O ciclo continua.
Depois de abril — quando a Caminhada do Privilégio tornou visível no corpo e no chão o que os dados raramente comunicam com a mesma imediatez — e de maio, que trouxe a pauta da neurodiversidade e do design universal para o centro do debate, chegamos ao Módulo 3 do III Workshop Acadêmico da USP Bauru.
O tema é gênero. Mais especificamente: o que o sistema acadêmico ignora quando finge que todos partem do mesmo ponto.
O que estamos nomeando
Dados do IBGE 2022 mostram que mulheres dedicam 21,3 horas semanais ao cuidado — contra 11,7 dos homens. São 500 horas extras por ano: um dia inteiro de trabalho, toda semana, que não aparece no currículo, não conta para progressão de carreira e não é levado em conta nas avaliações de produtividade acadêmica.
Esse fenômeno tem nome — pobreza de tempo — e consequências mensuráveis: 68% dos trancamentos de matrícula na graduação são decorrentes de licença-maternidade. Mulheres chegam ao topo da carreira em ritmo mais lento. Em avaliações às cegas, o viés desaparece. No cotidiano, ele permanece.
O Módulo 3 não vai explicar isso como novidade para quem já o viveu. Vai criar espaço para que seja dito em voz alta — e para que saia algo concreto.
Com quem vamos conversar:
Ana Flavia Pires Lucas D'Oliveira é médica sanitarista do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), coordenadora do Grupo de Trabalho de Mulheres da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) e uma das construtoras do SUA — o Sistema USP de Acolhimento para situações de assédio, violência e discriminação, lançado em 2025. São trinta anos de pesquisa e intervenção em violência de gênero e saúde, dentro e fora da USP. É autora do Guia Prático para Atendimento a Mulheres em Situação de Violência, adotado pelo Ministério da Saúde, e tem pós-doutorado na London School of Hygiene and Tropical Medicine — uma voz com trajetória dentro da arquitetura institucional que este ciclo busca transformar, e com clareza sobre onde essa arquitetura ainda falha.
Adriana Serrano: Psicóloga (Unesp) · Especialização em psicologia clínica comportamental · Formação em psicoterapia antroposófica · 13 anos de clínica · Focalizadora de dança circular. Conduzirá dois momentos de prática corporal ao longo do encontro — porque nem tudo que precisamos nomear cabe só em palavras.
O formato
Três horas, sem pausa formal. O ritmo muda nos momentos certos.
O encontro começa com a Roda do Privilégio Acadêmico e um momento de dança circular. O centro da tarde é um aquário: uma conversa aberta com Ana Flávia e outras vozes do campus no círculo, e uma cadeira sempre disponível para quem quiser entrar. O encerramento é um checkout gravado — cada pessoa sai com um comprometimento pessoal, em voz alta, que vai alimentar o Boletim de Reflexão do módulo.
A ideia não é sair de mãos dadas. É sair em movimento.