MIGRANTES BRASILEIRAS EM PORTUGAL: A CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO “MULHER BRASILEIRA”

Publicado em 23/12/2021

Título do Trabalho
MIGRANTES BRASILEIRAS EM PORTUGAL: A CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO “MULHER BRASILEIRA”
Autores
  • Aline Michelli Crestani
Modalidade
Resumo Expandido e Trabalho Completo
Área temática
GT 22 - Estudos de gênero, feminismos e interdisciplinaridade.
Data de Publicação
23/12/2021
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/xc22021/437894-migrantes-brasileiras-em-portugal--a-construcao-do-imaginario-mulher-brasileira
ISSN
Palavras-Chave
mulher brasileira, imigração, racialização
Resumo
MIGRANTES BRASILEIRAS EM PORTUGAL: A construção do imaginário “Mulher Brasileira” Aline Michelli Crestani Mestra em Ciências Sociais pela Unioeste Introdução Em 2014 alguns alunos da Universidade de Coimbra em Portugal, em sua maioria brasileiras, ocuparam as redes sociais numa campanha que denunciava o trato discriminatório que vinham recebendo no país. As denuncias demonstravam a presença em Portugal de um imaginário criado sobre as brasileiras, “mulher brasileira”, e sua relação com o colonialismo marcado por distintas relações de poder. Esse imaginário construído em torno da brasileira está ligado ao processo de racilização e controle dos corpos do período colonial, e atua de forma discriminatória e estigmatizante sobre todas as mulheres brasileiras, classificando-as como sensuais e “fáceis”, com pré-disposição à prostituição, e ainda “um corpo disponível”. A partir de entrevistas que realizei com mulheres brasileiras que vivem ou viveram em Portugal, pretendo discutir a construção do imaginário “mulher brasileira” no país, em como este estigmatiza e interfere em suas vidas. 1. Fundamentação teórica Em seu texto Quien puede ser “inmigrante” en la ciudade?, Delgado Ruiz aborda o imigrante não como uma figura objetiva, e sim como uma produção social, um personagem imaginário. Para o autor, a ideia de imigrante está ligada a características pejorativas e a um estigma negativo, sendo que o termo se aplica a indivíduos originários de países ditos de terceiro mundo, muitas vezes destinados a ocupar os piores postos do sistema social na sociedade que os “acolhe”. No entanto, essa imagem de inferioridade amplamente divulgada sobre o imigrante não se aplica àqueles vindos de países ricos, que são vistos como trabalhados qualificados oriundos de outros países, e nunca carregam o peso do termo “imigrante”. Acerca dessa questão, Delgado Ruiz desenvolve o conceito de imigridade. Segundo ele, existem, nos processos migratórios, vários níveis de imigridade que se estabelecem devido à origem dos migrantes, e ainda de acordo com seu gênero, etnia e posição social. No que tange às brasileiras migrantes em Portugal, o fato de serem provenientes de um país considerado de terceiro mundo – e nesse caso em particular, vindas de uma ex-colônia –, unido ao “ser mulher”, colocam-nas numa condição de “inferioridade” no imaginário português, e, consequentemente, sujeitam-nas a uma série de preconceitos, e muitas vezes são consideradas como indesejadas naquela sociedade. Esse imaginário do ser “mulher brasileira”, amplamente difundido e já enraizado em Portugal, tem suas origens no período colonial, e está relacionado com a imagem construída em torno da mulata.. Para Machado (2007), os brasileiros passam por um processo ele denomina exotização, no qual são efetivados os estereótipos, e extrapolam o reconhecimento de sua existência. Segundo o autor, os processos de exotização vão além da imposição de imagens estereotipadas, o que seria chamado de ‘orientalismo’ – de diversas formas, o imaginário construído sobre o outro passa, ainda, a ter autonomia simbólica, processo que ele chama de encarceramento simbólico. Em “A Ordem do Discurso”, Foucault (1996) aponta como a produção de discursos e de saberes que disseminam verdades é uma forma de poder que se aplica à vida cotidiana, categorizando o indivíduo. Sendo assim, saber e poder se implicam mutuamente, ao mesmo tempo que o saber constitui relações de poder, não há poder sem a utilização do saber como forma de dominação. Percebemos, assim, que a imagem de “corpo colonial” que estigmatiza as brasileiras em uma categoria denominada “mulher brasileira” é constituída por discursos que se reinventam e que continuam latentes desde o colonialismo, fundamentados e alicerçados pelas relações de poder que os envolve. 2. Resultados alcançados As denúncias feitas durante a campanha dos alunos de Coimbra narraram assédio vindo até mesmo de professores. Em um dos casos, uma brasileira acusava um professor de imitar o sotaque brasileiro e perguntar a ela se era garota de programa, reafirmando o estigma de prostituição carregado pelas migrantes e, nesse caso, dando-nos mais um exemplo da utilização da construção de poder existente na relação professor X aluno. Nem todas as frases de preconceito de gênero e nacionalidade divulgadas sofridas pelas brasileiras foram proferidas por homens, como nos aponta um dos cartazes levantados durante a campanha. Ele expõe o que foi dito por uma professora às suas alunas brasileiras, em que ela argumenta que “as brasileiras deveriam cuidar de seu comportamento, para não reforçarem o estereótipo de prostitutas, putas e fáceis”. Ao se posicionar aparentemente “contra” esse estigma, a professora reforça a ideia existente de serem as brasileiras um corpo fácil, classificando o comportamento de todas elas, e diferenciando-as