Ao tomar a vida e a obra de autores diletos como campo de experimentação conceitual, Roland Barthes formulou uma noção que se tornou um vetor para pensar as relações entre literatura e experiência vivida: o biografema.
Em contraste com a biografia tradicional, orientada pelos grandes acontecimentos e marcos cronológicos de uma existência, o biografema dirige a atenção aos detalhes aparentemente insignificantes que persistem à margem das narrativas oficiais. Trata-se de traços mínimos: um gesto recorrente, uma inclinação corporal, um hábito, uma inflexão da voz, que, embora frequentemente desconsiderados pelo olhar biográfico, carregam uma singular potência de afecção.
A escrita biografemática emerge desse encontro entre vida e obra e seus deslocamentos.
Ela parte da suspeita de que o pormenor não constitui um resto da experiência, mas uma de suas zonas mais intensas e expressivas. Situada entre a ficção, o ensaio e os fragmentos da vida do outro, essa prática de escrita recusa tanto a linearidade narrativa quanto a pretensão de totalizar uma existência em uma sequência coerente e de eventos majoritários. Em vez disso, privilegia a força dos instantes, a densidade afetiva dos detalhes e a persistência de certas cenas que retornam à memória sem que sua recorrência possa ser plenamente explicadas, como se nelas houvesse algo ainda por ser extraído.
Mas o que faz um detalhe persistir? Por que certos pormenores nos interpelam, nos afectam e insistem em retornar ao pensamento e à escrita? Para Gilles Deleuze, o signo é aquilo que irrompe, que interrompe os automatismos da recognição e força o pensamento a sair de seus circuitos habituais. Trata-se de uma violência que o arranca o pensamento sedentários de suas certezas.
O biografema opera precisamente nesse registro. O detalhe que selecionamos, ou que, de algum modo, nos seleciona, não é neutro. Antes de ser compreendido, ele afeta; antes de ser explicado, ele mobiliza. A escrita que emerge desse encontro acompanha os movimentos criadores desencadeados por essa afecção, no lugar de reconhecer um sentido já existente.
É nesse horizonte que se insere a noção de vidarbo, proposta por Sandra Mara Corazza. O conceito designa a circulação simultânea dos códigos por meio dos quais escrevemos, ao mesmo tempo, os livros e a própria vida. Ao operar uma escrita biografemática instada pela força de um signo que nos convoca à criação, produzimos um movimento no qual escrita e existência se constituem mutuamente, sem subordinar a obra à vida, nem separar ambas em domínios independentes A vida de quem escreve e a obra que emerge desse processo atravessam os mesmos códigos, sem que seja possível estabelecer entre elas uma relação entre original e cópia.
Este curso propõe uma experimentação nesse campo de forças. Seu objetivo é convidar os participantes a tomar um fragmento de uma vida e acompanhar os desdobramentos que ele pode suscitar na escrita. Não se exige um projeto previamente definido nem uma narrativa já constituída. O que se requer é a disposição para acolher a potência dos detalhes, permitir que escrita e vida se contaminem reciprocamente e seguir os percursos criativos que dessa contaminação possam emergir.