V JORNADA INTERNACIONAL DE PSICANÁLISE DO COLETIVO DE PESQUISA ATIVISTA EM PSICANÁLISE, EDUCAÇÃO E CULTURA

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O SAGRADO E SEUS (DES)EM-CANTOS: Psicanálise, Religião e Educação Crítica na Construção de Novos Horizontes.

V JORNADA INTERNACIONAL DE PSICANALISE

UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO

LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO, GÊNERO E SEXUALIDADES

COLETIVO DE PESQUISA ATIVISTA EM PSICANÁLISE, EDUCAÇÃO E CULTURA


“Li o seu Mal-estar na civilização... e, como no caso de O Futuro de uma ilusão, surpreendeu-me o fato de que, apesar desse assentimento, a minha – como dizer – atitude frente às questões religiosas permaneça diferente da sua, pelo menos na medida em que o senhor acha difícil perdoar ao 'homem comum' sua religião, enquanto para mim isso continua a ser um assunto de grande interesse em todas as suas várias formas.”

 

— Lou Andreas-Salomé a Freud, 4 de janeiro de 1930[1].

 

Freud sugeriu que as crenças religiosas surgem de uma necessidade infantil de proteção e limites, representada na figura paterna de Deus. Ele acreditava que a ciência substituiria a religião, distanciando a psicanálise do sagrado. No entanto, na contemporaneidade, surge a questão: os psicanalistas podem escutar o sentimento religioso sem reduzi-lo a um sintoma patológico? Para isso, a psicanálise deve se abrir ao diálogo com o sagrado e com as práticas culturais, reconhecendo suas dimensões subjetivas e simbólicas, sem limitar-se a explicações reducionistas.

O século XXI trouxe transformações no campo do sagrado, desafiando a expectativa de um declínio global da religião. No Brasil, convivemos com o racismo religioso que atinge os templos afro-brasileiros, enquanto setores evangélicos ocupam espaços políticos alinhados ao fascismo. Ao mesmo tempo, movimentos espirituais mais fluidos, como os cristãos desigrejados e pastores progressistas que apoiam as comunidades LGBTQIAPN+, mostram que o inconsciente, como Freud ensinou, não apenas repete o passado, mas também gera novas realidades simbólicas, capazes de transformar a experiência humana.

Nesse contexto, a educação crítica proposta por Paulo Freire contribui para o diálogo sobre o sagrado nas salas de aula, currículos e políticas educacionais, especialmente no que tange às religiões marginalizadas no Brasil. Mesmo com a perda de espaço das religiões tradicionais, o país continua profundamente religioso, marcado por tensões entre demandas seculares e religiosas. Essas tensões se manifestam principalmente nas disputas culturais e políticas que moldam as identidades contemporâneas.

A psicanálise, por sua vez, não pode se furtar desse diálogo com a religião. Esse diálogo precisa ser plural e interseccional, considerando as dinâmicas de poder entrelaçadas com raça, gênero e classe. No Brasil, as religiões de matriz africana sofrem ataques constantes, revelando a sobreposição de opressões raciais e religiosas. Aqui, a educação crítica desempenha um papel fundamental, ao desconstruir essas estruturas e fornecer ferramentas para que os sujeitos compreendam como essas forças moldam suas vidas e suas relações sociais.

A interseccionalidade, portanto, é chave para entender como diferentes formas de opressão se entrelaçam. Quando a psicanálise se abre para esse diálogo, ela pode se tornar uma ferramenta de emancipação, em vez de um novo dogma. O desafio é justamente esse: pensar o sagrado em suas diversas expressões e contradições, estabelecendo diálogos entre psicanálise, religião, cultura e educação crítica.


Equipe Organizacional

Jairo Carioca de Oliveira

Doutorando e Mestre em Educação Contemporânea e Demandas Populares (PPGEduc/UFRRJ). Teólogo e Pesquisador na interface entre Psicanálise e Feminismos Plurais – Estudos de Gênero no Laboratório de Educação, Gênero e Sexualidades da UFRRJ, no Grupo de Pesquisa Ativista Audre Lorde da UNIR e no Diversitas - FFLCH/USP. Coordenador do Coletivo de Pesquisa Ativista em Psicanalise, Educação e Cultura, Membro no Coletivo Psicanalistas Unidos pela Democracia – PUD  e Membro da Comissão Permanente da Política Institucional pela Diversidade, Gênero, Etnia/Raça e Inclusão (CPID) da UFRRJ. Escritor por diversas Editoras no Brasil, Poeta e Bolsista CAPES.

Ronald Lopes de Oliveira

Doutorando em História (UERJ). Doutorando em Estudos Clássicos (UC-Portugal). Mestre e Licenciatura em História (UNIRIO). Pós-graduado em Psicanálise e Saúde pelo (SEPAI-RJ). Pós-graduado em Orientação, Supervisão e Gestão Escolar (UNINTER). Pós-graduado em Ciências da Religião (AVM/UCAM). Bacharel em Teologia (FACETEN). Psicanalista e Pesquisador no Laboratório de Educação, Gênero e Sexualidade da UFRRJ, no Grupo de Pesquisa Ativista Audre Lorde/UNIR e no Grupo ÁFRICAS Sociedade, Política e Cultura (UERJ-UFRJ). Coordenador do Coletivo de Pesquisa Ativista em Psicanálise, Educação e Cultura.



