O NÃO DITO NOS RELATÓRIOS DE AUTOAVALIAÇÃO INSTITUCIONAL DE UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR PRIVADA

Publicado em 21/10/2026 - ISBN: 978-65-272-2884-4

Título do Trabalho
O NÃO DITO NOS RELATÓRIOS DE AUTOAVALIAÇÃO INSTITUCIONAL DE UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR PRIVADA
Autores
  • Joelma dos Santos Bernardes
  • Maria Eliza Nogueira Oliveira
  • Christine Barbosa Betty
Modalidade
Resumo Ampliado
Área temática
Eixo 3 – Práticas de avaliação, indicadores, performatividade, novo perfil dos estudantes e dinâmica de tomadas de decisões pelas instituições
Data de Publicação
21/10/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/xxxiii-seminario-nacional-da-rede-universitasbr/1557576-o-nao-dito-nos-relatorios-de-autoavaliacao-institucional-de-uma-instituicao-de-ensino-superior-privada
ISBN
978-65-272-2884-4
Palavras-Chave
Relatório de Autoavaliação Institucional; Frágil Pluralismo Político; Transparência e Democratização
Resumo
Introdução O texto parte do conceito de “não dito” de Pierre Bourdieu (1996) aplicado à análise dos Relatórios de Autoavaliação Institucional (RAIs) de uma Instituição de Ensino Superior (IES) privada localizada na região Norte. Na análise, priorizamos a identificação dos elementos e aspectos que caracterizam a participação da comunidade acadêmica nos processos de autoavaliação desenvolvidos pela Comissão Própria de Avaliação (CPA) no período de 2013 a 2021. Nesse contexto, situamos como problemática central dos RAIs a existência ou ausência de informações detalhadas sobre a quantidade, o perfil e o impacto dos sujeitos participantes nos processos de avaliação e autoavaliação institucional. Para o leitor especializado e inserido no campo das políticas públicas de avaliação da educação superior regidas pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), a participação da comunidade acadêmica na formulação dos RAIs é uma premissa fundamental. O objetivo deste trabalho reside, justamente, os elementos omitidos nos relatórios, buscando semear discussões sobre a participação da comunidade acadêmica nos processos conduzidos pela CPA da referida IES, entre 2013 e 2021, enfocando os elementos que deveriam constar nos documentos e que são admitidos como necessários pelos especialistas da área. Esta investigação integra a pesquisa intitulada “A Autoavaliação Institucional do Sinaes (2013-2021): do Uso dos Resultados aos Efeitos na Gestão da IES” (Chamada CNPq/MCTI nº 10/2023 - Universal - Processo 408972/2023-8), adotando a mesma metodologia. Desenvolvimento A IES selecionada atende aos critérios de inclusão e exclusão do universo de instituições levantadas. A metodologia se fundamenta em pesquisa documental e revisão bibliográfica. Para a análise documental, utilizou-se uma planilha composta por duas abas, das quais este trabalho foca na "Etapa 2 – Fase 2", que compreende os RAIs e os Relatos Institucionais (RIs). O intuito é evidenciar o atendimento à legislação do Sinaes e a dinâmica da CPA em cada instituição. A planilha contém 12 indicadores (linhas). Para esta pesquisa, utilizou-se a linha “b”, onde se verifica a presença dos segmentos da comunidade acadêmica participantes da autoavaliação (com resposta binária "Sim/Não" e descrição concisa da apresentação desses segmentos) no relatório. Quanto ao referencial teórico, o entendimento do “não dito” em Bourdieu (1996) se vincula às noções de doxa e habitus referentes ao conjunto de pressupostos e esquemas de percepção interiorizados, tornando-se tão naturais que não são questionados ou verbalizados. Trata-se de uma adesão silenciosa à ordem social do campo, em que as estruturas de poder e as desigualdades são vividas como evidências autoexplicativas. Para Bourdieu (1996), trata-se de um sentido prático, ou seja, um conhecimento retido pelo corpo, mas não articulado pela consciência, que transforma o arbitrário cultural em algo inevitável. Assim, o “não dito” constitui o fundamento invisível que permite às regras de dominação operarem com máxima eficiência. Dessa forma, o que não está escrito se torna, para o leitor específico do campo, uma fonte valiosa de informação. Nos RAIs analisados, a orientação da participação comunitária se deu de forma meramente descritiva, sem detalhamento dos segmentos participantes. É imperativo ressaltar que tal orientação deveria emanar da própria política regulamentada pelo Sinaes. Outro resultado relevante é a recorrência da não participação efetiva da comunidade na avaliação institucional. Observa-se uma omissão da CPA e da gestão institucional na construção de uma cultura avaliativa, limitando-se todo o processo à identificação de quem respondeu os questionários para fins de submissão ao INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Como elucida Bernardes (2018, p. 93), a CPA deveria assegurar a participação representativa de docentes, discentes e técnicos-administrativos, visando a uma condução