RETÓRICAS FÚNEBRES E IMAGÉTICAS POR SOB A URBE CARIOCA

Publicado em 23/12/2021 - ISSN: 2316-266X

DOI
10.29327/154029.10-6
Título do Trabalho
RETÓRICAS FÚNEBRES E IMAGÉTICAS POR SOB A URBE CARIOCA
Autores
  • Hércules da Silva Xavier Ferreira
  • Francisco Farias
Modalidade
Resumo Expandido e Trabalho Completo
Área temática
GT 08 - Memória, Narrativas e Discursos
Data de Publicação
23/12/2021
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
Português
Página do Trabalho
www.even3.com.br/Anais/xc22021/410390-RETORICAS-FUNEBRES-E-IMAGETICAS-POR-SOB-A-URBE-CARIOCA
ISSN
2316-266X
Palavras-Chave
Prática Cultura Tanatológica, Trauma Social, Signos mortuários, Memoriais Vernaculares
Resumo
[prezadas, prezados, membros da organização: não consegui localizar a opção para submeter o resumo como arquivo de word. agradeço toda ajuda possível. já enviei email. favor ignorar este conteúdo entre os colchetes.] Introdução Quem, pelas diversas ruas da zona sul e norte carioca, tiver olhares mais perscrutadores, será capaz de reconhecer grafites retratísticos, os quais possuem, em sua maioria, alguma frase específica que remete a uma sentida ausência pelo viés fúnebre. Tais intervenções artísticas representam, a essa altura, uma consolidada prática cultural tanatológica e autoconsciente por parte dos artistas grafiteiros envolvidos, cujo último ato de grande monta foi a ação intitulada de grafitaço ocorrida no bairro Lins de Vasconcelos, devido ao assassinato da jovem grávida, Kathlen Romeu. O presente trabalho que se apresenta consiste em um desdobramento feito a partir do mapa RUPTURAS – link: https://tinyurl.com/rupturas -, que registra os mais diversos tipos de ressignificações urbanas, advindas a partir de trágicas mortes atreladas à ideia de vida interrompida, isto é, mortes de pessoas jovens. Tratando-se de um recorte, escolheram-se as representações pictóricas do grafite devido à rica possibilidade retórica, de acordo com a tradição clássica latina, que consiste, ainda, na figura de linguagem ecfrástica, como recurso depreendido do retrato da pessoa falecida, que vai compor um discurso mortuário por sob a urbe. Para tal finalidade, utiliza-se a estrutura comunicológica de Vilém Flusser (2014), bem como as observações sobre memória cultural de Aleida Assmann (2011) e o professor Paulo Martins (2016) com seus estudos sobre a écfrase, valendo-se, ainda, das distinções entre “recolhimento” e “distração” conforme Walter Benjamin (1987). 1. Fundamentação teórica Por se tratar de reflexões alcançadas a partir da estrutura comunicacional observada no citado mapa, no padrão específico dos grafites registrados, utilizam-se os estudos clássicos latinos sobre a retórica, para apontar correlações culturais na prática de materializar ocorrências fúnebres e as respectivas memórias sobre as pessoas que passaram de maneira trágica ou abrupta. Há um forte discurso imagético que, pelo traçado de vida no retrato de morte, como que congela um ponto biográfico com referenciais próximos: se o retratado gostava de motos, uma será pintada; se amava flores, terão flores desenhadas. A estrutura comunicológica, de acordo com o filósofo Vilém Flusser, consiste em tomar o processo dialético de formação/informação com uma metáfora computacional, isto é, se há uma imputação de dados e referências, haverá uma deputação posterior, com a cultura sendo justamente esse resultado que vai impactar nos modos de ser e fazer social, como seres que programam e são programados. Nesse sentido, mas mantendo o foco no discurso retórico, e por se tratar de imagens, há o sequenciamento cronológico das ocorrências trágicas que culminam com a ressignificação visual, como imputação e deputação do que se quer comunicar, cuja ênfase é pôr no comum da comunidade. Tendo essa base comunicacional gravada (imputada) como uma visualidade e, portanto, sendo memória participativa e social de fatos ocorridos, a retórica é possível como uma forma de depur(t)ar o guardado. Os trabalhos do professor de letras clássicas e vernaculares, Paulo Martins, servem não apenas para reforçar o argumento de que os grafites são retóricas mortuárias, como também colaboram para embasar ainda mais as observações e permitir a efetiva descrição, pela