O cotidiano escolar é frequentemente atravessado por
disputas simbólicas, morais e ideológicas em torno das identidades de gênero e
da diversidade sexual. Essas questões, que extrapolam os círculos acadêmicos e
militantes, têm ganhado visibilidade em redes sociais, meios de comunicação e
nas vivências escolares, revelando tensões entre os avanços normativos e as
resistências conservadoras que ainda permeiam a cultura institucional das
escolas. No campo educacional, especialmente, essas disputas têm mobilizado
movimentos contrários à equidade de gênero e diversidade sexual, como os
discursos de “ideologia de gênero” e os pânicos morais, gerando censuras,
perseguições e silenciamentos nas ações educativas (Junqueira, 2018).
Em lugar de destaque, em meio a essas disputas, está a
figura do(a) gestor(a) escolar, profissional que ocupa posição estratégica na
mediação de conflitos, na defesa de direitos humanos e na construção de uma
cultura escolar inclusiva. Contudo, pesquisas recentes (Morais, 2022; Gomes,
2021; Freitas, 2022) indicam que grande parte das gestões escolares ainda atua
com despreparo, omissão ou resistência diante de situações envolvendo
estudantes Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Queer, Interssexuais,
Assexuais, Pansexuais, Não-Binários e Outros
(LGBTQIAPN+), em especial quando as questões tocam em disputas com
famílias ou interesses morais das comunidades escolares. A ausência de formação
específica, somada ao discurso da neutralidade, contribui para a perpetuação de
práticas excludentes e da invisibilidade dessas temáticas.
A revisão de literatura aponta a escassez de ações
formativas que tomem a gestão escolar como foco central na abordagem das
relações de gênero e sexualidade. Quando presente, a figura do(a) gestor(a)
aparece de forma periférica ou incidental, muitas vezes desprovida de agência
ou reduzida a um papel coadjuvante nos processos educativos. Essa lacuna
reforça a urgência de desenvolver formações que tensionem as práticas
cotidianas da gestão, promovendo reflexão crítica e ampliação dos saberes
profissionais que orientam as decisões escolares frente à diversidade (Garcia;
Adam, 2025).
É nesse contexto que esta proposta de curso se insere:
voltada à formação continuada de gestores(as) escolares a partir do consumo
crítico de obras audiovisuais que tematizam gênero e diversidade sexual no
ambiente escolar. O curso assume que essa obras podem operar como dispositivos
formativos, capazes de acionar saberes experienciais (Tardif, 2002; Larrosa,
2011), tensionar posições subjetivas (Ellsworth, 2001) e ampliar a consciência
crítica dos sujeitos diante das práticas institucionais.
Ao utilizar trechos de obras como Valentina, Cabeça
de Nêgo, Alice Júnior, Meu corpo é político, Fanfic, Glee,
entre outras, o curso pretende não apenas debater representações, mas também
propor uma reflexão situada sobre os efeitos dessas imagens na constituição das
subjetividades dos(as) gestores(as), como profissionais responsáveis por
decisões que podem promover ou barrar processos de inclusão. O olhar formativo
aqui não se limita à análise técnica dos produtos culturais, mas propõe uma
escuta e interpretação dos efeitos que essas obras provocam em cada sujeito,
assumindo a experiência como ponto de partida para a constituição de processos
de dessubjetivação/subjetivação potentes (Ferrari, 2014), além de subsidiar a
construção de saberes e práticas mais
comprometidas com a equidade.
Ao promover a escuta, o diálogo e a reflexão crítica,
esta formação busca mobilizar os(as) gestores(as) escolares sobre seu papel
político, ético e pedagógico na mediação das relações escolares.