SILÊNCIO E DIZER NO HOMEM COMUM: A RESISTÊNCIA EM REPORTAGENS DE JOEL SILVEIRA PARA DIRETRIZES DURANTE A DITADURA VARGUISTA

Publicado em 14/03/2022 - ISSN: 2316-266X

Título do Trabalho
SILÊNCIO E DIZER NO HOMEM COMUM: A RESISTÊNCIA EM REPORTAGENS DE JOEL SILVEIRA PARA DIRETRIZES DURANTE A DITADURA VARGUISTA
Autores
  • Luiza Gould de Souza
Modalidade
Comunicação Oral - Resumo
Área temática
[GT 17] Pesquisas interdisciplinares em mídia, democracia e escola
Data de Publicação
14/03/2022
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/viiconinter2018/111804-silencio-e-dizer-no-homem-comum--a-resistencia-em-reportagens-de-joel-silveira-para-diretrizes-durante-a-ditadura
ISSN
2316-266X
Palavras-Chave
Silenciamento; resistência; memória; reportagem; homem comum
Resumo
O menino nu, de expressão séria, caminha pelo chão de terra batida em foto publicada dia 25 de maio de 1944, na Revista Diretrizes. Descrito como um dos “filhos dos ‘marginais’”, ele ganha os adjetivos “barrigudo” e “flácido”, numa alusão às doenças que assolam a região onde vive, no Sul do país. A realidade exposta por Joel Silveira nessa reportagem contrasta com as crianças sorridentes, contemplando o então presidente Getúlio Vargas, em encartes do Departamento de Imprensa e Propaganda. O órgão, criado para disseminar imagens positivas de Vargas, explorou a liderança do político como necessária para garantir um futuro próspero à nova geração de brasileiros. É sobre paradoxos como esse que o artigo proposto se debruça ao abordar o silenciamento (ORLANDI, 1993) na ditadura varguista, e, principalmente, o dizer no mesmo período, advindo, em nosso recorte, do gênero caracterizado pela maior imersão do repórter. Partimos da reportagem jornalística com o intuito de entender, preliminarmente, se existem e quais são as possibilidades de resistência na imprensa diante do cenário de censura do Estado Novo. Para tanto, este trabalho se volta não só a contextos estrategicamente obscurecidos, como a indivíduos esquecidos, homens e mulheres “ordinários” na definição de Michel de Certeau (2014), aqueles que são “o murmúrio da sociedade” (CERTEAU, 2014, p. 55) para o francês. Temos como foco personagens comuns, cujas histórias são duplamente cerceadas. Se por um lado, trata-se de excluídos sociais, invisíveis para boa parte da população, por outro a situação de desigualdade exposta vai contra a figura de Getúlio Vargas como “o pai dos pobres”, preocupado com a população carente, conforme observa Ferrari (2012, p. 210). O pesquisador possui dissertação sobre a carreira do sergipano Joel Silveira em veículos cariocas e é, por isso, fonte de consulta a quem recorreremos no artigo, diante da escolha em abordarmos trabalhos desenvolvidos pelo repórter. A opção, por sua vez, está relacionada ao fato de Silveira trabalhar temas sociais, dentro do que buscamos, em Diretrizes. A publicação, segundo Nelson Werneck Sodré, foi uma exceção em seu período, já que “[...] com esforços curiosos, muita malícia e alguma ousadia, passando assuntos entre as estreitas malhas do vastíssimo rol dos assuntos proibidos” (SODRÉ, 1999, p. 386), a revista manteve-se contrária ao Estado Novo. Conseguir ser crítico, no entanto, não era fácil, como atesta o próprio Silveira em entrevista: O mercado de trabalho era limitadíssimo, porque os jornais tinham tudo pronto da Agência Nacional. Vinha tudo mastigado. As redações tinham quatro ou cinco pessoas que faziam o jornal todo. Vinha tudo pronto, com ordem, inclusive, de publicar em tal página, com tal destaque. O DIP chegava ao ponto de dizer que tipo devia ser usado: negrito, corpo 9, à esquerda. Entendeu? E qualquer sinal de rebeldia cortavam o papel e a publicidade. A publicidade o governo controlava, vamos dizer, 60% e ao mesmo tempo intimidava as empresas privadas. Ninguém queria ficar contra o Banco do Brasil. Sob o ponto de vista da censura, eu considero o Estado Novo mais tenebroso, porque não tinha saída. Hoje existe o recurso de você deixar o espaço em branco. Naquele tempo, se fizesse isso, fechavam o jornal (FOLHA DE S. PAULO, 9 jan. 1979, online). Nosso olhar se atém, portanto, ao período que se inicia em 1937, mesmo ano em que Silveira chega ao Rio de Janeiro, e se estende até 29 de outubro de 1945, quando Vargas é forçado a deixar o cargo que ocupou por 15 anos. Em fins deste artigo, apesar de citarmos mais de um exemplo, nos limitaremos à análise exploratória de uma reportagem do jornalista, intitulada A miséria cria um mundo. Nela, Silveira divulga a desigualdade gaúcha, ao contrastar as regiões em pleno desenvolvimento à época, Colônia e Noroeste, com Campanha, onde o predomínio de latifúndios para a criação de gado levava à falta de condições de subsistência dos peões. A seleção da reportagem se dá por alguns motivos, como ter sido publicada no ano do fechamento da revista, após Vargas negar a cota de papel necessária ao periódico; a aproximação do texto com a literatura a partir da narrativa; e o fato dela enaltecer os “marginais”, personagens não só comuns, como na mais inferior condição social em Campanha, conforme ressalta Silveira ao afirmar que ali, “[...] um fazendeiro é um fazendeiro, um peão é um peão e um ‘marginal’ é um ‘marginal’” (DIRETRIZES, 25 maio 1944, p. 2). Durante o percurso investigativo, no entanto, também olharemos para a censura imposta pela ditadura militar, além de iniciarmos discussões pontuais a respeito da narrativa, como a escolha de determinadas palavras ao invés de outras no texto (ABREU, 2010). Caminharemos ainda pela História Oral, em Sussurros: a vida privada na Rússia de Stalin. O projeto de Orlando Figes igualmente apresenta alternativas frente ao cerceamento de sentidos. Abarcando diferentes assuntos, sem deixar de lado a reportagem enquanto objeto de estudo, intentamos explorar “as memórias clandestinas e inaudíveis”, sobre as quais escreve Michael Pollak. Memórias cujo desafio “[...] é o da transmissão intacta até o dia em que elas possam aproveitar uma ocasião para invadir o espaço público e passar do ‘não dito’ à contestação e à reivindicação” (POLLAK, 1989, p. 9).
Título do Evento
VII Coninter
Cidade do Evento
Rio de Janeiro
Título dos Anais do Evento
Anais VII CONINTER
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

SOUZA, Luiza Gould de. SILÊNCIO E DIZER NO HOMEM COMUM: A RESISTÊNCIA EM REPORTAGENS DE JOEL SILVEIRA PARA DIRETRIZES DURANTE A DITADURA VARGUISTA.. In: Anais VII CONINTER. Anais...Rio de Janeiro(RJ) UNIRIO, 2018. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/VIIConinter2018/111804-SILENCIO-E-DIZER-NO-HOMEM-COMUM--A-RESISTENCIA-EM-REPORTAGENS-DE-JOEL-SILVEIRA-PARA-DIRETRIZES-DURANTE-A-DITADURA. Acesso em: 06/06/2026

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