A palestra percorre quatro décadas de construção do sistema público de saúde brasileiro a partir de um marco fundador: a 8ª Conferência Nacional de Saúde (1986), da qual fui delegado pela UNE, no mesmo ano em que presidi o 17º Encontro Científico de Estudantes de Medicina. A 8ª CNS consolidou o conceito ampliado de saúde e a proposta de um sistema único, universal e descentralizado, base do artigo 196 da Constituição de 1988 e das Leis 8.080 e 8.142/1990.
O fio condutor é a tese de que o SUS não se fez apenas em Brasília: fez-se nos municípios. O percurso pessoal - Icapuí (1989-1992), Quixadá (1993-1996), Sobral (1997-2004), Fortaleza (2005-2008) — permite mostrar como a municipalização, a partir do Ceará, gerou inovações que depois viraram política nacional. Em Quixadá nasce, em 1993/1994, o Programa Saúde da Família, herdeiro do PACS cearense (1987) e depois convertido em Estratégia Saúde da Família, hoje o maior arranjo de atenção primária do mundo. Sobral acrescenta a esse desenho a formação em serviço, a residência multiprofissional e a integração ensino-serviço-comunidade; Fortaleza testa o modelo na complexidade da metrópole.
O ciclo seguinte trata da institucionalização nacional: a Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde (2011-2014), com a participação social, a ouvidoria e a auditoria como instrumentos de governança; e o mandato de deputado federal (2015-2018 e 2021), no campo da disputa orçamentária e legislativa que o subfinanciamento e a EC 95 tornaram decisiva.
Um eixo próprio é o da inovação: em 2006, ao coordenar o plano de governo do então candidato Cid Gomes, propusemos a criação no Ceará de um Distrito de Inovação em Saúde ancorado na Fiocruz — proposta que se materializou com a vinda da Fiocruz para o estado em 2008 e que hoje se desdobra no DISEC e na agenda do Complexo Econômico-Industrial da Saúde.
A palestra encerra olhando para frente: os desafios da ESF diante da transição demográfica e epidemiológica, das mudanças climáticas, da saúde digital, da inteligência artificial e dos gêmeos digitais — e a pergunta que interessa aos estudantes: que profissional de saúde os próximos 40 anos exigem?