coletiva da avaliação. Evidenciou-se ainda que, entre 2013 e 2021, os RAIs falharam em explicitar quem são os sujeitos envolvidos e como o processo da avaliação é desenvolvido. No relatório de 2014, por exemplo, destacam-se a impossibilidade de identificar os diferentes polos e a ausência de definição de turmas, alunos e cursos, apresentando-se apenas o número global de coordenadores. Portanto, os "não ditos" revelam que, para a instituição, os RAIs representam apenas o cumprimento burocrático de uma obrigação regulatória. Os relatórios negligenciam a transparência sobre a composição social da amostra e apresentam textos idênticos, ano após ano, mantendo lacunas de períodos anteriores e abdicando de análises reflexivas sobre a realidade institucional. Considerações finais A análise dos RAIs da IES pesquisada, sob a lente teórica do “não dito” de Pierre Bourdieu, revela que o silêncio documental não é meramente uma lacuna técnica, mas um indicativo político e institucional. Ao omitir dados detalhados a respeito de quem participa, como participa e quais são os impactos reais dessa participação, a instituição acaba por naturalizar uma estrutura de avaliação que se distancia do caráter emancipatório previsto pelo Sinaes e pelos leitores especializados. Os resultados demonstram que a participação da comunidade acadêmica no período de 2013 a 2021 ocorreu de forma periférica e pouco transparente. A recorrência de textos idênticos e a ausência de detalhamento por segmentos evidenciam que o processo de autoavaliação tem servido mais como um instrumento de conformidade burocrática para atender às exigências do INEP do que uma ferramenta de gestão estratégica e de reflexão crítica. O habitus institucional, nesse sentido, reproduz a lógica da regulação estatal em detrimento da construção de uma cultura avaliativa genuína. Ademais, na apresentação dos resultados das avaliações, não se identificam quais foram os cursos, docentes, entre outros participantes; apenas se informa a apresentação numérica, sem qualquer correlação com o universo de cursos e setores da IES. Os “não ditos” propiciam semear discussões em que a aparente falha pode ser interpretada como uma forma de mascaramento da escassa participação da comunidade acadêmica. Um outro “não dito” nos RAIS comparece na descrição dos dados que não são acompanhados de explicações sobre as maneiras como foram elaborados e aplicados. Os resultados se referem a aspectos como comportamento, assiduidade, participação, pontualidade, relacionamento e execução de atividades, com médias situadas entre “bom” e “ótimo”. Há de se ressaltar que a pesquisa carece de um maior aprofundamento entre a literatura científica, os dados coletados e a metodologia aplicada, com vistas a uma triangulação analítica mais consistente. Entretanto, nos limites estabelecidos para a elaboração deste resumo, essas discussões não puderam ser apresentadas detalhadamente. Diante do que nos foi possível apresentar, conferimos destaque à nossa conclusão de que os “não ditos” nos RAIS analisados denunciam uma importante fragilidade nos mecanismos de escuta nos processos avaliativos que acabam por corroborar a manutenção de estruturas de poder que desvalorizam o protagonismo dos sujeitos (docentes, discentes e técnicos). Para que a autoavaliação institucional cumpra com seu papel transformador, é imperativo que as CPAs rompam com a adesão silenciosa ao formalismo e passem a documentar não apenas os números globais, mas a densidade social e política das vozes que compõem a universidade. Este estudo espera, assim, provocar novas reflexões sobre a transparência e a democratização dos processos avaliativos no contexto das IES da região contemplada na pesquisa. Referências BERNARDES, Joelma dos Santos. Discursos (des)valorizados sobre a avaliação: compreensão dos movimentos discursivos da ABMES e da Andifes no mercado linguístico das políticas públicas de Avaliação da Educação Superior Brasileira. 2018. 285 f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2018. BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Linguísticas. São Paulo: Edusp, 1996.
Título do Evento
XXXIII Seminário Nacional da Rede Universitas/BR
Cidade do Evento
Campo Grande
Título dos Anais do Evento
Anais do XXXIII Seminário Nacional da Rede Universitas/BR
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

BERNARDES, Joelma dos Santos; OLIVEIRA, Maria Eliza Nogueira; BETTY, Christine Barbosa. O NÃO DITO NOS RELATÓRIOS DE AUTOAVALIAÇÃO INSTITUCIONAL DE UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR PRIVADA.. In: Anais do XXXIII Seminário Nacional da Rede Universitas/BR. Anais...Campo Grande(MS) Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/xxxiii-seminario-nacional-da-rede-universitasbr/1557576-O-NAO-DITO-NOS-RELATORIOS-DE-AUTOAVALIACAO-INSTITUCIONAL-DE-UMA-INSTITUICAO-DE-ENSINO-SUPERIOR-PRIVADA. Acesso em: 24/10/2026

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