir sentido coletivo.
O Hiperorgânicos 13 se configura como um território de problematização e experimentação dessas questões, reunindo práticas artísticas, coletivas e transdisciplinares que investigam pertencimento, comunidade e memória como dimensões centrais da vida contemporânea. Mais do que tematizar tecnologias ou responder a conjunturas específicas, o projeto busca ativar espaços de reflexão e experiência onde diferentes modos de organização do comum possam ser tensionados e reinventados.
Nesse contexto, a comunidade é compreendida não como identidade fixa ou forma idealizada do passado, mas como prática viva, situada e relacional. Inspirado pelo pensamento de Nêgo Bispo, que compreende a comunidade como confluência — encontro entre mundos que coexistem sem se anular — e pela noção de cosmotécnica formulada por Yuk Hui, segundo a qual toda técnica expressa uma visão de mundo, o Hiperorgânicos afirma a confluência como princípio ético e político. Pertencer, aqui, significa participar de uma trama de relações sustentada pelo cuidado, pela escuta e pela reciprocidade. Portanto, a memória assume um papel fundamental. Não apenas como registro do passado, mas como força ativa de transmissão, reconhecimento e continuidade. Reativar a memória implica reconhecer camadas profundas da experiência humana, onde saberes ancestrais, práticas coletivas e cosmologias diversas continuam a operar como formas de orientação no mundo.
Os acoplamentos sutis designam formas de conexão e coafetação que atravessam corpos, territórios, memórias, tecnologias e ecologias, operando muitas vezes fora dos regimes dominantes de visibilidade. O Hiperorgânicos 13 propõe pensar tais relações como condição para a reconstrução do pertencimento e para a emergência de modos de vida fundados na reciprocidade, na escuta e na experiência compartilhada.
A produção artística contemporânea é entendida como inseparável dos territórios, das materialidades disponíveis, dos saberes locais e das relações afetivas que artistas constroem com os contextos onde vivem e atuam. O pertencimento não é tratado como identidade fixa, mas como processo relacional, construído na convivência com comunidades humanas e não humanas. Nesse sentido, a memória também se manifesta como prática de reconexão: lembrar é reativar vínculos, recuperar narrativas e reinscrever a experiência humana em uma trama mais ampla de relações. A ausência desses vínculos tende a produzir práticas extrativas, nas quais o território e a cultura são consumidos sem compromisso — reprodução direta de lógicas coloniais.
Ao articular tecnologias do comum com práticas artísticas contemporâneas, o Hiperorgânicos propõe a arte como campo poético de mediação e recomposição do sensível. A arte é entendida como prática capaz de criar situações de encontro, presença e escuta, abrindo espaços onde o corpo coletivo possa se reorganizar. A dimensão poética, nesse sentido, não é acessória, mas estrutural: ela opera como forma de cuidado, elaboração simbólica e reintegração do que foi fragmentado. Nesse processo, a arte também atua como dispositivo de memória — uma forma de lembrar coletivamente aquilo que sustenta a vida em comum.
O Hiperorgânicos 13 convida artistas, coletivos, pesquisadoras(es) e praticantes a propor trabalhos, processos e experiências que dialoguem com esses eixos, contribuindo para a construção de espaços compartilhados de reflexão, sensibilidade e criação coletiva, onde diferentes cosmotécnicas possam coexistir e produzir modos de vida mais justos e habitáveis.