Episódio no Calabouço, no Rio, inflama manifestações de rua Fonte: Agência Senado
O Calabouço era um bandejão perto do Aeroporto Santos Dumont, no Rio, onde se alimentavam universitários e secundaristas. Embora a refeição custasse centavos, o lugar não agradava. Com frequência, havia protestos contra o galpão, caquético, e contra a comida, intragável.
Em 28 de março de 1968, um grupo discutia os preparativos de mais um ato contra as condições do Calabouço quando policiais invadiram o local para abortar o protesto. Os jovens reagiram com paus, pedras e bandejas. Na batalha, um estudante perdeu a vida na hora, com um tiro à queima-roupa no coração — Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos, que deixara Belém para cursar o supletivo no Rio. Era o primeiro “morto público” da ditadura. A repercussão no Senado foi imediata.
— Em vez do diálogo, o governo manda a polícia e as Forças Armadas contra os estudantes. É uma saída que não desejamos, pois vai levar a um morticínio — afirmou Mário Martins (MDB-Guanabara). — É incrível que os homens de juízo hoje são os moços, e não os velhos do governo, que, aliás, não têm procuração para administrar o país.
Arthur Virgílio (MDB-AM) bateu na mesma tecla da prepotência do governo militar:
— Edson Luís morreu com 18 anos, a idade do meu filho mais novo. Busquemos o entendimento. Nós da oposição estamos dispostos a isso. Eu não gostaria de voltar a esta tribuna para, esmagado pela tristeza, lamentar outros Edson Luís tombados nas ruas pela falta de diálogo.
O Calabouço não era um mero bandejão. Logo no dia em que os militares assumiram o poder, em 1964, os militares incendiaram a sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), no Flamengo. A entidade foi fechada e o movimento estudantil ganhou uma mordaça. A partir daí, o Calabouço virou um abrigo informal dos jovens que queriam discutir livremente os rumos do ensino público e da política.
Fonte: Agência Senado