O patrimônio industrial deve
ser entendido não apenas como vestígio material de fábricas, maquinários,
oficinas e documentos, mas como parte constitutiva de um processo mais amplo de
transformações técnicas, tecnológicas e sociais, que impactaram diretamente os
modos de produzir, de organizar o trabalho e de ocupar os espaços urbanos e
rurais. A emergência e a consolidação de diferentes formas de produção
industrial, em articulação com dinâmicas econômicas globais e locais,
engendraram alterações profundas na vida social, nas paisagens culturais e nas
representações coletivas do trabalho e da técnica. Preservar esse patrimônio
significa, portanto, preservar também as memórias e experiências que
acompanharam tais processos históricos de mudança.
Entre os propósitos do
TICCIH-Brasil, previstos em seu Estatuto (Art. XVI), destaca-se a promoção de
informações e conhecimento sobre o patrimônio industrial por meio da realização
de congressos bienais, encontros regionais, visitas guiadas e outras iniciativas
de caráter científico e cultural. Nesse contexto, foram concebidas as Jornadas
Regionais de Patrimônio Industrial, que, ao serem realizadas em diferentes
regiões do país, têm como finalidade promover debates, estimular a difusão de
pesquisas e fortalecer ações de valorização e preservação do patrimônio
industrial em suas diversas dimensões.
A III Jornada Regional de
Patrimônio Industrial: Patrimônio Industrial e seus usos contemporâneos
inscreve-se nesse horizonte de atuação. O evento reúne conferências e
apresentações dedicadas a discutir os múltiplos aspectos que compõem o campo do
patrimônio industrial – desde sua materialidade e registro documental, até as
memórias, representações e paisagens associadas. O foco no tema dos “usos
contemporâneos” busca problematizar como esse patrimônio, longe de estar
restrito ao passado, vem sendo continuamente ressignificado, incorporado a
novas práticas culturais, educativas, turísticas, artísticas e urbanísticas,
bem como mobilizado em disputas sociais e políticas que envolvem o direito à
memória e ao espaço.
Dessa forma, a Jornada
propõe refletir sobre a permanência e a atualidade do patrimônio industrial,
entendendo-o como chave para a análise crítica das mudanças nos processos de
produção, das dinâmicas sociais a eles vinculadas e das formas pelas quais tais
transformações deixaram marcas materiais e imateriais em nossa sociedade. Ao
mesmo tempo, reafirma-se o compromisso do TICCIH-Brasil em articular
especialistas, instituições e comunidades na construção de estratégias que
assegurem a valorização desse patrimônio, contribuindo para sua salvaguarda e
para a ampliação dos sentidos que lhe são atribuídos no presente.
A III Jornada Regional de
Patrimônio Industrial (Sudeste/Centro-Oeste): Patrimônio Industrial e seus
usos contemporâneos organiza-se em torno de eixos temáticos que, além de
orientar a submissão de trabalhos, visam promover o diálogo entre distintas
áreas do conhecimento e perspectivas de análise. Ressalta-se que todos os eixos
foram concebidos de forma a favorecer abordagens interdisciplinares e
transversais, contemplando as várias dimensões do patrimônio – natural,
cultural, material e imaterial – e suas problematizações, bem como suas
diferentes manifestações, expressões e modos de apropriação.
Nesse sentido, propõem-se os
seguintes eixos temáticos e respectivos subtemas:
1.
(Re)conhecer
e (Re)usar o Patrimônio Industrial
Este eixo propõe reflexões sobre a
redescoberta e a revalorização dos bens industriais, enfatizando práticas de
reconhecimento, proteção e reaproveitamento, tanto funcional quanto simbólico,
desses espaços e objetos históricos. O debate contempla, de forma crítica, os
impactos da desindustrialização e as possibilidades contemporâneas de
ressignificação de sítios industriais desativados, explorando usos culturais,
sociais, ambientais e econômicos em novos contextos urbanos.
2.
Patrimônio
Industrial e Sustentabilidade
Este eixo discute as formas pelas quais
o patrimônio industrial pode ser reintegrado de maneira sustentável à vida
contemporânea, por meio de práticas responsáveis de conservação, adaptação e
inclusão social. O enfoque interdisciplinar aqui é fundamental, articulando
áreas como história, arquitetura, urbanismo, direito, museologia, economia e
meio ambiente, a fim de compreender os múltiplos usos e significados atribuídos
ao patrimônio industrial na atualidade. Busca-se refletir sobre a
sustentabilidade não apenas em sua dimensão ambiental, mas também em seus
desdobramentos sociais, políticos e culturais.
3. Patrimônio Industrial e Memória
Este eixo dedica-se a examinar as relações entre o patrimônio industrial e os processos de construção da memória social, coletiva e individual. Considera-se que a preservação de bens industriais não envolve apenas a conservação de estruturas físicas, mas também a salvaguarda das narrativas, das práticas de trabalho e das experiências humanas a elas associadas. A memória, nesse sentido, é entendida como campo de disputa e ressignificação, no qual diferentes atores sociais atribuem novos sentidos e valores a esse patrimônio, ampliando sua relevância no tempo presente.