15º Encontro de Tecnologia e Cultura | "Clarices" de hoje: literatura e transformação social
[…] é bastante evidente que mesmo no século XIX
uma mulher não era encorajada a ser artista. Pelo contrário, era desprezada,
estapeada, repreendida e aconselhada. Sua mente deve ter-se exaurido, e sua
força vital ter diminuído pela necessidade de se opor a isso e desaprovar
aquilo (Virginia Wolff, Um teto todo seu).
[...] suponho
que em toda sociedade a produção do discurso é, ao mesmo tempo controlada,
selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que
têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento
aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade.
[...] Tabu do objeto, ritual da circunstância,
direito privilegiado ou exclusivo sujeito que fala: temos aí o jogo de três
tipos de interdições que se cruzam, se reforçam ou se compensam, formando uma
grade complexa que nâo cessa de se modificar. Notaria apenas que, em nossos
dias, as os regiões onde a grade é mais cerrada, onde o buracos negros se
multiplicam, são as regiões da sexualidade e as da política
Michel Foucault, A ordem do discurso
Em 1928, a escritora inglesa Virginia
Woolf foi convidada para falar sobre "Mulheres e ficção". A partir da
leitura do livro “Um teto todo seu” que resultou dessa experiência, a autora
relata suas dificuldades para encontrar informações sobre mulheres escritoras.
Isso não só porque os acervos das bibliotecas eram pobres nesse sentido mas
também porque, enquanto mulher, sofreu várias interdições no uso do espaço e do
tempo para fazer seu estudo. Invisibilizadas na literatura, escrevendo sob pseudônimos
masculinos, estigmatizadas como loucas por se dedicarem à leitura e à escrita,
as mulheres sofreram e ainda têm sofrido interdições as mais variadas para
existirem.
Entre os grandes nomes na história da
literatura há poucas mulheres. Quando aparecem são brancas e com condições
favoráveis de existência. Não é à toa que o argumento central de Virginia Wolf
no livro “Um teto todo seu” é o de que a mulher só precisa de duas coisas para conseguir escrever
uma ficção: um quarto seu e uma renda fixa.
Antes de parecer um argumento elitista, é importante pensarmos que ter
tempo, espaço e dinheiro faz toda diferença e nos leva a refletir como a
posição que a mulher ocupa na sociedade e no seu próprio lar acarreta
dificuldades para a expressão livre de seu pensamento.
Virginia Wolff se questiona e imagina
como seria a história de uma possível irmã de Shakespeare tão talentosa quanto
ele. As circunstâncias históricas não se mostrariam nada favoráveis ou mesmo
catastróficas se quisesse continuar escrevendo. Publicar então…
Foucault aponta para as interdições
mais contumazes nas regiões da sexualidade e da política. Digamos que essas
duas regiões se articulam no processo de silenciamento estando uma ligada a
outra nas inúmeras formas de controle sobre os corpos femininos. É possível
associar o direito das mulheres à literatura ao direito ao voto feminino. É no
começo do século XX que as mulheres inglesas como Virginia Wolff terão direito
ao voto. As mulheres brasileiras, ainda que com limitações, terão esse direito
apenas a partir de 1932.
Para Antonio Cândido, “se ninguém
pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da
poesia”, a literatura “[..]parece corresponder a uma necessidade universal, que
precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito”. A negação do direito à literatura é uma das
formas de interdição.
O Clube do Livro, na sua décima
edição, no contexto do 15o. Encontro de Tecnologia e Cultura chama a atenção
para esse desafio ao escolher dois livros de contos de Clarice Lispector:
“Laços de família”, de 1960
e “Via Crucis do Corpo”, de 1974. O diálogo entre as duas obras mostra
dois possíveis momentos das vidas de muitas das
mulheres: a juventude quando se constitui família com todas as
atividades relacionadas a filhos, maridos e obrigações ditas do lar e a
maturidade em que se encontra, geralmente, a solidão. De todo modo, na
juventude e na maturidade a mulher aparece interditada na sua sexualidade e no
seu direito de habitar outros espaços, viver experiências outras nas cidades
visíveis e nas invisíveis dos seus pensamentos e sonhos. O direito à literatura
também é o direito à cidade, à dimensão política e à materialidade da vida por
meio do seu próprio corpo.
Em
27 de julho Clarice Lispector lançou o livro Laços de família. Menos de um mês depois, em 19 de agosto,
Carolina Maria de Jesus autografava Quarto de despejo. A história da
literatura brasileira e mundial tem nessas mulheres, suas vidas e obras, pontos
de encontro, desencontro, promessas para o futuro e contradições renovadas.
Inspirada por isso e por sua própria trajetória de mulher negra, brasileira e
escritora, Conceição Evaristo escreveu a poesia “Clarice no quarto de despejo”.
Na menção final à poesia de Conceição Evaristo e na temática do Encontro de Tecnologia e Cultura de 2026 em que contamos com dez anos do Clube do Livro, celebramos todas essas mulheres. O ser mulher, o habitar e o fazer acontecer todos os dias os corpos e o existir feminino num mundo que os persegue e mata, faz com que escritoras e leitoras possam ser Clarice, Carolina, Conceição entre tantas outras, cada uma delas, única. Imaginar Clarice no quarto de despejo significa dizer que o sonho e o desejo são possíveis e que a literatura é necessária:
No meio do dia
Clarice entreabre o quarto de despejo
pela fresta percebe uma mulher.
Onde estivestes de noite, Carolina?
Macabeando minhas agonias, Clarice.
Um amargor pra além da fome e do frio,
da bica e da boca em sua secura.
De mim, escrevo não só a penúria do pão,
cravo no lixo da vida, o desespero,
uma gastura de não caber no peito,
e nem no papel.
Mas ninguém me lê, Clarice,
para além do resto.
Ninguém decifra em mim
a única escassez da qual não padeço,
— a solidão.
E ajustando seu par de luvas claríssimas
Clarice futuca um imaginário lixo
— e pensa para Carolina:
“a casa poderia ser ao menos de alvenaria”.
E anseia ser Bitita inventando um diário.
Páginas de jejum e de saciedade sobejam.
A fome nem em pedaços
alimenta a escrita clariceana.
Clarice no quarto de despejo
lê a outra, lê Carolina,
a que na cópia das palavras,
faz de si a própria inventiva.
Clarice lê:
“despejo e desejos”.
(Conceição Evaristo. Clarice
no quarto de despejo)