das mulheres de outras nacionalidades, em particular, das portuguesas. Os estereótipos sobre os brasileiros, em especial sobre as brasileiras, interferem e afetam seu cotidiano, como vemos no relato de G.B.B.Z., uma brasileira que vive em Portugal há 11 anos. Conheci um português com 14 anos. Namorei com ele até os 21 e dos 15 anos em diante estive num relacionamento bastante abusivo(…). Os pais dele me tratavam como golpista de baú e ladra. Apenas e SOMENTE por ser brasileira. (…) o pai dele chegou e falou bem alto, "Não quero essa rapariga cá sozinha, ainda rouba alguma coisa!" Situação semelhante a essa é possível perceber em uma entrevista concedida por D.A., uma migrante brasileira estudante de mestrado na Universidade de Coimbra, que, abordando o tema da migração feminina em Portugal a partir de suas experiências pessoais, nos faz o seguinte relato: Vim pra cá com o intuito de estudar numa universidade renomada. No começo foi tranquilo, aquela lua de mel com tudo novo. O encanto quebrou-se quando, na sala de aula, fiz uma pergunta e o professor pediu para que eu perguntasse em português. A sala caiu no riso e eu não achei graça. Ofendi-me. Logo percebi que os portugueses no geral olhavam diferente para as brasileiras. Eles têm um desejo incessante de transar com elas, afinal, elas têm aquela imagem de sedução, de sensualidade. (…) Um dia, uma conhecida minha ficou com um português numa balada. Ele tentou colocar a mão na bunda dela e ela não deixou. Ele chocou-se e disse, "Ué, mas você é brasileira!" Uma outra conhecida estava no supermercado e uma idosa quis passar na frente dela e ela não deixou, alegando que precisava trabalhar - e além do mais, aquela não era fila preferencial. A idosa olhou pra ela de cima a baixo e logo disse, “Brasileira trabalhando? Sei bem com o que trabalha.” No decorrer da entrevista, ela argumenta que o preconceito em Portugal está intimamente ligado à nacionalidade, e deixa claro que existe no imaginário do país vários “níveis” de imigrantes, ao afirmar que, para eles, “negro da França é diferente de negro da África” (D.A.). Isso exemplifica aquilo que Delgado conceitualiza como imigridade, para a qual os imigrantes são estratificados na sociedade que os recebe conforme seu país de origem, etnia, raça, gênero e posição social, e divididos entre “bons” e “maus”. A narrativa de D.A. ilustra várias situações de preconceito e estigma. Além das questões linguísticas expostas no início, seu relato aponta para a existência de uma imagem de sedução e sensualidade construída em torno das brasileiras, e que, por sua vez, estariam propicias à prostituição e à disponibilidade sexual por “serem fáceis”. Nota-se que o imaginário “mulher brasileira” está relacionado à construção da imagem da “mulata”, e, segundo Piscitelli (2008), independentemente de, no Brasil, estas mulheres serem diferenciadas como brancas ou morenas, nos fluxos migratórios, para certos países, elas são racializadas como mestiças, numa racialização sexualizada. Segundo Gomes (2013), “ao cruzar o dispositivo da racialização com o de gênero e sexualidade”, notamos que as mulheres brancas europeias são consideradas as “Marias”, mulheres para se tomar como esposa e manter uma linhagem; enquanto as mestiças das colônias são vistas como pecadoras, “Evas”, moralmente depravadas. “O ditado cubano do século XIX, ‘no hay tamarindo dulce ni mulata señorita’ (não há tamarindo doce, nem mulata virgem) é a expressão dramática dessa lógica de gênero distorcida” (STOLKE, p.38, 2006). Conclusões Nota-se que o imaginário “mulher brasileira” está presente de forma intensa em Portugal, e que tem suas origens no colonialismo, perpetuando-se através de relações de poder construídas historicamente. Este imaginário que classifica todas as mulheres brasileiras com o estigma da hipersexualidade, caracterizando-as como festivas, “fáceis” e sedutoras, configura um cenário de preconceito que interfere de forma clara e dramática no dia a dia dessas migrantes Referências bibliográficas GOMES, S. G. O Imaginário Social <Mulher Brasileira> em Portugal: Uma análise da construção de saberes, das relações de poder e dos modos de subjetivação. Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, vol.56, no 4, pp.867-900, 2009. PISCITELLI, Adriana. Interseccionalidades, Categorias e Articulação e Experiências de Migrantes Brasileiras. Sociedade e Cultura, vol. 11, no 2, pp. 263-274, 2008. RUIZ, M. D. Quien puede ser “inmigrante” en la ciudad? Universitat de Barcelona. Istitut Catalá d’Antropologia. STOLKE, Verena. O Enigma das Intersecções: Classe, “raça”, sexo, sexualidade. A formação dos impérios transatlânticos do século XVI ao XIX. Revista Estudos Feministas, vol. 14, no1, pp. 15-42, 2006.
Título do Evento
10º CONINTER - CONGRESSO INTERNACIONAL INTERDISCIPLINAR EM SOCIAIS E HUMANIDADES
Título dos Anais do Evento
Anais do 10º CONINTER - CONGRESSO INTERNACIONAL INTERDISCIPLINAR EM SOCIAIS E HUMANIDADES
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

CRESTANI, Aline Michelli. MIGRANTES BRASILEIRAS EM PORTUGAL: A CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO “MULHER BRASILEIRA”.. In: Anais do 10º CONINTER - CONGRESSO INTERNACIONAL INTERDISCIPLINAR EM SOCIAIS E HUMANIDADES. Anais...Niterói(RJ) Programa de Pós-Graduação em, 2021. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/xc22021/437894-MIGRANTES-BRASILEIRAS-EM-PORTUGAL--A-CONSTRUCAO-DO-IMAGINARIO-MULHER-BRASILEIRA. Acesso em: 06/05/2026

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