écfrase, dos retratos e seus discursos, demonstrando assim a similaridade etimológica dos termos trato e traço. Já os estudos da professora historiadora Aleida Assmann (2011), sobre os espaços de recordação, fornecem os elementos específicos que esclarecem a evolução cultural da memória ao longo dos séculos, um caminho bifurcado, mas bem consolidado em suas práticas, que permite pontuar duas tradições distintas, a vis e a ars, e as questões técnicas que as envolvem quanto aos seus usos e aplicações. Deste ponto, dos usos práticos da memória, far-se-á acréscimos argumentativos através das reflexões do professor historiador Fernando Catroga (2010) e sua descrição poética, que permitirão os argumentos que apontam o vazamento discursivo do espaço próprio da necrópoles, dita romântica, para o espaço da pólis. Finalmente, com Walter Benjamin, os conceitos “recolhimento” e “distração” servirão para aprofundar e esclarecer a importância do olhar em trânsito - que transita -, e sua respectiva captura dos elementos comunicantes do ambiente, os quais querem ‘falar’ da dor ali imputada e referenciada, sempre tornando público um assunto de âmbito privado, por alguma necessidade quaisquer. 2. Resultados alcançados Por não ser uma pesquisa quantitativa ou ter preocupações numéricas, a ênfase recai para uma descrição do fenômeno cultural. Como o mapa no qual se baseia toda a reflexão, que ora quer-se apresentar, encontra-se já feito, os resultados são associados a uma secundariedade da pesquisa, ou seja: reflexões melhor aprofundadas que objetivam a reapropriação por parte da sociedade - ou das instituições de governo, que cuidam do espaço urbano e sua manutenção e seu controle de subjetividades, bem como a manutenção dessas memórias de ausentes grafitados -, que embora sejam do âmbito privado, encontram-se no ambiente comum das ruas e seu trânsito. Por desdobramentos possíveis, traçam-se comentários acerca do entorno/ambiência, sobre formas de resistências políticas, práticas subjetivas para o luto enquanto afirmação da uma vida encerrada de maneira abrupta, mas que resiste no não-desaparecer de sua inconclusa biografia: o ponto final ausente. Conclusões Há uma retórica de fundo fúnebre como camada de entendimento urbano, cujo conhecimento parece não impactar a sensibilidade dos passantes, ocasionando a naturalização de violências ou de mortes trágicas, como se fosse possível dizer que o morto ‘é-para’ a ressignificação artística, espécie de teleologia macabra, por não contribuir para mudanças efetivas nas relações sociais. Isso posto, e como espécie de dever ético de memória, a proposta implícita é de trazer a lume as dores registradas pela cidade, não pela reativação delas, mas antes, sim, seus modos e expressões comunicativas. Referências bibliográficas ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011, 453p. BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Obras escolhidas I. São Paulo: Brasiliense, 1987. CATROGA, Fernando. O culto dos mortos como uma poética da ausência. Artcultura, v. 12, n. 20, 13 dez. 2010. FLUSSER, Vilém. Comunicologia: reflexões sobre o futuro: as conferências de Bochum. São Paulo: Martins Fontes, 2014. MARTINS, Paulo. Uma visão periegemática sobre a écfrase. Clássica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos, [S.l.], v. 29, n. 2, p. 163-204, dez., 2016. Disponível em https://revista.classica.org.br/classica/article/view/425. Acesso em 06 jun. 2021.
Título do Evento
10º CONINTER - CONGRESSO INTERNACIONAL INTERDISCIPLINAR EM SOCIAIS E HUMANIDADES
Título dos Anais do Evento
Anais do 10º CONINTER - CONGRESSO INTERNACIONAL INTERDISCIPLINAR EM SOCIAIS E HUMANIDADES
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
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Como citar

FERREIRA, Hércules da Silva Xavier; FARIAS, Francisco. RETÓRICAS FÚNEBRES E IMAGÉTICAS POR SOB A URBE CARIOCA.. In: Anais do 10º CONINTER - CONGRESSO INTERNACIONAL INTERDISCIPLINAR EM SOCIAIS E HUMANIDADES. Anais...Niterói(RJ) Programa de Pós-Graduação em, 2021. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/xc22021/410390-RETORICAS-FUNEBRES-E-IMAGETICAS-POR-SOB-A-URBE-CARIOCA. Acesso em: 25/04/2024

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