O tema da VIII Semana de Letras do campus Professor Possidônio Queiroz “Vozes locais, redes globais: linguagens, tecnologias e literaturas em
perspectivas inclusivas e contracoloniais” surge da necessidade de repensar as
práticas acadêmicas e pedagógicas a partir de três pilares fundamentais e
interdependentes: as epistemologias contracoloniais, como propõe Nego Bispo
(2021), os princípios da educação inclusiva e as atuais pesquisas sobre as TDIC
(Tecnologias da Informação e da Comunicação), pautados na equidade e no direito
à participação plena de toda e qualquer pessoa às diversas formas de
participação da sociedade.
Na concepção de Nego Bispo, pensar uma perspectiva contracolonial significa não apenas desconstruir as lógicas coloniais impostas, mas construir a partir de outras bases — dos territórios, das vivências, dos modos de existência dos povos originários, quilombolas e tradicionais. Ao contrário da decolonialidade, que ainda parte do referencial colonial para ser superado, a proposta contracolonial afirma que os saberes, as práticas e os modos de vida dos povos não são respostas ao colonialismo, mas existências autônomas, autossustentáveis e ancestrais, que nunca precisaram da validação do pensamento ocidental para existir. Trata-se, portanto, de deslocar o centro epistemológico da modernidade ocidental para os territórios de saber que foram historicamente desconsiderados.
Ao mesmo tempo, a educação
inclusiva, na perspectiva defendida por Mantoan (2006, 2015), Sassaki (1997) e
pelos princípios da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com
Deficiência (ONU, 2006), implica o compromisso inegociável com a participação,
a aprendizagem e o desenvolvimento de todos, considerando as especificidades,
necessidades e particularidades de cada sujeito. Inclusão, nesse sentido, não
se reduz a acesso físico, mas envolve práticas pedagógicas, metodologias,
materiais e atitudes que garantam equidade no processo de ensino e
aprendizagem, rompendo com o capacitismo e com modelos educacionais
excludentes.
As Tecnologias Digitais da
Informação e Comunicação (TDICs) constituem, no cenário atual, elementos
centrais para repensar o ensino de línguas e literaturas, assim como para
ampliar a circulação de saberes em perspectivas inclusivas e contracoloniais.
No campo dos letramentos digitais e multiletramentos, compreende-se que
professores e licenciandos precisam desenvolver competências que lhes permitam
atuar criticamente em redes sociais, plataformas digitais e ambientes
multimodais. Essas práticas de linguagem, cada vez mais presentes no cotidiano,
articulam vozes locais a redes globais, exigindo que o ensino de línguas
considere a pluralidade de formas textuais e discursivas que emergem nesse
contexto (ROJO, 2012; COSCARELLI, 2016). No que se refere à inclusão e
acessibilidade digital, as TDICs assumem função de democratização e equidade,
possibilitando que diferentes sujeitos tenham acesso ao conhecimento. Recursos
como legendagem, audiodescrição, leitores de tela e ambientes virtuais
acessíveis ampliam a participação de pessoas com deficiência e de grupos
historicamente marginalizados, reforçando a necessidade de compreender a
tecnologia como mediadora de inclusão social (LÉVY, 1999; SANTAELLA, 2003).
Por fim, em uma perspectiva de
práticas contracoloniais, o uso crítico das TDICs pode favorecer a valorização
de saberes indígenas, afrodescendentes, quilombolas e periféricos, oferecendo
visibilidade a epistemologias que frequentemente permanecem invisibilizadas.
Nessa direção, é fundamental pensar a descolonização tecnológica como caminho
para evitar que as tecnologias apenas reproduzam hegemonias, abrindo espaço
para outros modos de conhecer e de existir (MIGNOLO, 2017; SANTOS, 2019).
Assim, discutir também o papel das TDICs na VIII Semana de Letras significa
reafirmar o compromisso com uma prática acadêmica que articula inovação
tecnológica, inclusão e resistência, possibilitando que vozes locais dialoguem
com redes globais em igualdade de condições.
Assim, a realização da VIII Semana
de Letras tem como propósito construir um espaço formativo, crítico e
transformador, que dialogue com saberes, linguagens e práticas produzidas a
partir dos territórios, dos corpos e das experiências historicamente invisibilizadas.
Ao mesmo tempo, reconhece que não é possível pensar práticas contracoloniais
sem assegurar que essas práticas sejam, também, inclusivas — garantindo, com
equidade, a participação plena de pessoas com deficiência, com transtornos do
desenvolvimento, condições específicas e diferentes formas de ser, estar e
aprender no mundo. Para tanto, traçamos como objetivos específicos:
a) Estimular reflexões críticas
sobre práticas pedagógicas, acadêmicas e culturais fundamentadas em
epistemologias contracoloniais, inclusivas e interseccionais;
b) Promover debates sobre a
valorização dos saberes ancestrais, indígenas, afrodescendentes, quilombolas,
periféricos e locais no ensino de línguas, literaturas e culturas;
c) Fomentar espaços para a
divulgação de pesquisas, experiências pedagógicas, práticas extensionistas e
projetos que articulem linguagens, tecnologias e literaturas em perspectiva
crítica;
d) Incentivar práticas educativas
que contribuam para a construção de uma educação inclusiva, equitativa e
antidiscriminatória, valorizando a diversidade linguística, cultural,
étnico-racial, de gênero e social;
e) Discutir o papel das línguas,
literaturas e demais linguagens — incluindo as digitais — como ferramentas de
resistência, de afirmação identitária e de transformação social;
f) Discutir os usos críticos e
inclusivos das tecnologias digitais no ensino de línguas, literaturas e
culturas, valorizando saberes locais em diálogo com redes globais.
g) Estimular a produção de materiais
didáticos, metodologias e estratégias de ensino que dialoguem com os princípios
da inclusão, da equidade, da justiça social e das pedagogias contracoloniais.
Entendemos que a colonialidade, que
persiste na organização do saber, do poder e do ser (Mignolo, 2003; 2017;
Quijano, 2005), atravessa as práticas linguísticas, literárias e culturais,
perpetuando a marginalização das variedades linguísticas, das oralidades, das
literaturas periféricas, indígenas e afrodescendentes. Ao reconhecer, como
afirmam Bakhtin (2003) e Fairclough (2001), que toda prática de linguagem está
atravessada por relações de poder, o evento busca promover um espaço de escuta
e valorização de saberes plurais, que contemplem tanto as expressões orais
quanto escritas, artísticas e culturais.
Nesse sentido, este evento se
configura como um espaço para a construção coletiva de práticas acadêmicas e
pedagógicas que rompem com a lógica colonial, com o epistemicídio e com todas
as formas de exclusão, reafirmando o papel da universidade como agente de
transformação social, cultural, política e educativa.
Assim, a UESPI, Campus Professor Possidônio Queiroz, por iniciativa da Coordenação
do Curso de Licenciatura em Letras/Português, cumpre o seu papel social de
produção e difusão do conhecimento e objetiva, mais que isso, propiciar a
apropriação dos saberes e a reflexão acerca deles, proporcionando aos seus
alunos (e aos demais interessados) uma formação completa, na medida em que
possibilita um espaço de reflexão que une ensino, pesquisa e extensão, o que,
certamente, contribuirá para que tenhamos profissionais mais competentes do
ponto de vista do saber científico e mais conscientes de seu papel na
sociedade.