[1] FREUD, S. e Andreas-Salomé, L. Correspondência completa Freud–Lou Andreas -Salomé. Rio de Janeiro: 1975. Imago. 

Que tal nos conhecer?

Coletivo de Pesquisa Ativista em Psicanálise, Educação e Cultura.

O Coletivo de Pesquisa Ativista em Psicanálise, Educação e Cultura nasce das inquietações de dois psicanalistas periféricos — Jairo Carioca e Ronald Lopes — que, movidos pelo desafio de expandir a prática clínica subversiva, propõem um discurso de psicanálise aplicada. Esta prática, muitas vezes alvo de debates em círculos psicanalíticos, é questionada por alguns que temem que o diálogo com outros campos do saber possa desviar a psicanálise de seu rigor teórico. No entanto, partimos da compreensão de que Freud não se limitou à prática clínica: ele buscava investigar como o inconsciente influencia e se manifesta em diversos aspectos da cultura e das relações humanas, incluindo a Educação.

Quando, em sua dissidência com Adler, Freud foi criticado por dar pouca atenção aos fatores culturais na formação psíquica e nas neuroses, ele respondeu com o ensaio *Totem e Tabu*, inaugurando, assim, uma nova perspectiva — a Psicanálise Aplicada. Freud frequentemente discutia com entusiasmo a aplicação da psicanálise em outros campos do conhecimento, como ocorria nas sessões da Sociedade das Quartas-Feiras.

Jairo Carioca, doutorando em Educação pela UFRRJ, e Ronald Lopes, doutorando em História pela UERJ e em Letras Clássicas pela Universidade de Coimbra, baseiam-se em debates sobre etnia, raça, gênero e sexualidades tanto em suas práticas clínicas quanto em suas pesquisas teóricas. Eles trazem essas questões como eixo central do Coletivo, buscando explorar as dimensões político-sociais e culturais na atualidade, refletindo o espírito da aplicação psicanalítica em contextos variados.

Foi nesse contexto que surgiram os projetos hoje supervisionados pelo Coletivo:

1. Dispositivo de Escuta Periphérica Xica Manicongo — Este projeto nasce da urgência em descentrar os espaços psicanalíticos tradicionais, frequentemente incapazes de abarcar as complexidades do abandono social no Brasil, especialmente em relação ao racismo estrutural. Fundamentado na premissa lacaniana de que "o inconsciente é político", o dispositivo interpela o "Outro" — historicamente configurado pela branquitude, pelo patriarcado e pelo colonialismo — ao propor uma escuta ativista e crítica. Trata-se de uma psicanálise que se abre ao desejo e à subjetividade dos sujeitos periféricos, subvertendo as dinâmicas capitalistas que os invisibilizam. Este é um espaço dedicado à escuta de indivíduos marginalizados pela violência urbana e pela exclusão social: pessoas negras, moradores de periferia, mulheres desamparadas por políticas públicas ineficazes, aqueles que rompem com normas de gênero, como travestis e trans, e mães solo. O dispositivo redefine o cuidado psicanalítico ao acolher corpos historicamente violentados, combatendo não apenas o racismo e a exclusão, mas também desafiando a ideia normativa de uma clínica psicanalítica restrita ao espaço geográfico físico, ao expandir essa escuta para o ciberespaço, criando uma nova territorialidade para a prática psicanalítica.

2. Oficina da Escrita Jornalista Gustavo de Lacerda — Ciente das práticas hegemônicas no campo acadêmico, a oficina surge para romper com esses padrões, promovendo pesquisas afrocentradas e debates sobre gênero e sexualidade. Seu objetivo é garantir a presença de corpos negros e marginalizados nos espaços de produção de saberes. Atualmente, a oficina já possibilitou a entrada de dois candidatos no Mestrado em Educação da UFRRJ, além de aprovar quatro mulheres negras e dois homens negros para o doutorado em Letras Clássicas na Universidade de Coimbra.

3. Escuta de Atendimento Emergencial — Motivado pelo racismo ambiental e pelo sofrimento da população vulnerável do Rio Grande do Sul, este projeto foi iniciado voluntariamente em maio. Com dois postos avançados, um em Tramandaí e outro em Cidade Baixa, e um grupo de 90 psicanalistas e psicólogos realizando atendimentos online, o projeto oferece suporte emergencial àqueles mais afetados pela crise socioambiental.

Todas essas iniciativas são realizadas de maneira gratuita e voluntária, exigindo dos envolvidos um compromisso profundo com as lutas político-sociais contra o fascismo, o racismo e o capitalismo. Nosso coletivo não se enquadra no modelo tradicional de clínica social, pois estamos engajados em uma lógica que transcende o capital. Buscamos fortalecer o vínculo entre a psicanálise e a política, propondo novas formas de existência e desalienação, tanto para os analisantes quanto para os analistas.

Acreditamos que essa incursão oferece uma oportunidade valiosa para compreender como os conceitos psicanalíticos podem enriquecer a análise das dinâmicas sociais e culturais que afetam o indivíduo e a sociedade. O diálogo entre a psicanálise e outros campos do saber amplia a compreensão humana e contribui para uma prática clínica mais sensível às complexidades da vida contemporânea. Portanto, a renovação constante da psicanálise é fundamental para que ela continue relevante na compreensão do sujeito e de suas relações com o mundo.

Jairo Carioca e Ronald Lopes, Psicanalistas Periféricos

Coordenadores do Coletivo de Pesquisa Ativista em Psicanálise, Educação e Cultura


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