Nos últimos anos, a população em situação de rua (PSR) tornou-se mais
visível nas cenas urbanas brasileiras, em termos quantitativos e na
centralidade que ocupa nos debates públicos, acadêmicos e institucionais.
Todavia, esse crescimento não configura um fenômeno recente, tampouco pode ser
compreendido de forma dissociada das bases históricas que estruturam a
sociedade brasileira, marcada por desigualdades estruturais, precarização do
trabalho e processos contínuos de exclusão social.
Em levantamento realizado pelo Observatório Brasileiro de Políticas
Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/POLOS-UFMG), a partir de
dados do CadÚnico referentes a março de 2025, estimou em 335.151 o número de
pessoas em situação de rua no Brasil. Embora expressivos, esses números não
esgotam a realidade concreta do fenômeno, considerando a subnotificação, a
mobilidade territorial, os ciclos recorrentes de entrada, saída e retorno às
ruas, a inexistência de recenseamento nacional, entre outros fatores.
O Decreto nº 7.053/2009, que institui a Política Nacional para a
População em Situação de Rua (PNPSR) e seu Comitê Intersetorial de
Acompanhamento e Monitoramento (CIAMP-Rua), define a PSR como grupo
populacional heterogêneo caracterizado por pobreza extrema, rompimento ou
fragilidade de vínculos familiares e inexistência de moradia convencional
regular (Brasil, 2009). Embora represente avanço normativo importante, essa
definição não abarca integralmente as dimensões políticas, históricas e
organizativas que atravessam esse segmento. Trata-se de uma parcela da classe
trabalhadora que, além de vivenciar condições de extrema precarização dos modos
de andar a vida, protagoniza lutas sociais, reivindicações por direitos,
estratégias coletivas de sobrevivência e produção de saberes sobre a própria
realidade (Leite Júnior, 2024; Ximenes et al., 2025).
O aumento da PSR tem sido acompanhado por maior interesse acadêmico e
institucional, especialmente a partir dos anos 2000, com a tipificação de
serviços específicos e a consolidação de políticas voltadas a esse público.
Esse movimento é reflexo da atuação histórica de movimentos coletivos
protagonizados ou construídos com a participação direta da PSR, como o
Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR) e o Movimento
Nacional de Luta em Defesa da População em Situação de Rua (MNLDPSR), assim como
da atuação de trabalhadoras e trabalhadores atuantes em políticas públicas, nas
universidades e em organizações da sociedade civil.
A PNPSR fundamenta-se nos princípios da intersetorialidade,
transversalidade e intergovernamentalidade (Brasil, 2009), o que implica a
atuação articulada de diferentes políticas públicas, como Saúde, Assistência
Social, Educação, Trabalho, Cultura e Segurança Pública, por exemplo. Contudo,
essa articulação, por vezes fragmentada ou insuficiente, ocorre em um contexto
marcado por racionalidade político-econômica que tem reforçado processos de
focalização, seletividade e redução do caráter universal das políticas sociais.
Nesse cenário, observa-se a substituição progressiva de direitos por benefícios
compensatórios e condicionados e a tendência de gestão da pobreza em detrimento
da garantia plena de cidadania social (Marinho & Euzébios Filho, 2024).
Na realidade concreta da PSR, esses elementos se expressam nas múltiplas
formas de violência e opressão a que são submetidas cotidianamente, na negação
e violação sistemática de direitos humanos e nas implicações psicossociais
decorrentes dessas experiências, que podem desencadear sofrimento social,
humilhação, vergonha, isolamento e afastamento dos serviços públicos (Euzébios
Filho & Souza, 2022; Ximenes et al., 2025). Para trabalhadoras e
trabalhadores das políticas públicas, tais condições repercutem em dificuldades
para sustentar iniciativas, garantir continuidade das ações, fortalecer a
articulação intersetorial e estabelecer vínculos com a população atendida.
Considerando esse quadro, torna-se urgente a proposição de espaços
formativos que contribuam para aprofundar a compreensão das especificidades do
viver nas ruas e do atuar junto à PSR. Faz-se necessário um esforço coletivo
que possibilite pactuar novas formas de produção de cuidado nas ruas,
respeitando os modos de vida da classe trabalhadora em situação de rua e
rompendo com leituras moralizantes ou assistencialistas (Broide et al., 2018).
É nesse contexto de disputas, contradições e lutas que se torna
fundamental fortalecer espaços que articulem memória coletiva, análise crítica
e qualificação da atuação profissional. A memória das lutas da população em
situação de rua, expressa em mobilizações como o 19 de agosto, em conquistas
normativas como a PNPSR e em decisões judiciais como a ADPF 976, possibilita a
compreensão do presente e a construção de alternativas futuras. Não se trata
apenas de recuperar fatos históricos e sim de reconhecer a dimensão política da
experiência vivida e sua potência transformadora.
Dessa forma, este curso busca qualificar o debate público, fortalecer a
formação continuada de trabalhadoras e trabalhadores e ampliar o diálogo entre
universidade, movimentos sociais e rede intersetorial. A atuação cotidiana
junto à PSR envolve com frequência o enfrentamento de violações de direitos, a
mediação de conflitos, a articulação institucional e a elaboração de situações
complexas que produzem impactos subjetivos e coletivos. A ausência de espaços
de reflexão pode gerar desgaste, fragmentação e reprodução de práticas que não
contribuem para a garantia de direitos.